Final de março começaremos uma nova disciplina no curso de Pos-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp: Tecnopolíticas: ciência e tecnologia na construção de mundos.

Em razão da pandemia o curso sera online. Se por uma lado perdemos o contato presencial, ganhamos a possibilidade de participação ampliada de pesquisadores de outros programas e cidades. O programa ainda esta em elaboração. Mas ja coloquei uma versão beta no ar. Mais informaçoes neste link: https://pt.wikiversity.org/wiki/Tecnopol%C3%ADticas:_ci%C3%AAncia_e_tecnologia_na_constru%C3%A7%C3%A3o_de_mundos#Versao_provisoria_do_programa

A Rádio Terrana é um podcast do Pimentalab da Unifesp e do coletivo Tramadora,  um programa sobre ciências terranas, tecnopolíticas e experimentações em tempos de catástrofes. Encruzilhadas sonoras entre práticas científicas, ações de retomada e lutas pelo Comum.
São Histórias de experimentações que nos convocam a pensar juntas sobre possíveis futuros de transição societal. O podcast ensaia diálogos com ativistas/lutadoras implicadas com problemas concretos em práticas políticas, territórios, corpos e pensamentos de retomada e também com cientistas/pesquisadores que realizam deslocamentos nos modos de produção de conhecimento, conectados com as urgências impostas pelo antropoceno.
Sobre o  episódio:
Conversamos com Jerá Guarani, liderança Guarani Mbya da aldeia Kalepity, nas Terras Indígenas Tenondé Porã,  em Parelheiros, extremo sul da cidade Sao paulo; e com Lucas Keese, que é pesquisador, antropólogo, mas que há muito tempo é parceiro da luta Guarani, ajudando a articular ações no território, tecendo encontros e lutas. Vamos falar um pouco sobre os limites das formas de produção de conhecimento em nossas escolas e universidades a partir de uma perspectiva terrana que vem sendo elaborada e cultivada no território guarani mbya.
Como a luta e os modos de existência guarani interpelam o colapso civilizacional produzido pelo mundo dos brancos? Há mundos por vir?

Ficha Técnica:

Equipe Pimentalab e Tramadora: Alana Moraes  Bru PereiraGustavo LemosHenrique ParraJessica Paifer
Entrevistados: Jera Guarani, Lucas Keese
Edição, mixagem, e trilha sonora: Gustavo Lemos
Produção:Pimentalab (Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento, UNIFESP): https://www.pimentalab.net Coletivo Tramadora: https://www.tramadora.net
Apoio:Rede Lavits (Latinoamericana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e Fundação Ford: https://www.lavits.org

Músicas:

Abertura: Gustavo LemosKatú – Aguyjevete: https://www.youtube.com/watch?v=M4czt2327vAKunumi MC – xondaro Ka’aguy Reguá: https://www.youtube.com/watch?v=cT7ZXxAMetY Memória Viva Guarani – Nande Reko Arandu – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4Memória Viva Guarani – Ñande Arandu Pygua – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4

O grupo de pesquisa Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento realiza encontros quinzenais de estudos e discussões. As reuniões são abertas a todxs. É só chegar. Para mais informações escreva um email para: henrique arroba pimentalab.net

Nos reunimos às quintas–feiras as 19hs. Link pra sala será sempre atualizado e postado https://encontro.lavits.org/pimentalab

Os textos e a agenda desses encontros é sempre atualizada por aqui e na nossa página do Facebook: https://www.facebook.com/pimentalab/

Cronograma:

17/09: Manifesto Nooscopio – Inteligência Artifical e Extrativismo do Conhecimento: http://lavits.org/o-manifesto-nooscopio-inteligencia-artificial-como-instrumento-de-extrativismo-do-conhecimento/?lang=pt

01/10: A Hipótese Cibernética – Tiqqun: https://docs.google.com/document/d/1cnfm4mM4L4IfQ_YBH7_TWhokJOhnb9n7P0Va9lbOIPk/edit

15/10: Franco Bifo Berardi, Fenomenologia do Fim (Introdução do livro)

12/11: Bruno Latour, Reagregando o Social (introdução): PDF

26/11: (cancelado em razão do Webinar Lavits)

10/12: Kate Crawford e Vladan Joler: Anatomia de um sistema de inteligência artificial: o Amazon Eco como mapa anatômico de trabalho humano, dados e recursos planetários: https://www.comciencia.br/anatomia-de-um-sistema-de-inteligencia-artificial/

O grupo de pesquisa Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento realiza encontros quinzenais de estudos e discussões. As reuniões são abertas a todxs. É só chegar. Para mais informações escreve um email para: henrique arroba pimentalab.net

Nos reunimos às quintas–feiras as 19hs. Os textos e a agenda desses encontros é sempre atualizada por aqui e na nossa página do Facebook: https://www.facebook.com/pimentalab/

Cronograma:

17/09: Manifesto Nooscopio – Inteligência Artifical e Extrativismo do Conhecimento: http://lavits.org/o-manifesto-nooscopio-inteligencia-artificial-como-instrumento-de-extrativismo-do-conhecimento/?lang=pt

01/10

15/10

12/11

26/11

10/12.

Laboratórios do Comum para a gestão social dos territórios

Video do seminário disponível aqui: https://youtu.be/Rc9Jl1aA6qQ

No dia 22 de julho, quarta-feira, às 19h, Valéria Giannella (PPGES UFSB / ELGS) e Fernanda Martins (PPGES UFSB) convidam três pesquisadores/ativistas do Comum: Georgia Nicolau (Instituto Procomum), Henrique Parra (Pimentalab / Unifesp) e Rodrigo Savazoni (Instituto Procomum / UFABC) para uma roda de conversa onde exploraremos os nexos entre o campo do Comum e a gestão social de territórios.

