Faz quase dois meses que chegamos em Madrid. Até agora, a parte mais sensível da viagem tem sido o processo de adaptação da Mai, nossa filhota de 3 anos. Faz duas semanas que as aulas começaram. A primeira semana foi bem difícil para ela na escola (e para nós também). No final da segunda semana começamos a ter esperança de que ela vai superar os desafios iniciais (idioma desconhecido, novas crianças e professoras, espaço e dinâmica escolar totalmente diferentes). Veremos! Também percebemos que ela tem sentindo muita falta de suas amigas e amigos do Brasil, manifestando sempre o desejo de encontrar outras crianças, uma demanda real de estabelecer vínculos mais afetivos.

Até o momento, tenho a impressão que a experiência da escola não é suficiente para criar vínculos extra-escolares entre as famílias e as crianças, mas isso ainda pode mudar com o tempo. Os encontros com outros crianças nas praças e parques, também não apresentam uma regularidade e intensidade suficiente para produzir confiança e superar a distância habitual entre famílias desconhecidas numa grande metrópole de uma cidade europeia (ainda que minha experiência com Madrid esteja sendo muito acolhedora). Claro, se morássemos aqui por mais tempo as coisas seriam diferentes.

Além de buscar outras pessoas com crianças – felizmente há sempre famílias que vão surgindo – comecei a frequentar um espaço para crianças num edifício ocupado por coletivos ativistas no centro da cidade (veja Centro Social Ingobernable).

Ali está se formando um coletivo de pais para organizar atividades e adequar um espaço legal para as crianças dentro da ocupação. Neste sábado houve uma festinha com banda e teatro infantil, havia uma mutidão de pequenos ingovernáveis.

Construir essas redes de vizinhança e apoio mútuo, socialização e cuidados compartilhados é um super desafio em nossas cidades. Na medida em que as redes de apoio comunitário, familiares e relações proximais de vizinhança foram destruídas pelo nosso modo de vida contemporâneo, sentimos com uma força cada vez maior quantos laços e vínculos são necessários para produzir o mundo comum que dá suporte a nossa vida.

Este espaço infantil na Ingobernable, além de oferecer um local para a socialização de crianças e pais num horário extra-escolar, contribui para o estabelecimento de vínculos e redes de apoio mútuo, e permitirá que muitos pais participem das atividades que acontecem neste centro social (reuniões políticos, oficinas, assembléias, etc). São essas pequenas e fundamentais infraestruturas que tornam a vida comum possível.

Se desejamos ampliar as condições de participação em nossas atividades políticas, educativas, culturais e contribuir para combater as estruturas de reprodução da desigualdade de gênero, é muito importante nos atentarmos para a criação dessas infraestruturas.

Mas retorno à história da Mai. Quando a  colocamos para dormir sempre lemos umas historinhas para ela. Enquanto leio e converso com ela, podemos ouvir de um quarto ao lado uma mãe ou pai lendo outras histórias para seu filho. Ainda não os conhecemos. Pergunto pra Mai o que ela acha de escrevermos um cartinha para eles, perguntando se querem brincar conosco. Ela ficar super animada e disse que queria também se vestir de carteira.

Escrevemos um bilhete e resolvemos deixá-lo na escada do hall de entrada do prédio, por onde passam todos os moradores. Vamos ver no que vai dar. Mas essa ideia da cartinha não veio assim do nada. Foi uma decisão que tive depois de conhecer o projeto Escalera (tema do próximo post).