foto: Leo Drumond/Nitro

Recebi esta semana um convite para participar no final do ano de um pequeno seminário (workshop) no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano na Universidade Politécnica em Madrid. A atividade denominada “Transformações sustentáveis: para além do protótipo?” reunirá alguns investigadores acadêmicos, ativistas e empreendedores.

O convite veio com uma breve descrição dos problemas a serem explorados e uma série de perguntas instigantes que já me mobilizaram a iniciar o trabalho. Reproduzo abaixo algumas das questões do convite:

*como podemos fortalecer em nossas organizações uma cultura de inovação socialmente transformadora?
*como democratizar os processos de inovação transformadora?
*como sair dos nichos inovadores para aumentar seu impacto?
*como podemos incidir em mudanças positivas de políticas, instituições e regulações que acelerem determinadas inovações sociais positivas?
*como hibridizar nichos e organizações convencionais sem desativar o impulso transformador?
*como criar relações novas entre universidades transformadoras e espaços de inovação cidadã?

A primeira coisa que me chamou atenção é a proximidade entre os desafios descritos por esses pesquisadores da área de Ciência e Tecnologia (C&T) para a implementação de inovações sustentáveis (produtos/processos de produção, tecnologias, modelos organizacionais etc) e os problemas que muitos coletivos ativistas e movimentos sociais enfrentam em suas práticas.

Poderia sintetizar as questões acima nesta formulação: como tornar durável no tempo e como “expandir” (reproduzir ou fazer crescer) as práticas inovadoras que realizamos em pequena escala ou de forma experimental, considerando que elas são portadoras dos valores e práticas que desejamos promover?

O contato com este campo de investigações em ciência e tecnologia me faz pensar naquela enorme diversidade de iniciativas que encontrávamos nos primeiros anos do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Uma das questões que ficava pulsando, sempre que estava imerso naquele ambiente, era por quê não éramos capazes de transformar aquela infinidade de experimentações alternativas em algo que fosse além do escopo de iniciativas fragmentadas e pontuais. Olhando da perspectiva dos estudos sociais em ciência e tecnologia (ESCT), acho que estamos diante do mesmo problema.

No caso desses pesquisadores, a motivação está em analisar como as inovações de base (grassroots innovation) que acontecem em nichos específicos ou na borda do sistema sociotécnico dominante, podem se expandir ou mesmo provocar uma mudança gradual no sistema[1]. Quais os bloqueios institucionais, culturais, econômicos, técnicos e políticos que afetam as condições de viabilidade de uma determinada prática (uma tecnologia específica, produtos ou processos organizacionais, etc)?

Um bom exemplo é o caso da produção e consumo de orgânicos ou a produção de energia solar (veja o post Tessituras de uma cultura tecnopolítica). Ambas surgem fora do “núcleo duro” de reprodução do sistema e hoje estão muito difundidas. Ao mesmo tempo, hoje há tanto iniciativas que favorecem arranjos socioeconômicos alternativos (com outros efeitos sobre a distribuição dos excedentes), como iniciativas que fortalecem as estruturas tradicionais de acumulação de capital. Sob que condições é possível fazer com que aquelas características (valores, efeitos socioeconômicos, cultura etc) presentes no experimento da pequena escala não se percam? Como fazer para que esses protótipos, em sua relação com o ambiente, criem condições sinérgicas (positivas), alterando o contexto e também modificando-se de forma a favorecer a sustentabilidade dos principais elementos que compõem o seu desenho[2] original?

No caso da experiência de governo que vivemos no Brasil a partir de 2002 – chegada do PT ao governo federal, junto com diversos movimentos sociais e organizações da sociedade civil – o modelo de resposta que se mostrou dominante objetivava realizar mudanças sistêmicas a partir da implantação de ações infraestruturais apoiadas em arranjos sociotécnicos tradicionais (também funcionais para a maquinaria eleitoral). De forma muito sintética, argumento que esta resposta é frequentemente acionada (tanto no plano simbólico como prático/empírico) através de um modelo de mudança social cujo vetor principal de intervenção está baseado numa estratégia de rápida obtenção do controle vertical e centralizado da maquinaria de governo. Neste modelo, a relação com iniciativas de inovação mais distribuída e localmente apropriadas é vista como pouco eficiente para a racionalidade de governo dominante.