O Comum que nos interessa se constitui enquanto substantivo e verbo, e nos traz amplitude para imaginar futuros possíveis na encruzilhada em que nos encontramos. Juntos vamos conversar sobre as práticas de experimentação do agir-comum que se intensificaram no contexto pandêmico. Podem os “laboratórios do Comum” serem lidos enquanto experiências públicas de Gestão Social e como caminhos que apontam além da grave crise democrática que atravessamos?

O bate papo acontece no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade (PPGES) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e da Escola Livre em Gestão Social (ELGS), e acontece com o apoio e a participação do Instituto Procomum e do Pimentalab.

#pratodosverem

Cartaz de webinar programa #UnifesspaOnline.
Sobre fundo cinza claro, na parte superior alinhado à esquerda a palavra webinar em letras. Em uma linha abaixo, sobre um retângulo amarelo, escrito a hashtag do Programa de Formação da Unifesspa em letras brancas: #UnifesspaOnline. Na parte superior à direita, uma arte contorna o canto direito do Cartaz: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cores pretas: uma primeira na horizontal e outra na vertical alinhadas em formato de uma cantoneira. Abaixo da arte, com destaques, em letras pretas transmissão ao vivo, na sequência, abaixo, uma imagem em retângulo de cor preta, com o ícone de play branco. À esquerda do cartaz, foto colorida do palestrante, com uma imagem de vegetação ao fundo em tons verde claro e escuro. Na composição artística da foto, o rosto do palestrante é coberto parcialmente do lado direito pela imagem da vegetação. O palestrante Henrique Paiva, está de frente. É branco, olhos claros, cabelos curtos castanhos. Usa bigode e barba com fios grisalhos. Usa camisa preta. Segura um celular escuro até a altura do queixo na posição de registro fotográfico de self. Ao lado da foto, alinhada à esquerda o título da palestra escrita em letras pretas negritadas: Educação pandêmica e as encruzilhadas do ensino superior. Uma camada abaixo, a data: 18 de agosto e sob esta, a hora: às 19h. Abaixo da foto, informes: Palestrante Henrique Parra. Na sequência, abaixo à esquerda, a logomarca da Unifesspa. No canto inferior esquerdo, repete-se a arte: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cor preta: uma primeira na vertical e outra na horizontal em formato de uma cantoneira e no interior a logomarca da Unifesspa com a sigla UNIFESSPA. No rodapé a direita do cartaz, escrito em letras pretas: saiba mais: seguido do endereço do site: www.unifesspaonline.edu.br
Fim da descrição

O webinario está disponível no link do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=wSWpSXRU4rM
Ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/unifesspaoficial/videos/607226726847199/

Na primeira semana de agosto reiniciaremos o curso interrompido em março pela Pandemia Covid-19. Ela não passou e ainda estamos num momento de grande propagação do vírus e com elevado número diário de mortos. A retomada das aulas à distancia (ADE, EAD…pouco importa) está cercada de controvérsias. Antes dessa decisão institucional eu desejava outro coisa para este momento. Queria que pudéssemos criar voluntariamente ações coletivas de investigação sobre a relação Universidade, Ciência e Pandemia: como chegamos ate aqui, e que universidade precisamos inventar pra transformar essa situação? Queria também que pudéssemos nos dedicar mais às ações de apoio mútuo entre professores, estudantes e funcionários. Quem sabe o curso agora possa servir também pra tramar um pouco dessas duas linhas.

Nos deparamos com o desafio de realizar um novo curso em condições excepcionais. Há diversos problemas envolvidos na realização das atividades educacionais não presenciais mediadas por tecnologias digitais e cibernéticas. De imediato, o mais agudo deles são os efeitos de intensificação das desigualdades. Esse e outros problemas serão objetos de nossa reflexão no percurso da disciplina do semestre Sociologia da Educação.

Mas há também aspectos interessantes que podem emergir dessa experiência. É hora de falar um pouco disso; é hora de reconhecer a potência da situação e lutar para “retraçar o destino trágico que nos querem impor” – linda imagem, inspirada no Odu, utilizada pelo colega Uirá Garcia numa conversa com os estudantes durante a pandemia.

As sensações que nos atravessam durante a pandemia e os diferentes momentos que ja vivemos em mais de quatro meses, nos arrastam a modos de ser desconhecidos. Nos últimos dias comecei a imaginar, para atravessar esse momento, uma nova composição com plantas subterrâneas, tubérculos ou rizomas: devir-gengibre, devir-mandioca, devir-batata, devir-cebola. Entrar um pouco para baixo da terra, acumular energia, ficar imperceptível, crescer para os lados, fazer novas alianças, ficar amigo de fungos, bactérias, minerais e outros seres vivos, criar composições que amplifiquem uma nova reticulação, infiltrar e correr como a água, curar algumas feridas, revigorar, fazer novos parentes, ampliar a própria força para o que está por vir, rachar o solo por baixo.

Reorganizei o curso levando em conta algumas disposições, especialmente reconhecendo a diversidade das situações de vida dxs estudantes (e também a minha) no contexto da Pandemia. Não está fácil pra ninguém, e pra muitas e muitos estudantes, a vida está por um fio. Por isso, o desenho do curso, as exigências e as expectativas serão outras. Mais do que resultados ao final do trajeto queremos uma boa travessia: o meio importa! Gosto de pensar o curso como a prática de uma mesopolítica, uma política do meio.

Na linha do que temos experimentado no Pimentalab (nos projetos Laboratório do Comum e Zona de Contágio) o curso pode funcionar como um laboratório de investigação coletiva e situada em que seja possível constituir uma Comunidade Transitória de Práticas, um coletivo de aprendizagens. Por “coletivo de aprendizagem” refiro-me aqui à idéia forte de que ninguém aprende sozinho, aprendemos juntxs e neste processo transformamo-nos todxs (Freire, B.Hooks, Lafuente, dentre outrxs servem aqui de inspiração). Diferente, portanto, das “pedagogias de aprendizagem” vinculadas atualmente aos modos de subjetivação neoliberal (um eu-individual-soberano que aprende através da aquisição de habilidades e competências, num infinito empresariamento de si). A idéia de “transitória” tomo de empréstimo do Ailton Krenak, quando ele convida as pessoas numa atividade a constituirem uma “comunidade transitória” dedicada ao aqui-agora da escuta e aprendizado mútuo.

Como fio condutor do curso “Sociologia da Educação” teremos uma seleção de problemas que emergiram para o campo da educação diante da Pandemia Covid-19, elegendo recortes estruturantes deste vasto campo de estudos. O curso deve servir também pra nos ajudar a elaborar melhores perguntas.

Para a arquitetura deste curso à distância, concebemos que as atividades deveriam levar em conta a possibilidade de trabalharmos tanto com diferentes graus de engajamento dos estudantes, mas também com diferentes graus de abertura para públicos externos à sala de aula habitual. Um vantagem de um curso remoto é a chance de colocarmos na conversa pessoas e perspectivas distintas que normalmente não teriam condições de estar em nossas salas de aula. Assim, algumas atividades do curso terão um desenho mais fechado (voltado ao trabalho interno) e outras terão um desenho mais aberto (voltadas ao envolvimento com públicos distintos).

Leituras: o conteúdo sofreu alterações de forma a criar maior aproximação com temáticas que eclodiram no contexto da Pandemia (escola-educação, universidade, trabalho docente e tecnologias educacionais entre outras). O volume de leitura também foi modificado. A partir da idéia de um núcleo Mínimo-Múltiplo-Comum (MMC) organizamos trilhas de estudos com graus diversos de complexidade de maneira que cada estudante possa escolher o caminho que lhe é possível neste momento.

Encontro sincronicos: a idéia é que possamos experimentar e tentar inventar “estados de presença”. O que pode ser um encontro numa sala virtual? O que pode ser uma aula? Quais os modos de presença que desejamos praticar? O problema não é novo e ele tambem se coloca para uma aula presencial. Nos habituamos a não questionar a qualidade de nossas aulas e a “crise de presença” contemporânea (dxs professorxs e dxs estudantes), como se estar em sala fosse o suficiente para provocar um acontecimento-aula-encontro. Numa aula muitas coisas acontecem e ela também comporta diferentes estados de presença. Não é suficiente transferir nossas práticas da sala de aula para os ambientes virtuais. Assumir a experimentação talvez seja a melhor alternativa nesse momento. No ambiente digital estamos sujeitos a um outro regime de sensibilidade (percepção-sensação); a outros ritmos; a uma outra política da atenção. O meio importa!

Dividi as atividades sincronicas em dois momentos distintos que serão alternados a cada semana. Teremos mini-blocos temáticos de 15 dias. Numa semana faremos um encontro na forma de um grupo de estudos e orientação, conversaremos sobre os textos, elaboraremos perguntas, discutiremos, e vamos pensar sobre os projetos da disciplina. Essa atividade está mais voltada para o trabalho interno. Noutra semana faremos uma espécie de “aulão”. Haverá um momento expositivo inicial (penso em realizar uma fala de aproximadamente 20-30 minutos), poderemos ter diferentes convidadas/os para essa conversa e também público espontâneo. Em seguida, abriremos para interação entre todxs. Tempo máximo de duas horas para toda a atividade. Minha expectativa é que neste encontro possamos partir do pensamento dxs autorxs dos textos, para dialogar com os materiais que serão coletados e produzidos pelxs estudantes, e também com as experiências que serão narradas entre nós. Temos que “aproveitar” o fato de que nosso curso tem como objeto/tema a própria educação. Do ponto de vista tecnológico resolveremos assim: nas atividades internas utilizaremos ferramentas e ambientes de acesso restrito; nos encontros-aulão utilizaremos plataformas de acesso público e streaming.

Atividades assincrônicas: alem da leitura dos textos esperamos que os estudantes possam produzir (individualmente ou coletivamente) um exercício de pesquisa sobre temas/problemas relacionados à disciplina. Vamos coletar e organizar links para pesquisas, relatorios, reportagens, dados; e vamos criar ensaios em diferentes linguagens. Além da página na wikiversity (onde vou documentar o percurso da disciplina), vou utilizar um site em wordpress para hospedar os demais produções da disciplina. A cada quinzena os estudante serão convidados a produzir algo e publicar na forma de um comentário no site: um pequeno texto, audios, fotos, poesias, microvideos relativos ao tema da quinzena. Fizemos isso na Zona de Contágio e foi uma boa experiência. Aqui um exemplo (vejam os comentários ao post).

Como forma de avaliação temos duas opções e cada estudante poderá optar por um caminho: coletânea de suas produções publicadas no site durante o semestre; ou a elaboração de um ensaio único ao final do semestre.

Por fim, outro elemento importante para que o curso possa melhor fluir é a enfase nos processos coletivos. Como podemos misturar a constituição de grupos de pesquisa entre os estudantes, com as formas dos grupos de afinidade e grupos de apoio-mútuo? Um curso à distância é cheio de armadilhas (assim como um curso presencial). Frequentemente,nos ambientes digitais, graças à tecnicidade do meio (sua tecnoestética e tecnopolítica), há uma maior disposição para a individualização dos processos de aprendizagem. Teremos que praticar uma atenção e escuta ativa aos processos que vamos desencadear para que consigamos promover outros desenhos e disposições para o fortalecimento coletivo. Como transformar a tela em uma interface mais conjuntiva do que conectiva? “Como redesenhar a pesquisa, o ensino universitário para uma lógica da conjunção? Que arranjos acadêmicos, investigativos, pedagógicos e de convívio poderiam ativar uma fratura que permita “pular os muros” da lógica proprietária do conhecimento, mas cair longe deles? Como manter, por algo despertado na quarentena, nossa capacidade de decifrar os signos segundo o desejo, liberando espaço para a vibração do desejo-pesquisa, desejo-educação, desejo-arte, desejo-luta?

O episódio #84 saiu e está em português com transcrições em inglês. Andrea Rozenbaum e eu (Corina) conversamos com Henrique Parra e Ricardo Teixeira sobre como diferentes países estão respondendo ao COVID-19. Focando no Brasil, além de uma visão geral da realidade do sistema de saúde também discutimos a dificuldade para muitos brasileiros Segue as medições de isolamento social; o papel e desempenho do Estado no contexto brasileiro; o significado das iniciativas civis que têm vindo a surgir como respostas para contornar a ausência do Estado em momentos específicos; questões culturais e estruturais. Desde a desobediência a vários níveis à forma como o sistema fiscal contribui para o aprofundamento das desigualdades sociais, mesmo quando se trata do sistema de saúde. (também com transcrições em inglês) no nosso site:

Escute o Episódio #84: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/en-henrique-parra-ricardo-teixeira-some-perspectives-on-how-brazil-is-facing-the-pandemic-from-the-health-care-system-to-smart-technology

***

O episódio 85 chegou! Esta é a parte 2 da conversa que Corina & Andrea Rozenbaum tem em português com Henrique Parra, sociólogo e professor de Ciências Sociais da UNIFESP e Ricardo Teixeira, médico sanitário especializado em saúde coletiva, e professor na Universidade de São Paulo (USP) ..Neste episódio, aprofundamos a nossa conversa, questionando o sentido de responsabilidade e o sentimento de impotência ao enfrentar uma realidade em que parece difícil vislumbrar um futuro positivo. Ricardo retomou a ideia de medicina social, vendo-a como uma ciência social. Os entrevistados destacaram a vulnerabilidade que a pandemia trouxe e debateram como isso nos faz perceber o quão interdependentes somos, e como precisamos do coletivo, dos títulos e dos afetos para viver.(também com transcrições em inglês) no nosso site:

Escute o episódio #85: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/henrique-parra-ricardo-teixeira-amplifying-the-debate-the-role-of-scientists-and-social-scientists-in-times-of-uncertainty

No episódio #38, Sérgio Amadeu conversa com o ativista, pesquisador do Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Henrique Parra, sobre o conceito de tecnopolítica e as possibilidades das práticas colaborativas abrirem espaços para a reconfiguração das tecnologias para além do capital.

“Conspirar quer dizer respirar junto.

E é disso que somos acusados.”


Durante a Pandemia Covid-19 o Laboratório do Comum deslocou suas iniciativas para o projeto Lab Zona de Contágio.

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa coletiva e experimentação. Se o fortalecimento de governos tecno-autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social. Tudo é risco.

Estamos lançando uma investigação coletiva que se proponha a pensar agora pelos cortes que fazem atravessar corpos, a casa, o risco da respiração compartilhada, os novos arranjos da biovigilância, as tecnopolíticas de gestão do normal e do que excede. O poder é logístico, está por todos os lados. Por isso, uma ciência de risco precisa dar atenção aos “agenciamentos que geram transformações metamórficas em nossa capacidade de afetar e sermos afetados – e também de sentir, pensar e imaginar”.


Disparamos perguntas que nos implicam com o acontecimento covid-19.


Pensar porque estamos obrigados, potencialmente infectados e febris. Diante dos intensos fluxos filosóficos, da saturação metafísica, semiótica, informacional, gostaríamos de propor uma desaceleração do pensamento; uma respiração diafragmática. Uma ciência de risco é objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade, os grandes esquemas conceituais. Uma ciência de risco é aquela que habita as encruzilhadas e as práticas de permanecer um pouco mais com a confusão.

Como primeiro movimento de um percurso incerto e aberto de investigação coletiva, desejamos criar conversas com praticantes que se sintam afetados por essas questões.  Seja a partir de uma criação qualquer (texto, fotografias, áudios, vídeos, performances) compartilhada entre nós, ou de um fio investigativo que possamos juntos rastrear: os fios do provável (a reorganização dos poderes tecnototalitários e dos dispositivos reordenadores da vida); os fios do possível (as formas de cooperação, novos acordos coletivos, a luta contra as normalizações dos excessos e pelas muitas formas de recusa). Uma ciência menor que atua  com a experimentação e a invenção de uma linguagem comum, pelos sentidos que dão passagem a uma experiência singular e coletiva.

Atenção às infraestruturas mínimas da vida coletiva que adquirem visibilidade e urgência – a metrópole é um grande dispositivo de renuncia sobre nossas próprias vidas. Como a vida na cidade e na casa é percebida no interior desse acontecimento? O que estamos fazendo das nossas vidas?

