por Rosi Rosendo

A resposta que Langdon Winner dá à pergunta elaborada por ele no texto “Artefatos têm política?” é sim. Winner parte das reflexões de Lewis Mumford, historiador de ciência e tecnologia norte americano, que escreveu boa parte de sua obra no contexto da Guerra Fria, sob o risco iminente de uma guerra nuclear entre as grandes potências de então, Estados Unidos e União Soviética.

De acordo com Winner:

“[Há] duas formas pelas quais os artefatos podem conter propriedades políticas. Primeiro, são instâncias nas quais a invenção, projeto ou arranjo de um dispositivo técnico ou sistema específico se torna uma maneira de resolver uma questão dentre os afazeres de uma comunidade particular (…). Segundo, são casos daquilo que pode ser chamado de ‘tecnologias inerentemente políticas’: sistemas feitos pelo homem que parecem exigir ou ser fortemente compatíveis com tipos particulares de relações políticas. Argumentos sobre casos desse segundo tipo são muito mais problemáticos e mais próximos ao núcleo central do tema.” (Winner, 2013, p. 3-4).

Segundo essa definição, a bomba atômica seria um exemplo de “tecnologias inerentemente políticas”, uma vez que exigiria um ambiente social, político e econômico que permitisse absoluto controle centralizado sobre esse artefato técnico. A conclusão é que algumas tecnologias seriam mais adequadas a determinadas formas sociais e políticas, enquanto outras, do primeiro tipo descrito por Winner, seriam invenções ou adaptações de artefatos ou sistemas técnicos com o objetivo de resolver problemas observados na sociedade. No entanto, a forma como as tecnologias do cotidiano são escolhidas entre as alternativas técnicas disponíveis não estaria livre de política.

Para pensar essa questão, Winner propõe uma alternativa à dicotomia entre determinismo tecnológico (em que a sociedade é moldada por padrões técnicos) e determinação social da tecnologia (tese que sugere que as coisas técnicas não importam, e sim o sistema econômico e social no qual a tecnologia está inserida):

“A teoria de política tecnológica chama atenção ao momentum dos sistemas sociotécnicos de grande escala, à resposta da sociedade moderna a certos imperativos tecnológicos, e às formas pelas quais as finalidades humanas são poderosamente transformadas na medida em que se adaptam aos meios técnicos (…). Seu ponto de partida é uma decisão de se tomar os artefatos tecnológicos seriamente. Em vez de insistir que nós reduzamos tudo imediatamente ao jogo das forças sociais, a teoria da política tecnológica sugere que nós prestemos atenção às características dos objetos técnicos a aos significados dessas características. Um complemento necessário e não uma substituição das teorias da determinação social da tecnologia, esta abordagem identifica certas tecnologias como fenômenos políticos em si próprias.” (WINNER, 2013, p. 3).

Nesse contexto, torna-se importante conhecer a definição de política de Winner que, segundo ele, trata-se dos “arranjos de poder e autoridade nas associações humanas assim como as atividades que ocorrem dentro desses arranjos.” (Winner, 2013, p. 4). Diante disso, as mudanças tecnológicas expressam uma série de motivações humanas, incluindo o desejo de dominação de uns sobre os outros. Assim, os dispositivos tecnológicos podem ser projetados com o objetivo de produzir efeitos específicos para além dos seus usos imediatos, sendo que esses efeitos podem ser ao mesmo tempo positivos para alguns e negativos para outros no contexto capitalista, em que conhecimento científico, invenção tecnológica e lucro corporativo se retroalimentam. Nesse processo em que as sociedades escolhem tecnologias como formas de construir a ordem social, que influenciam o trabalho, a comunicação, o acesso a bens de consumo e etc., os indivíduos possuiriam diferentes graus de poder e consciência desse processo.

Lewis Mumford, nos anos 60, chamou a atenção para a coexistência de duas tecnologias paralelas, que ele chamou de tecnologias democráticas e tecnologias autoritárias. Segundo ele, as tecnologias democráticas seriam centradas nos homens, frágeis, mas duradouras, caracterizadas pela produção em pequena escala, baseada na habilidade humana, na energia animal e, quando utilizada alguma técnica, esta teria pleno domínio humano. Já as tecnologias autoritárias seriam centradas no sistema, poderosas, mas instáveis, configurando-se como invenção técnica, inovação científica e com controle político centralizado. Apesar de sua tendência destrutiva, Mumford aponta que a técnica autoritária é aceita por ter levado à criação de uma economia de abundância, permitindo a emergência de uma nova liberdade como uma versão sofisticada da antiga escravidão. Com isso, ela corresponderia ao princípio básico da democracia, de acordo com o qual cada membro da sociedade deveria ter direito a uma determinada porção dos seus produtos, mas que seriam mecanicamente dosificados, quantitativamente multiplicados e coletivamente manipulados em ampliados, ao invés de serem frutos da escolha individual.

Nesse sentido, o autor aponta que:

“Por medio de la mecanización, la automatización, y la dirección cibernética, esta técnica autoritaria ha superado finalmente su debilidad más grave: su dependencia original con respecto a unos servomecanismos resistentes, a veces activamente desobedientes, y todavía lo bastante humanos como para abrigar propósitos no siempre coincidentes con los del sistema.” (MUMFORD, 2004, p. 4).

O objetivo da técnica autoritária, então, seria transferir os atributos da vida para a máquina e o coletivo mecânico. Nesse contexto, o centro da autoridade passa de uma personalidade tangível para o próprio sistema, que seria ao mesmo tempo invisível, mas onipresente. Ou seja, o risco para a democracia não viria da técnica em si e sim do fato de que “nuestras grandes transformaciones físicas han sido efectuadas por un sistema que deliberadamente elimina toda personalidad humana, ignora el proceso histórico, abusa del papel de la inteligencia abstracta, y hace del control sobre la naturaleza física, y por último del control sobre el propio hombre, la finalidad principal de la existência” MUMFORD, 2004, p. 5).

No entanto, Mumford não nega os benefícios da tecnologia, mas aponta para a necessidade de reconhecer suas desvantagens e impactos nos indivíduos e na sociedade como um todo e, mais do que isso, para a necessidade de reconstrução da ciência e da técnica reinserindo o humano em cada etapa do processo, permitindo alternativas humanas e decisões humanas, aproximando-se de tecnologias democráticas.

Andrew Feenberg, em “Racionalização subversiva: tecnologia, poder e democracia” nos conduz a uma reflexão sobre a relação entre tecnologia e poder nas sociedades modernas e sobre a necessidade de desvendar o horizonte político-cultural no qual a tecnologia hoje hegemônica foi concebida (sob a ideia da racionalidade), desmitificar a ilusão de que algumas técnicas são inescapáveis nos dias atuais e expor a relatividade das escolhas técnicas predominantes hoje.

Assim, embora a tecnologia seja entendida por ele como fonte de poder nas sociedades modernas, na sua visão, ela teria o potencial de ser operacionalizada democraticamente. A própria ideia de “racionalização subversiva” que dá título ao texto, se configuraria como um modo alternativo de racionalizar a sociedade que poderia levar à democracia. Para Feenberg, as tecnologias específicas que se desenvolveram mais recentemente em países ocidentais não devem ser confundidas com a tecnologia em geral. De acordo com ele:

“São tecnologias de conquista que aparentam ter autonomia sem precedentes; suas origens sociais e impactos estão escondidos. (…) esse tipo de tecnologia é uma característica particular de nossa sociedade e não uma dimensão universal da “modernidade” como tal.” (FEENBERG, 2010. P. 107-8)

Em sua reflexão, Feenberg apresenta também a tese do determinismo tecnológico, segundo a qual as tecnologias teriam uma lógica funcional autônoma, que poderia ser explicada sem fazer referência à sociedade. Ao contrário, para ele, a tecnologia têm impactos sociais e, para que sejam atingidas as potencialidades democráticas da indústria capitalista moderna, temos que questionar as premissas do determinismo tecnológico, segundo as quais o progresso científico e tecnológico seria unilinear e as instituições sociais teriam que se adaptar aos imperativos tecnológicos.

Segundo Feenberg, partindo de uma sociologia construtivista, “as teorias e as tecnologias não são determinadas ou fixadas a partir de critérios científicos e técnicos. Concretamente, isso significa duas coisas: em primeiro lugar, geralmente há diversas soluções possíveis para um determinado problema e que os atores sociais fazem a escolha final entre um grupo de opções tecnicamente viáveis e, em segundo, a definição do problema muda frequentemente durante o curso de sua solução.” (FEENBERG, 2010. p. 109). Nesse sentido, a pesquisa sobre tecnologia deveria considerar, além dessas premissas, que o desenvolvimento tecnológico não determina a sociedade, mas é determinado por fatores técnicos e sociais e que a tecnologia é um campo de disputa entre diferentes visões de civilização. Ou seja, a tecnologia não é um mero meio para se chegar a um fim. Ao contrário, ela define as partes principais do ambiente social e satisfaz as necessidades de uma hegemonia particular, sendo que é contra essa hegemonia que se deve lutar e não contra a tecnologia em si.

Trazer as reflexões dos três autores para os dias atuais, no contexto da pandemia no Brasil, permite que se lance luz sobre a forma de enfrentamento dos impactos dessa situação, considerando as evidências sobre o acesso e o uso das tecnologias da informação pela população brasileira. Em um contexto em que cerca de um terço dos domicílios não estão conectados à Internet, e em que 58% da população usuária de Internet a utiliza exclusivamente pelo telefone celular (portanto, sendo a maior parte submetida às práticas comerciais de zero-rating empregadas pelas operadoras de telefonia celular brasileiras, que limitam o acesso a redes sociais e aplicativos de comunicação), o fato do acesso ao Auxílio Emergencial estar sendo mediado por ferramentas digitais (website e aplicativo de celular) é bom para se pensar no poder por trás dos artefatos técnicos e no uso político das tecnologias, levando à exclusão justamente da população mais vulnerável, que deveria ser foco dessas políticas.

