A Rádio Terrana é um podcast do Pimentalab da Unifesp e do coletivo Tramadora,  um programa sobre ciências terranas, tecnopolíticas e experimentações em tempos de catástrofes. Encruzilhadas sonoras entre práticas científicas, ações de retomada e lutas pelo Comum.
São Histórias de experimentações que nos convocam a pensar juntas sobre possíveis futuros de transição societal. O podcast ensaia diálogos com ativistas/lutadoras implicadas com problemas concretos em práticas políticas, territórios, corpos e pensamentos de retomada e também com cientistas/pesquisadores que realizam deslocamentos nos modos de produção de conhecimento, conectados com as urgências impostas pelo antropoceno.
Sobre o  episódio:
Conversamos com Jerá Guarani, liderança Guarani Mbya da aldeia Kalepity, nas Terras Indígenas Tenondé Porã,  em Parelheiros, extremo sul da cidade Sao paulo; e com Lucas Keese, que é pesquisador, antropólogo, mas que há muito tempo é parceiro da luta Guarani, ajudando a articular ações no território, tecendo encontros e lutas. Vamos falar um pouco sobre os limites das formas de produção de conhecimento em nossas escolas e universidades a partir de uma perspectiva terrana que vem sendo elaborada e cultivada no território guarani mbya.
Como a luta e os modos de existência guarani interpelam o colapso civilizacional produzido pelo mundo dos brancos? Há mundos por vir?

Ficha Técnica:

Equipe Pimentalab e Tramadora: Alana Moraes  Bru PereiraGustavo LemosHenrique ParraJessica Paifer
Entrevistados: Jera Guarani, Lucas Keese
Edição, mixagem, e trilha sonora: Gustavo Lemos
Produção:Pimentalab (Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento, UNIFESP): https://www.pimentalab.net Coletivo Tramadora: https://www.tramadora.net
Apoio:Rede Lavits (Latinoamericana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e Fundação Ford: https://www.lavits.org

Músicas:

Abertura: Gustavo LemosKatú – Aguyjevete: https://www.youtube.com/watch?v=M4czt2327vAKunumi MC – xondaro Ka’aguy Reguá: https://www.youtube.com/watch?v=cT7ZXxAMetY Memória Viva Guarani – Nande Reko Arandu – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4Memória Viva Guarani – Ñande Arandu Pygua – https://www.youtube.com/watch?v=3sJNTCYZyw4

Ciclo “Habitar as Fronteiras” no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Dias 7 e 14 de abril de 2020.

Diante da debilidade existencial intensificada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, os encontros convidam ao diálogo pesquisadorxs-praticantes que tencionam as habituais fronteiras entre ciência e luta, vida e política. Assumir a nossa crise da presença como condição de uma vulnerabilidade compartilhada para investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas também experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”.

Partimos de experiências investigativas em que saberes e práticas de lutas emergem de corpos como sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias e que intuem que é o movimento de abertura ao acontecimento o que pode sustentar práticas coletivas de insistência na vida como interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

07/04, terça-feira, das 19h00 às 21h30 – Encontro com Bru Pereira – antropóloga e educadora, mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP; Edson Teles – professor de filosofia na UNIFESP; Maria Fernanda Novo – doutora em filosofia pela UNICAMP. Mediação de Jean Tible – professor de Ciência Política (FFLCH/USP).

14/04 (terça-feira), das 19h00 às 21h30 – Oficina com Alana Moraes – antropóloga, doutoranda pela UFRJ e Henrique Parra – professor de Ciências Sociais da UNIFESP. Pesquisadores do Pimentalab/LAVITS e do coletivo Tramadora.

Oficina: ao adotar a gestão de crise como técnica de governo, o capital não se limitou apenas a substituir o culto ao progresso pela chantagem da catástrofe, ele quis reservar para si a inteligência estratégica do presente” (C.I). A oficina é um convite para habitar por um pouco mais de tempo os problemas comuns que nos obrigam a pensar juntos. Inspirados na ideia de um “parlamento de corpos” queremos retomar a inteligência compartilhada e a potência da situação presente. O parlamento emergente de corpos afetados se instaura a partir de formas de conhecer que possam transformar (narrar/inventar/mediar) a experiencia de um corpo-sensor em um conhecimento de luta coletiva dos corpos vivos, que nada tem a ver com a produção de maiorias ou consensos. A oficina convida os participantes a investigar o problema da crise da presença diante da crescente mediação técnica da vida social e as consequentes alterações do regime de sensibilidade que sustentam ou destroem um mundo comum. Diante da multiplicidade de dispositivos tecnológicos que fazem da vida uma sequencia prevista de condutas, procedimentos e desempenhos funcionais, praticamos uma atenção àquilo que o corpo não aguenta mais, como ponto de partida da construção de formas de vida não fascistas.

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corpo-como-sensor é uma proposição ético-política da vida em sua ontologia corpórea extremamente vulnerável, um terreno de travessias e cruzamentos no qual a representação dá lugar à experimentação, à variação e ao risco dos encontros. Em há um mundo por vir? (2015), Viveiros de Castro e Débora Danowski se perguntam quem seria o demos de Gaia, “o povo que se sente reunido e convocado por essa entidade, e quem é seu inimigo” (2015:120). Para os autores, não se trata mais de buscarmos um “sujeito revolucionário”, mas seguir uma etnopolítica que suspenda a própria noção de “sujeito capaz de agir como um só povo”.

