Paralelamente às leituras preparatórias para a aula desta semana, encontrei outros trabalhos de inspiração para a disciplina Ensino de Sociologia II deste semestre: (a) o site de Tomas Sánchez Criado ; (b) a entrevista com Pelle Ehn, sobre design colaborativo a apropriação tecnológica [1]

Quando penso no estágio supervisionado com um laboratório entendo que: (a) iremos construir e eleger um problema comum (compartilhado, que afeta a tod@s); (b) elaboraremos um percurso coletiva de investigação e aprendizagem; (c) criaremos um processo de documentação em processo e compartilhada; (d) consequentemente, teremos que produzir uma “comunidade” de aprendizagem coletiva; (e) e para isso teremos que construir e promover nossos acordos, infraestruturas, práticas e afetos.

Iniciamos os trabalhos há 15 dias, sendo que na semana anterior os estudantes tiveram o dia de aula liberado para realizar a busca e formalização do campo do estágio. Avalio que neste período nossa comunicação, apoiada apenas numa lista de email, foi muito tímida. Precisamos criar uma prática comunicacional que contribua não apenas para a gestão do curso, mas sobretudo para que possamos intensificar as trocas entre nós e fortalecer os vínculos. A comunicação participa da produção do ambiente de aprendizagem.

O foco das discussões da próxima aula será a noção de “epistemologia da prática profissional docente”, proposta pelo texto de Maurice Tardif [2]. As relações entre os saberes profissionais (os saberes efetivamente praticados, aprendidos e desenvolvidos durante a execução do trabalho), e os conhecimentos universitários (o conhecimento da ciência específica objeto do ensino e os conhecimentos pedagógicos) serão aí problematizadas.

Pretendo conectar a discussão sobre os “saberes profissionais” com um trabalho de documentação do nosso percurso. Documentar não se confundi ou se reduz ao ato de registrar. Documentar é um processo complexo de produção de um conhecimento compartilhado. Como diz Antonio Lafuente [3], o conhecimento só existe nos corpos e nas diversas formas de documentação. A prática científica apoia-se sobremaneira na realização da documentação. Qualquer experiência cientifica, digna deste nome, deve ter uma documentação que permita o seu escrutínio público, o seu entendimento e inclusive a sua replicação (quando for o caso). Nas ciências humanas temos diversas formas de documentar.

No caso da nossa disciplina, e mais especificamente em relação à esta noção de “saberes profissionais”, queremos dar destaque também (e sobretudo) para os momentos de aprendizagem, para aquelas situações em que sentimos que algo novo foi produzido, em que houve uma mudança de percepção, atitude, competência, conhecimento. É difícil descrever essas coisas. Frequentemente tudo isso é negligenciado nos processos de documentação, que acabam privilegiando apenas os “fatos” e os “feitos” capazes de serem objetivamente descritos. Inspirados aqui na ideia de “Matters of Care” de Maria Puig de la Bellacasa [4], pretendemos justamente dar existência tangível para o que está na margem, para o que é invisível e que dá forma a uma constelação de fatores (um entorno social, um meio ambiente) onde o aprendizado acontece, emerge. Em se tratando de um curso de formação de professores, isso adquire especial relevo pois os saberes profissionais possuem muitos elementos de ordem tácita, não codificada. Veja, não se trata de tentar codificar o não-codificável, mas à maneira dos artistas, encontrar formas de expressão para o que nos acontece e nos afeta. Assim comunicamos nossas experiências e por isso aprendemos.

==Notas==

[1] EHN, Pelle, Farías, I., & Sánchez Criado, T. (2018). La posibilidad de que cosas del diseño puedan ser socialistas-democráticas: Entrevista a Pelle Ehn. Entrevistadores: I. Farías & T. Sánchez Criado. Diseña, (12), 52-69. Doi: 10.7764/disena.12.52-69. http://ojs.uc.cl/index.php/Disena/article/view/17

[2] TARDIF, Maurice. Saberes Profissionais dos professores e conhecimentos universitários. Revista Brasileira de Educação, n.13, 2000, pp.5-24. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/rbedu/n13/n13a02.pdf

[3] LAFUENTE, Antonio & GÓMEZ, David & FREIRE, Juan. A arte de documentar. Disponível em: http://www.academia.edu/33809850/El_arte_de_documentar
     LAFUENTE, Antonio et alli (equipe docART). Manual docART. Disponível em: https://www.academia.edu/36042065/manual_docART

[4] BELLACASA, Maria Puig de la. Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1) 85–106. DOI: 10.1177/0306312710380301

O texto de Madeleine Akrich – From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet, faz uma ótima revisão teórica dos conceitos de comunidade de prática e comunidades epistêmicas. Para isso, a autora analisa o processo de produção e organização de conhecimentos em listas de discussão da internet na área de saúde. Ela toma, em especial, temas relacionadas à gravidez e parto, para discutir a emergência de saberes alternativos aos conhecimentos médicos, e como há processos muitas vezes de complementariedade ou conflito entre esses saberes. A noção de experiência ganha relevância nos casos analisados, e também a discussão sobre a constituição de campos políticos, tanto entre pacientes, médicos e gestores responsáveis por políticas públicas. No centro das reflexões estão os processos de ampliação da autonomia dos “pacientes” sobre sua própria saúde em diferentes dinâmicas: tanto nos casos em que os grupos passam a se organizar politicamente para demandar mudanças nas políticas públicas, como nos casos em que os grupos de pacientes estão focados no aprendizado e apoio mútuo para o empoderamento pessoal.

Madeleine Akrich. From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet. Sociological Research Online, SAGE Publications (UK and US), 2010, 15 (2), 17 p. <10.5153/sro.2152>. <hal-00517657>

Texto disponivel aqui: https://halshs.archives-ouvertes.fr/hal-00517657