Bibliografia

  • FEENBERG, Andrew. Racionalização Subversiva: Tecnologia, Poder e Democracia. In: A Teoria Crítica da Tecnologia de Feenberg, 2010, p.105-128
  • WINNER, Langdon. Artefatos têm Política? (tradução Fernando Manso). “Do artifacts have politics?” In: The Whale and the Reactor: a search for limits in an Age of High Technology. Chicago: The University of Chicago Press, 2013, p.19-39.
  • MUMFORD, Lewis. Tecnicas Autoritarias y Democracias. Ciencia, Tecnología y Sustentabilidad. El Escorial, julio 2004 [1964].

por: Eduardo Marangoni Canesin

A tecnologia (com suas técnicas e objetos técnicos) não é má nem boa, pois avaliá-la desse modo seria uma simplificação binária, que perde muito da complexidade imanente à discussão. De igual modo, não podemos dizer que seja neutra (já que ela não é), para não cairmos em outra simplificação binária: em vez do binarismo bom-mau, cairíamos no binarismo valor-neutralidade. Seria dar um passo para trás e se afastar do primeiro binarismo, mas ainda estaríamos presos em uma visão dicotômica. Interpretar o tema em toda sua complexidade exige um distanciamento maior em relação a essas visões.

Devemos ter em vista, antes de mais nada, que a tecnologia (ou “tecnologias”, no plural) surge(m) em um contexto social, criada(s) a partir das necessidades e escolhas desse contexto. Dito de outro modo, o surgimento da tecnologia não é algo determinista, isto é, seguindo uma evolução linear e única à qual só caberia aos indivíduos e à sociedade se adaptar. Uma vez surgida em sua manifestação específica, por sua vez, não devemos aceitar uma ideia de distopismo tecnológico, como se nada pudesse ser feito para alterar seu sentido.

Aliás, vale ter em vista que o próprio capitalismo aparece eivado, muitas vezes, dessa característica determinista ou distópica: é o fim da história, o desenvolvimento ao qual a civilização chegaria e não há nada para além dele. Sintomático disso, como apresenta Silvia Viana em seu Rituais de Sofrimento, é o fato de que, nas produções da Indústria Cultural, é muito mais fácil vermos um contexto pós-apocalíptico no qual as mesmas dinâmicas predatórias do capitalismo se perpetuam do que uma realidade de superação do capital.

Além dessa dimensão contextual que é tantas vezes negligenciada, salta aos olhos que os próprios objetos técnicos podem ter usos inerentes a si, exigindo uma determinada aplicação (como mostra Winner). Seria uma técnica autoritária, segundo a clássica definição de Mumford, que elimina a personalidade humana, ignora o processo histórico, abusa do papel da inteligência abstrata e faz da finalidade de sua existência o controle sobre a natureza física e, por último, do próprio homem.

Esses usos inerentes ao objeto, todavia, não invalidam a dimensão do contexto: foi o contexto social e político que permitiu sua existência e é ele que permite sua continuidade, em vez das alternativas e outras opções que poderiam ser pensadas – e pensadas segundo uma lógica e processo político, já que a dimensão da técnica não está apartada do resto da sociedade.

Tendo isso em vista e levando em consideração onde estamos enquanto sociedade – no meio de uma pandemia, com o meio-ambiente sendo destruído incessantemente e com o mundo do trabalho cada vez mais automatizado (fazendo com que tantos fiquem sem emprego e sem amparo social), cabe-nos a indagação suscitada por Rob Wallace: como foi possível que tenhamos deixado a situação chegar a esse ponto?

Seria possível que a pulsão de morte tenha levado tantos e tantos a agir em prol de uma necropolítica negacionista e que valoriza o tecnológico em detrimento do humano em busca do lucro absoluto, ao mesmo tempo que leva outros à apatia? Ou estaria em jogo um mecanismo de denegação que faz com que não consigamos perceber a gravidade das coisas, sua causalidade ou a agência que poderíamos ter?

Uma possível explicação para estarmos onde estamos alinha uma constatação de Feenberg com um diagnóstico de Mumford: em primeiro lugar, os líderes dos sistemas técnicos (militares, industriais, engenheiros etc.) possuem mais poder nas sociedades modernas do que a maioria dos indivíduos unidos, já que “a tecnologia é uma das maiores fontes de poder nas sociedades modernas”. Assim, o desenvolvimento tecnológico seguiria uma trilha voltada para a dominação e acumulação por conta dos direcionamentos dados por esses atores.

A aceitação (ou resignação) popular ante tal percurso de desenvolvimento se deve a um “suborno”, o do acesso a bens materiais e serviços produzidos por esse sistema, no qual uma aparente abundância serve como justificativa para ratificar o pacto autoritário que rege o uso atual da técnica – ainda que essa abundância exija que se aceite aquilo que é oferecido, na quantidade que é oferecido, segundo sua homogeneização e nivelação.

Entender como as coisas são não significa, contudo, ter de aceitá-las como inevitáveis – do contrário, cairíamos uma vez mais ou no determinismo ou no distopismo tecnológico. Uma possível resposta para o problema seria a racionalização subversiva de que nos fala Feenberg. Nela, há a rejeição da dicotomia entre a racionalidade que leva inevitavelmente à jaula de ferro da burocracia weberiana e a irracionalidade que se poderia travestir de um reencantamento do mundo.

Com efeito, a racionalização subversiva pressupõe que se opor à atual conjuntura do desenvolvimento tecnológico não implica ter de viver nas cavernas ou no campo, como um Walden pós-industrrial: significa buscar uma nova sociedade tecnológica, que pode apoiar outros valores que não o lucro e a dominação (como a liberdade ou individualidade). Basicamente, significa democratizar a tecnologia, permitindo a participação e a responsabilidade da ação.

É evidente que não temos condições de dizer como se daria essa democratização da tecnologia e racionalidade subversiva (por falta de espaço e, sobretudo, capacidade para tanto), mas nosso objetivo aqui é outro: pretendemos mostrar que há alternativas para o desenvolvimento tecnológico que levem em conta o humano e o ambiente. Mesmo na solução de demandas, sempre é possível pensar em mais de uma saída, desde que não partamos do princípio que nossa bússola só possui o norte do lucro e da dominação.

Justamente por haver alternativas a indagação de Rob Wallace faz sentido: se estivéssemos presos em um determinismo tecnológico, não teríamos deixado a situação chegar onde chegou, apenas teríamos sido conduzidos ao único caminho a ser percorrido. Como há alternativas, somos todos partícipes de nosso destino enquanto espécie e do destino do planeta, não só receptores dos desfechos vindos de uma outra esfera, superior a nós.

A criação de uma nova esfera pública, de que nos fala Feenberg, que internalize custos não contabilizados, é um passo nesse caminho que envolve a participação dos indivíduos, a tomada de posições e a democratização não apenas do acesso, mas das decisões. Se, segundo Habermas, a esfera pública é o espaço em que o público discute mediante razões, que o seja segundo razões subversivas. Precisamos disso.

Referências:

FEENBERG, Andrew. (Cap.2) Racionalização Subversiva: Tecnologia, Poder e Democracia (p.105-128). In. A Teoria Crítica da Tecnologia de Feenberg. http://extensao.milharal.org/files/2013/06/Andrew-Feenberg-Livro-Coletanea.pdf

HABERMAS, Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: Editora da Unesp, 2014

MUMFORD, Lewis. Tecnicas Autoritarias y Democracias. Ciencia, Tecnología y Sustentabilidad. El Escorial, julio 2004 [1964]. Disponivel em: https://sociotecnica.files.wordpress.com/2013/09/dc05.pdf

VIANA, Silvia. Rituais de Sofrimento. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013

WALLACE, Rob. Planeta fazenda. Le Monde Diplomatique Brasil. <https://diplomatique.org.br/planeta-fazenda/> Acesso em: 11 de fevereiro de 2021.

WINNER, Langdon. Artefatos têm Política? (tradução Fernando Manso). “Do artifacts have politics?” In. The Whale and the Reactor: a search for limits in an Age of High Technology. Chicago: The University of Chicago Press, p.19-39. <http://pimentalab.milharal.org/files/2013/11/Langdon-Winner-Artefatos-tem-Politica.pdf>.

por Henrique Parra

A Pandemia Covid19 provoca um corte radical em nosso cotidiano. Nessa situação de brusca interrupção das rotinas e diante das novas demandas de organização da vida, deparamo-nos com muitas coisas, habitos e dispositivos que estavam naturalizados e invisibilizados em nosso cotidiano. Por lado, vive-se uma tremenda dificuldade em se realizar algumas tarefas e ao mesmo existem novas rotinas que se instalaram com rapida velocidade e força de adaptação. Em ambas direções, interessa-nos evidenciar e problematizar a maneira como os arranjos tecnológicos participam dessas reconfigurações, e como a pandemia contribui para desnaturalizar a presença e o modos de funcionamento de algumas mediações tecnológicas em nossa vida.

Sinteticamente, o objetivo dessa aula é que possamos ter contato com algumas abordagens e conceitos sobre o fenômeno tecnológico de maneira a ampliar nosso repertório de análise dos problemas/temas com os quais estamos envolvidos. Como reconhecer os aspectos sociais, antropológicos e politicos dos modos de composição técnica? Como incorporar em nosso análise a agência dos objetos, artefatos, técnicas? Em suma, como pensar com a técnica/tecnologia e superarmos os habituais dualismos cultura-técnica, humano-não-humano.

Destacarei alguns pontos relevantes para a discussão:

*Dimensão contextual, situada e histórica de cada tecnologia, portanto como evitar generalizações, universalizações ou mesmo o essencialismo tecnológico. Falar de tecnologia é sempre falar de alguma tecnologia específica com uma história de desenvolvimento técnico situado, o resultado das configurações de um campo de forças sociais, mas também como portadora de indeterminações e significações.