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, o seminário convida ao diálogo praticantes que tensionam as habituais fronteiras entre ciência e política, entre natureza e cultura. Nesse sentido, pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”. Partimos de investigações em que saberes e práticas emergem de corpos-como-sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias, experiências que intuem que é o movimento de abertura e composição com o acontecimento de encontros o que pode sustentar práticas de insistência na vida em interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

Habitar uma política do sintoma que não nos permite “interpretar” tendo em vista um lugar seguro do diagnóstico que contorne ou neutralize o mal-estar.. Nessa condição de precariedade de um mundo sem refúgio, a invenção de linguagens, sentidos compartilhados, infraestruturas e tecnologias de suporte à essas formas de vida é inseparável de uma prática experimental de composições de alianças e arranjos sociotécnicos que dão forma a outras individuações coletivas, a emergentes comunidades de afetados. Trata-se de escapar dos imperativos de resultado e impacto, reino da estratégia e da eficiência tecnocrática, para habitarmos um terreno de experimentações de composições sempre situadas, que funcionem como caixas de ressonância de formas de vida não-fascista.

Estes tempos nos exigem coragem, mas também uma aposta na pesquisa, na investigação coletiva, em uma ciência aberta que inclua corpos e suas marcas, saberes não autorizados pelo regime de saber-poder.

Precisamos assumir as perguntas, dar-nos esse tempo do pensar junto, experimentar, criar contra-dispositivos para uma vida não fascista.

Diante das formas renovadas de produção de desigualdades, do consórcio explícito entre forças autoritárias e as dinâmicas de expropriação da vida e do território, promotoras da crescente militarização, gentrificação, despossessão e tristeza, lançamos perguntas-vinculantes: Como reativar uma possibilidade de inteligência coletiva? Como convocar saberes e práticas coletivas que nos permitam imaginar e disseminar alternativas a esse cenário? Como produzimos e sustentamos o Comum entre todos?

Convocatória e inscrições AQUI

Os laboratórios cidadãos funcionam sob um complexo arranjo sociotécnico, simultaneamente simbólico e material, normativo e pragmático. Há uma política cognitiva que se manifesta numa ética e num conjunto de práticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer. Há uma tecnopolítica que se realiza nas configurações das mediações técnicas da interação social. Há uma economia política, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos. Há uma política experimental que se realiza através de processos instituintes de novas comunidades. Em síntese, um laboratório cidadão realiza-se com uma combinação de: abertura; colaboração; cuidado; mediação; documentação; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades; protótipos e produção do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.

Abertura e Colaboração

A produção de conhecimentos no contexto dos laboratório é aberta, situada e colaborativa. Abertura no sentido de que todos devem ser capazes de aportar uma nova perspectiva, há contraste de argumentos e a possibilidade de não bloquear uma controvérsia; isso também significa queo conhecimento aberto é sempre provisório. Ele não visa encerrar um debate ou um problema, mas ao contrário, torná-lo mais denso, mais rico e complexo. É colaborativo porque é feito entre todos, com o maior número de perspectivas e atores possíveis. É situado porque é produzido em contextos específicos e reconhece o caráter parcial, corporificado e perspectivo dos conhecimentos. Mas para que isso ocorra certas condições devem ser respeitadas para que diferentes atores possam participar. Essas condições implicam em: infraestruturas mais abertas e horizontais; documentação rigorosa, acessível e reproduzível; protocolos (para tecnologias e regime de propriedade) que garantam abertura e controle pelos participantes. Nos laboratórios tais características podem alcançadas mediante diferentes estratégias: 1) definição prévia de protocolos que regulam as condições de participação dos múltiplos atores e o regime de acesso e propriedade sobre os bens e recursos produzidos, mediante a adoção de licenças de propriedade intelectual alternativas (FairLicences, Creative Commons, Copypeft, Peer2Peer Licences, GPL); 2) definição das características físicas e do local de realização do laboratório, de forma a propiciar condições de maior abertura à participação do público interessado; 3) definição da comunidade de afetados, público concernido ou problema específico que será abordado.

Protocolos, tecnologias e infraestruturas

Modos de tornar durável uma certa configuração social; são também formas de transmissão de uma agência; e criam determinações sobre um conjunto de interações que ocorrem através delas (Latour, 1990; 1994). O desenho dos protocolos, das tecnologias e das infraestruturas utilizadas num laboratório compõem uma tecnopolítica. Tecnologias baseadas em software e hardware livre; protocolos de dados abertos; licenças autorais alternativas que fortaleçam a livre apropriação e uso dos conhecimentos e protótipos produzidos; infraestruturas que amplifiquem a autonomia e autogestão da própria comunidade sobre o processo desenvolvido são algumas das opções adotadas pelos laboratórios. A infraestrutura aqui pode ser tanto a plataforma de comunicação online utilizada, como o espaço físico utilizado para o encontro. São infraestruturas que promovem uma interação mais aberta e solidária? São infraestruturas que restringem o acesso e a participação? Os protocolos são mobilizados como tecnologias sociais capazes de “automatizar” ou “facilitar” a resolução de certos problemas ou a adoção de procedimentos que produzem resultados desejados. Em algumas situações contribuem para dar agilidade a processos em que é necessário tomar uma decisão. Eles oferecem estratégias, recursos, procedimentos para situações determinadas. Porém, devem sempre ser aplicados com respeito ao contexto de efetivação. Não há protocolo social que possa ser alheio aos efeitos provocados num determinado contexto de aplicação. Por exemplo, documentar de forma aberta o protótipo desenvolvido é um protocolo que está presente em quase todos os laboratórios. A prescrição de que um grupo que seja mais heterogêneo é um protocolo social que influi na composição dos membros de um laboratório. A escolha por um espaço onde as pessoas possam interagir de forma mais ativa, horizontal e dialógica implica num desenho de uma infraestrutura espacial. Mas também, como nos indica os trabalhos de Corsin e Estalella (2016), a própria prática de documentação vai gradualmente se constituindo como uma infraestrutura que sustenta uma comunidade de praticantes. É no campo dessa tecnopolítica que vimos emergir novas preocupações em torno da autonomia e soberania tecnológica, ou na busca por arquiteturas (de tecnologias da informação) mais descentralizadas e distribuídas, permitindo minimizar a dependência corporativa ou estatal. A infraestrutura torna possível a existência continuada de uma ação. Ela dá o suporte às práticas e modos de existência de uma determinada comunidade, que transforma e sustenta essas infraestruturas em um comum.

Documentar

O ato de registrar, sistematizar, organizar e publicizar o conhecimento produzido é uma prática transversal a muitos laboratórios. Ela é um bom exemplo do encontro entre a cultura dos ativistas e programadores do software livre com a cultura científica de pesquisadores interessados no produção e no livre acesso ao conhecimento. Não é exagero dizer que muitos dos processos vividos nos laboratórios só existem porque são documentados, ou, como dizem, o que não está documentado não aconteceu. A documentação não é apenas o registro dos resultados ou a receita objetiva do “como fazer”. Uma boa documentação deve ser capaz de comunicar os fatos objetivos, os detalhes dos procedimentos, mas também as dúvidas, os problemas enfrentados e as escolhas que foram feitas. O mais desafiante, e esta foi uma das tarefas que enfrentamos na execução do docArt (durante o Laboratório Inteligência Coletiva e Cidades Democráticas) é tornar visível e comunicável as dimensões subjetivas, afetivas, tácitas que emergem durante o trabalho coletivo e que muitas vezes são excluídas nos processos habituais de documentação. Como indicar os momentos de aprendizagem coletiva? Como descrever o contexto e os vetores que influenciaram uma importante decisão se frequentemente negligenciamos esses elementos e registramos apenas o resultado, quando o principal estava no processo? A documentação visa combater o desperdício da experiência, potencializar a inteligência coletiva. A replicabilidade alcançada de um processo ou protótipo talvez seja o melhor indicador de “impacto” da documentação. Há uma política do sensível, uma política da escrita (nos termos de Rancière) neste ato de documentar, uma vez que ele produz um mundo compartilhado, dando a ver determinados processos e objetos, criando também sua comunidade de “leitores”. Esta documentação implica, portanto, em protocolos, tecnologias, infraestruturas e muita mediação.

Mediação e Cuidado

Criar uma linguagem comum, promover uma interação mais equilibrada entre os partícipes, criar simetrias possíveis entre diferentes atores e perspectivas que integram um laboratório é uma arte. A documentação, por exemplo, só é bem sucedida quando os participantes conseguem estabelecer um linguagem comum para descrever o que estão fazendo. A mediação, como argumenta Juan Freire e Antonio Lafuente, é uma arte da escuta, e está profundamente ligada à capacidade de “infraestruturar os cuidados, fazê-los visíveis através de práticas concretas” (LAFUENTE; GOMÉS; FREIRE, 2017). Mediar e cuidar envolve identificar processos sutis que produzem silenciamentos ou protagonismos habituais, desnaturalizar e desconstruir as práticas de coordenação e liderança, reconhecendo as dinâmicas formais e informais que criam ou reproduzem estruturas formais e informais de micropoder em coletivos. O cuidado, nesta perspectiva, emerge como uma ética, uma prática e uma materialidade. O cuidado é um trabalho do corpo, é um trabalho material. Não é algo abstrato, imaterial ou mera expressão subjetiva. Quando uma política do cuidado faz-se presente num laboratório as ações de mediação efetivam-se com atos materiais que produzem e sustentam os vínculos e os entes envolvidos. Como indicam Freire e Lafuente, a mediação deve promover a “tolerância com a incerteza e com os indecisos”; para experimentar, escutar e colaborar, é necessário apreciar a lentidão. Certos protocolos para a desaceleração podem então ser acionados pela mediação para tornar a escuta possível. O mesmo ocorre para a manutenção da comunidade: é necessário muito cuidado para se evitar o chamado “fork”. Em mais de uma ocasião presenciei este momento em que a mediação cuidadosa assumida por um dos membros da equipe, interviu em momentos de conflito sobre os rumos do projeto, criando condições para que o coletivo buscasse uma solução que contemplasse as perspectivas divergentes. Mas para que isso fosse possível era necessário habitar por mais tempo uma situação de incertitude. As escolhas que emergem nesses processos fortalecem a comunidade, e ao mesmo tempo são percebidas como um marco (hito) de uma aprendizagem coletiva que modifica, com frequência, a rota do projeto. Documentar esses momentos significa evidenciar as “matters of care” (BELLACASA, 2010) que participam dos processos e que são invisibilizadas, mas implica também em responsabilizar-se pelos efeitos da ação. Cuidar de um vínculo, de uma tarefa no coletivo, significa responsabilizar-se por algo. Não é suficiente “ter consciência”, é necessário responsabilizar-se, agir. Uma política do cuidado implica, portanto, num deslocamento do saber-poder governar ao saber-fazer habitar (no tópico seguinte desenvolvo este argumento).

Comunidade

um laboratório cidadão é um lugar de fabricação de comunidades. Esta frase exemplifica um dos resultados mais importante e ao mesmo dificilmente mensurável das atividades promovidas pela Medialab-Prado. Para que um projeto de laboratório possa se desenvolver, é necessário que ele produza uma nova comunidade que sustente este laboratório. Neste sentido, os diferentes atores devem infraestruturar as condições (materiais e simbólicas) que permitem que o laboratório aconteça. O laboratório visa produzir um conhecimento, um artefato, um processo, um protótipo, que amplia o entendimento sobre um problema comum, e que permita uma ação compartilhada sobre ele. Diferentemente da formação de uma comunidade identitária, onde os atores reúnem-se a partir de elementos previamente constituídos que dão forma à identidade (por exemplo, nacionalidade), no laboratório surge uma comunidade de atores distintos que partilham o interesse de enfrentamento de um problema (científico, social, político etc), e para investigá-lo é necessário inventar uma forma de conviver. É por isso que Lafuente dirá que os laboratórios cidadãos são espaços da experimentação política. Mas um laboratório também fabrica comunidades por um outro caminho quando, por exemplo, ele dá existência tangível a um comum que está ameaçado. Quando se constitui um laboratório cidadão sobre o “bairro” de uma cidade, o laboratório produzirá “evidências” sobre os elementos e suas relações que participam do “fazer bairro”. Neste sentido, o laboratório participa da produção do comum (a trama que faz bairro) que emerge com a comunidade que participa deste processo. Neste exemplo, percebemos como os laboratórios cidadãos, nesta acepção, integram um outra ontologia política. Nos dizeres de Lafuente: “las comunidades que crean y son creadas por los nuevos procomunes son entonces comunidades de afectados que se movilizan para no renunciar a las capacidades que permitían a sus integrantes el pleno ejercicio de su condición de ciudadanos o, incluso, de seres vivos (LAFUENTE, 2007). Nos laboratórios, portanto, esta noção de comunidade é indissociavelmente epistêmica e política. A aposta que aí se enuncia é que o laboratório seria também o lugar onde abrimos e acolhemos as controvérsias, criando novos conhecimentos, objetos e artefatos; remontamos o social (reassembling the social) através da constituição de novos sujeitos (cognitivos e políticos) que emergem não a partir de categorias previamente constituídas que vem reivindicar um direito instituído, mas a partir da produção do comum instituinte (LAVAL & DARDOT, 2016) de novos direitos.

Prototipar

Prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo. É isso que torna o laboratório, na acepção de Lafuente e diversos grupos que atuam nesta campo, um espaço de invenção política. O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação. Tal abordagem é, na realidade, muito cara às vertentes críticas dos estudos sociais de ciência e tecnologia, onde a produção de conhecimento, ciência e tecnologia é indissociável dos processos de natureza política. Navegamos, evidentemente, no território das entidades híbridas.

Prototipar como forma de conhecer

Significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer. Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem. Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes. Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

Protótipo e ação política

A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto abstrato de sociedade futura pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja.[…] É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

Apresentação realizada no Colóquio Internacional Gilbert Simondon, na FFLCH-USP, dezembro de 2018. O texto ainda está inacabado, mas já o compartilho neste estado “beta” para lançar as ideias e projetos que pretendo desenvolver em 2019.

6 de dezembro – 19hs30 às 21hs30 – Mesa 3 – A individuação nas redes e nos neurônios.
Convidados: Henrique Parra (UNIFESP), Lucas Paolo Vilalta (Mestre – USP) e Claudinei Biazoli (UFABC).
Mediação: Maria Fernanda Novo (Doutora – UNICAMP).

Link para o video (corte) com minha apresentação: https://archive.org/details/coloquio-simondon-henrique-parra-2018
Link para o video completo da mesa: https://youtu.be/FhQlm5JDV9c

Texto da apresentação – temporariamente removido (qquer duvida entrar em contato com henrique arroba pimentalab ponto net )



Fragmentos, do capítulo 16, do livro No Tempo das Catástrofes, de Isabelle Stengers.

Nós, herdeiros de uma destruição, os filhos daqueles que, expropriados de seus commons, foram a presa não apenas da exploração, mas também das abstrações que faziam deles qualquer um, temos que experimentar o que pode recriar – “fazer pegar novamente”, como se diz das plantas – a capacidade de pensar e agir juntos.

Essa experimentação é política, pois não se trata de fazer com as coisas “melhorem”, e sim de experimentar em um meio que sabemos estar saturado de armadilhas, de alternativas infernais, de impossibilidades elaboradas tanto pelo Estado como pelo capitalismo. A luta política aqui, porém, não passa por operações de representação, e sim, antes, por produção de repercussões, pela constituição de “caixas de ressonância” tais que o ocorre com alguns leve os outros a pensar e agir, mas também que o que alguns realizam, aprendem, fazem existir, se torne outros tantos recursos e possibilidades experimentais para os outros. Cada êxito, por mais precário que seja, tem sua importância”.

Não se tata, decerto, de substituir por uma cultura do êxito experimental as necessidades de uma luta política aberta, ainda mais necessária pelo fato de ela ter que investir os espaços considerados “fora da política” onde especialistas se animam, calculam limites, tentam articular as medias a serem tomadas com a imperiosa necessidade de um crescimento sustentável.

A luta política deveria passar por todos os lugares onde se fabrica um futuro que ninguém ousa realmente imaginar, não se restringir à defesa dos sentimentos adquiridos ou à denuncia dos escândalos, mas se apoderar da questão da fabricação desse futuro.

Mas é justamente pelo fato de a luta política ter que passar por todos os lugares que ela não pode ser pensada unicamente em termos de uma “vitória” ou de uma conquista do poder.

Precisamos, desesperadamente, fabricar essas testemunhas, essas narrativas, essas celebrações. E precisamos, principalmente, do que testemunhas, narrativas e celebrações podem transmitir: a experiência que assina a produção de uma conexão bem-sucedida entre a política e a produção experimental, sempre experimental, de uma capacidade nova de agir e de pensar. Tal experiência é o que, no rastro de Espinosa e de muitos outros, eu chamarei de alegria.

A alegria, escreveu Espinosa, é o que traduz um aumento da potência de agir, ou seja, também de pensar e de imaginar, e ela tem algo a ver com um saber, mas um saber que não é de ordem teórica, pois não designa a princípio um objeto, mas o próprio modo de existência daquele que se torna capaz de sentir alegria. A alegria, poderíamos dizer, é a assinatura do acontecimento por excelência, a produção-descoberta de um novo grau de liberdade, conferindo à vida uma dimensão complementar, modificando assim as relações entre as dimensões já habitadas. Alegria do primeiro passo, mesmo inquieto. E a alegria, por outro lado, tem uma potência epidêmica.

A alegria é transmitida não de alguém que sabe a alguém que é ignorante, mas de um modo em si mesmo produtor de igualdade, alegria de pensar e de imaginar juntos, com os outros, graças aos outros.

Apresentação realizada no 12° Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, no Rio de Janeiro, 27 de julho de 2018.

Mesa Redonda 55 – Direito à saúde, direito a uma vida comum: novas formas de lutar em tempos de neoliberalismo.

Coordenador: Henrique Sater de Andrade – UNICAMP (SP)
Expositor: Tadeu de Paula Souza – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO
SUL (RS)
Expositor: Henrique Zoqui Martins Parra – Universidade Federal de São Paulo (SP)
Expositora: Alana Moraes de Souza – Museu Nacional/UFRJ (SP)

 

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Henrique Z.M. Parra – Unifesp – Depart. de Ciências Sociais

Recebi o convite para participar do Congresso da Abrasco como uma boa oportunidade para compartilhar com vocês alguns problemas que venho investigando no campo dos estudos sociais em ciência e tecnologia. Não sou da área da saúde e nem tenho a saúde como um tema/objeto específico de trabalho. No entanto, penso que este encontro é o início de um novo diálogo e de parcerias de trabalho. Em parte porque acredito que estamos enfrentando problemas semelhantes (na educação, na ciência e no desenvolvimento tecnológico), mas também porque na área da saúde muitos dos problemas que vamos tratar aqui adquirem uma convergência e interdependência muito densa.

Mas também, outra razão que me aproxima das preocupações da Abrasco é a possibilidade de tomarmos a Saúde como um Comum e aí, problematizarmos quais poderiam ser as estratégias, ações, normas, protocolos, infraestruturas que dão forma à instituição (no sentido de ação instituinte) da Saúde como um Comum.

Quais seriam as formas desses direitos e institucionalidades que dariam existência e sustentação à Saúde como um Comum? Como resistir, portanto, às dinâmicas neoliberais (micro, meso e macropolítica)? Essa é uma grande pergunta que dá forma a um exaustivo programa de pesquisa e de práticas.

Mais especificamente, sob o guarda-chuva dessa ampla questão, tenho investigando algumas experiências (que denominamos de laboratórios cidadãos ou laboratórios de prototipado) onde este problema é enfrentado com recortes muito limitados. O que me interessa nessas experiências é a forma de enfrentamento dessas questões. Nos laboratórios constitui-se uma comunidade de afetados (ou uma comunidade de atores co-implicados) em torno de um problema que emerge diante da ameaça de destruição de um comum. Em seguida, o problema é investigado, adensado pelas distintas perspectivas (saberes incorporados e situados) dos atores, através de um esforço de criação de um protótipo, um artefato ou um dispositivo que contribua para dar um melhor entendimento e tangibilidade sobre os mecanismos de produção e sustentação deste Comum ameaçado.

E no âmbito dessas iniciativas, o meu interesse é mais especificamente por aquelas experiências que estão envolvidas com a criação de arranjos sociotécnicos orientados para a produção do Comum. Dito de outra forma, “tecnopolíticas do comum”.

Sinteticamente, o argumento da minha exposição será a seguinte:

1. Caraterização de uma experiência política de assombro: não só no Brasil, mas em diversos países, experienciamos uma profunda crise institucional e das políticas sociais. Há um acelerado desmanche dos direitos sociais e o fortalecimento de um Estado-Empresa onde o público-estatal é cada vez mais indistinto do privado-corporativo. A lei, as instituições, os canais de representação parecem insuficientes para responder à atual configuração dos conflitos de uma perspectiva democrática (falamos agora em democracia autoritária, democracia securitária, normalização do estado de exceção, entre outros…).

2. Dentro deste processo interesso-me por uma dinâmica de deslizamento nos mecanismos de exércicio do poder e nas formas de orientação da ação social, que se deslocam de uma orientação por valores, normas e leis, para uma forma de determinação/orientação que podemos denominar “tecnopolítica”. São as técnicas, protocolos, infraestruturas, procedimentos, tecnologias diversas através das quais conduzimos nosso cotidiano e se realizamos, de forma imanente, as formas de vida que elas propagam.

3. Investigar a maneira como alguns arranjos sociotécnicos (dispositivos, aparatos e tecnologias utilizadas por humanos) participam da mudança social e abordam o problema da escalabilidade de outra forma. Um desafio que temos (na educação, saúde etc) quando pensamos numa política pública é o de encontrar formas de transpor uma iniciativa de pequena escala para uma outra escala. Todavia, ao invés de pensar em como transpor escalas (do micro para o macropolítico), assumo um caminho alternativo: como pequenos dispositivos através da recursividade e reticulação vão constituindo longos arranjos sociotécnicos.

Ao pensar a produção do Comum por essa perspectiva, minha hipótese é que podemos encontrar estratégias complementares de luta e de instituição de novas formas de vida.

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O Comum, no sentido que estamos utilizando aqui (e inspiro-me sobretudo no trabalho de Antonio Lafuente), diz respeito à algo que é sempre produzido entre todos. Atualmente, são muitos os sentidos que podem ser atribuídos ao Comum e há uma vasta literatura sobre isso (link para uma apresentação onde discorro especificamente sobre este tema).

O ar que respiramos, a cultura, a experiência de urbanidade, o cuidado na reprodução da vida, a escuridão da noite que permite ver as estrelas, o conhecimento, a saúde são possíveis exemplos desse Comum.

Frequentemente este Comum só emerge, só aparece quando ele se encontra ameaçado. Quando o ar que respiramos se torna poluído, um Comum (a qualidade e portanto a participação do ar em nossa saúde) foi destruído por formas de uso que o degrada. Em termos econômicos, formas de uso e apropriação exclusiva que externalizam os efeitos de sua utilização. O Comum tem portanto uma dimensão não codificada, não formalizada, não essencialista, tácita e relacional, mas que é fundamental à produção e sustenção da vida. Essa paradoxal invisibilidade e presença constitutiva do Comum em nossas vidas é simultaneamente sua maior potência e ao mesmo tempo sua maior fragilidade.

É neste sentido que o problema do “Comum” não pode ser separado (como bem descreveu Ricardo Teixeira) de um problema da “percepção do Comum”. Por isso, a forma do Comum transitar entre o intangível e o sensível depende de um regime de sensibilidades que dá forma a uma Política, onde as dimensões afetivas-culturais-cognitivas-econômicas são indissociáveis.

Como percebemos que somos co-partícipes na produção do Comum? Quais as estratégias, práticas, tecnologias, infraestruturas que dão forma a essa experiência de co-implicação na produção do comum?

Para a Abrasco é evidente que a saúde é um problema coletivo. Não há saúde individual sem saúde coletiva. Parte do conflito histórico e atual, em torno dos direitos à saúde, dá-se pelas dinâmicas que procuram submeter a Saúde a dinâmicas individualizantes (em termos dos modos de subjetivação, na forma como nos constituímos e nos relacionamos com nossa da saúde) e privatizantes (em termos das formas de codificação, mercantilização e regulação social). Mas falar em termos do “Comum” significa transbordar a dicotomia público-privado; humano-não-humano. Ele é uma terceira margem que não está em oposição nem ao público, nem ao privado. O Comum convive e apoia-se tanto no público como no privado, assim como ele se realiza com os humanos e não-humanos (objetos, recursos naturais, artefatos tecnológicos).

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Retorno então ao tema mais específico das “tecnopolíticas da produção do comum” para indicar 3 eixos de questões que me levam a eleger este recorte como forma de criação e resistência.

1. Como explicar isso que reconhecemos como uma rápida erosão de conquistas duramente construídas? Como explicar essa intensificação, aceleração, austúcia nos processos de desmanche dos direitos sociais? Isso é sinal de uma fragilidade institucional ou baixa qualidade democrática de nossas instituições? É sinal da precariedade do nosso marco regulatório? Ou é algo que convive e integra desde muito tempo a produção do atual regime de governo, mas que agora adquire novos contornos? Quais são as continuidades e rupturas?

