A unidade do Leviatã é uma ficção que precisa ser fabricada continuamente. A Internet, em sua fase inicial, ampliou a possibilidade do dissenso e da agência política distribuída sem a necessidade de grandes estruturas ou de um horizonte de totalidades constituídas. Porém, em poucos anos, grande parte da internet foi colonizada para funcionar sobre o domínio de grandes corporações com alto poder de centralização e controle.

O mais grave, no entanto, é a combinação das redes digitais com a comunicação de massa altamente centralizada nas mãos de poucas empresas. Um excelente exemplo deste pior cenário é o efeito provocado pela leitura de um tweet do comandante do exército pelo Jornal Nacional da Rede Globo na véspera do julgamento do STJ.

Neste instante, podemos ver em operação todo o teatro de fabricação de um mundo pretensamente coerente e unitário, que coincida com a posição defendida pela Globo. Graças à transmissão homogênea em escala nacional de uma opinião pessoal, certificada duplamente pela vínculo institucional do indivíduo-general e do jornalista-televisivo, a opinião pessoal de um general transforma-se em potencial de ação coordenada de toda uma instituição (exército) supostamente alinhada com a posição da Globo. Com um tweet e mais um telejornal atualiza-se o fantasma do golpe militar e fabrica-se um Leviatã.

Sabemos, porém, que entre os militares há posições muito distintas, e a elite que disputa o espólio do golpe contra a Dilma, está travando uma batalha interna feroz. A unidade apresentada pela Globo é sua ficção com potencial efeito de realidade sobre sua audiência. Não há vontade única do Povo, só há vontade única (dos proprietários) da Rede Globo.

Na manha seguinte, em editorial, a Globo apressa-se a emitir uma opinião diferente. É fácil saber que ela não mudou de idéia com relação à noite anterior. Os editores sabem que o importante são os afetos que se produzem a cada enunciação. Ela sabe que a mensagem fundamental – ao utilizar os militares para chantagear o STJ – já foi enviada.

ps: essa imagem em destaque foi produzida pelo colega Andre Mesquita para a capa da minha tese de doutorado, defendida em 2009 (quase 10 anos atrás). Ela segue disponível neste link: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/251771