Rastrear os pequenos gestos, as formas de recusa nada épicas, os imperativos do desempenho que descem pelo ralo enquanto temos que dar conta da louça acumulada antes da próxima reunião online. Como nossa vida é agora interpelada pela lógica da produção e do fazer, pela culpa do contato ou do isolamento, como imaginam nossas resistências e invenções cotidianos para existir? Precárixs. Lançadas em uma correnteza de indeterminação; atentas para os modos diferenciais de tornar algumas vidas dignas de serem protegidas e outras não. Nossos corpos como infraestrutura invisível que sustenta toda a ficção do “homem livre empreendedor”. Para não “voltar ao normal!”; Para retomar a insistência da vida não a qualquer custo – mas uma vida que possa criar movimentos de abertura, uma que desliza e escapa de suas estabilidades e antigos compromissos, aquela que aposta nos riscos dos encontros.

Rastrear as decisões logísticas e tecnológicas que prometem “segurança”, “saúde” e “bem-estar”, “praticidade” e “desempenho” a despeito da nossa incapacidade de cuidarmos de nós mesmos; a despeito da nossa incapacidade de sustentar outras saídas. Assumir nossas vulnerabilidades compartilhadas. Como esse acontecimento nos releva os arranjos em que estamos enredados? Podemos habitar de outra forma a cidade, o mundo, a terra – não como “cidadãos”, mas como criaturas?

Somos convocados a oferecer provas de um bom comportamento como soldados de uma guerra que não é nossa. Interpeladas cotidianamente por dispositivo de mobilização de corpos e boas condutas. Alternativamente, quais são as novas alianças que estamos criando e que desejamos ainda criar? Uma ciência de risco é sempre uma ciência que hesita, uma ciência de retomada de uma inteligência coletiva e que funciona apesar e contra os chamamentos da nação, da pátria ou da grande Ciência e seus regimes de autoridade e verdade.

Protótipo 1 – como criar uma conversação em tempos de pandemia?

Explicações de um mundo “real”, assim, não dependem da lógica da “descoberta”, mas de uma relação social de “conversa” carregada de poder.

Neste primeiro movimento a idéia é que possamos nos relacionar através de nossas criações, formas de expressão sobre o experienciado, fragmentos coletados do mundo, situações vividas, sentidas, relatos, hesitações – sejam seus ou não. 

Se você deseja entrar nesse barco, envie um email (tecnologia de desaceleração) para: conspire@tramadora.net

Criamos um canal de transmissão no Telegram onde iremos proliferar os caminhos da pesquisa: https://t.me/tramadora

Há também uma página no Facebook: https://www.facebook.com/corpocontagio

Além do processo investigativo, realizaremos um ciclo de estudos insurgentes. Encontros virtuais para discussão de algum texto ou conversarmos com algumx convidadx. O primeiro encontro será dia 23/04, quinta-feira, a partir das 19:30hs, numa plataforma de videoconf [link com a programação será divulgado em breve]

Sobre: Zona de Contágio é uma iniciativa de confluências, um híbrido do coletivo Tramadora, Projeto Laboratório do Comum do Pimentalab/Unifesp, Lavits.

obra de: Regina Parra

Durante a Pandemia Covid-19 o Laboratório do Comum deslocou suas iniciativas para o projeto Lab Zona de Contágio.

Laroiê!

salve o mensageiro!

 

Nós, que pensamos em “ideologia”, somos vulneráveis. Nós não possuímos os saberes pertinentes para identificar e compreender os dispositivos de captura e de produção de impotência. Ora, lá onde se pensa que os feiticeiros existem, aprende-se a reconhecê-los, a diagnosticar seus procedimentos, a se proteger deles, e ainda a contra-atacar” (I.Stengers). 

Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: “um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.

O vírus é a entidade estrangeira que fala pelo nosso corpo, através dele, de sua vulnerabilidade e estupidez. Fala que nossasnoções de “política” e de “progresso” ou “civilização” são débeis, inócuas. Faz com que sintamos a febre da Gaia Criatura comoresposta imunológica às simplificações ecológicas e biológicas produzidas pelos modos extrativistas que seguem fazendo desertosem nome do “crescimento econômico”, “desenvolvimento”; que seguem produzindo muros, cercas, desejo de segurança eseparação. 

O medo da contaminação como forma de governo das vidas sempre foi a principal bio-tecnologia colonial,  atualizada pelos regimes autoritários modernos. Tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança profilática passam a “denunciar” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o “Estado Forte” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em “Guerra”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

Estamos na encruzilhada Hobbes x Espinosa; o Estado e a hipótese do Comum!  O momento em que desejamos que o Estado tome medidas de exceção de controle populacional em nome da segurança sanitária, é o momento em que renunciamos à nossa potência de cuidado da saúde coletiva. Seremos capazes de construir alternativas com nossa inteligência coletiva? Como ativar o Comum, a potência de produção da saúde entre todos, promovendo vínculos solidários de cuidado coletivo? Como infraestruturar as estratégias, dispositivos, tecnologias, diferenças, práticas e conhecimentos que possam dar lugar a essas formas de vida?

A natureza do poder se modificou de tal forma que hoje confunde-se com a própria vida. Está na paisagem da cidade e suas infraestruturas, nas centenas de dispositivos que conduzem nossa atenção, localização, nas catracas, na produção dos desejos e das frustrações; nas centenas de outros dispositivos que nos conduzem à novas formas de desempenho; novas formas de concorrência.

Os arranjos sociotécnicos ao mesmo tempo vigiam e controlam toda possibilidade de fuga com outros inúmeros dispositivos deneutralização preventiva. A algoritmização da vida bloqueia qualquer possibilidade de imprevisto, de acontecimento e abertura. O poder se organiza de forma imanente à vida e sua expressão de exterioridade é apenas uma expressão performativa e mais visíveldele – ainda que nos pareça mais confortável imaginar que o Poder está lá, sentado em uma cadeira. “Uma perspectiva revolucionária já não tem a  ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos”. Na metrópole, assinala o Conselho Noturno (2019), o que encaramos não é mais o velho poder que dá ordens, o poder que localiza-se desde uma exterioridade, mas uma forma de poder que logrou constituir-se como a ordem mesmo desse mundo. “A metrópole é o simulacro territorial efetivo de um mapa sem relação com nenhum território”

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de corpos neoliberalizados, Zona de Contágio convida ao diálogo praticantes que desejam tensionar as modernas e habituais fronteiras entre ciência e política; entre corpos e pensamento. Assumir nossa debilidade existencial como ponto de partida para pensar os deslocamentos do político. Pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outrolado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de“co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”; encontros. Ciência de contato. Saber qual território habitamos, qual é a terra que pisamos quando falamos “cidade”, quais as relações que a constituem, quais são os saberes desautorizados, os saberes sujeitados, os saberes das lutas que desejamos convocar? Uma ciência objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade. Uma ciência de combate que acontece entre corpos e suas diferenças.

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e intervenção namedida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social.

A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver  – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

Dia: 19 de março, quinta-feira.
Manhã: 9:30hs às 12:30hs (seminário)
Tarde: 14:00 às 18:00hs (oficina)
Local: (Unifesp – Reitoria, Anfiteatro – 4o andar. Rua Sena Madureira 1500, 4o andar, Vila Clementino.

Inscrições: https://sistemas.unifesp.br/acad/proec-siex/index.php?page=INS&acao=1&code=17542

Seminário: Serão apresentados avanços em classificação, descrição automática e visualização interativa de grandes volumes de documentos textuais com dimensões de metadados, com foco em estudos da ciência (STS) e aplicações em medicina, sociologia e humanidades. O caso em foco será os abstracts da conferência anual da ASCO (American Society for Clinical Oncology) de 1995 à 2017. Será apresentada a inferência, a partir do texto, de domínios e tópicos de pesquisa e, a partir dos metadados, de períodos com dominância de diferentes domínios, como também do papel de diferentes grupos de instituições no progresso da oncologia.

Oficina: As ferramentas para aplicar essa abordagem fazem parte da Plataforma Cortext, uma infraestrutura europeia de pesquisa em estudos da ciência e inovação. Após o seminário, os interessados poderão participar de uma oficina para se familiarizarem com o uso da plataforma e seus diversos recursos para análise de coleções de documentos. Vagas limitadas a 15 pessoas, inscrição obrigatória.


Bio: Ale Abdo é pesquisador no LISIS (Laboratoire Interdisciplinaire Sciences Innovations Sociétés) em Paris. Recebeu seu doutorado do Instituto de Física USP, tendo conduzido pesquisas no departamento de sociologia da Columbia University, no ICICT da Fiocruz e no LIM01 da Faculdade de Medicina da USP.

Organização: Pimentalab e Lab.hum (Unifesp); CorText.

Referências:

Abdo AH, Cointet JP, Bourret P, Cambrosio A. Domain-topic models with chained dimensions: charting the evolution of a major oncology conference (1995-2017). (2019). arXiv:1912.13349

Callon M, Courtial JP, Turner WA, Bauin S. From translations to problematic networks: An introduction to co-word analysis. (1983). Social Science Information, 22(2), 191-235.

Cambrosio A, Bourret P, Rabeharisoa V, Callon M. Big data and the collective turn in biomedicine: How should we analyze post-genomic practices?. (2014). Tecnoscienza, 5(1), 13-44.

Fortunato, S., Bergstrom, C., Börner, K., Evans, J., Helbing, D., Milojević, S., et al. (2018). Science of science. Science, 359(6379), eaao0185.

Shi F, Foster JG, Evans JA. Weaving the fabric of science: Dynamic network models of science’s unfolding structure. (2015). Social Networks, 43, 73–85.

Ciclo “Habitar as Fronteiras” no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Dias 7 e 14 de abril de 2020.

Diante da debilidade existencial intensificada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, os encontros convidam ao diálogo pesquisadorxs-praticantes que tencionam as habituais fronteiras entre ciência e luta, vida e política. Assumir a nossa crise da presença como condição de uma vulnerabilidade compartilhada para investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas também experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”.

Partimos de experiências investigativas em que saberes e práticas de lutas emergem de corpos como sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias e que intuem que é o movimento de abertura ao acontecimento o que pode sustentar práticas coletivas de insistência na vida como interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

07/04, terça-feira, das 19h00 às 21h30 – Encontro com Bru Pereira – antropóloga e educadora, mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP; Edson Teles – professor de filosofia na UNIFESP; Maria Fernanda Novo – doutora em filosofia pela UNICAMP. Mediação de Jean Tible – professor de Ciência Política (FFLCH/USP).

14/04 (terça-feira), das 19h00 às 21h30 – Oficina com Alana Moraes – antropóloga, doutoranda pela UFRJ e Henrique Parra – professor de Ciências Sociais da UNIFESP. Pesquisadores do Pimentalab/LAVITS e do coletivo Tramadora.

Oficina: ao adotar a gestão de crise como técnica de governo, o capital não se limitou apenas a substituir o culto ao progresso pela chantagem da catástrofe, ele quis reservar para si a inteligência estratégica do presente” (C.I). A oficina é um convite para habitar por um pouco mais de tempo os problemas comuns que nos obrigam a pensar juntos. Inspirados na ideia de um “parlamento de corpos” queremos retomar a inteligência compartilhada e a potência da situação presente. O parlamento emergente de corpos afetados se instaura a partir de formas de conhecer que possam transformar (narrar/inventar/mediar) a experiencia de um corpo-sensor em um conhecimento de luta coletiva dos corpos vivos, que nada tem a ver com a produção de maiorias ou consensos. A oficina convida os participantes a investigar o problema da crise da presença diante da crescente mediação técnica da vida social e as consequentes alterações do regime de sensibilidade que sustentam ou destroem um mundo comum. Diante da multiplicidade de dispositivos tecnológicos que fazem da vida uma sequencia prevista de condutas, procedimentos e desempenhos funcionais, praticamos uma atenção àquilo que o corpo não aguenta mais, como ponto de partida da construção de formas de vida não fascistas.