*Abordagens e situações tecnodeterministas, quando é atribuída a uma tecnologia o poder de orientar ou inscrever valores, sentidos e racionalidades específicas no mundo social.

*Abordagens construtivistas, onde a tecnologia é analisada como o efeito de escolhas e disputas sociopolíticas e culturais entre distintos atores que moldam o desenho e o funcionamento técnico.

*Abordagens que destacam a imanência política de alguns artefatos e tecnologias, cujo desenho, função e efeitos são indissociáveis da distribuição assimétrica de poder e recursos na sociedade.

*Abordagens híbridas que fornecem recursos teóricos para a combinação de distintas perspectivas, conforme a característica e situação do fenômeno tecnológico.

Seguindo a investigação aberta em nosso ultimo encontro, há duas perguntas lançadas por Rob Wallace – Pandemia e Agronegócio – que nos conectam diretamente com os problemas centrais dos textos da aula dessa semana:

  1. Como foi possível que tenhamos deixado a coisa toda chegar nesse ponto? Como não percebemos a construção desse intrincado arranjo sociotécnico que conecta o que colocamos em nossas mesas pra comer com o capitalismo financeirizado e o sistema transnacional de produção de alimentos, responsáveis pela criação de condições favoráveis ao desenvolvimento de patógenos com potencial pandêmico?
  2. Como podemos sair desse problema e por que é tão difícil transformar essa longa cadeia produtiva, as formas de consumo alimentar e as diversas tecnologias adotadas nessa produção?

A essas duas perguntas, poderíamos adicionar uma terceira:

  1. Como explicar que esse modelo de produção alimentar seja adotado por tantos países e governos de diferentes culturas, e seja promovido por partidos de campos ideológicos distintos? Por que afinal o agronegócio se apresenta como a forma tecnológica “mais eficiente” de se produzir alimentos?

Evidentemente, não pretendemos responder ou examinar todas as dimensões envolvidas essas perguntas. Tampouco vamos tratar de problemas específicos relacionados ao agronegócio. Mas elas servem de disparadoras da nossa reflexão sobre aspectos sociotécnicos do nosso modo de vida que se evidenciaram com a Pandemia Covid19. Assim, partimos do “problema tecnológico” presente na discussão sobre Agronegócio e Pandemia, para transborda-lo para outras dimensões da vida social e também dos problemas e temas de investigação de cada participante do curso.

O problema de fundo interroga a relação entre as condições de desenvolvimento tecnológico, uso e os efeitos da mediação tecnológica nos diversos campos da vida e as condições de organização da vida social e política. Todos os 3 autores indicados para a aula de hoje apontam para as tensões entre a qualidade da vida democrática e o crescente domínio de tecnologias cujo modo de funcionamento são promotoras de formas específicas de organização sociopolítica.

Feenberg desenvolve uma teoria crítica da tecnologia (também denominada Construtivismo Crítico) para investigar a formação social e histórica do Tecnosistema e a da Tecnocracia. Sua análise do fenômeno tecnológico mistura aspectos da teoria crítica da escola de Frankfurt, abordagens do campo do STS (estudos sociais da ciência e tecnologia) e da ANT, com abordagens teóricas inspiradas em 3 linhagens: Marx, Foucault e Simondon.

Diante do acontecimento pandêmico confrontamo-nos, por exemplo, com a dificuldade de modificar algumas rotinas que estão construidas numa relação de forte determinação de alguns arranjos sociotécnicos: basta pensar na maneira como o funcionamento de nossas casas, as escolas e o enredamento da educação com o funcionamento de nossas rotinas, o cuidado de pessoas próximas, as formas de organização do trabalho, nosso acesso a bens de consumo e serviços, os sistemas de saúde, as tecnologias de comunicação, etc. Qual nossa agência e capacidade de mudança sobre alguns desses arranjos? Como eles moldam as condições de nossa existência?

A forma de distribuição desigual do poder e da agência humana nas composições construídas junto a esses grandes arranjos se materializa como expressão da Tecnocracia. Ela resulta de uma seleção sistemática e de longa duração de alternativas tecnológicas que favorecem um controle hierarquico. A tese tecnocrática é apresentada por Feenberg como o crescente expansão e uso da delegação técnica para consolidar e legitimar um sistema de expansão do controle hierarquico.

Não é difícil compreender que as escolhas tecnológicas (no agronegócio, na industria, na comunicação…) refletem o resultado de um campo de forças políticas. Aqueles com maior poder farão escolhas tecnológicas que favorecem determinadas configurações de mundo. Mas “a tecnologia não é somente a criação de algum propósito social pré-definido; ela é um ambiente dentro do qual um modo de vida é elaborado.”

O desenho das máquinas, ou a maneira como o Código Técnico é definido, reflete os fatores sociais operantes em uma racionalidade predominante. Biossegurança, protocolos, indicadores…a definição do que é eficiência, do que é segurança, são todos elementos que resultam de processos de racionalização dentro de domínios específicos. Mas, como os autores problematizam, o que está em questão é exatamente as definições e os apagamentos de quais são os sentidos de eficiência e racionalidade em operação.

A constitução desse pano de fundo que define de maneira “natural” os critérios que estabelecem o que é “ser eficiente” ou “ser racional” dá forma ao que Feenberg denomina hegemonia de um horizonte tecnológico.

Para Feenberg, a hegemonia refere-se a uma “forma de dominação tão profundamente arraigada na vida social que parece natural a esses a quem domina”; o horizonte tecnológico “se refere a suposições genéricas e culturais que formam um pano de fundo inquestionado para qualquer aspecto da vida”. A tecnologia, uma vez introduzida, “oferece uma validação material do horizonte cultural para o qual foi pré-formada.[…] A racionalidade funcional aparentemente neutra alinhada está em defesa de uma hegemonia.

Nessa direção, as formas de exercício do poder, convergem com a análise proposta por Foucault: “as formas modernas de opressão não estão tão baseadas em falsas ideologias quanto em técnicas efetivas “codificadas’ pela hegemonia dominante para reproduzir o sistema. Enquanto a escolha permanece escondida, a imagem determinística de uma ordem social justificada tecnicamente se projeta. A efetividade legitimadora da tecnologia depende da inconsciência do horizonte político-cultural em que ela foi concebida”.

Podemos assim, pensar o desenvolvimento tecnológico como formas de produção de mundos. Por isso, toda tecnologia reflete também uma cosmotécnica e uma cosmopolítica. Nesse sentido, a tecnologia não é algo externo à sociedade, sobre a qual ela impacta. Podemos então pensa-las como formas de vida.

Nos dizeres de Langdon Winner:

“As coisas que nós chamamos tecnologias são formas de construir ordem em nosso mundo. Muitos dispositivos ou sistemas técnicos importantes na vida quotidiana contém diversas possibilidades de ordenar a atividade humana. Conscientemente ou inconscientemente, deliberadamente ou inadvertidamente, as sociedades escolhem tecnologias que influenciam, por um longo tempo, como as pessoas vão trabalhar, se comunicar, viajar, consumir, e assim por diante.
No processo pelo qual as decisões estruturantes são feitas, diferentes pessoas estão diferentemente situadas e possuem diferentes graus de poder assim como diferentes níveis de consciência.
De longe, a maior latitude de escolha existe no primeiro momento em que uma técnica, sistema ou instrumento particular é introduzido. Uma vez que os compromissos iniciais são assumidos, as escolhas tendem a se tornar fortemente fixadas no equipamento material, no investimento econômico e no hábito social, e assim, a flexibilidade original desaparece para qualquer propósito prático. Neste sentido, inovações tecnológicas são similares a atos legislativos ou ações políticas básicas que estabelecem uma estrutura de ordem pública que pode durar por muitas gerações. Por esta razão, a mesma atenção cuidadosa que é dada às regras, papéis e relações da política devem também ser dadas a coisas tais como a construção de rodovias, a criação de redes de televisão, e a customização de aspectos aparentemente insignificantes em novas máquinas. As questões que dividem ou juntam pessoas na sociedade são resolvidas não apenas nas instituições e práticas da política como tal, mas também, e menos obviamente, em arranjos tangíveis de aço e concreto, fios e semi-condutores, porcas e parafusos.”

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Notas da aula 3 – Tecnosistema: tecnologia e política

Os textos e demais referências utilizadas estão disponíveis neste link: https://pt.wikiversity.org/wiki/Tecnopol%C3%ADticas:_ci%C3%AAncia_e_tecnologia_na_constru%C3%A7%C3%A3o_de_mundos#Aula_3:_6_de_abril:_Tecnosistema:_tecnologia_e_pol%C3%ADtica

Durante o curso, pretendemos compartilhar pequenos ensaios escritos pelos participantes. O curso segue aberto à participação de ouvintes.

Pandemia e Tecnopolíticas

Henrique Parra

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Talvez, uma forma de pensarmos e investigarmos a Pandemia que nos atravessa, seja conseguir habita-lo sob uma dupla condição aparentemente paradoxal: 1. Numa dimensão, reconhece-la como um evento não acidental; 2. E ao mesmo tempo, aborda-la como um acontecimento histórico, algo que irrompe de forma inesperada a cadeia explicativa dos fatos e dos fluxos estabelecidos.

Entre essas duas dimensões, está em jogo a posibilidade de constituir um nova arena política, onde o próprio sentido da política possa ser redefinido.

O trabalho do Rob Wallace é rigoroso no sentido de demonstrar como a emergẽncia de patôgenos potencialmente epidêmicos é o resultado esperado e contabilizado dentro do funcionamento deste grande arranjo economico-ecologico-geopolítico-científico. Não há surpresas. Há trechos do livro que descrevem exatamente o que estava por vir. Como afinal pudemos deixar que essa situação se instalasse naturalmente como uma possibilidade? De uma perspectiva ainda antropocêntrica, só podemos constatar nosso fracasso coletivo como espécie.
É como que se sabendo que caminhávamos para uma catástrofe, seguimos a rota sob um espírito de inevitalibidade.

