Apresentação realizada no Colóquio Internacional Gilbert Simondon, na FFLCH-USP, dezembro de 2018. O texto ainda está inacabado, mas já o compartilho neste estado “beta” para lançar as ideias e projetos que pretendo desenvolver em 2019.

6 de dezembro – 19hs30 às 21hs30 – Mesa 3 – A individuação nas redes e nos neurônios.
Convidados: Henrique Parra (UNIFESP), Lucas Paolo Vilalta (Mestre – USP) e Claudinei Biazoli (UFABC).
Mediação: Maria Fernanda Novo (Doutora – UNICAMP).

Link para o video (corte) com minha apresentação: https://archive.org/details/coloquio-simondon-henrique-parra-2018
Link para o video completo da mesa: https://youtu.be/FhQlm5JDV9c

Texto da apresentação – temporariamente removido (qquer duvida entrar em contato com henrique arroba pimentalab ponto net )



Fragmentos, do capítulo 16, do livro No Tempo das Catástrofes, de Isabelle Stengers.

Nós, herdeiros de uma destruição, os filhos daqueles que, expropriados de seus commons, foram a presa não apenas da exploração, mas também das abstrações que faziam deles qualquer um, temos que experimentar o que pode recriar – “fazer pegar novamente”, como se diz das plantas – a capacidade de pensar e agir juntos.

Essa experimentação é política, pois não se trata de fazer com as coisas “melhorem”, e sim de experimentar em um meio que sabemos estar saturado de armadilhas, de alternativas infernais, de impossibilidades elaboradas tanto pelo Estado como pelo capitalismo. A luta política aqui, porém, não passa por operações de representação, e sim, antes, por produção de repercussões, pela constituição de “caixas de ressonância” tais que o ocorre com alguns leve os outros a pensar e agir, mas também que o que alguns realizam, aprendem, fazem existir, se torne outros tantos recursos e possibilidades experimentais para os outros. Cada êxito, por mais precário que seja, tem sua importância”.

Não se tata, decerto, de substituir por uma cultura do êxito experimental as necessidades de uma luta política aberta, ainda mais necessária pelo fato de ela ter que investir os espaços considerados “fora da política” onde especialistas se animam, calculam limites, tentam articular as medias a serem tomadas com a imperiosa necessidade de um crescimento sustentável.

A luta política deveria passar por todos os lugares onde se fabrica um futuro que ninguém ousa realmente imaginar, não se restringir à defesa dos sentimentos adquiridos ou à denuncia dos escândalos, mas se apoderar da questão da fabricação desse futuro.

Mas é justamente pelo fato de a luta política ter que passar por todos os lugares que ela não pode ser pensada unicamente em termos de uma “vitória” ou de uma conquista do poder.

Precisamos, desesperadamente, fabricar essas testemunhas, essas narrativas, essas celebrações. E precisamos, principalmente, do que testemunhas, narrativas e celebrações podem transmitir: a experiência que assina a produção de uma conexão bem-sucedida entre a política e a produção experimental, sempre experimental, de uma capacidade nova de agir e de pensar. Tal experiência é o que, no rastro de Espinosa e de muitos outros, eu chamarei de alegria.

A alegria, escreveu Espinosa, é o que traduz um aumento da potência de agir, ou seja, também de pensar e de imaginar, e ela tem algo a ver com um saber, mas um saber que não é de ordem teórica, pois não designa a princípio um objeto, mas o próprio modo de existência daquele que se torna capaz de sentir alegria. A alegria, poderíamos dizer, é a assinatura do acontecimento por excelência, a produção-descoberta de um novo grau de liberdade, conferindo à vida uma dimensão complementar, modificando assim as relações entre as dimensões já habitadas. Alegria do primeiro passo, mesmo inquieto. E a alegria, por outro lado, tem uma potência epidêmica.

A alegria é transmitida não de alguém que sabe a alguém que é ignorante, mas de um modo em si mesmo produtor de igualdade, alegria de pensar e de imaginar juntos, com os outros, graças aos outros.

foto: Leo Drumond/Nitro

Recebi esta semana um convite para participar no final do ano de um pequeno seminário (workshop) no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano na Universidade Politécnica em Madrid. A atividade denominada “Transformações sustentáveis: para além do protótipo?” reunirá alguns investigadores acadêmicos, ativistas e empreendedores.

O convite veio com uma breve descrição dos problemas a serem explorados e uma série de perguntas instigantes que já me mobilizaram a iniciar o trabalho. Reproduzo abaixo algumas das questões do convite:

*como podemos fortalecer em nossas organizações uma cultura de inovação socialmente transformadora?
*como democratizar os processos de inovação transformadora?
*como sair dos nichos inovadores para aumentar seu impacto?
*como podemos incidir em mudanças positivas de políticas, instituições e regulações que acelerem determinadas inovações sociais positivas?
*como hibridizar nichos e organizações convencionais sem desativar o impulso transformador?
*como criar relações novas entre universidades transformadoras e espaços de inovação cidadã?

A primeira coisa que me chamou atenção é a proximidade entre os desafios descritos por esses pesquisadores da área de Ciência e Tecnologia (C&T) para a implementação de inovações sustentáveis (produtos/processos de produção, tecnologias, modelos organizacionais etc) e os problemas que muitos coletivos ativistas e movimentos sociais enfrentam em suas práticas.

Poderia sintetizar as questões acima nesta formulação: como tornar durável no tempo e como “expandir” (reproduzir ou fazer crescer) as práticas inovadoras que realizamos em pequena escala ou de forma experimental, considerando que elas são portadoras dos valores e práticas que desejamos promover?

O contato com este campo de investigações em ciência e tecnologia me faz pensar naquela enorme diversidade de iniciativas que encontrávamos nos primeiros anos do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Uma das questões que ficava pulsando, sempre que estava imerso naquele ambiente, era por quê não éramos capazes de transformar aquela infinidade de experimentações alternativas em algo que fosse além do escopo de iniciativas fragmentadas e pontuais. Olhando da perspectiva dos estudos sociais em ciência e tecnologia (ESCT), acho que estamos diante do mesmo problema.

No caso desses pesquisadores, a motivação está em analisar como as inovações de base (grassroots innovation) que acontecem em nichos específicos ou na borda do sistema sociotécnico dominante, podem se expandir ou mesmo provocar uma mudança gradual no sistema[1]. Quais os bloqueios institucionais, culturais, econômicos, técnicos e políticos que afetam as condições de viabilidade de uma determinada prática (uma tecnologia específica, produtos ou processos organizacionais, etc)?

Um bom exemplo é o caso da produção e consumo de orgânicos ou a produção de energia solar (veja o post Tessituras de uma cultura tecnopolítica). Ambas surgem fora do “núcleo duro” de reprodução do sistema e hoje estão muito difundidas. Ao mesmo tempo, hoje há tanto iniciativas que favorecem arranjos socioeconômicos alternativos (com outros efeitos sobre a distribuição dos excedentes), como iniciativas que fortalecem as estruturas tradicionais de acumulação de capital. Sob que condições é possível fazer com que aquelas características (valores, efeitos socioeconômicos, cultura etc) presentes no experimento da pequena escala não se percam? Como fazer para que esses protótipos, em sua relação com o ambiente, criem condições sinérgicas (positivas), alterando o contexto e também modificando-se de forma a favorecer a sustentabilidade dos principais elementos que compõem o seu desenho[2] original?

No caso da experiência de governo que vivemos no Brasil a partir de 2002 – chegada do PT ao governo federal, junto com diversos movimentos sociais e organizações da sociedade civil – o modelo de resposta que se mostrou dominante objetivava realizar mudanças sistêmicas a partir da implantação de ações infraestruturais apoiadas em arranjos sociotécnicos tradicionais (também funcionais para a maquinaria eleitoral). De forma muito sintética, argumento que esta resposta é frequentemente acionada (tanto no plano simbólico como prático/empírico) através de um modelo de mudança social cujo vetor principal de intervenção está baseado numa estratégia de rápida obtenção do controle vertical e centralizado da maquinaria de governo. Neste modelo, a relação com iniciativas de inovação mais distribuída e localmente apropriadas é vista como pouco eficiente para a racionalidade de governo dominante.

A construção de Belo Monte em detrimento de outros modelos de geração de energia é um caso evidente. A opção do governo, em certo momento, pela construção de cisternas plásticas para a população do semi-árido nordestino, em detrimento do modelo de construção em terra-cimento praticado pelos movimentos sociais da região, é outro caso importante porém menos conhecido[3]. Neste último exemplo temos um arranjo sociotécnico composto por autoconstrução distribuída + técnica local de terra-cimento + gestão dos movimentos comunitários + durabilidade versus produção em plástico + controle de poucas empresas sobre a produção + obsolescência). Os efeitos sociais e econômicas de cada uma dessa trilhas é absolutamente distinto.

Outro exemplo interessante dessas dinâmicas é a transformação dos arranjos produtivos promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Há dez anos atrás a produção agroecológica era marginal no MST, diante da importância atribuída ao modelo de produção organizada em torno das grandes cooperativas. Atualmente, modelos híbridos de produção familiar e agroecológica, com cadeias produtivas e de consumo mais complexas tem adquirido outra importância na organização socioecônomica do movimento.

Tenho procurado investigar as aprendizados e interações que poderiam emergir do encontro entre esses distintos modelos de mudança/inovação social. Argumento que precisamos dedicar mais atenção para as formas de inovação de base orientadas pela busca de soluções concretas no presente da vida cotidiana. Evidentemente, como demonstram os estudos, sua expansão para outras escalas da vida social depende de condições culturais, políticas e institucionais mais amplas. Porém, este modelo de ação prática é criadora de alternativas materiais efetivas que respondem ao funcionamento do mundo existente, ao mesmo tempo em que objetivam criar suas linhas de fuga.

O modelo tradicional de mudança social através da tomada prioritária do poder central, parte frequentemente de uma concepção excessivamente ideologizada e desencarnada do funcionamento do mundo, como se bastasse assumir o controle da máquina para submetê-la aos seus princípios e valores. A história já demonstrou que a política também está inscrita nos arranjos de ferro e cimento e no funcionamento das máquinas burocráticas. Assim, se o controle da gestão estatal é muito importante, ele não pode ser a medida exclusiva da prática e do cálculo político.

Precisamos experimentar modelos concretos que “funcionem” se desejamos confrontar o desenho habitual das respostas dominantes. Neste sentido, o esforço de prototipar é também portador de uma outra sensibilidade política. Atuar no sentido de realizar um protótipo e verificar as condições de sua viabilidade, exige uma prática a favor do mundo, que acontece com este mundo (não há outro mundo, como disse Alana Moraes). Não basta o discurso, não basta a crítica, é preciso acreditar no mundo e experimentar a criação no/com o mundo existente. Em termos políticos, isso significa uma política mais imanente, uma política do comum, surgida da prática implicada entre-todos sobre algo que nos é comum no aqui-agora (nos próximos posts pretendo explorar mais esta idéia de pensar “a favor do mundo” através de uma política do comum).

Notas:

[1] O artigo de Adrian Smith apresenta uma detalhada revisão bibliográfica sobre essa discussão. SMITH, Adrian. Translating Sustainabilities between Green Niches and Socio-Technical Regimes. Technology Analysis & Strategic Management Vol. 19, No. 4, 427–450, July 2007. DOI: 10.1080/09537320701403334

[2] Por desenho (design) refiro-me aqui à combinação dos fatores materiais, tecnológicos, econômicos, forma de interação humano-tecnologia, relação com natureza, modo organização socioeconomico e modo de subjetivação que este dispositivo atualiza quando em uso.

[3] Há uma ótima descrição sobre este conflito em torno do programa nacional de cisternas no livro: Smith, Adrian, Fressoli, Mariano, Abrol, Dinesh, Arond, Elisa and Ely, Adrian (2016) Grassroots innovation movements. Pathways to sustainability . Routledge, London. ISBN 9781138901216.

