Brincando comigo, um amigo brasileiro escreveu perguntando se eu estava me exilando e abandonando a luta pela democracia no Brasil. Ouvir essa frase em 2017 é muito estranho. Evidentemente, esta viagem não tem nada de exílio: um exilado não tem qualquer alternativa senão fugir; a partida é incerta, o destino imprevisível e não há qualquer certeza sobre o retorno. Ainda assim, impossível ouvir essa provocação sem o peso do atual contexto histórico e sem a memória de nosso recente passado. Em nosso caso, a volta se dará rapidamente, o destino da viagem é certo e voltaremos, provavelmente, antes de qualquer mudança profunda em nosso quadro político atual.

Mas aquela provocação ficou reverberando. Ela fez eco com alguns sentimentos que me habitavam nos dias que antecederam a partida. Faz exatamente um mês que eu voltara para São Paulo com a família, após dois anos e meio morando no litoral – http://cienciaaberta.ubatuba.cc , mas praticamente ficando muito tempo na estrada entre Ubatuba, Guarulhos, São Paulo e Rio. Foi um período gostoso porém exaustivo. Neste inicio de julho, voltamos para um novo apartamento na Helvétia, coração pulsante de novos e velhos conflitos da cidade. Em pouco menos de um mês transformamos aquele espaço em nossa nova morada e a deixamos preparada pra ser habitada por amigas queridas durante nossa breve estadia em Madrid.

Fazendo tudo isso em tão pouco tempo, desterritorializações e territórios em fluxo, criando novas relações, projetos e novos vínculos afetivos tão importantes para novas vidas que se instalam, senti esta partida de uma maneira diferente das outras viagens. Senti mesmo que novos processos e vínculos estavam sendo interrompidos pela conjuntura dessas mudanças. Vivendo intensamente em cada um desses territórios, acompanhando as transformações políticas dos últimos anos, e cuidando de pessoas queridas que passaram por situações de vulnerabilidade, pude observar e sentir novos entrelaçamentos entre o mundo macropolítico e aquele das tensões e mutações subjetivas. São tempos sensíveis e de muitos limitares este que vivemos. Difícil saber o que virá pela frente. A catástrofe já aconteceu em toda parte, e tem intensidades diferentes em cada lugar, em casa povo e para cada indivíduo. A crise política que vivemos no Brasil é apenas uma dentre outras dimensões deste desabamento.

Ao mesmo tempo, em muitos lugares e com muitas pessoas que encontro, sinto que pulsa um desejo de criação de novas formas de vida em comum. Por isso, aquela imagem do exílio não nos serve. Não deixamos para trás um mundo de impossibilidades. Ao contrário, são muitos os mundos possíveis que carregamos conosco. Empresto a belíssima imagem da cineasta sikh Valarie Kaur, em seu discurso sobre a luta dos direitos civis contra o intolerância nos EUA pós-Trump – https://www.youtube.com/watch?v=9CbKjNWS864 . Sendo pai de uma pequena criança fiquei tocado pela maneira como ela transformou sua experiência materna numa metáfora do desafio político atual. Diante da necessidade de acolher uma nova criança num mundo que se apresenta como pior que aquele onde ela cresceu, o que fazer? “E se a escuridão que temos diante de nós, não for a escuridão da tumba (Tomb) e sim a escuridão do útero (Womb)? O que a parteira diz? -Respire e empurre! Porque se você não empurrar poderá morrer! Respire e empurre!”

Nota: este post inaugura uma série de pequenos relatos que pretendo realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa