Pandemia e Tecnopolíticas

Henrique Parra

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Talvez, uma forma de pensarmos e investigarmos a Pandemia que nos atravessa, seja conseguir habita-lo sob uma dupla condição aparentemente paradoxal: 1. Numa dimensão, reconhece-la como um evento não acidental; 2. E ao mesmo tempo, aborda-la como um acontecimento histórico, algo que irrompe de forma inesperada a cadeia explicativa dos fatos e dos fluxos estabelecidos.

Entre essas duas dimensões, está em jogo a posibilidade de constituir um nova arena política, onde o próprio sentido da política possa ser redefinido.

O trabalho do Rob Wallace é rigoroso no sentido de demonstrar como a emergẽncia de patôgenos potencialmente epidêmicos é o resultado esperado e contabilizado dentro do funcionamento deste grande arranjo economico-ecologico-geopolítico-científico. Não há surpresas. Há trechos do livro que descrevem exatamente o que estava por vir. Como afinal pudemos deixar que essa situação se instalasse naturalmente como uma possibilidade? De uma perspectiva ainda antropocêntrica, só podemos constatar nosso fracasso coletivo como espécie.
É como que se sabendo que caminhávamos para uma catástrofe, seguimos a rota sob um espírito de inevitalibidade.

“Ao longo do caminho, contudo, há revelações, algumas mais parecidas com armadilhas que com epifanias. Aprendemos que a história é, ao mesmo tempo, contingente e inesperadamente cumulativa — a merda se junta em uma pilha crescente —, mesmo que os caminhos que levam à convergência de determinadas circunstâncias nem sempre sejam claros (Wallace &Bergmann, 2010). Por exemplo: como o agronegócio se tornou tão poderoso e
assumiu essa forma?”

Se tomamos a pandemia enquanto um acontecimento histórico, ela seria um evento resultante mas também expressão de algum grau de indeterminação, de imprevisibilidade, de abertura. Há algo de irreversível na experiência pandêmica. É como um acidente nuclear, não é possível fazer de conta de ele não aconteceu.

Talvez essa irrevesibilidade seja um dos sintomas de que estamos diante de um acontecimento. Nessa perspectiva, o acontecimento é potencialmente portador de deslocamentos na experiência individual e coletiva, de forma que novos sentidos podem emergir através dessa experiência.

Coletivo Chuang: “o surto apresenta duas oportunidades de reflexão: primeiro, é uma abertura instrutiva na qual podemos revisar questões substanciais sobre como a produção capitalista se relaciona com o mundo não humano em um nível mais fundamental – como, em resumo, o “mundo natural ”, incluindo seus substratos microbiológicos, não pode ser entendido sem referência a como a sociedade organiza a sua produção (porque os dois não são, de fato, separados). Ao mesmo tempo, é um lembrete de que o único comunismo que merece esse nome é aquele que inclui o potencial de um naturalismo totalmente politizado.”

Todavia, há todo um jogo de forças para domesticar o acontecimento; inscreve-lo numa ordem explicativa dos fatos e assim, submete-lo a modelos interpretativos que procuram estabilizar os sentidos da experiência pandêmica dentro da ordem “normal” dos fatos. É isso a que chamam de o “novo normal”.

Aqui, o evento pandêmico, suas causas e seus efeitos, manifestam-se como um acidente imprevisível, e portanto ninguém é responsável pelos seus efeitos (intensamente desiguais). Um evento acidental, um pequeno desvio no curso inexorável do capitalismo. Essa narrativa é tão forte que ela é capaz de dar consistência a uma “partilha sensivel” do mundo, uma configuração política entre os modos de pertencimento e de fabricação do mundo, onde se elabora uma divisão que organiza o conflito político entre os defensores da economia e os defensores da vida.

É nesse terreno que a narrativa neoliberal (o empresariamento de si, aa competiçao de todos contra todos,etc) ressoa junto àqueles cuja existência cotidiana está profundamente marcada pela experiência de que não há alternativa, onde a possibilidade de parar não é uma possiblidade, onde a possibilidade de mudar de vida não faz parte do horizonte de expectativas.

Por isso, o argumento de Wallace é fundamental, pois ele permite descontruir a narrativa do “acidente”, do inesperado, mas ao mesmo tempo nos fornece elementos teóricos e políticos para manter o Acontecimento em aberto. Ou seja, ele explica o funcionamento do mundo que produz o covid19 e que faz dele uma pandemia, sem abrir mão da dimensão política e epistêmica daquilo que produz cada fato.
O que percebemos, sentimos e interpretamos como o real e verdadeiro também é fruto de um longa arranjo.

Wallace não situa sua investigação no terreno dos problemas ontológicos. Nesse sentido, ele segue bem aterrado no campo das disputas disciplinares, revelando a todo momento as insuficiências da maneira como a pesquisa e as universidades estão hoje organizadas. Nossos saberes disciplinares, nossas instituições científicas e suas formas de financiamento, já não são capazes de responder à complexidade dos problemas que exigem a implosão dos antigos divisores entre ciencias humanas, naturais, tecnológicas.

“Os paradigmas competem e, ao investirem em uma narrativa — talvez por causa de seus benefícios políticos, comerciais ou institucionais —, deixam outras explicações de lado. Algumas das perguntas mais básicas sobre a natureza da gripe aviária parecem perdidas na nevasca de micrografias, alinhamentos de sequências, estruturas de soluções terciárias, modelos sir [usados para prever a evolução de epidemias], cartogramas antigênicos e dendrogramas filogenéticos. Qual o contexto maior do vírus?” Wallace.

Essa talvez seja a luta e o desafio em que estamos implicados quando realizamos pesquisas que de alguma forma podem ferir o poder. Além desse necessário transbordamento disciplinar, parece necessário uma operação poética (estética) de forma a transformar nossa capacidade de sentir, perceber e enunciar os problemas.

Há uma frase – argumento/hipótese – que se repete algumas vezes nos diferentes textos deste livro: “Nossas deficiências epistemológicas e epidemiológicas podem, afinal, ser uma só” (WALLACE, 2020: 126).

Portanto, a questão das evidências, dos dados e fatos, dependem de todo um regime de enunciação, de uma regime do sensível.

Retomando aquelas duas dimensões enunciadas mais acima: como habitar a pandemia nessa dupla articulação: a recusa de sua normalização como algo inesperado, um acidente; e sua expressão enquanto Acontecimento histórico.
Gostaria de formular essa problema da seguinte maneira (vou usar aqui algumas linhas de um texto que Alana Moraes e eu estamos escrevendo – esse parágrafo foi ela quem fez):

“Como fazer da catástrofe a evidência de um conjunto intencional e previsto pelas forças de extração (do Comum, do trabalho, da vida, da terra, dos bens coletivos…) operadas pelo agronegócio e pela mineração das quais, muitas vezes, o “interesse nacional no progresso” e a “inovação científica e tecnológica” são cúmplices? E como fazer da evidência do colapso um fato capaz de alterar os rumos das decisões políticas e mesmo do que se entende como “política”?”

Dito de outra forma, a criação dessa evidência vem nos exigindo uma ação de invenção de novas composições de mundos, simultaneamente ontológica, epistêmica e política.

“A evidência não é, desde logo, uma questão de lógica, de raciocínio. É do domínio do sensível, do domínio dos mundos” (COMITÊ INVISÍVEL, 2020, s/p).

A produção de conhecimento e os laboratórios tornam-se, cada vez mais, campos de batalha epistêmica, política e também sensível podendo também possibilitar a experimentação de alianças multiespécies como prática de conhecimento e condição política da existência.

Deslocar a perspectiva privilegiada da agência humana na produção de mundos nos exige também novos desenhos de investigações coletivas.

Lendo os artigos do Wallace acho incrível como diversos elementos para além-do-humano estão articulados aos processos socioculturais e geopolíticos. Por isso, dizer que não estamos vivendo uma Pandemia, mas sim uma SINDEMIA é uma provocação política interessante, pois permite ampliarmos o entendimento sobre o fenômenos pandêmico.

(Santiago Alba Rico – filosofo espanhol)
La sindemia es una pandemia en la que los factores biológicos, económicos y sociales se entreveran de tal modo que hacen imposible una solución parcial o especializada y menos mágica y definitiva.

Dice Wallace; los nuevos virus han sido creados, por supuesto, en un laboratorio, pero solo en el sentido de que el capitalismo ha convertido la naturaleza misma en un laboratorio vivo, en permanente ebullición patológica, incontrolable incluso para sus gestores y beneficiarios. Wallace dice: “Al hacer capitalista a la naturaleza se hace que el capitalismo sea algo natural”, y ello de tal manera que “las disparidades en nuestra salud surgen de nuestros genes o de nuestras entrañas, no de los sistema de apartheid”.

Pensando na insuficiência dessa perspectiva privilegiada da agência humana, Santiago observa:
“La voluntad podría, sí, desmontar la máquina, pero la máquina se mueve ya al margen de nuestra voluntad”.

Talvez esse seja o nosso maior assombro: nossa incapacidade de fazer parar! Latour, num texto dos primeiros meses da pandemia falava dessa oportunidade de paragem, dessa interrupção forçada dos fluxos. Porém, o poderes fáticos cancelaram o parlamento dos humanos e não-humanos e estão ai para afirmar que nada pode parar.

Pensando naquela dupla articulação, a recusa da normalização da Pandemia como um acidente; e a luta pela manutenção da abertura do Acontecimento pandêmico, imaginamos uma investigação com Pandemia, como aquela situaçao em que colocamos um espelho diante do outro. A ótica chama esse resultado de “imagens em abismo”. Ora, se muitos dizem que a Pandemia é como um espelho que nos mostra e joga em nossa cara como somos, como vivemos, como é o funcionamento de nossa sociedade (capitalista, patriarcal, racista, ecocida, necropolítico…) de forma muita evidente, ela o faz também na forma de um abismo que se abre ao infinito, imagens fractais que vão se esfumaçando e perdendo a nitidez a medida que vão ficando mais distantes.

Assim, talvez um movimento que possamos fazer aqui seja interrogarmos como a pandemia nos ajuda a compreender, a sentir com maior pluralidade a reverberação dos enredamentos, as interdependências, as codeterminações que constituem os problemas com que estamos implicados. A pandemia como um intensificador do pensamento e da criação das urgências de luta e existência.

Se a pandemia covid19 é o resultado das políticas de simplificação ecológica, a monocultura tecnoexistencial e extrativista do plantationceno, como praticar outros saberes que não bebam do mesmo veneno do excepcionalismo antropocêntrico?

A questão não é tanto saber se a pandemia cria novos arranjos de poder ou se ela apenas confirma e intensifica as relações de poder, os modos de conhecer, as formas de exploração do trabalho que já estavam constituídas. Não é suficiente dizermos que a “culpa é do capitalismo”.

Se partimos da perspectiva do Acontecimento as disputas sobre a experiência Pandẽmica já são parte dos conflitos sobre a criação de mundos por vir (seja da reprodução do mesmo ou da criação arranjos inesperados).
Como podemos retomar uma capacidade imaginativa, uma capacidade de perceber, analisar e agir coletivamente diante desses mundos que estão sendo construídos nesse momento com a Pandemia?

O que o acontecimento Pandêmico dá a ver?

Vejamos um pouco das imagens e textos que foram selecionadas para este encontro. Podemos começar a organizar uma breve cartografia coletiva de como a pandemia se entrelaço com aspectos tecnopolíticos e como isso toca, de alguma forma o tema/objeto de pesquisa de cada participante do curso: https://miro.com/app/board/o9J_leDLvYk=/

 

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Notas da aula 2 – Pandemia e Capitalismo

Os textos e demais referências utilizadas estão disponíveis neste link: https://pt.wikiversity.org/wiki/Tecnopol%C3%ADticas:_ci%C3%AAncia_e_tecnologia_na_constru%C3%A7%C3%A3o_de_mundos#Aula_2:_30_de_mar%C3%A7o:_Pandemia_e_Capitalismo

Durante o curso, pretendemos compartilhar pequenos ensaios escritos pelos participantes. O curso segue aberto à participação de ouvintes.