“Ao longo do caminho, contudo, há revelações, algumas mais parecidas com armadilhas que com epifanias. Aprendemos que a história é, ao mesmo tempo, contingente e inesperadamente cumulativa — a merda se junta em uma pilha crescente —, mesmo que os caminhos que levam à convergência de determinadas circunstâncias nem sempre sejam claros (Wallace &Bergmann, 2010). Por exemplo: como o agronegócio se tornou tão poderoso e
assumiu essa forma?”

Se tomamos a pandemia enquanto um acontecimento histórico, ela seria um evento resultante mas também expressão de algum grau de indeterminação, de imprevisibilidade, de abertura. Há algo de irreversível na experiência pandêmica. É como um acidente nuclear, não é possível fazer de conta de ele não aconteceu.

Talvez essa irrevesibilidade seja um dos sintomas de que estamos diante de um acontecimento. Nessa perspectiva, o acontecimento é potencialmente portador de deslocamentos na experiência individual e coletiva, de forma que novos sentidos podem emergir através dessa experiência.

Coletivo Chuang: “o surto apresenta duas oportunidades de reflexão: primeiro, é uma abertura instrutiva na qual podemos revisar questões substanciais sobre como a produção capitalista se relaciona com o mundo não humano em um nível mais fundamental – como, em resumo, o “mundo natural ”, incluindo seus substratos microbiológicos, não pode ser entendido sem referência a como a sociedade organiza a sua produção (porque os dois não são, de fato, separados). Ao mesmo tempo, é um lembrete de que o único comunismo que merece esse nome é aquele que inclui o potencial de um naturalismo totalmente politizado.”

Todavia, há todo um jogo de forças para domesticar o acontecimento; inscreve-lo numa ordem explicativa dos fatos e assim, submete-lo a modelos interpretativos que procuram estabilizar os sentidos da experiência pandêmica dentro da ordem “normal” dos fatos. É isso a que chamam de o “novo normal”.

Aqui, o evento pandêmico, suas causas e seus efeitos, manifestam-se como um acidente imprevisível, e portanto ninguém é responsável pelos seus efeitos (intensamente desiguais). Um evento acidental, um pequeno desvio no curso inexorável do capitalismo. Essa narrativa é tão forte que ela é capaz de dar consistência a uma “partilha sensivel” do mundo, uma configuração política entre os modos de pertencimento e de fabricação do mundo, onde se elabora uma divisão que organiza o conflito político entre os defensores da economia e os defensores da vida.

É nesse terreno que a narrativa neoliberal (o empresariamento de si, aa competiçao de todos contra todos,etc) ressoa junto àqueles cuja existência cotidiana está profundamente marcada pela experiência de que não há alternativa, onde a possibilidade de parar não é uma possiblidade, onde a possibilidade de mudar de vida não faz parte do horizonte de expectativas.

Por isso, o argumento de Wallace é fundamental, pois ele permite descontruir a narrativa do “acidente”, do inesperado, mas ao mesmo tempo nos fornece elementos teóricos e políticos para manter o Acontecimento em aberto. Ou seja, ele explica o funcionamento do mundo que produz o covid19 e que faz dele uma pandemia, sem abrir mão da dimensão política e epistêmica daquilo que produz cada fato.
O que percebemos, sentimos e interpretamos como o real e verdadeiro também é fruto de um longa arranjo.

Wallace não situa sua investigação no terreno dos problemas ontológicos. Nesse sentido, ele segue bem aterrado no campo das disputas disciplinares, revelando a todo momento as insuficiências da maneira como a pesquisa e as universidades estão hoje organizadas. Nossos saberes disciplinares, nossas instituições científicas e suas formas de financiamento, já não são capazes de responder à complexidade dos problemas que exigem a implosão dos antigos divisores entre ciencias humanas, naturais, tecnológicas.

“Os paradigmas competem e, ao investirem em uma narrativa — talvez por causa de seus benefícios políticos, comerciais ou institucionais —, deixam outras explicações de lado. Algumas das perguntas mais básicas sobre a natureza da gripe aviária parecem perdidas na nevasca de micrografias, alinhamentos de sequências, estruturas de soluções terciárias, modelos sir [usados para prever a evolução de epidemias], cartogramas antigênicos e dendrogramas filogenéticos. Qual o contexto maior do vírus?” Wallace.

Essa talvez seja a luta e o desafio em que estamos implicados quando realizamos pesquisas que de alguma forma podem ferir o poder. Além desse necessário transbordamento disciplinar, parece necessário uma operação poética (estética) de forma a transformar nossa capacidade de sentir, perceber e enunciar os problemas.

Há uma frase – argumento/hipótese – que se repete algumas vezes nos diferentes textos deste livro: “Nossas deficiências epistemológicas e epidemiológicas podem, afinal, ser uma só” (WALLACE, 2020: 126).

Portanto, a questão das evidências, dos dados e fatos, dependem de todo um regime de enunciação, de uma regime do sensível.

Retomando aquelas duas dimensões enunciadas mais acima: como habitar a pandemia nessa dupla articulação: a recusa de sua normalização como algo inesperado, um acidente; e sua expressão enquanto Acontecimento histórico.
Gostaria de formular essa problema da seguinte maneira (vou usar aqui algumas linhas de um texto que Alana Moraes e eu estamos escrevendo – esse parágrafo foi ela quem fez):

“Como fazer da catástrofe a evidência de um conjunto intencional e previsto pelas forças de extração (do Comum, do trabalho, da vida, da terra, dos bens coletivos…) operadas pelo agronegócio e pela mineração das quais, muitas vezes, o “interesse nacional no progresso” e a “inovação científica e tecnológica” são cúmplices? E como fazer da evidência do colapso um fato capaz de alterar os rumos das decisões políticas e mesmo do que se entende como “política”?”

Dito de outra forma, a criação dessa evidência vem nos exigindo uma ação de invenção de novas composições de mundos, simultaneamente ontológica, epistêmica e política.

“A evidência não é, desde logo, uma questão de lógica, de raciocínio. É do domínio do sensível, do domínio dos mundos” (COMITÊ INVISÍVEL, 2020, s/p).

A produção de conhecimento e os laboratórios tornam-se, cada vez mais, campos de batalha epistêmica, política e também sensível podendo também possibilitar a experimentação de alianças multiespécies como prática de conhecimento e condição política da existência.

Deslocar a perspectiva privilegiada da agência humana na produção de mundos nos exige também novos desenhos de investigações coletivas.

Lendo os artigos do Wallace acho incrível como diversos elementos para além-do-humano estão articulados aos processos socioculturais e geopolíticos. Por isso, dizer que não estamos vivendo uma Pandemia, mas sim uma SINDEMIA é uma provocação política interessante, pois permite ampliarmos o entendimento sobre o fenômenos pandêmico.

(Santiago Alba Rico – filosofo espanhol)
La sindemia es una pandemia en la que los factores biológicos, económicos y sociales se entreveran de tal modo que hacen imposible una solución parcial o especializada y menos mágica y definitiva.

Dice Wallace; los nuevos virus han sido creados, por supuesto, en un laboratorio, pero solo en el sentido de que el capitalismo ha convertido la naturaleza misma en un laboratorio vivo, en permanente ebullición patológica, incontrolable incluso para sus gestores y beneficiarios. Wallace dice: “Al hacer capitalista a la naturaleza se hace que el capitalismo sea algo natural”, y ello de tal manera que “las disparidades en nuestra salud surgen de nuestros genes o de nuestras entrañas, no de los sistema de apartheid”.

Pensando na insuficiência dessa perspectiva privilegiada da agência humana, Santiago observa:
“La voluntad podría, sí, desmontar la máquina, pero la máquina se mueve ya al margen de nuestra voluntad”.

Talvez esse seja o nosso maior assombro: nossa incapacidade de fazer parar! Latour, num texto dos primeiros meses da pandemia falava dessa oportunidade de paragem, dessa interrupção forçada dos fluxos. Porém, o poderes fáticos cancelaram o parlamento dos humanos e não-humanos e estão ai para afirmar que nada pode parar.

Pensando naquela dupla articulação, a recusa da normalização da Pandemia como um acidente; e a luta pela manutenção da abertura do Acontecimento pandêmico, imaginamos uma investigação com Pandemia, como aquela situaçao em que colocamos um espelho diante do outro. A ótica chama esse resultado de “imagens em abismo”. Ora, se muitos dizem que a Pandemia é como um espelho que nos mostra e joga em nossa cara como somos, como vivemos, como é o funcionamento de nossa sociedade (capitalista, patriarcal, racista, ecocida, necropolítico…) de forma muita evidente, ela o faz também na forma de um abismo que se abre ao infinito, imagens fractais que vão se esfumaçando e perdendo a nitidez a medida que vão ficando mais distantes.

Assim, talvez um movimento que possamos fazer aqui seja interrogarmos como a pandemia nos ajuda a compreender, a sentir com maior pluralidade a reverberação dos enredamentos, as interdependências, as codeterminações que constituem os problemas com que estamos implicados. A pandemia como um intensificador do pensamento e da criação das urgências de luta e existência.

Se a pandemia covid19 é o resultado das políticas de simplificação ecológica, a monocultura tecnoexistencial e extrativista do plantationceno, como praticar outros saberes que não bebam do mesmo veneno do excepcionalismo antropocêntrico?

A questão não é tanto saber se a pandemia cria novos arranjos de poder ou se ela apenas confirma e intensifica as relações de poder, os modos de conhecer, as formas de exploração do trabalho que já estavam constituídas. Não é suficiente dizermos que a “culpa é do capitalismo”.

Se partimos da perspectiva do Acontecimento as disputas sobre a experiência Pandẽmica já são parte dos conflitos sobre a criação de mundos por vir (seja da reprodução do mesmo ou da criação arranjos inesperados).
Como podemos retomar uma capacidade imaginativa, uma capacidade de perceber, analisar e agir coletivamente diante desses mundos que estão sendo construídos nesse momento com a Pandemia?

O que o acontecimento Pandêmico dá a ver?

Vejamos um pouco das imagens e textos que foram selecionadas para este encontro. Podemos começar a organizar uma breve cartografia coletiva de como a pandemia se entrelaço com aspectos tecnopolíticos e como isso toca, de alguma forma o tema/objeto de pesquisa de cada participante do curso: https://miro.com/app/board/o9J_leDLvYk=/

 

***

Notas da aula 2 – Pandemia e Capitalismo

Os textos e demais referências utilizadas estão disponíveis neste link: https://pt.wikiversity.org/wiki/Tecnopol%C3%ADticas:_ci%C3%AAncia_e_tecnologia_na_constru%C3%A7%C3%A3o_de_mundos#Aula_2:_30_de_mar%C3%A7o:_Pandemia_e_Capitalismo

Durante o curso, pretendemos compartilhar pequenos ensaios escritos pelos participantes. O curso segue aberto à participação de ouvintes.

fonte: https://weheartit.com/entry/51660270

Em 23 de março iniciaremos o curso Tecnopolíticas: ciência e tecnologia na construção de mundos, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp. Essa edição nasce de uma nova dobra provocada pelo acontecimento pandêmico sobre as investigações que realizamos no Pimentalab. Incorporamos também no percurso atual da disciplina, questões que emergiram durante o experimento coletivo Zona de Contágio, projeto de pesquisa-extensão realizado durante o ano de 2020.

Partimos de duas constatações que se tornaram muito visíveis durante a experiência da pandemia:

(a) vivemos em ambientes extremamente organizados pelo desenho de grandes arranjos sociotécnicos, cujo modo de funcionamento possui forte agência sobre nossos modos de vida. Basta pensar em nossas cidades, em nossa dependência das infraestruturas de comunicação, nas redes de distribuição e fornecimento de bens e serviços básicos, nos modos de organização do trabalho etc.

(b) o regime tecnocientífico e o desenvolvimento tecnológico, gestado e promovido nas alianças entre grandes corporações privadas e os Estados nacionais, são sócios e parte do problema que hoje enfrentamos (crise ambiental, covid-19, as muitas formas de reprodução do colonialismo, racismo e desigualdades intensificadas por certos arranjos tecnopolíticos extrativistas).

Disso decorre uma hipótese grave: talvez não possamos resolver um problema com os mesmos recursos que produzem o problema.

Quais seriam então os desenhos possíveis de outros modos de conhecer e das tecnologias necessárias que possam apontar para rotas de fuga do capitaloceno-plantationoceno e das formas renovadas de dominação e extração?

Quais os modos de composição possíveis entre formas de vida e arranjos tecnológicos? Criação de novas tecnologias, subversão do código técnico, reapropriações tecnológicas? Quais as armadilhas?

Quais as possibilidades e limites de ressignificação de tecnologias cujo modo de funcionamento contrabandeia racionalidades e normatividades capitalistas, coloniais, sexistas, racistas?

Como acompanhar e fortalecer a tecnodiversidade reivindicada por coletividades que interrogam a monocultura tecnocientífica?

Se cada forma de vida é indissociável da produção de infraestruturas que sustentam um mundo comum, parece então urgente investigar a hiṕotese de uma multiplicidade cosmotécnica como possível rota de fuga da catástrofe atual.

Mais informações: Tecnopolíticas: ciência e tecnologia na construção de mundos

 

Para ouvir: https://open.spotify.com/show/6tntHe62CG0TFmoLsLV8kw

A Rádio Terrana é um podcast do Pimentalab da Unifesp e do coletivo Tramadora,  um programa sobre ciências terranas, tecnopolíticas e experimentações em tempos de catástrofes. Encruzilhadas sonoras entre práticas científicas, ações de retomada e lutas pelo Comum.


São Histórias de experimentações que nos convocam a pensar juntas sobre possíveis futuros de transição societal. O podcast ensaia diálogos com ativistas/lutadoras implicadas com problemas concretos em práticas políticas, territórios, corpos e pensamentos de retomada e também com cientistas/pesquisadores que realizam deslocamentos nos modos de produção de conhecimento, conectados com as urgências impostas pelo antropoceno.


Sobre o  episódio:
Conversamos com Jerá Guarani, liderança Guarani Mbya da aldeia Kalepity, nas Terras Indígenas Tenondé Porã,  em Parelheiros, extremo sul da cidade Sao paulo; e com Lucas Keese, que é pesquisador, antropólogo, mas que há muito tempo é parceiro da luta Guarani, ajudando a articular ações no território, tecendo encontros e lutas. Vamos falar um pouco sobre os limites das formas de produção de conhecimento em nossas escolas e universidades a partir de uma perspectiva terrana que vem sendo elaborada e cultivada no território guarani mbya.
Como a luta e os modos de existência guarani interpelam o colapso civilizacional produzido pelo mundo dos brancos? Há mundos por vir?

 

Ficha Técnica:

Equipe Pimentalab e Tramadora: Alana Moraes  Bru PereiraGustavo LemosHenrique ParraJessica Paifer
Entrevistados: Jera Guarani, Lucas Keese
Edição, mixagem, e trilha sonora: Gustavo Lemos
Produção:Pimentalab (Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento, UNIFESP): https://www.pimentalab.net Coletivo Tramadora: https://www.tramadora.net
Apoio:Rede Lavits (Latinoamericana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e Fundação Ford: https://www.lavits.org

 

Músicas:

Abertura: Gustavo LemosKatú – Aguyjevete: https://www.youtube.com/watch?v=M4czt2327vAKunumi MC – xondaro Ka’aguy Reguá: https://www.youtube.com/watch?v=cT7ZXxAMetY Memória Viva Guarani – Nande Reko Arandu – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4Memória Viva Guarani – Ñande Arandu Pygua – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4

O grupo de pesquisa Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento realiza encontros quinzenais de estudos e discussões. As reuniões são abertas a todxs. É só chegar. Para mais informações escreva um email para: henrique arroba pimentalab.net

Nos reunimos às quintas–feiras as 19hs. Link pra sala será sempre atualizado e postado https://encontro.lavits.org/pimentalab

Os textos e a agenda desses encontros é sempre atualizada por aqui e na nossa página do Facebook: https://www.facebook.com/pimentalab/

Cronograma:

17/09: Manifesto Nooscopio – Inteligência Artifical e Extrativismo do Conhecimento: http://lavits.org/o-manifesto-nooscopio-inteligencia-artificial-como-instrumento-de-extrativismo-do-conhecimento/?lang=pt

01/10: A Hipótese Cibernética – Tiqqun: https://docs.google.com/document/d/1cnfm4mM4L4IfQ_YBH7_TWhokJOhnb9n7P0Va9lbOIPk/edit

15/10: Franco Bifo Berardi, Fenomenologia do Fim (Introdução do livro)

12/11: Bruno Latour, Reagregando o Social (introdução): PDF

26/11: (cancelado em razão do Webinar Lavits)

10/12: Kate Crawford e Vladan Joler: Anatomia de um sistema de inteligência artificial: o Amazon Eco como mapa anatômico de trabalho humano, dados e recursos planetários: https://www.comciencia.br/anatomia-de-um-sistema-de-inteligencia-artificial/

O grupo de pesquisa Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento realiza encontros quinzenais de estudos e discussões. As reuniões são abertas a todxs. É só chegar. Para mais informações escreve um email para: henrique arroba pimentalab.net

Nos reunimos às quintas–feiras as 19hs. Os textos e a agenda desses encontros é sempre atualizada por aqui e na nossa página do Facebook: https://www.facebook.com/pimentalab/

Cronograma:

17/09: Manifesto Nooscopio – Inteligência Artifical e Extrativismo do Conhecimento: http://lavits.org/o-manifesto-nooscopio-inteligencia-artificial-como-instrumento-de-extrativismo-do-conhecimento/?lang=pt

01/10

15/10

12/11

26/11

10/12.

Laboratórios do Comum para a gestão social dos territórios

Video do seminário disponível aqui: https://youtu.be/Rc9Jl1aA6qQ

No dia 22 de julho, quarta-feira, às 19h, Valéria Giannella (PPGES UFSB / ELGS) e Fernanda Martins (PPGES UFSB) convidam três pesquisadores/ativistas do Comum: Georgia Nicolau (Instituto Procomum), Henrique Parra (Pimentalab / Unifesp) e Rodrigo Savazoni (Instituto Procomum / UFABC) para uma roda de conversa onde exploraremos os nexos entre o campo do Comum e a gestão social de territórios.

O Comum que nos interessa se constitui enquanto substantivo e verbo, e nos traz amplitude para imaginar futuros possíveis na encruzilhada em que nos encontramos. Juntos vamos conversar sobre as práticas de experimentação do agir-comum que se intensificaram no contexto pandêmico. Podem os “laboratórios do Comum” serem lidos enquanto experiências públicas de Gestão Social e como caminhos que apontam além da grave crise democrática que atravessamos?

O bate papo acontece no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade (PPGES) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e da Escola Livre em Gestão Social (ELGS), e acontece com o apoio e a participação do Instituto Procomum e do Pimentalab.