A construção de Belo Monte em detrimento de outros modelos de geração de energia é um caso evidente. A opção do governo, em certo momento, pela construção de cisternas plásticas para a população do semi-árido nordestino, em detrimento do modelo de construção em terra-cimento praticado pelos movimentos sociais da região, é outro caso importante porém menos conhecido[3]. Neste último exemplo temos um arranjo sociotécnico composto por autoconstrução distribuída + técnica local de terra-cimento + gestão dos movimentos comunitários + durabilidade versus produção em plástico + controle de poucas empresas sobre a produção + obsolescência). Os efeitos sociais e econômicas de cada uma dessa trilhas é absolutamente distinto.

Outro exemplo interessante dessas dinâmicas é a transformação dos arranjos produtivos promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Há dez anos atrás a produção agroecológica era marginal no MST, diante da importância atribuída ao modelo de produção organizada em torno das grandes cooperativas. Atualmente, modelos híbridos de produção familiar e agroecológica, com cadeias produtivas e de consumo mais complexas tem adquirido outra importância na organização socioecônomica do movimento.

Tenho procurado investigar as aprendizados e interações que poderiam emergir do encontro entre esses distintos modelos de mudança/inovação social. Argumento que precisamos dedicar mais atenção para as formas de inovação de base orientadas pela busca de soluções concretas no presente da vida cotidiana. Evidentemente, como demonstram os estudos, sua expansão para outras escalas da vida social depende de condições culturais, políticas e institucionais mais amplas. Porém, este modelo de ação prática é criadora de alternativas materiais efetivas que respondem ao funcionamento do mundo existente, ao mesmo tempo em que objetivam criar suas linhas de fuga.

O modelo tradicional de mudança social através da tomada prioritária do poder central, parte frequentemente de uma concepção excessivamente ideologizada e desencarnada do funcionamento do mundo, como se bastasse assumir o controle da máquina para submetê-la aos seus princípios e valores. A história já demonstrou que a política também está inscrita nos arranjos de ferro e cimento e no funcionamento das máquinas burocráticas. Assim, se o controle da gestão estatal é muito importante, ele não pode ser a medida exclusiva da prática e do cálculo político.

Precisamos experimentar modelos concretos que “funcionem” se desejamos confrontar o desenho habitual das respostas dominantes. Neste sentido, o esforço de prototipar é também portador de uma outra sensibilidade política. Atuar no sentido de realizar um protótipo e verificar as condições de sua viabilidade, exige uma prática a favor do mundo, que acontece com este mundo (não há outro mundo, como disse Alana Moraes). Não basta o discurso, não basta a crítica, é preciso acreditar no mundo e experimentar a criação no/com o mundo existente. Em termos políticos, isso significa uma política mais imanente, uma política do comum, surgida da prática implicada entre-todos sobre algo que nos é comum no aqui-agora (nos próximos posts pretendo explorar mais esta idéia de pensar “a favor do mundo” através de uma política do comum).

Notas:

[1] O artigo de Adrian Smith apresenta uma detalhada revisão bibliográfica sobre essa discussão. SMITH, Adrian. Translating Sustainabilities between Green Niches and Socio-Technical Regimes. Technology Analysis & Strategic Management Vol. 19, No. 4, 427–450, July 2007. DOI: 10.1080/09537320701403334

[2] Por desenho (design) refiro-me aqui à combinação dos fatores materiais, tecnológicos, econômicos, forma de interação humano-tecnologia, relação com natureza, modo organização socioeconomico e modo de subjetivação que este dispositivo atualiza quando em uso.

[3] Há uma ótima descrição sobre este conflito em torno do programa nacional de cisternas no livro: Smith, Adrian, Fressoli, Mariano, Abrol, Dinesh, Arond, Elisa and Ely, Adrian (2016) Grassroots innovation movements. Pathways to sustainability . Routledge, London. ISBN 9781138901216.

Veja também artigo de Raimundo Santana sobre a controvérsia das cisternas: http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/cisternas-de-placas-tencionam-discussao-sobre-modelos-de-politicas-publicas/

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa