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Alana Moraes, Bruno Tarin e Jean Tible, publicaram o livro “Cartografias
da Emergência: novas lutas no Brasil”, com apoio da FES – Friedrich
Ebert Stiftung.

Cada capítulo apresenta uma iniciativa que tem fomentado novas formas de
atuação política. Participo entrevistando o Silvio Rhatto do coletivo
Saravá, falando sobre tecnopolítica e organização social.

O livro está disponível na íntegra aqui:
http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/12092.pdf

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Site do Evento: http://lavitsrio2015.medialabufrj.net/

De 13 a 15 de maio de 2015

O III Simpósio Internacional da Rede Latino-Americana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade/LAVITS, propõe como temática central as relações entre vigilância, tecnopolíticas e territórios. No âmbito desta temática, uma série de subtemas serão debatidos ao longo do Simpósio:

  • Big Data, vigilância e tecnopolítica
  • Vigilância, protestos políticos e manifestações urbanas
  • Megaeventos e vigilância
  • Web, Deep Web e Internet das Coisas: rastreamento e vigilância
  • Ativismo e contra-vigilância: criptografia, hacktivismo, tecnopolíticas
  • Práticas artísticas e estéticas da vigilância
  • Trabalho e Vigilância
  • Corpo, afeto e vigilância
  • Identificação, biometria e vigilância
  • Cidades inteligentes e vigilância algorítmica
  • Vigilância móvel e wearable: drones, GPS, smartphones, câmeras integradas etc.
  • Privacidade, dados pessoais e controle da informação
  • Vigilância e práticas de consumo
  • Tecnologias de auto-monitoramento e controle
  • Histórias, memórias e arquivos da vigilância
  • Regulação da vigilância e proteção de dados na América Latina
  • Snowden, NSA e vigilância de massa: impactos na América Latina
  • Vigilância e ditadura militar na América Latina
  • Mercado da vigilância na América Latina: conexões público-privado
  • Vigilância e Tecnopolítica na América Latina: conceitos, metodologias e estudos de caso
  • Controle social, território e vigilância na América Latina

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Neste domingo (15/3/2015) muitas pessoas foram às ruas protestar contra o governo e o PT.
A força das ruas aponta para algo ainda informe, mas é uma força grave e deve ser levada a sério. É importante analisa-la em sua diversidade interna e compreender a maneira como foi construída, inflamada e como se dá a elaboração das narrativas que se pretendem unitárias.

Surpresa? Um pouco, mas lembrem, a Dilma foi eleita com 54 milhões de votos e a oposição teve 51 milhões (é gente pra caramba).
Desesperança? Afinal, era tanta gente clamando por um mundo diferente daquele em que acredito e que desejo para o futuro?
Não, agora podemos vê-los! É tão mais fácil entender este país quando vemos as pessoas que compõem essas marchas e quando o jogo das portas fechadas se mostra nas ruas.
Tristeza? Sim, fiquei triste quando vi pessoas clamando por intervenção militar. Lembrei de tantas pessoas conhecidas que tiveram suas vidas ameaçadas, destruídas, outros que foram torturados ou mortos para que todas essas pesssoas tivessem o direito de ir para a rua se manifestar. Como não lembrar de história tão recente?

Meu sentimento no final do dia?
Tenho ainda mais vontade de agir politicamente, pois acredito que há novos mundos em formação e eles podem ser mais livres, mais felizes e mais amorosos. Pelo menos isso é o que desejo para o mundo em que vivo e onde minha pequena filha acaba de chegar.
Numa imagem esperançosa descrita pela amiga Lilian Kelian, talvez estejamos vendo o suspiro terminal de um mundo moribundo, o mal estribuchando para algo melhor nascer. De uma certa perspectiva esta imagem produz sentidos.

Quando trabalhamos com jovens, quando circulamos pela cidade, pelo Brasil, especialmente pela borda, fora dos centros, este mundo dos bolsonaros, dos aécios, dos lobões já é um mundo tão velho. Ainda que tentem legislar para congelar um modelo arcaico de família, as pessoas já estão fazendo famílias de múltiplas formas; ainda que construam espaços murados e ilhas fortificadas, os shoppings e os condomínios já não são capazes de guardar suas fronteiras; ainda que queiram regular a vida e o que fazemos com nossos corpos, a liberdade e a autonomia já não podem mais ser contidas; ainda que tentem exterminar e encarcerar nossos jovens negros, a organização da resistência só cresce e floresce; ainda que queiram controlar a comunicação, o desejo de livre expressão está em toda parte, somos legião; ainda que contruam arranha-céus para cidades dormitórios, a luta por moradia enche de vida as ruas, terrenos e prédios vazios; ainda que queiram controlar nossa vida nas cidades, as catracas estão sendo incendiadas; ainda que tentem preservar a sociedade escravocrata, os garis, as empregadas e serviçais se organizam e lutam. Somos muitos e diversos.

Todavia, é preciso colocar a mão na massa. Sinto um novo sopro que talvez contribua para ativar outras formas de luta e organização, novas institucionalidades rebeldes, novas formas de estar junto e produzir o comum. Afinal, o que está aí já não responde às nossas necessidades. Alguns indicam que entraremos num momento de inércia e de transição que pode levar alguns anos pra criar novas respostas. Minha impressão é outra. Acho que as organizações mais progressistas já estavam vivendo uma inércia de muitos anos. Fora delas, a criação já começou. Há muito trabalho pela frente (são muitas as frentes e bordas) e ela já está acontecendo desde baixo, em minorias não-numéricas, em toda a parte.

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Assim como em junho de 2013, não é mais possível analisar os protestos e seus sentidos sem ter os pés, olhos e ouvidos em diferentes espaços simultaneamente. O que acontece no espaço físico da rua é indissociável do que ocorre na esfera comunicacional.

Novamente, assistimos a uma acirrada disputa pela narrativa dos fenômenos e a emergência de dinâmicas que visam direcionar e reduzir expressões diversas de descontentamento para sistemas binários de oposição, onde, inevitavelmente, a batalha é facilmente ganha por aqueles capazes de hegemonizar sua versão dos fatos. Tal processo é acompanhado pela destruição da política como resultado da ação identitária (minha visão de mundo é melhor, é mais verdadeira do que a sua) de grupos forjados na pura emoção. Receita fácil para fascismos diversos.

O problema é mais grave quando a comunicação em redes digitais (celular+internet) é capturada, selecionada, editada e retransmitida por meios de comunicação de massa (TV, radio e grandes jornais e revistas) cujo controle e propriedade são absurdamente concentrados. A produção distribuída do cidadão na ponta do celular, mediada e retransmitida de maneira centralizada pelo grandes aparatos de mídia é capaz de produzir qualquer realidade. Os levantes da primavera árabe não foram feitos só de internet, mas de lutas no asfalto com transmissão centralizada pela Aljazeera.

É por isso que não basta ir às ruas, mesmo com uma multidão. É preciso também disputar as interpretações e desafiar as narrativas estabelecidas pelos grandes veículos de comunicação. E não falo só da TV e dos grandes jornais. Ambientes como o Facebook, cuja natureza é privada e corporativa, funcionam de maneira a reforçar nossas posições iniciais, criando grandes ilhas onde só nos comunicamos com nossos iguais. Há pouco espaço para o contraditório. Ademais, o controle sobre o funcionamento do algoritmo, que determina o que vemos e com quem interagimos, é um negócio bilionário cuja operação pode ser perfeitamente conduzida. Neste sentido, se a internet parecia uma terra livre em seu início, hoje ela está cada vez mais colonizada pelo poder econômico.

Se somarmos a capacidade de concentração e direcionamento do Facebook ao poder de centralização e transmissão massiva das TVs e grandes jornais brasileiros, temos um sistema comunicacional que abarca quase a totalidade dos cidadãos recebendo informações mediadas por grandes corporações.

Onde está a liberdade de comunicação, expressão e pensamento?

Assim, talvez hoje estejamos diante de uma importante encruzilhada.
Nas redes digitais está sendo travado uma guerra comunicacional entre grupos de posições distintas, mas a emissão centralizada das televisões e grande jornais ainda é capaz de produzir o assunto comum no país, e por isso, controlam a agenda política.
Por isso, a luta pela democratização e regulação econômica dos grandes meios de comunicação de massa (tv, radio e grandes jornais) é tão importante quanto a disputa da narrativa política na internet e nas ruas. Tudo ao mesmo tempo agora.

Este texto é a introdução do livro JUNHO: Potência das ruas e das redes, editado pela Fundação Friedrich Eber. A introdução foi escrita de forma coletiva por Hugo Albuquerque, Jean Tible, Alana Moraes, Henrique Parra, Salvador Schavelzon e Bernardo Gutiérrez. O livro é uma compilação de relatos das jornadas de junho e desdobramentos da maioria das regiões do Brasil.

Livre download do livro em formato PDF: JUNHO: potência das ruas e das redes.

O vídeo abaixo é a apresentação do livro realizada o passado dia 04 de março em São Paulo.

Em uma era na qual a morte de quase tudo – de deus até a filosofia, dos heróis às  celebridades do momento – é decretada, antecipada ou mesmo inventada, a História dificilmente passaria incólume: ela teria encontrado o seu desfecho com a queda do muro. Fim de papo, agora nos restava carregar o seu pesado caixão, em um caminho único, até uma cova bem rasa. Com a História, morriam juntos, no mesmo incidente, a utopia, o porvir e o horizonte. Mas tal como ocorreu com Mark Twain, os boatos sobre sua morte se mostraram um exagero.

Já nos anos 1990, o ciclo de lutas antiglobalização dera mostras de que não era bem assim. Outros mundos eram possíveis e, acima de tudo, desejados. No começo do século XXI, as manifestações antiguerra também interrogavam os caminhos que se apresentavam como inevitáveis. A crise financeira de 2008 nos EUA e na Europa e os diversos protestos e movimentos que aí germinaram; os levantes da Primavera Árabe, dos Occupy, as largas manifestações na Rússia nos fins de 2011, as manifestações espanholas e gregas e uma miríade de outros processos multitudinários indicariam um novo ciclo em relação aos conflitos do final do século XX. Quais as continuidades e rupturas? Quais são os repertórios, as formas de organização, as reivindicações e concepções políticas em jogo? Quais as disrupções?

O Brasil, no fim das contas, dificilmente ficaria ilhado. Depois de um ciclo de ascensão democrática e popular ímpar na história do país, marcada por um processo sem precedentes de inclusão socioeconômica na década de 2000, as transformações selvagens que abalaram as estruturas do Brasil passaram a ser enquadradas por uma política gerencial, com preocupações quase que exclusivamente econômicas – as quais se encontram delineadas na forma do “desenvolvimentismo”. Nessa esteira, um ar de imutabilidade capturava nossas imaginações políticas e uma inércia tomava cada vez mais as nossas vidas.

Foi por muito pouco – aparentemente “apenas” por alguns centavos – que o copo transbordou. O baixo valor objetivo tinha uma enorme, e ignorada, dimensão subjetiva.  A névoa de normalidade e estabilidade plena se desfez. A revolta contra o aumento da passagem traduzia naquele momento, em um só golpe, formas elementares de opressões e cerceamentos da vida cotidiana que já não nos dávamos conta: mobilidade, acesso à cidade, a necessidade de ocupar as ruas, de nos afetar com os encontros, de exigirmos uma distribuição radical das terras latifundiárias da política. A explosão veio quando as manifestações metropolitanas, iniciadas em capitais como Natal, Porto Alegre e Goiânia se viram em meio a levantes contra os reajustes tarifários do transporte público e se espalharam para outras cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

A história sobreviveu, se fez presente. Desta vez, no entanto, a História não teria um único embandeirado-sujeito carregando-a até um destino final previamente definido (a revolução, o poder, uma reforma constitucional). Em Junho, a história perderia o H maiúsculo. Longe da transcendência e do universal, as manifestações produziriam um enxame de redes e afetos, nem sempre encolunados numa subjetividade do Um e dos relatos clássicos da emancipação. A história caminharia na cidade e se conectaria com florestas e territórios indígenas, com corpos periféricos e desviantes, subverteria as gramáticas tradicionais das identidades fixas e fixadas, se desconectaria das instituições, não mais lugar exclusivo da política. Uma política corajosa e até então desconhecida, encontraria vetores de transformação e ar fresco em histórias outras, no espaço do comum que encontros novos abririam.

Dos atos ao acontecimento

Vamos fazer um flashback para tentar entender o furacão político das jornadas de junho: dia 13 de junho, quarto ato do Movimento Passe Livre (MPL). O protesto enfrenta por horas uma repressão policial pesada. Até então, a grande mídia estava ignorando a repressão policial, mas centenas de cidadãos registravam em tempo real com seus celulares o uso abusivo de gás lacrimogêneo e balas de borracha. A raiva explode. O dia 13 foi o ponto da virada. O rumo da onda de protestos que começou com o primeiro ato do MPL (06 de junho) havia mudado. Um estudo de Interagentes mostra que o MPL perdeu a liderança nas chamadas e conversas online após a violência policial. Perderia também o protagonismo das ruas a partir do ato do dia 17 de junho. O Brasil registrou, entre o 13 e o 17 de junho, um dos maiores volumes de tuítes da história. Um estudo de PageOneX.com visualiza uma explosão gigantesca, uma poderosa onda subjetiva e emocional nas chamadas mídias sociais. A mídia brasileira vinha falando dos “vândalos” desde o início dos protestos, criminalizando os manifestantes. Mas, como aconteceu na Turquia, onde os manifestantes do Gezi Park foram chamados de “chapullers” (vândalos), a indignação tornou-se empoderamento. No Brasil, em reação à manipulação midiática que insistia em contrapor os manifestantes “cidadãos” aos “vândalos criminosos”, muitos assumiram o nome múltiplo de vândalos ou baderneiros: “v de vinagre”, “v de vândalo”, “Maria Baderninha”, “Pedro Baderneiro”. Junho também produziu uma guerra de classificações e como consequência, uma demanda urgente pelo direito à autorrepresentação. O estudo de PageOneX.com mostra claramente como a violência policial deu passo à indignação. Posteriormente, o empoderamento emocional transformou o protesto pelo transporte em uma revolta coral, plural e fragmentada a serviço de novos imaginários: “por uma vida sem catracas”, “não é por vinte centavos, é por direitos…”.

No sábado, dia 15, aconteceu um episódio importante, que depois passaria despercebido em meio ao caldeirão emocional da revolta “vândala”. Alguns movimentos sociais mais tradicionais – entre eles a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – fizeram manifestações em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro contra a Copa das Confederações. A novidade foi que alguns membros destes movimentos pediram colaboração a alguns hacktivistas do Anonymous. Teve lugar uma reunião na rede de chat encriptado CryptoCat, em uma sala chamada Garrincha, entre hacktivistas e militantes. Ninguém dos movimentos clássicos que estava dialogando na sala Garrincha sabia que o nível de viralização, dentro do contexto da onda do Passe Livre, iria ser galático.

A manifestação de 17 de Junho (# 17J), que acabou na ocupação do teto do Congresso Nacional em Brasília e com milhões de pessoas nas ruas do Brasil todo, já é parte da história. A inédita confusão do “juntos e misturados” foi a praia comum durante vários dias, algo inédito na história recente do Brasil, mais acostumado com o “juntos e não misturados”.  Curiosamente, um novo embate político se estabeleceu entre a diversidade de sentidos da potência das ruas e a agenda da mídia.

Outro corte: 20 de junho de 2013, Recife. A capital pernambucana viveu uma das maiores manifestações de sua história. A diferença do resto das cidades brasileiras, que já haviam tomado massivamente as ruas no dia 17 de junho, era a primeira grande manifestação de Recife nas jornadas de junho. The Sign of the Brazilian Protest, um infográfico interativo do jornal The New York Times feito a partir de uma fotografia aérea da manifestação, é uma boa metáfora da “fase II” das jornadas, quando o transporte deixou de ser a única pauta das redes e das ruas. Na foto observamos dezenas de cartazes, de gritos, de lemas. E nenhuma bandeira de partido. De todos eles, um cartaz especialmente simbólico: “Há tanta coisa errada que não cabe neste cartaz.” Ao longo de todas as manifestações de junho vimos muitos cartazes nessa direção. Mensagens não programáticas, mas agregadoras, como: “neste cartaz cabem todos os gritos”. Outros, destacavam a vida para além das redes digitais: “saímos do Facebook.”

O trem da multidão teve seu auge naquele mesmo 20 de Junho, na Avenida Paulista de São Paulo, tomando de assalto a palavra, desestabilizando a política da previsibilidade e a agenda do “que é possível pra hoje”. Ao lado esquerdo da Avenida Paulista, perto de Consolação, manifestantes muito heterogêneos (skatistas, coletivos LGBT, máscaras de Anonymous, famílias) caminhavam rumo ao MASP sem bandeiras nem símbolos de partidos. Paradoxalmente, no lado direito, organizações e movimentos da esquerda organizada – principalmente militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), grupos universitários libertários e trotskistas e de movimentos sociais – marchavam acenando bandeiras vermelhas, alguns deles estavam lá desde as primeiras manifestações, outros aderiam naquele momento.

Era “tudo junto e misturado”. Na avenida Paulista não tinha um só grito. Nem sequer um só inimigo. Havia, isso sim, muito mais cartazes contra Dilma Rousseff que nos primeiros atos convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Não à toa, a ocorrência de confrontos entre os dois lados da Paulista se registrou naquele dia. Algumas pessoas tinham transformado a música “Vem pra rua vem contra o aumento” dos primeiros atos em “vem pra rua vem contra o Governo”. O que aconteceu desde o primeiro ato pela redução da tarifa do transporte puxado pelo MPL-SP no dia 06 de junho?

Nas tentativas de entender os grandes acontecimentos de mobilização e luta, nos passam pela cabeça certas imagens: Maio de 68, o 15M espanhol, o 19 e 20 de dezembro na Argentina ou as milhares de cidades ocupadas no contexto do movimento Occupy. A questão que sempre retorna: Qual é o saldo político? Quais eram as demandas e até que ponto o sistema político as atendeu? Qual o acúmulo de cada força política e quanto delas foi dissipado sem continuidade em projetos políticos institucionais? Por trás das perguntas, sempre uma tentativa de buscar resultados em termos do tempo político normal, que justamente esses eventos modificam.

A distância entre a energia que circula nas ruas e nos imaginários dos protestos e, do outro lado, a tentativa de tradução em termos de organização política é sempre abissal. De fato, não é incomum que as imagens de praças e avenidas lotadas se sobreponham às da represão, da retomada conservadora e refluxo de movimentos. O Termidor sempre se apresenta na volta da esquina. É nesse momento que os apressados do desencantamento sempre dirão: “a revolta fracassou”, “a ordem foi estabelecida”, “não deu em nada”.

Os acontecimentos que se relacionam e revertem o tempo político são reconhecidos apenas como momentos “efêmeros”, os desejos e vontades se reduzem a “impulsos imaturos da juventude”, “utopia” ou “falta de sensatez”. “Está na hora de voltar pra casa”, algumas vozes disseram em Junho, “concordamos com vocês, mas as reformas que vocês querem não são possíveis”. Nesse momento, se impôs também uma leitura reducionista, onde os protestos eram lidos como antiprogressistas, como golpistas até – em algumas versões que circularam nas imprensas de países vizinhos – na tentativa apressada de devolver ao Estado a iniciativa, no que seria o espaço exclusivo da política. Continuar nas ruas era desestabilizar a democracia e questionar a legitimidade das instituições como lugar natural onde todo protesto deve se desvanecer.

Pensar um Junho que está sendo; pensar um, dois, três anos de Junho, de estar em Junho – e não apenas, o que se passou desde junho — faz parte de uma visão política ampla que resiste em decretar o fracasso dos acontecimentos que atualizam a História, que resiste a negar a potência da ação coletiva no imaginário político, apenas pela falta de institucionalização da revolta. Não vemos que a explosão de afetos, encontros e conexões das ruas deva ser necessária e inexoravelmente reduzida à representação e ao avanço da política profissional sobre a espontaneidade múltipla da irrupção política do fora. Foi justamente nas beiradas, na espontaneidade, nos laterais dos protestos iniciais e em alguns desdobramentos onde o ‘Brasil gambiarra’, híbrido e informal, alegre e transversal, manifestou que ainda existe ou que existirá. A história é feita no nível da fala, nesse momento onde a língua reconhecida e oficial é subvertida e os símbolos correm o risco de perder o seu sentido primordial.

Junho parou máquinas da política que pareciam imutáveis. Junho teve consequências concretas no sistema político e na multiplicidade de projetos políticos locais que terão presença na política brasileira por décadas. Além disso, Junho afetou de forma irreversível a gramática da produção de consensos, acelerou a reflexão sobre a urgência de uma política mais distribuída, alterou a rota segura e impávida da narrativa desenvolvimentista do crescimento, produziu doses intensas de desenfeitiçamento. Junho emergiu como um dispositivo disruptivo que quebrou o relato político e social prévio sem destruí-lo completamente. Junho também se insere em narrativas anteriores, como a de que Junho é pedir para avançar mais a partir do já feito. Mas Junho não emerge como uma meta narrativa rígida e categórica. O novo relato é um mosaico de fragmentos, de micro-utopias conectadas, de indignações distribuídas, de sonhos prévios, de novas sensibilidades. A multidão, transbordando as fronteiras do institucional, questionou o consenso, a realpolitik do pemedebismo como única política do possível.

A vigência de Junho, a possibilidade do impossível e do improvável na política do Brasil, está presente nos textos que aqui apresentamos. Eles trazem o ar respirado por subjetividades políticas que hoje e para sempre formam parte das capas geológicas onde a vida social reinicia e dá continuidade às lutas. Em diálogo direto com a profundidade da história, tão perto e tão longe da política e da gestão, vemos junho como produto e gerador de um novo tempo de desejos e mundos políticos que encontra nas ruas e nos gritos de um Brasil menor, radicalmente diferente do Brasil potência. O impacto simbólico, subjetivo, de junho vive ainda no “por uma vida sem catracas” que permeia as novas sensibilidades políticas.

No bojo dessas revoltas, surgiram novas formas de luta, novas táticas de insurgência, mas, também, novas tecnologias de repressão. Não se trata de um evento épico, ele é polifônico por natureza, logo, dramático. E seus contrastes, dobras e ambivalências nos levam não a um drama barroco, mas um drama histórico sobre uma situação barroca: deus e o diabo se encontram na Terra do Sol.

A nova luta, sem líderes, sem verticalidade e sem rosto emerge contra um aparato novo policial – no qual, além da própria polícia propriamente dita, se incluem também a mídia, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Ele está pronto a identificar, rastrear redes, prender e punir – não raro, fazer sumir, como no caso Amarildo.

Além da disputa do grande Estado-polícia contra o movimento, fenômenos outros pipocam. Em grau molecular, e fora do Estado, é possível ver fenômenos perturbadores como o (re)aparecimento de fascismos variados, os quais literalmente mostram a cara – e as garras! – no saudosismo de uma ditadura que sequer viveram. Em contraste – e até em oposição –, jovens pobres e muitas vezes negros resolvem cobrar a promessa não cumprida de liberdade e profanam os templos do consumo, na era da religião do deus dinheiro, com os chamados rolezinhos. Com Junho, o conflito floresce de forma intangível e a imagem de uma sociedade pactuada e integrada se desfaz: “a classe média agora entendeu a repressão policial que os negros e pobres sofrem todos os dias”.

As direitas e a grande mídia também tentaram se apropriar do poderoso grito de junho, dirigindo as ruas contra o Governo Dilma, depois da grande explosão do dia 17 de junho. A esquerda institucional também tentou emplacar suas estruturas e narrativas sobre junho. O “Dia Nacional de luta”, promovido pelo movimento sindical e outros movimentos sociais no dia 11 de julho de 2013, com carros de som, falas intermináveis, lutas por inscrições dos representantes na Avenida Paulista e na Av. Presidente Vargas no Rio, apenas mostrava que os formatos tradicionais das lutas precisavam ser radicalmente repensados. A retomada estatal (os 5 pactos da Dilma) chegou com a ideia de “estamos faz tempo trabalhando nisso ai que vocês agora pedem nas ruas”. O Governo e o Governismo não dialogavam de forma honesta com o acontecimento, muitas vezes o acusando de “conservador” e “manipulado pela direita”. Só conseguiram fabricar um storytelling artificial que buscava se inserir na linguagem da TV e no marketing político. Porém, os relatos únicos sobre junho fracassariam, diluídos na coreografia plural das redes e das ruas.

No entanto, Junho seguia afetando mesmo os mais céticos. Setores importantes da esquerda começavam a incorporar as pautas da desmilitarização da Polícia Militar, a luta pelo direito da livre manifestação, a radicalização contra os monopólios dos poderes locais, a pressão pelas auditorias das empresas de ônibus. Todas as pautas que justamente emergiam com força das ruas e que passavam a ser “levadas a sério” com mais centralidade pelas esquerdas e pelos movimentos sociais mais consolidados.

O acontecimento Junho criou e ao mesmo tempo descobriu um novo Brasil. Seja por trazer novos atores para cena ou, quem sabe, por mostrar o que há por trás das cortinas da própria encenação. O processo em curso suscitou inúmeras inquietações, criando algumas delas ou fazendo-as chegar à superfície.

Quando Dilma Rousseff chamou o Movimento Passe Livre para dialogar, eles disseram que seria melhor se ela convidasse as periferias, negras e negros, povos indígenas. A multidão não tinha rosto. As lideranças rejeitavam ser portavozes das ruas. A volta da História seria, assim, a proliferação de histórias diferentes, lutas que se encontram e começam a interagir. Seria também um novo tempo contra a História, de mundos que nascem ou resistem ao desaparecimento. Um reencontro da política com as ruas, que imediatamente se conecta com territórios indígenas, com ocupações de praças e diferentes territorializações, que para a política de cima e de gabinetes fechados é uma não-história, um passado remoto, algo que não existe nem se vê.

Grupos, Redes ou Movimentos?

Por algum motivo, a multidão de Junho não tomou a forma de um novo movimento nacional, como aconteceu no Diren Gezi turco, no 15M espanhol ou no #YoSoy132 mexicano. Curiosamente, são muitos os que ainda falam “do movimento”. Os participantes do OcupaAlckmin, que acamparam na frente do Palácio de Governo de São Paulo, reconhecem que não são mais um grupo, mas sim uma rede. Junho é também uma rede criada. Uma rede de afetos, uma rede comunicacional, uma rede de troca de experiências. Um novo ecossistema social que não substitui o ecossistema prévio, mas que convive com ele. Os novos atores como Ocupa Estelita dialogam com Resiste Isidoro em BH, Ocupa Cais Mauá de Porto Alegre ou a Casa Amarela de São Paulo. Mas também trabalham junto ao MTST e os movimentos clássicos de moradia. O novo não anula o velho mas convive. Junho produziu também coexistências potentes e interessantes.

A multidão não tem nome. “O movimento” não tem nome. Tanto faz. Junho provocou o surgimento de um novo sistema de ação social.  Um sistema-rede no qual convivem novos atores (perfis, coletivos, movimentos, redes, identidades coletivas) e estruturas tradicionais (movimentos, partidos, sindicatos). Esse diálogo e convívio possibilitou, por exemplo, o sucesso da greve dos garis do Rio de Janeiro de 2014, por fora das estruturas das direções sindicais.

Junho – seja movimento, ecossistema, sistema rede ou nova gramática social – não é unicamente antagonista, “contra”, um dispositivo destrutivo. Junho resiste, mas também constrói. Os novos atores, dialogando com o que já existia de lutas, criam novos espaços de construção política. Junho constrói trilhas, caminhos, seja na Assembleia Popular e Horizontal de BH, ao redor do Parque Augusta de São Paulo, no Ocupe Estelita de Recife, no movimento Casa no Campus em São Luís, no “Fora Feliciano” ou em plataformas de mídia livre.

De fato, não foi o “Facebook”, uma plataforma bastante centralizada, a responsável pelo levante. Contudo, a maneira com a ferramenta, apesar de suas limitações, foi reinventada pela rede real das ruas teve efeitos relevantes. Os eventos criados na plataforma ganharam significado: se tornaram espaços autônomos de diálogo dentro do rígido Facebook, muitos destes vitais para tomar as ruas como mecanismo de convocação, cobertura em tempo real e troca de dados em geral.

Junho não teria sido possível sem a cultura de redes constituída ao longo dos últimos anos, e pela própria militância virtual durante o levante, mas tais redes devem ser pensadas como um agenciamento: humano/máquina, redes “concretas”/rede “virtual”; não a ferramenta em si, como se ela fosse dotada de poderes mágicos e autônomos, mas dos significados e subversões promovidos pelos ativistas.

As redes centralizadas clássicas (mass media, Governos, partidos) saíram vivas de Junho, mas tomaram um susto gigantesco. As diferentes topologias de rede conviveram, desfazendo consensos, inércias, fluxos lineares do passado. A maneira como os grandes jornais mudaram de opinião expõe muito bem isso: de repente, os editorais dos grandes jornais paulistanos pediam a repressão aos “vândalos”, mas rapidamente a “opinião pública” foi desdita pela construção em rede de uma verdade narrativa sobre o que aconteceu: editoriais desesperados expressando mudanças de opinião, colunistas conservadores pedindo desculpas pela condenação aos movimentos proliferaram.

O saber coletivo expresso em rede desmentiu versões oficiais, trouxe provas concretas de violações perpetradas por autoridades, promoveu enxames de links com streamings etc. Uma “nova verdade”, a partir da ótica dos oprimidos organizados em rede, desafiando a velha mídia. Da política mais tradicional, ao mesmo tempo, esperava-se o momento da necessária institucionalização: a rede era valorizada como um “momento de explosão das ruas”, mas o desfecho, segundo essa visão, deveria ser inexoravelmente institucional. A rede, no entanto, resistiria a tentativas apressadas de desconfigura-la. Uma vez com vida, ela não deixaria de tecer articulações e incluir nós horizontais em sua trama.

Junho está sendo

Os efeitos das jornadas que transformaram a política desde baixo estão em curso. A intersecção da realidade específica do Brasil com o ciclo global de lutas produz efeitos que ecoam com muita força há mais de um ano. Só uma cartografia das lutas pode nos fazer avançar sobre o terreno pantanoso das confusões, propositais ou não, acerca dos seus significados. Mas é preciso fazer uma cartografia que vá para além dos espaços e dos tempos, fornecendo um panorama real das lutas e dos modos que o movimento assume em realidades específicas. Uma cartografia, sobretudo, destes desejos, pois é disso que se trata a questão.

Fazer ecoar as vozes dos protagonistas multitudinários, anônimos e persistentes do fenômeno em curso é um pequeno – e imprescindível – passo nesse sentido. É o desafio aqui posto e por onde iniciamos. O desejo, sua potência e suas armadilhas, consiste no enigma que perpassa Junho; e justamente por isso Junho não se encerra em si, ele se ultrapassa. Ele não é, ele está, seu ser é movimento, ele está sendo.

Neste contexto, o livro Junho: Potência das Ruas e das Redes apresenta um conjunto de relatos das jornadas e dos desdobramentos daquela primeira onda de protestos.  Sem pretensão de totalidade, o livro traz uma série de relatos descontínuos e livres que indagam os acontecimentos e seus desdobramentos em narrações de protagonistas e observadores de primeira mão. Eles transmitem a multiplicação espontânea, a ocupação e reinvenção de espaços urbanos; a experiência inesquecível de ganhar uma praça, ocupar uma ponte, pular catracas e queimar símbolos do poder. Os textos relatam e analisam; tecem hipóteses e apresentam o tempo de outras ontologias políticas que tensionam a cidade, o país em toda sua diversidade.

A maioria dos textos do livro é de relatos hiper-locais. A paisagem é urbana. O ângulo de câmera quase sempre é fechado: não conseguimos enxergar um horizonte nacional, embora este se adivinhe na combinação de relatos que o supõem. O Brasil é, no máximo, uma hipótese. Todos sentem um pertencimento novo, emocional. Alguns falam do “movimento”, nomeando algo maior, claramente brasileiro, talvez global. As jornadas de junho colocaram sobre a mesa de cada região os problemas locais. Problemas urbanos, tensões contra as elites predatórias regionais que castigam o comum, as necessárias conexões emergiram afetando a todos e todas. Corpos afirmando suas existências nas ruas e produzindo coexistências. A indignação explodiu depois da truculência policial que sentimos nas ruas de várias cidades. Essa indignação conectou as diferentes cidades do Brasil. O desejo de maior participação política permeou tudo, transbordou.

Junho está sendo, junho é, junho será. Está vivo, dentro de nós, diluído nas novas subjetividades, flutuando sobre um novo ecossistema social, criando novos espaços de política lateral. Junho será, nas redes e nas ruas. Junho é. Vive nas micropolíticas, nos muitos projetos-processos sonhados de forma coletiva: nas cidades, favelas, universidades, nos quilombos, nas florestas, nos corpos que procuram liberdade. Chegará de surpresa, como uma nova explosão emocional, como nova gramática social.

Seminário de Projetos - Pimentalab
Dia 9 de abril das 17:30 às 19:30
Sala 224 - Unifesp Guarulhos
Av. Monteiro Lobato; 609 (Campus Provisório)

Projeto de Iniciação Científica de Renato Ponzetto Aymberé
Título: Sociedade de Controle e nomes múltiplos: o caso Black Bloc
Texto disponível aqui

“Podemos definir nomes múltiplos como uma forma de se organizar politicamente em que um grupo de pessoas que adotam o mesmo pseudônimo e com ele passam a assinar manifestações das mais variadas naturezas, de intervenções artísticas ao hackeamento de sites; da destruição de símbolos da propriedade privada empresarial à autoria de livros.

Há dois tipos de nomes múltiplos, os abertos, onde, à priori, qualquer pessoa pode fazer utilizar o nome; e os fechados, em que apenas certas pessoas podem fazer uso do nome. Para estudar as relações de poder dentro de um nome múltiplo, optamos por analisar como se organiza o nome múltiplo Black Bloc, ou seja, procuramos compreender se dentro desse nome múltiplo alguns dos indivíduos que o constituem tem mais poder que outros, além de analisar a forma como o Black Bloc se enxerga e se promove em redes sociais e comunicados e, também, como a mídia os trata.”

Aymbere-nomes-multiplos

2013_07_11_ato_contra_monopolio_das_midias_manifestacao_cabral_6d_031

capa-pensata-2013

Acaba de ser publicada a terceira edição da Revista Pensata, organizada pelos alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp. Muitas coisas interessantes, vale a pena conferir.

Além de uma sessão de debates sobre as Revoltas de Junho de 2013, há um dossie sobre marxismo e teoria da dependência na América Latina. Destaco ainda um artigo sobre Ciência Política no currículo de Ciências Sociais no Ensino Médio. Participo desta edição com um artigo sobre as manifestações:

PARRA, H.Z.M. Jornadas de Junho: uma sociologia dos rastros para multiplicar a resistência. Revista Pensata, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNIFESP. V. 3, n. 1, ano 3. 2013. ISSN: 2237-678X. pp.141-150. DOWNLOAD PDF

Ativismo, cultura e tecnologia

As potencialidades das novas tecnologias, as novas formas de ativismo, o capitalismo contemporâneo e o modo como as atividades culturais articulam-se a essas dimensões

Mais informações: http://emmarcha.milharal.org

Visualização Online do Livro

Donwload – livro – MOVIMENTOS-EM-MARCHA-livro

 

 

 

 

 

Nesta quarta-feira, 12 de setembro de 2012, participo de uma conversa, junto com o colega Luis Ferla, na Escola de Comunicação e Artes da USP. A profa. Daria Jaremtchuk nos convidou para debater o filme “Yes Men Fix the World”. O Yes Men é um coletivo de ativistas que atuam na boa tradição da mídia tática e da cultura jamming. Neste filme, que tem como fio condutor o famoso “acidente” químico de Bhopal na Índia, temos diversos exemplos das ações e das estratégias de intervenção política do grupo.

Se você está procurando inspiração para outras formas de intervenção política…seus problemas acabaram! O Yes Men é uma espécie de antídoto tabajara contra a chatice.

Mais infos sobre o Yes Men:

http://www.yeslab.org/

http://theyesmen.org/

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Yes_Men

 

O filme está disponível para download em diversas plataformas.

Aqui voces podem ver o trailer e baixar o torrent: http://vodo.net/theyesmen

Aqui, links diretos para baixar o filme:

http://archive.org/details/The.Yes.Men.Fix.The.World.P2P.Edition.2010.Xvid

http://vodo.net/assets/torrents/The.Yes.Men.Fix.The.World.P2P.Edition.2010.Xvid-VODO.torrent

Acompanhei ontem a assembléia dos estudantes da EFLCH/Unifesp. Não farei nenhuma observação ou juízo neste momento e local (web=público) sobre a situação atual em que estamos. Limito-me à seguinte observação: a multidão presente estava absolutamente dividida em dois grandes blocos unitários. Preocupa-me o modo como em ambos os lados, uma mesma forma de subjetivação/identificação estava operando.

Deixo aqui três sugestões PARA TODOS neste final de semana. Há momentos em que a arte e a imaginação podem oferecer antídotos ao pensamento endurecido. Pergunta: como fazer diferente? Desconfio das respostas fáceis.

 

Filmes:

Bom Dia, Noite – http://www.imdb.com/title/tt0377569/

A Onda – http://www.imdb.com/title/tt1063669/

 

A terceira dica é a introdução (2 páginas) do Foucault à versão americana do livro “O Anti-Édipo”, Deleuze & Guattari:

PDF – foucault_anti_edipo

 

Segue abaixo proposta de articulação internacional entre diversos movimentos sociais pelo direito à livre manifestação em áreas públicas. Trata-se de uma importante iniciativa jurídica, que surge como reação às investidas policiais e judiciais aos movimentos de ocupação de praças em diversas cidades do mundo. O material está traduzido em diversos idiomas (incluso portugues).

 

De : Sophie Banasiak <sophie.banasiak@gmail.com>
Date : 17 avril 2012 11:27
Objet : [ENGL-FR-ESP-PORT-IT-GR-DE] Proposal for legal cooperation to defend the general right to freedom of expression in public areas
À : squares@lists.takethesquare.net, global-assembly@lists.riseup.net, GlobalStrike TTS <15mglobalstrike@lists.takethesquare.net>, walktobrussels@lists.takethesquare.net
Cc : coordreelledemocratiefr@lists.riseup.net, Commission juridique Paris <juridique-paris@lists.takethesquare.net>

[ENGL-FR-ESP-PORT-IT-GR-DE]
http://paris.reelledemocratie.net/node/1203

[ENGL]

Proposal for legal cooperation to defend the general right to freedom of expression in public areas 

The Legal Commission of the assembly of the Indignants Movement in Paris (Les Indignés de Paris)

 

Dear all,

As some of you are surely aware, on 17 January 2012 the Indignants Movement in Paris lodged a complaint before the French courts. The decision to take legal action followed repeated interventions by the police during the Movement’s occupation of the ¨La Défense¨ business centre in Paris; the intention was obviously to intimidate the participants and obstruct the demonstration. The principal reason for taking this matter to the courts is to protect our right to freedom of expression.

We are well aware that we are all confronted with the same problems: the oligarchy in power knows neither nationality nor frontier, and the only way to change the system, in our view, is to internationalise the combat and to create a common front. It would therefore seem logical to provide you with the basis of our legal case – especially as it rests on European law, via Article 11 of the European Convention on Human Rights and rulings by the European Court of Human Rights. As these are courts of an instance higher than our national courts combined, our arguments could prove useful to you, outside France, if you decided to take legal action against your own governments.

We hope that this offer of cooperation will be the first of many steps towards a campaign of legal collaboration at French, European and international level, aimed at defending our rights and working together to establish a genuine system of justice. Note, in this context, that the Indignants in Berlin inform us that the organiser of the Berlin Biennale (27 April to 1 July http://berlin.theglobalsquare.org/ ) has offered them a space at the festival entirely for their own use. This provides an excellent opportunity for the representatives of our different local or national legal commissions to get together and prepare a joint communiqué to the media on the legal action being taken. The lawyer defending our case would be happy to participate in the project.

With warmest regards,

The Legal Commission of the Paris Real Democracy movement

drp.juridique@gmail.com

Brief summary of the case being made by the Paris Indignants Movement

  Continue reading “Proposta para cooperação legal pelo direito de expressão em áreas públicas”

Das 16hs às 19:30hs no Campus Guarulhos – Bairro dos Pimentas.

Local: Ponto de encontro – Café/Cantina do Campus um pouco antes das 16hs.
Textos do debate empírico

Cronologia completa do debate: novo ativismo, esquerda e economia da cultura – http://blog.pimentalab.net/2011/07/01/cronologia-debate-novo-ativismo-esquerda-e-economia-da-cultura/
Referências teóricas para alimentar o debate:

-Ursula Huws Expression and expropriation: The dialectics of autonomy and control in creative labour Ephemera , theory & politics in organization . Volume 10(3/4): 504-521. Disponível: http://www.ephemeraweb.org/journal/10-3/10-3huws.pdf

-Briam Holmes: La Personalidad Flexible. Disponível: http://eipcp.net/transversal/1106/holmes/es

Recebi por email a seguinte compilação (omiti o email do emissor apenas para evitar spams).

Obrigado ao Danilo!!


CRONOLOGIA DO DEBATE (até 10/08/2011)

1. 17/6/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “A esquerda
fora do eixo” (http://passapalavra.info/?p=41221).

2. 21/6/2011, nos comentários do PassaPalavra, Cláudio Prado (Casa de
Cultura Digital) posta o seguinte texto:
http://coletivope-de-cabra.blogspot.com/2011/06/texto-do-claudio-prado-sobre-o-fora-do.html.

3. 22/6/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “Domingo na
Marcha (1ª Parte)” (http://passapalavra.info/?p=41431).

4. 22/6/2011, no blog Trezentos, por Ivana Bentes - “A esquerda nos
eixos e o novo ativismo” (http://www.trezentos.blog.br/?p=6056).

5. 23/6/2011, por Pablo Ortellado em seu próprio blog - “Capitalismo e
Cultura
Livre”(http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre).

6. 23/6/2011, por Fabricio KC em seu próprio blog (Antitextos) - “Nem
esquerda, nem direita, nem Fora do Eixo! Ivana Bentes e o texto do
Passa Palavra”
(http://fabriciokc.wordpress.com/2011/06/23/nem-esquerda-nem-direita-nem-fora-do-eixo-ivana-bentes-e-o-artigo-do-passa-palavra/).

7. 25/6/2011, por Frederico Neto, no site Produtor.info - “Entre os
problemas mais gritantes, Ivana Bentes destaca…”
(http://infoprodutor.wordpress.com/2011/06/25/entre-os-problemas-mais-gritantes-ivana-bentes-destaca/).

8. 26/6/2011, no blog Trezentos, por Henrique Parra e Gavin Adams -
“Nem eixo nem seixo” (http://www.trezentos.blog.br/?p=6070) e
(http://blog.pimentalab.net/2011/06/27/nem-eixo-nem-seixo/)

9. 26/6/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “Domingo na
marcha (2ª Parte)” (http://passapalavra.info/?p=41710).

10. 28/6/2011, circula na lista da Marcha da Liberdade, texto já
impresso na Revista Fórum, por Rodrigo Savazoni - “A Reinvenção da
Política”(http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=9252).

11. 28/6/2011, por Renato Rovai em seu blog da Revista Fórum – “Fora
do Eixo e a esquerda que a direita gosta”
(http://www.revistaforum.com.br/blog/2011/06/28/fora-do-eixo-e-a-esquerda-que-a-direita-gosta/).

12. 29/6/2011, no blog Razão Crítica, por Elton Flaubert – “Lutas
Sociais e Feitichismo: notas sobre o debate iniciado pelo Passa Palavra
(I)”(http://razaocritica2.blogspot.com/2011/06/lutas-sociais-e-fetichismo-notas-sobre.html).

13. 29/6/2011, no blog Quadrado dos Loucos, por Bruno Cava – “Sair dos
eixos à esquerda (I)”
(http://www.quadradodosloucos.com.br/1612/sair-dos-eixos-a-esquerda-1/).

14. 29/6/2011, no blog do Coletivo DAR, por Henrique Carneiro - “A
Maconha, as marchas e a crise do capitalismo”
(http://coletivodar.org/2011/06/a-maconha-as-marchas-e-a-crise-do-capitalismo-texto-de-henrique-carneiro/).

15. 29/6/2011, por Fabricio KC em seu próprio blog (Antitextos) – “Por
um pós-rancor menos pós-rebelde!”
(http://fabriciokc.wordpress.com/2011/06/29/por-um-pos-rancor-mais-rebelde/).

16. 29/6/2011, no blog Matutações, Gustavo Loureiro resgata o seguinte
texto - “isso funciona (…) respira (…) come (…) caga (…) fode”
(http://matutei.wordpress.com/2011/06/29/%E2%80%9Cisso-funciona-respira-come-caga-fode%E2%80%9D/).

17. 29/6/2011, no blog O Grito do Inimigo, por Eduardo Mesquita –
“Discussão ou invejinha? Escolha quem lê”
(http://ogritodoinimigo.com/?p=1007).

18. 30/6/2011, no blog Roraima Rock N Roll, por Wander Longhi - "Tudo
que gira FORA DO EIXO um dia quebra"
(http://roraimarocknroll.blogspot.com/2011/06/tudo-que-gira-fora-do-eixo-um-dia.html).

19. 01/7/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “Domingo
na Marcha (3ª Parte)”  (http://passapalavra.info/?p=41866).

20. 03/7/2011, no blog Razão Crítica, por Elton Flaubert – “Lutas
Sociais e Feitichismo: notas sobre o debate iniciado pelo Passa Palavra
(II)”(http://razaocritica2.blogspot.com/2011/07/lutas-sociais-e-fetichismo-notas-sobre.html).

21. 03/7/2011, no blog Quadrado dos Loucos, por Bruno Cava –
“Pós-modismo Pós-festivo (2)”
(http://www.quadradodosloucos.com.br/1644/pos-modismo-pos-festivo-2/).

22. 04/7/2011, no blog Trezentos, por Quã - "A esquerda sem fantasias:
justiça e solidariedade" (http://www.trezentos.blog.br/?p=6126).

23. 05/7/2011, no PassaPalavra, texto de Leo Vinicius - “A Marcha
posta a trabalhar”  (http://passapalavra.info/?p=42054).

24. 08/7/2011, no blog Razão Crítica, por Elton Flaubert – “Lutas
Sociais e Fetichismo: notas sobre o debate iniciado pelo Passa Palavra
(III)”(http://razaocritica2.blogspot.com/2011/07/lutas-sociais-e-fetichismo-notas-sobre_08.html).

25. 08/7/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “Domingo
na Marcha (4ª Parte)”  (http://passapalavra.info/?p=42227).

26. 10/7/2011, no Quadrado dos Loucos, texto de Bruno Cava - "Dormindo
na Marcha (3)"
(http://www.quadradodosloucos.com.br/1691/dormindo-na-marcha-3/)

27. 15/07/2011, no PassaPalavra, texto do próprio coletivo - “Domingo
na Marcha (5ª Parte)”  (http://passapalavra.info/?p=42544).

28. 17/07/2011, no Diário Liberdade, texto do próprio coletivo -
"Política, Subjetividades e Entrelinhas"
(http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=17638:politica-subjetividades-e-entrelinhas&catid=59:institucional&Itemid=73)

29. 19/7/2011, no Ver-o-Pop, entrevista com Cláudio Prado -
"Entrevista especial e revolucionária com Claudio Prado"
(http://ver-o-pop.ecleteca.com.br/2011/07/19/entrevista-especial-e-revolucionaria-com-claudio-prado/)

31. 23/6/2011, no Blog Produção de Cultura no Brasil - da Tropicália
aos Pontos de Cultura, texto do próprio blog - "Das redes às ruas: e
agora, o que fazemos com isso?"
(http://tropicaline.wordpress.com/2011/06/23/515/)

32. 04/08/2011, na Caros Amigos, texto de José Arbex Júnior -
"Lulismo Fora do Eixo": Artigo completo aqui:
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=9741

33. 08/8/2011, no Blog Produção de Cultura no Brasil - da Tropicália
aos Pontos de Cultura, texto do próprio blog - "Das redes às ruas :
questões locais para conexões globais"
(http://tropicaline.wordpress.com/2011/08/08/das-redes-as-ruas-questoes-locais-para-conexoes-globais/)

Quem tiver outras referências pode completá-las na área de comentários e depois juntamos todas

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Foto: Marcha da Liberdade, Av.Paulista – São Paulo, 18 de junho de 2011.

Nem eixo nem seixo  [1]

por Henrique Parra e Gavin Adams [2]

Nas últimas semanas e, com maior intensidade logo depois da Marcha da Liberdade (18/06), cresceu um interessante debate em torno das formas de organização social e ação política presentes nessas recentes manifestações. Essas formas de organização ganharam visibilidade aguda no presente debate, mas têm sido desenvolvidas ao longo de vários anos de experimentação militante e sensível. A discussão segue de maneira animada em alguns artigos publicados na Internet. Começamos escrevendo este texto numa troca de emails, mas ele acabou virando este post. Esperamos que contribua para o debate.

Parece-nos que as questões colocadas pelo debate indicam que tanto a reflexão teórica quanto a prática política compartilham um limite comum frente às urgências que têm aflorado no real. Como resultado, na ausência de condições (tanto teóricas como políticas) para que as análises dêem conta da complexidade do problema, as ferramentas analíticas parece que se tornam prisioneiras dos projetos políticos dos sujeitos que estão enunciando e problematizando os “fatos”. Estamos diante de uma fronteira em que as soluções interpretativas apontadas para os problemas empíricos observados são indissociáveis dos pressupostos que pré-configuram o campo político, e que atribuem (de maneira mais ou menos positiva) a agência e o protagonismo político a determinados grupos sociais. Nos debates que estão acontecendo em artigos públicos, listas de discussão e boas conversas de botequim, diferentes argumentos são mobilizados. Neste pequeno comentário, vamos distribuí-los em dois campos, bem representados pelos artigos do Passa Palavra e da Ivana Bentes, apenas para tornar o problema mais visível.

O que primeiro chamou a atenção é que em ambos os casos a análise não pode ser separada de uma vontade/desejo de fazer realizar um certo projeto político, seja a luta de classes em seu porvir revolucionário; seja a multiplicidade sem totalidade de devires de resistência criativa.

Algo está em movimento. A nítida sensação de que algo está a mudar, parece animar o presente debate. Ao esgotamento de tradicionais formas de organização e ação políticas parecem corresponder novas formas de ser e sentir, de trabalhar e morar que não encontram expressão nessas formas tradicionais. Mas, por outro lado, estas transformações parecem se concretizar em configurações específicas de trabalho, de subjetivação, de consumo, de existir e de sentir. A interpretação potencializadora desses fluxos geraria vantagem organizativa que permitiria o crescimento estratégico como que à sombra da velha hegemonia, que carece do instrumental de mesmo apreender o que está em movimento – potencialmente, sua própria destruição, ou pelo menos sua transformação libertária profunda (ou ainda a instrumentalização e aprisionamento das potencialidades para fins de manutenção do capitalismo).

O artigo do Passa Palavra apresenta amplas contribuições para a problematização da atual conjuntura política. Aqui, concentramo-nos em apenas alguns aspectos. Neste artigo, critica-se este conjunto recente de manifestações públicas pois ele não apresenta os componentes esperados de uma ação política potencialmente emancipatória (o que vem a ser essa emancipação já é um problema para a discussão). Denunciam ainda a emergência de mecanismos de exploração econômica e relações de dominação no interior das redes aparentemente horizontais e democráticas (coordenadores, administradores ou produtores como expressão da emergência de uma nova classe gerencial?); e apontam possíveis processos de captura da energia política dessas mobilizações por novos grupos sociais (aparelhamento?). O argumento procede assim: parte-se de uma análise econômica das transformações recentes do capitalismo e se identifica a elas um setor ligado à comunicação. Este setor é composto de gerentes que, compreendendo os novos mecanismos da rede, se interpõem como intermediários entre os trabalho coletivo e sua comercialização. O artigo amplia esta análise para manifestações como a Marcha da Liberdade, julgando-as expressões dessa nova casta de gerentes comunicacionais que agenciam corpos alheios em redes produtivas. No sistema analítico mobilizado pelo Passa Palavra, a forma e a dinâmica do conflito e de seus sujeitos já está dada a priori. A análise não abre mão da economia como gerador de protagonismos socias, e já se sabe qual é a luta relevante a esse tipo de análise e onde se deseja chegar, faltando apenas encontrar ou produzir tais sujeitos (classes populares? novo operariado?) para que a luta aconteça na direção esperada. O texto sugere equivocadamente que o ativismo atual em geral seja a exata expressão do novo capitalismo (open business etc.), ignorando extensa e diversa experiência militante anticapitalista envolvida em formas mais complexas de interação com a produção capitalista [3].

O artigo da Ivana Bentes, por sua vez, critica alguns pressupostos teóricos do artigo do Passa Palavra ao propor que sejam prisioneiros de uma “imagem do pensamento” (para ficarmos no vocabulário deleuziano) que condiciona suas análises, impossibilitando-os de enxergar o novo, suas aberturas e potencialidades. É possível se sentir contemplado pelos diagnósticos agudos proporcionados pelo partido teórico que informa a crítica realizada por Ivana. Porém, temos a impressão que as posições manifestas em seu artigo (são posições teóricas partilhadas por muitos interlocutores) acabam caindo, no âmbito deste debate local, numa armadilha semelhante à que eles querem denunciar.

Deste ponto de vista, o grupo que está no centro das discussões (Fora do Eixo – FdE) seria um bom exemplo das novas formas de luta e de organização social no atual contexto do modo de produção capitalista (capitalismo cognitivo, capitalismo imaterial etc). Em suma, tanto este grupo como outras iniciativas envolvidos nessas várias manifestações no Brasil poderiam ser tomados como expressão da emergência de novos sujeitos políticos (precariado, cognitariado?). Certamente, o problema não é caso tomado como exemplo (FdE), mas deve remeter a um contexto sócio-histórico mais amplo.

Tem sido frequente na grande imprensa e na Internet a tentativa de se estabelecer aproximações “identitárias” entre essas movimentações do Brasil com outras da Espanha, Tunisia e Egito, dentro do impulso de nomear o novo e o inominável, domando e controlando pelo discurso, reduzindo estas formas a formatos esperados e de antemão presos à análise política jornalística. Há, todavia, diferenças evidentes entre o contexto social, econômico e politico do Brasil com esses países e, também, no perfil do público jovem que protesta aqui e nesses países. Ao tentar interpretar esses movimentos recentes a partir dessas categorias, e ainda, ao conectá-los culturalmente (e ideologicamente) aos levantes árabes e protestos europeus, não estaríamos diante de uma análise que produz um real à semelhança de um projeto político que se deseja ver realizado? Assim, ao invés de buscar uma forma em vias de se realizar, talvez, o mais interessante, seja buscar as “zonas de vizinhança” entre esses acontecimentos.

Portanto, em que medida tal análise que se pretende “imanente” (pela evidente vinculação teórica, que alias apreciamos parcialmente) não acaba por restabelecer um télos que pretendia negar? Neste caso, ao contrário das posições traduzidas no artigo do Passa Palavra, no artigo da Ivana Bentes o argumento procede da seguinte forma: sabe-se quem são os sujeitos políticos, sabe-se quais são suas formas de ação (a resistência pela multiplicidade, a luta das minoridades (que não se confunde com as minorias…) sendo necessário produzir e dar forma à sua luta política (não representativa, não unitária, não totalitária).

Há ainda um outro ponto em comum a partir do qual as diversas posições sobre o problema estão gravitando: a categoria trabalho. De um lado (Passa Palavra), o diagnóstico aponta que o trabalho e sua racionalidade de tipo capitalista dominou todas as esferas da vida, material e subjetiva, e isso efetiva a opressão e a super-exploração. De outro, o trabalho nas sociedades contemporâneas, mediante a ganho de centralidade do capitalismo imaterial, tornou-se cada vez mais “comunicacional”, diluindo as antigas dicotomias que definiam as fronteiras entre: trabalho e de não-trabalho; autonomia e heteronomia; emancipação e exploração, entre outras. Mas, ao mesmo tempo, sob esta perspectiva (do capitalismo cognitivo) seria possível enunciar outras possibilidades de luta e criação politica (as lutas pelo comum).