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corpo-como-sensor é uma proposição ético-política da vida em sua ontologia corpórea extremamente vulnerável, um terreno de travessias e cruzamentos no qual a representação dá lugar à experimentação, à variação e ao risco dos encontros. Em há um mundo por vir? (2015), Viveiros de Castro e Débora Danowski se perguntam quem seria o demos de Gaia, “o povo que se sente reunido e convocado por essa entidade, e quem é seu inimigo” (2015:120). Para os autores, não se trata mais de buscarmos um “sujeito revolucionário”, mas seguir uma etnopolítica que suspenda a própria noção de “sujeito capaz de agir como um só povo”.

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, o seminário convida ao diálogo praticantes que tensionam as habituais fronteiras entre ciência e política, entre natureza e cultura. Nesse sentido, pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”. Partimos de investigações em que saberes e práticas emergem de corpos-como-sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias, experiências que intuem que é o movimento de abertura e composição com o acontecimento de encontros o que pode sustentar práticas de insistência na vida em interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

Habitar uma política do sintoma que não nos permite “interpretar” tendo em vista um lugar seguro do diagnóstico que contorne ou neutralize o mal-estar.. Nessa condição de precariedade de um mundo sem refúgio, a invenção de linguagens, sentidos compartilhados, infraestruturas e tecnologias de suporte à essas formas de vida é inseparável de uma prática experimental de composições de alianças e arranjos sociotécnicos que dão forma a outras individuações coletivas, a emergentes comunidades de afetados. Trata-se de escapar dos imperativos de resultado e impacto, reino da estratégia e da eficiência tecnocrática, para habitarmos um terreno de experimentações de composições sempre situadas, que funcionem como caixas de ressonância de formas de vida não-fascista.

Estes tempos nos exigem coragem, mas também uma aposta na pesquisa, na investigação coletiva, em uma ciência aberta que inclua corpos e suas marcas, saberes não autorizados pelo regime de saber-poder.

Precisamos assumir as perguntas, dar-nos esse tempo do pensar junto, experimentar, criar contra-dispositivos para uma vida não fascista.

Diante das formas renovadas de produção de desigualdades, do consórcio explícito entre forças autoritárias e as dinâmicas de expropriação da vida e do território, promotoras da crescente militarização, gentrificação, despossessão e tristeza, lançamos perguntas-vinculantes: Como reativar uma possibilidade de inteligência coletiva? Como convocar saberes e práticas coletivas que nos permitam imaginar e disseminar alternativas a esse cenário? Como produzimos e sustentamos o Comum entre todos?

Convocatória e inscrições AQUI

A oficina será ministrada pelo professor Antonio Lafuente, pesquisador no Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha. Suas pesquisas refletem sobre a relação entre tecnologia e bens comuns, propriedade intelectual em ciência cidadã, governança, conhecimento aberto, participação, democracia técnica e cultura científica. É consultor no MediaLab Prado de Madrid, Espanha. A oficina irá apresentar o marco conceitual de experiências dos denominados “laboratórios cidadãos”, bem como explorar alguns elementos práticas relativos à organização, implantação e desenvolvimento desses laboratórios.

Dia: 12 de junho, quarta-feira

Horário: 19:00hs às 22:30hs

Local: Unifesp, Guarulhos. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Estrada do Caminho Velho, 333, Pimentas, Guarulhos.

Sala da Congregação – prédio anexo

Introdução: apresentei essas notas na mesa “Tecnologias de controle, democracia e estado de exceção”, organizada na Cryptorave, no dia 3 de maio de 2019, na Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo. Ela é uma mistura dos escritos de diferentes autores (Agamben, Deleuze e Foucault) com ideias resultantes da nossa pesquisa no campo da tecnopolítica.

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Em cada época e em cada sociedade, os modos de conhecer e as tecnologias de informação e comunicação, correspondem a modos próprios de exercício do poder.

Já faz mais de 30 anos que vivemos com a Internet, e quase 50 anos que falamos em Sociedade da Informação ou Sociedade do Conhecimento. Neste período, os significados, as práticas e o ambiente da comunicação em redes digitais mudou radicalmente: de uma paisagem mais distribuída, descentralizada e diversa, caminhamos para um cenário de extrema concentração e controle.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, nos deparamos com profundas transformações nos regimes políticos e democráticos e observamos como as tecnologias digitais de comunicação tiveram um papel importante no redesenho do conflito político.

Guerra assimétrica, guerra híbrica, guerra em rede, guerra cibernética, guerra preventiva, guerra ao terror, são algumas das novas expressões com as quais nos deparamos.

Expressões diversas da racionalidade securitária.

Mas o que acontece quando os Estado e a sociedade, passam a funcionar sob o paradigma securitário, tendo a “segurança” como centro prioritário de suas ações?

Podemos ainda falar em sociedades democráticas quando a suspeita, o medo, o controle atravessam todo o tecido social, reduzindo a política ao cálculo governamental do controle dos desvios e da revolta?

Quando os cidadãos são estratificados em razão do risco que representam e fazendo das populações mais vulneráveis (negros, jovens, mulheres, gays, indíos, ativistas…) o alvo prioritário de suas ações?

Na democracia securitária (ou na democracia autoritária), os dispositivos de exceção já estão normalizados. A aplicação das medidas de exceção são mobilizadas sempre que necessário e dentro da própria ordem democrática, como mecanismos que permitiriam controlar e restabelecer a ordem ameaçada.