Veja também artigo de Raimundo Santana sobre a controvérsia das cisternas: http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/cisternas-de-placas-tencionam-discussao-sobre-modelos-de-politicas-publicas/

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

 

Fonte Imagem

Acho interessante a maneira como, aqui na Espanha, a palavra “protótipo” está muito presente em diferentes iniciativas de coletivos ativistas (ambientais, urbanistas, hackers, culturais etc) e como este termo é utilizado por instituições públicas e não-governamentais. Investigar e problematizar a genealogia desse termo daria uma ótima tese (lançada a sugestão). Gosto da idéia de protótipo por algumas razões, por isso comecei a utilizá-la há algum tempo para descrever algumas práticas em que estou envolvido.

Na minha experiência, se a memória estiver correta, comecei a escutar esse termo nos primeiros anos do século XXI (2003…2005?), em grupos da então chamada “cultura digital” (bons tempos com midiatática, submidialogia, metareciclagem, midiaindependente…). Naquele contexto, acho que a palavra vinha mesmo da turma que estava mais imersa na cultura de desenvolvedores de softwares (seja por experiência profissional ou de formação). Ali, a noção de protótipo trazia vínculos de origem com a criação de produtos ou serviços – empresarial, corporativa ou mesmo de programadores entusiastas do software livre – que deveriam ser colocados rapidamente em circulação para que pudessem ser testados e aperfeiçoados.

Ao invés de ficar desenvolvendo um produto até sua conclusão, a ideia do protótipo valorizava o inacabado e a importância da abertura para que se receber rapidamente novos inputs e melhorias, dando relevância aos modos de uso e apropriação para experimentar suas possíveis trajetórias e adequações. Em suma, ele reúne elementos que reconhecem o caráter contextual de qualquer criação. Ao mesmo tempo, a maneira como o ambiente, as infraestruturas e as relações sociais participam do arranjo que surge com o protótipo em uso é parte indissociável do próprio protótipo. Isso que parece um pequeno detalhe faz muita diferença quando exploramos algumas das implicações políticas desta concepção. Talvez por isso, o termo tenha deslizado tão facilmente para outros contextos. Farei um pequeno comentário sobre os possíveis sentidos da noção de protótipo em dois campos: (1) produção de conhecimento; (2) prática política.

(1) Prototipar como forma de conhecer

Quando a ideia de protótipo refere-se a uma prática de conhecer surgem coisas interessantes. Em primeiro lugar, significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.

Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem.

Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes.
Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

(2) Protótipo e ação política

Quando a noção de protótipo é mobilizada por coletivos ativistas ela pode indicar outras formas de ação política, que também encontramos no repertório de alguns movimentos sociais. A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto idealizado e acabado de um modo de vida ou sociedade futura, pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja. Pode-se estabelecer aí uma relação com o conceito de política “pré-figurativa” tão presente em alguns movimentos contra-culturais (anos 60-70s) e nos movimentos alter-anti-globalização (2000’s).

É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

A criação de protótipos nos “laboratórios cidadãos” é traduzida por Antonio Lafuente numa boa expressão: do protesto à proposta. Ou seja, ao se engajarem na produção de protótipos esses coletivos afirmam e experimentam positivamente a possibilidade de construção situada (contextualizada, implicada, parcial) de alternativas concretas para aquilo que reivindicam. Ao fazerem isso dão a ver de maneira mais clara o comum ameaçado, apropriado, e os mecanismos de reprodução social em sua micro e macro-política.

A criação de um protótipo, no contexto de uma intervenção ativista, também indica a valorização de ações práticas, em detrimento das armadilhas das escolhas excessivamente ideologizados que se descolam das condições de ação no presente. Evidentemente, toda prática é portadora de princípios e valores, mas quando deslocamos o foco para a construção de uma ação prática somos obrigados a criar soluções que tornem aquela ação possível. É portanto, um outro estado de presença corporal, onde aprendemos a pensar e praticar uma política sensível com o corpo que temos no mundo que habitamos. Em suma, indica-se uma outra concepção de mudança social.