Interessamo-nos por ambas as posições e estamos animados com a possibilidade que temos de colocá-las em confronto a partir de um problema empírico que se apresenta diante de nós. Duvidamos, entretanto, que os problemas enunciados neste debate tenham respostas fáceis ou prontas. O momento parece exigir, simultaneamente, a prudência e a ousadia de ouvir com atenção e desconfiança o canto das multidões e das sereias. Talvez, o mais produtivo seja realizar um esforço para caracterizar e descrever quais são os problemas que estão colocados na mesa por ambas e outras perspectivas. Inevitavelmente, tal percurso irá interrogar tanto nossos pressupostos como as visões de futuro que inspiram o pensamento. Tal tarefa é necessariamente coletiva, e já está sendo realizado em diversos lugares por muitas pessoas. Assim, limitamo-nos a lançar alguns pontos que podem ajudar a dar visibilidade à encruzilhada, à fronteira do indistinto. É neste ponto que estamos, onde teoria e prática política estão se reinventando. Diriamos que a Política é exatamente este conflito pela definição das fronteiras do indistinto.

Que outros pontos poderiam entrar nesta lista? É preciso discuti-los:

  • Política e Trabalho: este binômio aparece sob diferentes formas (e.g. liberdade x necessidade). Fazer política no reino do trabalho? Ou a política só é possível fora da esfera das necessidades? Trabalho como meio ou fim para a livre criação? Talvez os artistas respondem essa pergunta de maneira diferente dos metalúrgicos, mas a coisa fica mais complicada quando aparentemente algumas qualidades do trabalho criativo passam a ser solicitadas em outras esferas. Tal problema aparece também nas tensões entre o livre ativismo e as necessidades de sustentabilidade financeira dos movimentos: relação financeira X política efetiva. Trabalhamos o ano inteiro e vamos fazer revolução nas férias? Ou tentamos trabalhar fazendo as micro-resistências cotidianas? Ou reduzimos o trabalho para ter tempo livre pra fazer política? Enfim, qual o lugar da política? Essa questão está sendo respondida de diferentes formas.

  • Capitalismo Imaterial (pós-fordismo) e Capitalismo Material: é relativamente fácil de constatar que muitas coisas mudaram na economia e nas relações de trabalho nos últimos 30 anos. O difícil é confirmar o que mudou e o que persiste, reexiste. Quais as continuidades e transformações? Elas se dão da mesma forma nos diferentes países? Pode-se afirmar que houve um certo deslocamento e crescente importância do chamado trabalho imaterial para a produção de valor monetário. As guerras sobre a propriedade intelectual refletem isso em certa medida. Ao mesmo tempo, é curioso observar, por exemplo, a atual disputa geopolítica por terras cultiváveis, pela água e pelos minérios raros. Como diz um amigo, “é preciso fazer as contas” e refletir se e onde se dá a exploração, e julgar se abandonar essas ferramentas como obsoletas não interessa apenas àqueles que desejam rearticular essas relações de exploração dentro de um ambiente de rede. Diríamos que, além de fazer as contas, teremos que enfrentar um inescapável problema teórico e político pela definição do que entra ou não na contabilidade.

  • Esgotamento do modelo de representação política (partidos políticos, sindicatos etc): em que pese a crescente descrença nos partidos políticos (ha sempre uma pesquisa disponível pra mostrar como os jovens não se vêem representados nos partidos) estão surgindo novos partidos no Brasil. Curiosamente, alguns grupos que criticam esta forma de representação estão criando iniciativas que apontam para um possível devir-partido (Partido da Cultura, Partido Pirata…). Os sindicatos, ainda que inseridos em dinâmicas de burocratização e relativamente atrelados aos governos, são atores relevantes e também sob disputas internas. No momento, o emprego formal cresce no Brasil. Veremos novas estruturas de representação emergir? Como combinar a luta por direitos (que implicam em mecanismos de institucionalização) com a luta pela crescente expressão das diferenças e minorias (não-numéricas, mas aquilo que não é hegemônico)? Uma lei sempre define um dentro e um fora? Velhas questões que continuam atuais e respondidas de formas diversas…

  • Trabalho e não trabalho; trabalho colaborativo e novas hierarquias: onde está a fronteira? Por exemplo, quando a livre formação contínua (acesso à cultura) é indistinta da formação para o trabalho como ficam os problemas relativos à reprodução do trabalho? E como fica a distribuição do trabalho e a apropriação dos valores gerados a partir do trabalho colaborativo? Onde começa e termina a colaboração e a exploração? Será que faz sentido falar em exploração nesses contextos? (claro que não estamos falando das condições neo-fordistas dos info-proletários).

  • Projeto(s) político(s): não se trata de ter um projeto politico (felizmente não há um), mas isso não significa que não exista projeto algum! Afinal, quais são os projetos e horizontes políticos que estão silenciosamente guiando nossas reflexões e práticas? Nesta atual encruzilhada teórica e política seria falso dizer que nossas análises não estão sendo informadas por tais projeções. Há, em boa parte dos grupos ativistas envolvidos nessas mobilizações, um discurso atualizado da luta e dos modos de organização não-institucional. Não se trata de restabelecer processos pré-determinados ou totalidades preestabelecidas, mas isso não significa pensar a prática política apenas em seus momentos instituintes, reduzida só ao acontecimento efêmero. Diversas linhas de ação, do final dos anos 60 e mesmo os movimentos anticapitalistas do ciclo Seatle, formaram-se num horizonte de práticas criativas, não-institucionais e sem grandes metanarrativas ou projetos finais que orientassem suas ações. Entretanto, passado os momentos disruptivos quais eram as iniciativas que emergiam e ofereciam condições de respostas organizativas à sociedade? Há boas lições dessas iniciativas. Como articular as novas formas de luta, a potencia criativa, os momentos instituintes com as dinâmicas que exigem maior duração e organização no tempo-espaço?

Novamente, são esses e outros (quais outros?) problemas/dilemas que estão na mesa, gerando diferentes respostas e influenciando as possíveis formas de organização social e luta política. Descrever, cartografar, analisar, problematizar essas situações e fazê-lo de forma compartilhada é uma tarefa relevante se quisermos ultrapassar as pequenas divisões e os conflitos que hoje enfraquecem esses movimentos.

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[1]  O texto dialoga, em especial, com dois textos. Recomenda-se a leitura de ambos:

A esquerda fora do eixo – foi publicado como editorial no Passa Palavra [www.passapalavra.info].

A Esquerda nos Eixos e novo ativismo – de Ivana Bentes, publicado no Trezentos [www.trezentos.blog.br].

[2] Henrique Parra: polart [arroba] riseup.net ; Gavin Adams: gavartist [arroba] yahoo.com

[3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/

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Fonte foto: http://hp.coiote.org/henrique-parra/manifestacao/marcha-da-liberdade/

As recentes manifestações políticas nas ruas das capitais brasileiras estão suscitando interessantes debates. Dentre os novos atores que estão participando dessas ações trazendo outros elementos para prática e reflexão, destaca-se o Circuito Fora da Eixo. Espero em breve, num texto próprio, contribuir com algumas reflexões. Por hora, copio aqui dois artigos que exemplificam os debates.

O primeiro artigo – A esquerda fora do eixo – foi publicado como editorial no Passa Palavra [www.passapalavra.info].

Ele suscitou várias respostas. Entre elas, a que me parece mais interessante, foi o texto da Ivana Bentes – A Esquerda nos Eixos e novo ativismo – publicado no Trezentos [www.trezentos.blog.br].

Quando acabava de publicar este post, saiu a réplica do Passa Palavra – Domingo na Marcha (1ª parte)

Boa leitura!

Dissenso político, disputa informacional, guerra de imagens, sub-versões…

Nova ação do grupo ativista “Yes Men” que colocou no ar um site clone do Fórum Economico Mundial (World Economic Forum).

Site mais do que original: http://www.we-forum.org/en/index.shtml

Site oficial do WEF : http://www.weforum.org/en/index.htm