#pratodosverem

Cartaz de webinar programa #UnifesspaOnline.
Sobre fundo cinza claro, na parte superior alinhado à esquerda a palavra webinar em letras. Em uma linha abaixo, sobre um retângulo amarelo, escrito a hashtag do Programa de Formação da Unifesspa em letras brancas: #UnifesspaOnline. Na parte superior à direita, uma arte contorna o canto direito do Cartaz: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cores pretas: uma primeira na horizontal e outra na vertical alinhadas em formato de uma cantoneira. Abaixo da arte, com destaques, em letras pretas transmissão ao vivo, na sequência, abaixo, uma imagem em retângulo de cor preta, com o ícone de play branco. À esquerda do cartaz, foto colorida do palestrante, com uma imagem de vegetação ao fundo em tons verde claro e escuro. Na composição artística da foto, o rosto do palestrante é coberto parcialmente do lado direito pela imagem da vegetação. O palestrante Henrique Paiva, está de frente. É branco, olhos claros, cabelos curtos castanhos. Usa bigode e barba com fios grisalhos. Usa camisa preta. Segura um celular escuro até a altura do queixo na posição de registro fotográfico de self. Ao lado da foto, alinhada à esquerda o título da palestra escrita em letras pretas negritadas: Educação pandêmica e as encruzilhadas do ensino superior. Uma camada abaixo, a data: 18 de agosto e sob esta, a hora: às 19h. Abaixo da foto, informes: Palestrante Henrique Parra. Na sequência, abaixo à esquerda, a logomarca da Unifesspa. No canto inferior esquerdo, repete-se a arte: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cor preta: uma primeira na vertical e outra na horizontal em formato de uma cantoneira e no interior a logomarca da Unifesspa com a sigla UNIFESSPA. No rodapé a direita do cartaz, escrito em letras pretas: saiba mais: seguido do endereço do site: www.unifesspaonline.edu.br
Fim da descrição

O webinario está disponível no link do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=wSWpSXRU4rM
Ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/unifesspaoficial/videos/607226726847199/

Na primeira semana de agosto reiniciaremos o curso interrompido em março pela Pandemia Covid-19. Ela não passou e ainda estamos num momento de grande propagação do vírus e com elevado número diário de mortos. A retomada das aulas à distancia (ADE, EAD…pouco importa) está cercada de controvérsias. Antes dessa decisão institucional eu desejava outro coisa para este momento. Queria que pudéssemos criar voluntariamente ações coletivas de investigação sobre a relação Universidade, Ciência e Pandemia: como chegamos ate aqui, e que universidade precisamos inventar pra transformar essa situação? Queria também que pudéssemos nos dedicar mais às ações de apoio mútuo entre professores, estudantes e funcionários. Quem sabe o curso agora possa servir também pra tramar um pouco dessas duas linhas.

Nos deparamos com o desafio de realizar um novo curso em condições excepcionais. Há diversos problemas envolvidos na realização das atividades educacionais não presenciais mediadas por tecnologias digitais e cibernéticas. De imediato, o mais agudo deles são os efeitos de intensificação das desigualdades. Esse e outros problemas serão objetos de nossa reflexão no percurso da disciplina do semestre Sociologia da Educação.

Mas há também aspectos interessantes que podem emergir dessa experiência. É hora de falar um pouco disso; é hora de reconhecer a potência da situação e lutar para “retraçar o destino trágico que nos querem impor” – linda imagem, inspirada no Odu, utilizada pelo colega Uirá Garcia numa conversa com os estudantes durante a pandemia.

As sensações que nos atravessam durante a pandemia e os diferentes momentos que ja vivemos em mais de quatro meses, nos arrastam a modos de ser desconhecidos. Nos últimos dias comecei a imaginar, para atravessar esse momento, uma nova composição com plantas subterrâneas, tubérculos ou rizomas: devir-gengibre, devir-mandioca, devir-batata, devir-cebola. Entrar um pouco para baixo da terra, acumular energia, ficar imperceptível, crescer para os lados, fazer novas alianças, ficar amigo de fungos, bactérias, minerais e outros seres vivos, criar composições que amplifiquem uma nova reticulação, infiltrar e correr como a água, curar algumas feridas, revigorar, fazer novos parentes, ampliar a própria força para o que está por vir, rachar o solo por baixo.

Reorganizei o curso levando em conta algumas disposições, especialmente reconhecendo a diversidade das situações de vida dxs estudantes (e também a minha) no contexto da Pandemia. Não está fácil pra ninguém, e pra muitas e muitos estudantes, a vida está por um fio. Por isso, o desenho do curso, as exigências e as expectativas serão outras. Mais do que resultados ao final do trajeto queremos uma boa travessia: o meio importa! Gosto de pensar o curso como a prática de uma mesopolítica, uma política do meio.

Na linha do que temos experimentado no Pimentalab (nos projetos Laboratório do Comum e Zona de Contágio) o curso pode funcionar como um laboratório de investigação coletiva e situada em que seja possível constituir uma Comunidade Transitória de Práticas, um coletivo de aprendizagens. Por “coletivo de aprendizagem” refiro-me aqui à idéia forte de que ninguém aprende sozinho, aprendemos juntxs e neste processo transformamo-nos todxs (Freire, B.Hooks, Lafuente, dentre outrxs servem aqui de inspiração). Diferente, portanto, das “pedagogias de aprendizagem” vinculadas atualmente aos modos de subjetivação neoliberal (um eu-individual-soberano que aprende através da aquisição de habilidades e competências, num infinito empresariamento de si). A idéia de “transitória” tomo de empréstimo do Ailton Krenak, quando ele convida as pessoas numa atividade a constituirem uma “comunidade transitória” dedicada ao aqui-agora da escuta e aprendizado mútuo.

Como fio condutor do curso “Sociologia da Educação” teremos uma seleção de problemas que emergiram para o campo da educação diante da Pandemia Covid-19, elegendo recortes estruturantes deste vasto campo de estudos. O curso deve servir também pra nos ajudar a elaborar melhores perguntas.

Para a arquitetura deste curso à distância, concebemos que as atividades deveriam levar em conta a possibilidade de trabalharmos tanto com diferentes graus de engajamento dos estudantes, mas também com diferentes graus de abertura para públicos externos à sala de aula habitual. Um vantagem de um curso remoto é a chance de colocarmos na conversa pessoas e perspectivas distintas que normalmente não teriam condições de estar em nossas salas de aula. Assim, algumas atividades do curso terão um desenho mais fechado (voltado ao trabalho interno) e outras terão um desenho mais aberto (voltadas ao envolvimento com públicos distintos).

Leituras: o conteúdo sofreu alterações de forma a criar maior aproximação com temáticas que eclodiram no contexto da Pandemia (escola-educação, universidade, trabalho docente e tecnologias educacionais entre outras). O volume de leitura também foi modificado. A partir da idéia de um núcleo Mínimo-Múltiplo-Comum (MMC) organizamos trilhas de estudos com graus diversos de complexidade de maneira que cada estudante possa escolher o caminho que lhe é possível neste momento.

Encontro sincronicos: a idéia é que possamos experimentar e tentar inventar “estados de presença”. O que pode ser um encontro numa sala virtual? O que pode ser uma aula? Quais os modos de presença que desejamos praticar? O problema não é novo e ele tambem se coloca para uma aula presencial. Nos habituamos a não questionar a qualidade de nossas aulas e a “crise de presença” contemporânea (dxs professorxs e dxs estudantes), como se estar em sala fosse o suficiente para provocar um acontecimento-aula-encontro. Numa aula muitas coisas acontecem e ela também comporta diferentes estados de presença. Não é suficiente transferir nossas práticas da sala de aula para os ambientes virtuais. Assumir a experimentação talvez seja a melhor alternativa nesse momento. No ambiente digital estamos sujeitos a um outro regime de sensibilidade (percepção-sensação); a outros ritmos; a uma outra política da atenção. O meio importa!

Dividi as atividades sincronicas em dois momentos distintos que serão alternados a cada semana. Teremos mini-blocos temáticos de 15 dias. Numa semana faremos um encontro na forma de um grupo de estudos e orientação, conversaremos sobre os textos, elaboraremos perguntas, discutiremos, e vamos pensar sobre os projetos da disciplina. Essa atividade está mais voltada para o trabalho interno. Noutra semana faremos uma espécie de “aulão”. Haverá um momento expositivo inicial (penso em realizar uma fala de aproximadamente 20-30 minutos), poderemos ter diferentes convidadas/os para essa conversa e também público espontâneo. Em seguida, abriremos para interação entre todxs. Tempo máximo de duas horas para toda a atividade. Minha expectativa é que neste encontro possamos partir do pensamento dxs autorxs dos textos, para dialogar com os materiais que serão coletados e produzidos pelxs estudantes, e também com as experiências que serão narradas entre nós. Temos que “aproveitar” o fato de que nosso curso tem como objeto/tema a própria educação. Do ponto de vista tecnológico resolveremos assim: nas atividades internas utilizaremos ferramentas e ambientes de acesso restrito; nos encontros-aulão utilizaremos plataformas de acesso público e streaming.

Atividades assincrônicas: alem da leitura dos textos esperamos que os estudantes possam produzir (individualmente ou coletivamente) um exercício de pesquisa sobre temas/problemas relacionados à disciplina. Vamos coletar e organizar links para pesquisas, relatorios, reportagens, dados; e vamos criar ensaios em diferentes linguagens. Além da página na wikiversity (onde vou documentar o percurso da disciplina), vou utilizar um site em wordpress para hospedar os demais produções da disciplina. A cada quinzena os estudante serão convidados a produzir algo e publicar na forma de um comentário no site: um pequeno texto, audios, fotos, poesias, microvideos relativos ao tema da quinzena. Fizemos isso na Zona de Contágio e foi uma boa experiência. Aqui um exemplo (vejam os comentários ao post).

Como forma de avaliação temos duas opções e cada estudante poderá optar por um caminho: coletânea de suas produções publicadas no site durante o semestre; ou a elaboração de um ensaio único ao final do semestre.

Por fim, outro elemento importante para que o curso possa melhor fluir é a enfase nos processos coletivos. Como podemos misturar a constituição de grupos de pesquisa entre os estudantes, com as formas dos grupos de afinidade e grupos de apoio-mútuo? Um curso à distância é cheio de armadilhas (assim como um curso presencial). Frequentemente,nos ambientes digitais, graças à tecnicidade do meio (sua tecnoestética e tecnopolítica), há uma maior disposição para a individualização dos processos de aprendizagem. Teremos que praticar uma atenção e escuta ativa aos processos que vamos desencadear para que consigamos promover outros desenhos e disposições para o fortalecimento coletivo. Como transformar a tela em uma interface mais conjuntiva do que conectiva? “Como redesenhar a pesquisa, o ensino universitário para uma lógica da conjunção? Que arranjos acadêmicos, investigativos, pedagógicos e de convívio poderiam ativar uma fratura que permita “pular os muros” da lógica proprietária do conhecimento, mas cair longe deles? Como manter, por algo despertado na quarentena, nossa capacidade de decifrar os signos segundo o desejo, liberando espaço para a vibração do desejo-pesquisa, desejo-educação, desejo-arte, desejo-luta?

O episódio #84 saiu e está em português com transcrições em inglês. Andrea Rozenbaum e eu (Corina) conversamos com Henrique Parra e Ricardo Teixeira sobre como diferentes países estão respondendo ao COVID-19. Focando no Brasil, além de uma visão geral da realidade do sistema de saúde também discutimos a dificuldade para muitos brasileiros Segue as medições de isolamento social; o papel e desempenho do Estado no contexto brasileiro; o significado das iniciativas civis que têm vindo a surgir como respostas para contornar a ausência do Estado em momentos específicos; questões culturais e estruturais. Desde a desobediência a vários níveis à forma como o sistema fiscal contribui para o aprofundamento das desigualdades sociais, mesmo quando se trata do sistema de saúde. (também com transcrições em inglês) no nosso site:

Escute o Episódio #84: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/en-henrique-parra-ricardo-teixeira-some-perspectives-on-how-brazil-is-facing-the-pandemic-from-the-health-care-system-to-smart-technology

***

O episódio 85 chegou! Esta é a parte 2 da conversa que Corina & Andrea Rozenbaum tem em português com Henrique Parra, sociólogo e professor de Ciências Sociais da UNIFESP e Ricardo Teixeira, médico sanitário especializado em saúde coletiva, e professor na Universidade de São Paulo (USP) ..Neste episódio, aprofundamos a nossa conversa, questionando o sentido de responsabilidade e o sentimento de impotência ao enfrentar uma realidade em que parece difícil vislumbrar um futuro positivo. Ricardo retomou a ideia de medicina social, vendo-a como uma ciência social. Os entrevistados destacaram a vulnerabilidade que a pandemia trouxe e debateram como isso nos faz perceber o quão interdependentes somos, e como precisamos do coletivo, dos títulos e dos afetos para viver.(também com transcrições em inglês) no nosso site:

Escute o episódio #85: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/henrique-parra-ricardo-teixeira-amplifying-the-debate-the-role-of-scientists-and-social-scientists-in-times-of-uncertainty

No episódio #38, Sérgio Amadeu conversa com o ativista, pesquisador do Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Henrique Parra, sobre o conceito de tecnopolítica e as possibilidades das práticas colaborativas abrirem espaços para a reconfiguração das tecnologias para além do capital.

“Conspirar quer dizer respirar junto.

E é disso que somos acusados.”


Durante a Pandemia Covid-19 o Laboratório do Comum deslocou suas iniciativas para o projeto Lab Zona de Contágio.

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa coletiva e experimentação. Se o fortalecimento de governos tecno-autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social. Tudo é risco.

Estamos lançando uma investigação coletiva que se proponha a pensar agora pelos cortes que fazem atravessar corpos, a casa, o risco da respiração compartilhada, os novos arranjos da biovigilância, as tecnopolíticas de gestão do normal e do que excede. O poder é logístico, está por todos os lados. Por isso, uma ciência de risco precisa dar atenção aos “agenciamentos que geram transformações metamórficas em nossa capacidade de afetar e sermos afetados – e também de sentir, pensar e imaginar”.


Disparamos perguntas que nos implicam com o acontecimento covid-19.


Pensar porque estamos obrigados, potencialmente infectados e febris. Diante dos intensos fluxos filosóficos, da saturação metafísica, semiótica, informacional, gostaríamos de propor uma desaceleração do pensamento; uma respiração diafragmática. Uma ciência de risco é objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade, os grandes esquemas conceituais. Uma ciência de risco é aquela que habita as encruzilhadas e as práticas de permanecer um pouco mais com a confusão.

Como primeiro movimento de um percurso incerto e aberto de investigação coletiva, desejamos criar conversas com praticantes que se sintam afetados por essas questões.  Seja a partir de uma criação qualquer (texto, fotografias, áudios, vídeos, performances) compartilhada entre nós, ou de um fio investigativo que possamos juntos rastrear: os fios do provável (a reorganização dos poderes tecnototalitários e dos dispositivos reordenadores da vida); os fios do possível (as formas de cooperação, novos acordos coletivos, a luta contra as normalizações dos excessos e pelas muitas formas de recusa). Uma ciência menor que atua  com a experimentação e a invenção de uma linguagem comum, pelos sentidos que dão passagem a uma experiência singular e coletiva.

Atenção às infraestruturas mínimas da vida coletiva que adquirem visibilidade e urgência – a metrópole é um grande dispositivo de renuncia sobre nossas próprias vidas. Como a vida na cidade e na casa é percebida no interior desse acontecimento? O que estamos fazendo das nossas vidas?

Rastrear os pequenos gestos, as formas de recusa nada épicas, os imperativos do desempenho que descem pelo ralo enquanto temos que dar conta da louça acumulada antes da próxima reunião online. Como nossa vida é agora interpelada pela lógica da produção e do fazer, pela culpa do contato ou do isolamento, como imaginam nossas resistências e invenções cotidianos para existir? Precárixs. Lançadas em uma correnteza de indeterminação; atentas para os modos diferenciais de tornar algumas vidas dignas de serem protegidas e outras não. Nossos corpos como infraestrutura invisível que sustenta toda a ficção do “homem livre empreendedor”. Para não “voltar ao normal!”; Para retomar a insistência da vida não a qualquer custo – mas uma vida que possa criar movimentos de abertura, uma que desliza e escapa de suas estabilidades e antigos compromissos, aquela que aposta nos riscos dos encontros.

Rastrear as decisões logísticas e tecnológicas que prometem “segurança”, “saúde” e “bem-estar”, “praticidade” e “desempenho” a despeito da nossa incapacidade de cuidarmos de nós mesmos; a despeito da nossa incapacidade de sustentar outras saídas. Assumir nossas vulnerabilidades compartilhadas. Como esse acontecimento nos releva os arranjos em que estamos enredados? Podemos habitar de outra forma a cidade, o mundo, a terra – não como “cidadãos”, mas como criaturas?

Somos convocados a oferecer provas de um bom comportamento como soldados de uma guerra que não é nossa. Interpeladas cotidianamente por dispositivo de mobilização de corpos e boas condutas. Alternativamente, quais são as novas alianças que estamos criando e que desejamos ainda criar? Uma ciência de risco é sempre uma ciência que hesita, uma ciência de retomada de uma inteligência coletiva e que funciona apesar e contra os chamamentos da nação, da pátria ou da grande Ciência e seus regimes de autoridade e verdade.

Protótipo 1 – como criar uma conversação em tempos de pandemia?

Explicações de um mundo “real”, assim, não dependem da lógica da “descoberta”, mas de uma relação social de “conversa” carregada de poder.

Neste primeiro movimento a idéia é que possamos nos relacionar através de nossas criações, formas de expressão sobre o experienciado, fragmentos coletados do mundo, situações vividas, sentidas, relatos, hesitações – sejam seus ou não. 

Se você deseja entrar nesse barco, envie um email (tecnologia de desaceleração) para: conspire@tramadora.net

Criamos um canal de transmissão no Telegram onde iremos proliferar os caminhos da pesquisa: https://t.me/tramadora

Há também uma página no Facebook: https://www.facebook.com/corpocontagio

Além do processo investigativo, realizaremos um ciclo de estudos insurgentes. Encontros virtuais para discussão de algum texto ou conversarmos com algumx convidadx. O primeiro encontro será dia 23/04, quinta-feira, a partir das 19:30hs, numa plataforma de videoconf [link com a programação será divulgado em breve]

Sobre: Zona de Contágio é uma iniciativa de confluências, um híbrido do coletivo Tramadora, Projeto Laboratório do Comum do Pimentalab/Unifesp, Lavits.

obra de: Regina Parra

Durante a Pandemia Covid-19 o Laboratório do Comum deslocou suas iniciativas para o projeto Lab Zona de Contágio.

Laroiê!

salve o mensageiro!

 

Nós, que pensamos em “ideologia”, somos vulneráveis. Nós não possuímos os saberes pertinentes para identificar e compreender os dispositivos de captura e de produção de impotência. Ora, lá onde se pensa que os feiticeiros existem, aprende-se a reconhecê-los, a diagnosticar seus procedimentos, a se proteger deles, e ainda a contra-atacar” (I.Stengers). 

Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: “um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.

O vírus é a entidade estrangeira que fala pelo nosso corpo, através dele, de sua vulnerabilidade e estupidez. Fala que nossasnoções de “política” e de “progresso” ou “civilização” são débeis, inócuas. Faz com que sintamos a febre da Gaia Criatura comoresposta imunológica às simplificações ecológicas e biológicas produzidas pelos modos extrativistas que seguem fazendo desertosem nome do “crescimento econômico”, “desenvolvimento”; que seguem produzindo muros, cercas, desejo de segurança eseparação. 

O medo da contaminação como forma de governo das vidas sempre foi a principal bio-tecnologia colonial,  atualizada pelos regimes autoritários modernos. Tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança profilática passam a “denunciar” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o “Estado Forte” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em “Guerra”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

Estamos na encruzilhada Hobbes x Espinosa; o Estado e a hipótese do Comum!  O momento em que desejamos que o Estado tome medidas de exceção de controle populacional em nome da segurança sanitária, é o momento em que renunciamos à nossa potência de cuidado da saúde coletiva. Seremos capazes de construir alternativas com nossa inteligência coletiva? Como ativar o Comum, a potência de produção da saúde entre todos, promovendo vínculos solidários de cuidado coletivo? Como infraestruturar as estratégias, dispositivos, tecnologias, diferenças, práticas e conhecimentos que possam dar lugar a essas formas de vida?

A natureza do poder se modificou de tal forma que hoje confunde-se com a própria vida. Está na paisagem da cidade e suas infraestruturas, nas centenas de dispositivos que conduzem nossa atenção, localização, nas catracas, na produção dos desejos e das frustrações; nas centenas de outros dispositivos que nos conduzem à novas formas de desempenho; novas formas de concorrência.

Os arranjos sociotécnicos ao mesmo tempo vigiam e controlam toda possibilidade de fuga com outros inúmeros dispositivos deneutralização preventiva. A algoritmização da vida bloqueia qualquer possibilidade de imprevisto, de acontecimento e abertura. O poder se organiza de forma imanente à vida e sua expressão de exterioridade é apenas uma expressão performativa e mais visíveldele – ainda que nos pareça mais confortável imaginar que o Poder está lá, sentado em uma cadeira. “Uma perspectiva revolucionária já não tem a  ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos”. Na metrópole, assinala o Conselho Noturno (2019), o que encaramos não é mais o velho poder que dá ordens, o poder que localiza-se desde uma exterioridade, mas uma forma de poder que logrou constituir-se como a ordem mesmo desse mundo. “A metrópole é o simulacro territorial efetivo de um mapa sem relação com nenhum território”

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de corpos neoliberalizados, Zona de Contágio convida ao diálogo praticantes que desejam tensionar as modernas e habituais fronteiras entre ciência e política; entre corpos e pensamento. Assumir nossa debilidade existencial como ponto de partida para pensar os deslocamentos do político. Pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outrolado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de“co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”; encontros. Ciência de contato. Saber qual território habitamos, qual é a terra que pisamos quando falamos “cidade”, quais as relações que a constituem, quais são os saberes desautorizados, os saberes sujeitados, os saberes das lutas que desejamos convocar? Uma ciência objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade. Uma ciência de combate que acontece entre corpos e suas diferenças.

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e intervenção namedida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social.

A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver  – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

Dia: 19 de março, quinta-feira.
Manhã: 9:30hs às 12:30hs (seminário)
Tarde: 14:00 às 18:00hs (oficina)
Local: (Unifesp – Reitoria, Anfiteatro – 4o andar. Rua Sena Madureira 1500, 4o andar, Vila Clementino.

Inscrições: https://sistemas.unifesp.br/acad/proec-siex/index.php?page=INS&acao=1&code=17542

Seminário: Serão apresentados avanços em classificação, descrição automática e visualização interativa de grandes volumes de documentos textuais com dimensões de metadados, com foco em estudos da ciência (STS) e aplicações em medicina, sociologia e humanidades. O caso em foco será os abstracts da conferência anual da ASCO (American Society for Clinical Oncology) de 1995 à 2017. Será apresentada a inferência, a partir do texto, de domínios e tópicos de pesquisa e, a partir dos metadados, de períodos com dominância de diferentes domínios, como também do papel de diferentes grupos de instituições no progresso da oncologia.

Oficina: As ferramentas para aplicar essa abordagem fazem parte da Plataforma Cortext, uma infraestrutura europeia de pesquisa em estudos da ciência e inovação. Após o seminário, os interessados poderão participar de uma oficina para se familiarizarem com o uso da plataforma e seus diversos recursos para análise de coleções de documentos. Vagas limitadas a 15 pessoas, inscrição obrigatória.


Bio: Ale Abdo é pesquisador no LISIS (Laboratoire Interdisciplinaire Sciences Innovations Sociétés) em Paris. Recebeu seu doutorado do Instituto de Física USP, tendo conduzido pesquisas no departamento de sociologia da Columbia University, no ICICT da Fiocruz e no LIM01 da Faculdade de Medicina da USP.

Organização: Pimentalab e Lab.hum (Unifesp); CorText.

Referências:

Abdo AH, Cointet JP, Bourret P, Cambrosio A. Domain-topic models with chained dimensions: charting the evolution of a major oncology conference (1995-2017). (2019). arXiv:1912.13349

Callon M, Courtial JP, Turner WA, Bauin S. From translations to problematic networks: An introduction to co-word analysis. (1983). Social Science Information, 22(2), 191-235.

Cambrosio A, Bourret P, Rabeharisoa V, Callon M. Big data and the collective turn in biomedicine: How should we analyze post-genomic practices?. (2014). Tecnoscienza, 5(1), 13-44.

Fortunato, S., Bergstrom, C., Börner, K., Evans, J., Helbing, D., Milojević, S., et al. (2018). Science of science. Science, 359(6379), eaao0185.

Shi F, Foster JG, Evans JA. Weaving the fabric of science: Dynamic network models of science’s unfolding structure. (2015). Social Networks, 43, 73–85.

Ciclo “Habitar as Fronteiras” no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Dias 7 e 14 de abril de 2020.

Diante da debilidade existencial intensificada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, os encontros convidam ao diálogo pesquisadorxs-praticantes que tencionam as habituais fronteiras entre ciência e luta, vida e política. Assumir a nossa crise da presença como condição de uma vulnerabilidade compartilhada para investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas também experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”.

Partimos de experiências investigativas em que saberes e práticas de lutas emergem de corpos como sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias e que intuem que é o movimento de abertura ao acontecimento o que pode sustentar práticas coletivas de insistência na vida como interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

07/04, terça-feira, das 19h00 às 21h30 – Encontro com Bru Pereira – antropóloga e educadora, mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP; Edson Teles – professor de filosofia na UNIFESP; Maria Fernanda Novo – doutora em filosofia pela UNICAMP. Mediação de Jean Tible – professor de Ciência Política (FFLCH/USP).

14/04 (terça-feira), das 19h00 às 21h30 – Oficina com Alana Moraes – antropóloga, doutoranda pela UFRJ e Henrique Parra – professor de Ciências Sociais da UNIFESP. Pesquisadores do Pimentalab/LAVITS e do coletivo Tramadora.

Oficina: ao adotar a gestão de crise como técnica de governo, o capital não se limitou apenas a substituir o culto ao progresso pela chantagem da catástrofe, ele quis reservar para si a inteligência estratégica do presente” (C.I). A oficina é um convite para habitar por um pouco mais de tempo os problemas comuns que nos obrigam a pensar juntos. Inspirados na ideia de um “parlamento de corpos” queremos retomar a inteligência compartilhada e a potência da situação presente. O parlamento emergente de corpos afetados se instaura a partir de formas de conhecer que possam transformar (narrar/inventar/mediar) a experiencia de um corpo-sensor em um conhecimento de luta coletiva dos corpos vivos, que nada tem a ver com a produção de maiorias ou consensos. A oficina convida os participantes a investigar o problema da crise da presença diante da crescente mediação técnica da vida social e as consequentes alterações do regime de sensibilidade que sustentam ou destroem um mundo comum. Diante da multiplicidade de dispositivos tecnológicos que fazem da vida uma sequencia prevista de condutas, procedimentos e desempenhos funcionais, praticamos uma atenção àquilo que o corpo não aguenta mais, como ponto de partida da construção de formas de vida não fascistas.

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corpo-como-sensor é uma proposição ético-política da vida em sua ontologia corpórea extremamente vulnerável, um terreno de travessias e cruzamentos no qual a representação dá lugar à experimentação, à variação e ao risco dos encontros. Em há um mundo por vir? (2015), Viveiros de Castro e Débora Danowski se perguntam quem seria o demos de Gaia, “o povo que se sente reunido e convocado por essa entidade, e quem é seu inimigo” (2015:120). Para os autores, não se trata mais de buscarmos um “sujeito revolucionário”, mas seguir uma etnopolítica que suspenda a própria noção de “sujeito capaz de agir como um só povo”.

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, o seminário convida ao diálogo praticantes que tensionam as habituais fronteiras entre ciência e política, entre natureza e cultura. Nesse sentido, pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”. Partimos de investigações em que saberes e práticas emergem de corpos-como-sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias, experiências que intuem que é o movimento de abertura e composição com o acontecimento de encontros o que pode sustentar práticas de insistência na vida em interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

Habitar uma política do sintoma que não nos permite “interpretar” tendo em vista um lugar seguro do diagnóstico que contorne ou neutralize o mal-estar.. Nessa condição de precariedade de um mundo sem refúgio, a invenção de linguagens, sentidos compartilhados, infraestruturas e tecnologias de suporte à essas formas de vida é inseparável de uma prática experimental de composições de alianças e arranjos sociotécnicos que dão forma a outras individuações coletivas, a emergentes comunidades de afetados. Trata-se de escapar dos imperativos de resultado e impacto, reino da estratégia e da eficiência tecnocrática, para habitarmos um terreno de experimentações de composições sempre situadas, que funcionem como caixas de ressonância de formas de vida não-fascista.

Estes tempos nos exigem coragem, mas também uma aposta na pesquisa, na investigação coletiva, em uma ciência aberta que inclua corpos e suas marcas, saberes não autorizados pelo regime de saber-poder.

Precisamos assumir as perguntas, dar-nos esse tempo do pensar junto, experimentar, criar contra-dispositivos para uma vida não fascista.

Diante das formas renovadas de produção de desigualdades, do consórcio explícito entre forças autoritárias e as dinâmicas de expropriação da vida e do território, promotoras da crescente militarização, gentrificação, despossessão e tristeza, lançamos perguntas-vinculantes: Como reativar uma possibilidade de inteligência coletiva? Como convocar saberes e práticas coletivas que nos permitam imaginar e disseminar alternativas a esse cenário? Como produzimos e sustentamos o Comum entre todos?

Convocatória e inscrições AQUI