 

Algumas referências:
*Master em Comunicação, Cultura e Cidadania Digital: http://cccd.es/wp/
*Prototype: coletivo de investigação e intervenção, urbanismo e antropologia: http://www.prototyping.es/
*Diversos laboratórios realizados no âmbito do Medialab-Prado http://medialab-prado.es/
*Inteligencia Colectiva: http://www.inteligenciascolectivas.org/category/prototyping/
*Red de Huertos Comunitarios de Madrid: https://redhuertosurbanosmadrid.wordpress.com/2014/06/03/taller-de-autoconstruccion-de-cocinas-solares-en-cantarranas/
*Exemplo de laboratório cidadão http://medialab-prado.es/article/proyectos-madrid-escucha
*Hacklab da Ocupa Ingobernable: https://hacklab.ingobernable.net/

Veja o artigo: 2016. Corsín Jiménez, Alberto & Adolfo Estalella. ‘Ethnography: a prototype.’ Ethnos, online first, DOI: 10.1080/00141844.2015.1133688. Special Issue, Obstruction and Intervention, edited by Rane Willerslev, Lotte Meinert and George Marcus. Pre-print available here

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

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Recomendo a escuta desta apresentação do Antonio Lafuente na EACH/USP, numa atividade organizada pela Daria Daremtchuk do Grupo de Pesquisa Entre Artes Contemporâneas. Como não pude comparecer, pedi a ela que gravasse o audio. Registro recebido, escrevi ao Antonio solicitando autorização pra compartilha-lo. Obviamente, nenhuma objeção. Publiquei-o em seguida no Internet Archive (Disponível aqui: https://archive.org/details/20150528083352 ).

Já faz algum tempo que acompanho sua produção. Considero-a muito inspiradora para os trabalhos que venho desenvolvendo, tanto na pesquisa como na ação política. Serei sempre grato ao colega Luis Ferla por ter me apresentado a ele na Unifesp, lá no Bairro dos Pimentas, onde mais tarde o próprio Antonio voltaria outras vezes pra participar de seminários e de uma não-aula no (des)curso “Leituras do Fora” que oferecemos (eu, Edson Teles e Fernanda Cruz) como disciplina eletiva .

Após escutar o audio, resolvi fazer algumas anotações que compartilho aqui. Antonio Lafuente explora algumas questões sobre a produção de conhecimentos (científicos e extra-científicos) e sua relação com os coletivos humanos (instituições, Estado, academia, extra-universidade).

Sua trajetória de historiador da ciência, soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre práticas alternativas de produção de conhecimentos (ciência amadora, ciência cidadã, comunidades epistêmicas, cozinhas, laboratórios de garagem…) e mais recentemente à prática de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais à investigação amadora para a inovação cidadã (novas modos de participação e ação política). Um exemplo disso são algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado.

Nesta palestra ele faz um interessante caminho, partindo de algumas boas questões: o que os cientistas podem aprender com os ativistas, e o que os ativistas podem aprender com os cientistas? Como avançarmos da ciência aberta em direção à ciência comum?

Continue reading “Ciência comum e laboratórios cidadãos – com Antonio Lafuente”

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Recomendo a escuta desta apresentação do Antonio Lafuente na EACH/USP, numa  atividade organizada pela Daria Daremtchuk do Grupo de Pesquisa Entre Artes Contemporâneas. Como não pude comparecer, pedi a ela que gravasse o audio. Registro recebido, escrevi ao Antonio solicitando autorização pra compartilha-lo. Obviamente, nenhuma objeção. Publiquei-o em seguida no Internet Archive  (Disponível aqui: https://archive.org/details/20150528083352 ).

Já faz algum tempo que acompanho sua produção. Considero-a muito inspiradora para os trabalhos que venho desenvolvendo, tanto na pesquisa como na ação política. Serei sempre grato ao colega Luis Ferla por ter me apresentado a ele na Unifesp, lá no Bairro dos Pimentas, onde mais tarde o próprio Antonio voltaria outras vezes pra participar de seminários e de uma não-aula no (des)curso “Leituras do Fora” que oferecemos (eu, Edson Teles e Fernanda Cruz) como disciplina eletiva .

Após escutar o audio, resolvi fazer algumas anotações que compartilho aqui. Antonio Lafuente explora algumas questões sobre a produção de conhecimentos (científicos e extra-científicos) e sua relação com os coletivos humanos (instituições, Estado, academia, extra-universidade).

Sua trajetória de historiador da ciência, soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre práticas alternativas de produção de conhecimentos (ciência amadora, ciência cidadã, comunidades epistêmicas, cozinhas, laboratórios de garagem…) e mais recentemente à prática de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais à investigação amadora para a inovação cidadã (novas modos de participação e ação política). Um exemplo disso são algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado.

Nesta palestra ele faz um interessante caminho, partindo de algumas boas questões: o que os cientistas podem aprender com os ativistas, e o que os ativistas podem aprender com os cientistas? Como avançarmos da ciência aberta em direção à ciência comum?

No centro das reflexões está a própria noção do que é ciência. Lafuente interroga os limites da idéia de ciencia aberta (open science) apontando como ela surge como forma de resistência aos processos de privatização de conhecimento, mas que, dado o caráter ambiguo e paradoxal do nosso ambiente sociotécnico, a Open Science também participa ativamente da própria expansão do capitalismo informacional.

Ele confronta a idéia de Ciência Aberta com a proposta de uma Ciência Comum (Common Science). Se por um lado a ciência aberta estaria orientada pelo caráter público da ciência (a ciência para todos); a ciência comum estaria orientada por uma idéia da ciência feita “entre todos”. O “comum” teria aqui duas dimensões: enquanto recurso comum (commons no sentido econômico de bens comuns); mas também comum no sentido daquilo que é partilhado. Lafuente parece dar mais destaque a esta segunda dimensão (esta seria uma primeira pergunta para ele).

Ao chamar atenção para esta dimensão do Comum, Lafuente faz um deslocamento interessante e recoloca esta discussão no âmbito do que alguns teóricos chamam de Pró-comum (nem publico-estatal, nem privado). Mas ele vai ainda mais longe, pois ao colocar a ciência na perspectiva do pró-comum ele interroga a idéia da ciência como instituição.

Pra isso, ela faz uso de um artifício. As instituições, dado seu caráter relativamente objetivo e autônomo (é um conjunto de relações com regras próprias de funcionamento) funda-se num cercamento baseado na delimitação entre um dentro e um fora (o que é ou não reconhecimento como científico). Em oposição às instituições, ele usa o neologismo “extituições”. Ao invés de criar fronteiras entre o dentro e o fora, a extituição busca criar conexões entre o dentro e o fora.

Esta ciência comum, portanto, estaria fundada naquilo que é partilhado por todos e ao mesmo tempo, é singular a cada um: a experiência. Do experimental à experiencial; todos somos experts em experiência; um conhecimento baseado na experiencia é um conhecimenho que não separa experts e leigos, é um conhecimento que todos têm.

A impressão que dá, é que Lafuente constrói um plano de imanência onde ele cria  conceitos que sejam capazes de abrigar as novas práticas cognitivas que ele descreve. Mas será que a ciência comum, na perspectiva colocada por Lafuente, apontaria também para uma outra ordem política? Ele não fala isso diretamente; esta seria uma segunda pergunta para ele. Fiquei com esta impressão pois ao final de sua intervenção ele desenvolve um comentário sobre os novos movimentos sociais na Espanha.

Em sua descrição os movimentos da geração 15M (em sua multiplicidade de grupos), articulam 3 características que os distinguem dos movimentos anteriores: (1) dos protestos às propostas: são movimentos que não mais se limitam a protestar contra algo. Isso os obriga a se configurarem como comunidades de aprendizagens, comunidades cognitivas que enfrentam problemas comuns; (2) do experimental ao experiencial: são esses problemas comuns, os seus modos de enfrentamento e a experiência produzida neste trabalho que estão na base na organização; (3) da reivindicação dos direitos civis (afirmação de sujeitos de direitos), a criação de infraestruturas próprias que produzem recursividade. Além de reivindicar direitos, esses movimentos inauguram soluções baseadas numa permanente abertura.

Essas ações juntas se comportam como um Protótipo, um laboratório que não estaria destinado à produção de coisas, mas espaços destinados à criação de comunidades. Aqui a inspiração do software livre é fundamental em sua dimensão “livre”, tanto a novas agregações, quanto a novas clivagens que não perdem aquilo que foi produzido em comum. Nesta acepção, tal “comunidade” política não estaria baseada em direitos exclusivos (relacionadas à um sujeito específico de direitos), e sim na abertura à chegada de outros, obrigando-nos à permanente tarefa de criar novas formas de viver juntos.