A definição dos riscos à segurança são estabelecidos a partir de novos conhecimentos que se produzem graças à possibilidades ampliadas de coleta massiva, análise, catalogação e classificação, identificação de padrões passados e tendenciais.

Agora, já estamos em outro mundo.

Antes o poder de governar estava interessado em produzir ordem.

Hoje, sob o paradigma da segurança, o que está em jogo é governar a desordem.

É o futuro que está em jogo.

Deslocamo-nos do modelo da repressão disciplinar, onde a força era aplicada sobre o sujeito que cometeu delitos. Adentramos o modelo de controle a céu aberto, onde a intervenção visa organizar os fluxos, os movimentos numa direção futura determinada.

Somos livres para sermos controlados.

A capacidade de modelizar e governar condutas dá-se mediante a produção de ambientes controlados dentro dos quais nos movemos livremente.

Neste cenário é importante destacar como o desenho das infraestruturas de nossa vida comum participam e produzem essas tecnologias de poder e governo.

Governar, alias, é um dos significados da raiz da palavra cibernética.

Kubernetes – arte de governar, de pilotar. O bom navegador que governa o barco é capaz de alterar continuamente o movimento da embarcação de forma a seguir o caminho projetado. Ele é capaz de lidar com as tempestades que acontecem, com as ondas inesperadas, fazer correções de rota para seguir a trajetória e o objetivo projetado.

Cibernética – ciência da comunicação e do controle em animais e máquinas, diria Norbert Wiener.

Digital é Controle (disse uma vez o coletivo Saravá).

Três dimensões que gostaria de destacar que compõe o atual cenário:

1. Ordem tecnopolítica

Nossa vida é cada vez mais organizada tecnicamente. São inúmeras as mediações técnicas que organizam nosso cotidiano.

Para além das normas sociais, leis, valores, nossa conduta (e sobretudo os efeitos de nossa conduta) são desenhados por dispositivos sociotécnicos.

Ao invés de contar com a bom senso do motorista de um carro que deveria desacelerar diante de uma escola, coloco primeiro uma lombada, e depois um radar eletrônico na via. O importante não é o sentido da ação, mas provocar o efeito desejado.

2. Tecnologias híbridas, territórios híbridos: publico-privado; estatal-corporativo

Há uma indistinção cada vez maior entre as zonas de regulação pública e privada, na medida em que estamos sobre uma pilha de camadas tecnológicas sobre diferentes regimes de propriedade e regulação.

Empresas privadas que controlam os sistemas de video-vigilancia nas cidades; dados dos cidadãos armazenados e transacionados por empresas privadas, etc.

Em alguns casos, como nos esquemas de vigilância revelados por Edward Snowden, Estado e grandes Corporações são sócias num grande negócio. Assim também parece ser o capitalismo nacional, internacional e as democracias liberais.

3. Capitalismo Informacional: capitalismo cognitivo e capitalismo de vigilância:

Com a crescente digitalização amplia-se a fronteira do codificável, do quantificável e mercantilizável. Há formas renovadas de exploração e expropriação dos valores socialmente produzidos. Se por um lado, o início da internet foi marcada pelo cultura do compartilhamento numa economia da dádiva (desmonetarizada), gradualmente, ela foi sendo colonizada pela expansão de novas formas de propriedade intelectual e tecnologias de restrição de direitos de acesso, cópia e circulação. Novos intermediários, novas concentrações, novos cercamentos e expropriações. Capitalismo de plataforma, capitalismo de vigilância, economia da atenção são algumas das expressões da tendência de mercantilização e colonizaçao da vida tecnicamente mediada.

Essas três dimensões quando combinadas a racionalidade securitária dos Estados e sociedades, dá forma à uma biopolítica cuja gênese e desenvolvimento exige novas formas de criação e resistência. Com as tecnologias digitais móveis, a Internet das coisas, os wearebles, a conectividade permanente, é a totalidade de nossas vidas que participa dessa grande máquina de produção de valor, modulação e controle.

Como construir novas linhas de fuga?

Como habitar a catástrofe e construir outros modos de vida emancipatórios e solidários?

Muito rapidamente e superficialmente, gostaria de enunciar algumas idéias e práticas que me parecem importantes e que tenho aprendido aqui na Cryptorave e com essa ampla comunidade que a sustenta. Fiz uma sintética combinação dos princípios de uma vida não-fascista do Foucault (escrita como introdução à edição americana do Anti-Édipo do Deleuze e Guattari) com novos elementos tecnopolíticos.

*ao invés de tecnologias centralizadas; apoie a descentralização e distribuição;

*ao invés da economia de visibilidade do eu; cultivar a disparição e o anonimato;

*ao invés da propriedade exclusiva; promover a posse em comum;

*evite a competição; incentive a colaboração;

*desconfie da autoridade e das demandas de unidade; prefira a multiplicidade;

*ao invés de isolamento, faça alianças inesperadas;

*ao invés de soluções abstratas e universais; criar soluções locais e situadas.

*ao invés de buscar autonomia e soberania, promova a interdepedência;

*ao invés das tecnologias da independência, promover as tecnologias de cuidado e correposponsabilidade;

*ao invés das formas puras; prefira o misturado;

*ao invés das infraestruturas corporativas; invente e apoie infraestruturas comunitárias;

*ao invés da disputa ideológica discursiva, promover a construção de arranjos pragmáticos e recursivos;

*confie, mas tenha o controle dos seus dados!

*ao invés do medo e da desesperança, aposte no amor!

*contra a necropolítica e a colonização de nossas vidas; aposte na biopotência da vida!