Neste momento, é fundamental identificar quais são as práticas, as áreas da saúde que estão sendo capazes de resistir e persistir na produção da Saúde como um Comum. Ao longo da história, o Comum e as comunidades que o produzem tem aprendido a sobreviver a diversas investidas que procuram destruí-lo ou submetê-lo a regimes de apropriação e expropriação. Ao mesmo tempo é importante identificar quais os novos mecanismos, as estratégias, e as novas práticas que tornam possível a privatização da saúde. Em resumo, partilho da impressão de que o desenho institucional que temos disponível é importante, porém parece ser insuficiente para responder às ameaças atuais.

2. Quais os limites, quais os modos de interação do público-estatal com o privado-corporativo? É possível encontrarmos outras composições para além da dicotomia Estado-Mercado? Aqui também a percepção ordinária (para não dizer senso comum) que se difunde em nossa sociedade é de uma crescente indistinção entre o público-estatal e o privado-corporativo. Como essa experiência se constituí? Quais as mediações entre os cidadãos, o acesso aos serviços de saúde, as relações entre os trabalhores da saúde e os demais cidadãos?

Cada vez mais precisamos indagar como os diversos aparatos, equipamentos públicos servem e funcionam como infraestruturas para a expropriação e apropriação privada da Saúde?

Ao mesmo tempo, qual é a percepção, a experiência que se constitui desde o cidadão, o usuário na ponta? Qual é a interface, a mediação que ele tem o sistema?

Pensando desde a borda do sistema, a partir dos modos de uso e apropriação do cidadão, e do modo de relação e de subjetivação que ele constitui com o sistema de saúde, quais seriam as possíveis formas de ativar um devir-comum do público-estatal? Como o cidadão reconhece a produção do Comum e como ele experiencia as diferenças e conexões entre aquilo que é público-estatal e aquilo que é privado-corporativo?

3-Cotidianamente nos confrontamos com práticas, procedimentos e tecnologias que se instalam em nossa vida como dispositivos que se apresentam como neutros (“pós-ideológicos”). Há evidentemente princípios e valores que constituem as relações tecnicamente mediadas. A capacidade de captura e adesão a um dispositivo depende de sua eficácia prática e de sua capacidade de tornar-se desejável. Sua adoção é quase “natural” (ela se aproveita das disposições emergentes num campo de possíveis). Ao prover a “melhor solução” para um determinado problema ela atualiza de forma imanente uma racionalidade específica. Assim, novas técnicas e tecnologias vão paulatinamente modificando o seu ambiente, criando recursivamente um contexto cada vez mais favorável à sua adoção, de forma que num momento posterior seja impossível não adota-las (veja artigo que publicamos sobre Google as Universidades brasileiras).

Simetricamente, quais seriam nossas técnicas, nossas tecnologias que poderiam promover as formas de vida e cuidado que desejamos propagar?

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Em resumo: se nossas instituições e os canais de mediação política são importantes, porém insuficientes; se a ciência e tecnologia, participam cada vez mais da criação de artefatos que influenciam nossas vidas; e se há um crescente processo de delegação da agência à mediação técnica, neste cenário talvez a criação e a resistência tecnopolítica seja um importante campo de lutas.

Certos arranjos sociotécnicos são capazes de informar e produzir efeitos sobre seu entorno de maneira a produzir certas configurações de mundo. Destaco duas propriedades neste processo de propagação e estabilização: a recursividade e a reticulação. Juntas elas abordam o problema de escala (micro, meso, macro) de uma outra maneira. Nós, cientistas sociais, poderíamos trabalhar mais com os engenheiros, cientistas da computação, arquitetos, médicos e sanitaristas para aprender juntos a “construir coisas”.

Um exemplo (veja ensaio “Do protesto aos arranjos tecnopolíticos”): “a criação da pílula anticoncepcional, o protocolo TCP/IP da internet e o telefone celular são exemplos de artefatos técnicos-científicos que produzem arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares. Sua forma de adoção e propagação vai gradativamente modificando as relações sociais através do seu uso, e os efeitos de sua adoção nas pontas (sujeito individual ou máquinas) cria mecanismos de reforço sistêmico. […]

Recursividade: Uma prática, uma tecnologia, uma organização que atue recursivamente está desenhada para a resolução prática de um problema, cujo modo de ação dá-se mediante a criação de sub-rotinas que atacam frações de um problema maior, e a cada movimento ela volta à sua função (missão) original, porém agregando um “aprendizado” que a torna mais eficiente. Este aumento de eficiência (ou ganho de poder) acontece também porque além de resolver partes do problema (diminuindo a força do seu oponente) ela modifica gradualmente o seu meio de ação (meio-associado), criando um ecossistema mais favorável à sua execução. Ou seja, um artefato recursivo é um dispositivo prático (material-simbólico) que executa um programa (uma ação normativamente orientada) cuja eficiência está na transformação do seu meio-associado e não apenas na realização de um objetivo final abstrato). Como efeito, a recursividade apoia-se na produção de uma “comunidade” ou de “públicos recursivos” que dão sustentação ao processo.

Reticulação: A reticulação é um processo de propagação não-linear e rizomático de uma estruturação emergente criando níveis subsequentes de estruturação de uma realidade. Quando uma prática, uma tecnologia, uma organização se reticulariza, significa que ela é capaz de tornar durável, de diferentes formas, o seu programa de ação, criando níveis crescentes de estruturação. Como efeito, ela amplia sua capacidade de determinação sobre um campo de possíveis. Ou seja, a reticulação dá maior consistência e força para seu programa de ação (PARRA, 2018).

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A título de contra-exemplo examinemos dois arranjos sociotécnicos que podem produzir fortes agenciamentos de orientação neoliberal.

Proliferam hoje diversas tecnologias digitais portáteis, tanto os APPs de smartphones como os novos wareables (relógios ou roupas) destinados a fazer a coleta permanente de informações produzidas por nossos corpos. Essas tecnologias são adotadas por milhares de pessoas e permitem a coleta, organização e disponibilização dessas informações em diferentes plataformas. São hardwares e sofwares frequentemente corporativos (mas há também versões em software livre) que criam novas possibilidades de análise, tanto para os indivíduos usuários como o bigdata realizado pelas grandes empresas que centralizam e comercializam esses dados. Aqui, há tanto a formação de uma experiência de individualização na produção e análise dos seus dados pessoais (que pode reforçar uma percepção mais individualizante da saúde), como também a formação de novas comunidades de usuários que compartilham dados e criam novas analíses e diagnósticos sobre problemas específicos. Em ambos os casos, vemos o fortalecimento de um conhecimento que se apoia numa concepção de corpo informático (sem “corpo”), pois os dados são vez mais descontextualizados quando a coleta é seletiva e não leva em conta elementos contextuais, mas também em alguns casos a constituição de novas comunidades que se constituem através da partilha de suas experiências. Hermínio Martins refere-se aquela primeira “forma de conhecer” descorporificada (baseada na metafísica informacional) como ciborgues epistêmicos (veja apresentação “Algoritmos Encarnados” realizada no Medialab-UFRJ).

Neste caso, a crescente adoção dessas tecnologias, ao mesmo tempo em que produz uma nova forma de conhecimento sobre o corpo, produz outro modo de relação com a saúde (percebida aqui cada vez mais numa chave individualizante). Ao mesmo tempo, ela participa de uma economia política informacional baseada na exploração dos dados pessoais (seja para os seguros médicos como para a indústria farmacêutica). A depender do caso, temos ainda a produção de novas formas de governo biopolítico: basta imaginar a utilização de mensuração glicêmica ou da análise da atividade física dos usuários associada à gameficação da vida (seja para o cidadão ou para o consumidor de planos de saúde).

Mas o contra-exemplo que melhor se encaixa nessa discussão talvez seja os dos novos sistemas de intermediação de consultas médica e exames laboratoriais: Dr.Consulta, Doutor123, CiadaConsulta. Desconheço o funcionamento em detalhes desses serviços, por isso destacarei apenas os elementos que dialogam com os problemas descritos acima (esses serviços merecem estudos minuciosos sobre sua forma de criação e expansão). Podemos ver aí como a recursividade e a reticulação vai acontecendo através da adoção das tecnologias móveis pelo usuário, combinadas ao georeferenciamento, à analise de dados pessoais, infraestrutura física e a gestão do trabalho (na forma de um capitalismo de plataforma).

São tecnologias – entendidas aqui como ambientes dentro dos quais modos de vida são produzidos – que se efetivam através da criação e propagação de um arranjo sociotécnico que produz um tipo de experiência com a saúde. Alguns desses serviços já estão em operação há alguns anos, e é possível observar como vão expandindo pouco a pouco sua infraestrutura de atendimento fisico. Gradativamente, elas vão se reticulando na vida social, ampliando sua presença, e de forma recursiva vão modificando seu meio de maneira a torná-lo mais favorável ao seu funcionamento.

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Temos aí em operação (exemplo da articulação micro-meso-macro):

1. Os efeitos macropolíticos relativos à regulação jurídica das atividades da saúde, criação de dispositivos burocráticos e legais que ampliam os agenciamentos privatizantes, mudanças nos marcos regulatórios dos direitos sociais, a economia política informacional baseada na exploração dos dados pessoais. Mas também a dimensão cultural e discursiva propagada nos meios de comunicação (tanto nos meios corporativos como nas redes de autocomunicação de massas). Nesta camada ainda adicionaria a emergência de novos saberes populacionais que correspondem a novas forma de exércício do poder. Para além do saberes disciplinares e populacionais que dão forma ao modo de governo biopolítico, bem descritos por Foucault, participamos agora da emergência da governamentalidade algorítmica apoiada nos saberes simulacionais, no big data e na estatística preditiva (veja o trabalho de Antoinette Rouvroy).

2. No nível mesopolítico poderíamos identificar os diversos mecanismos de gestão e organização do trabalho, os regimes de visibilidade e sensibilidade que determinam o que conta e o que não conta numa organização, as formas de mensuração, quantificação, avaliação e tomada de decisão. Quais os limites entre o trabalho visível e o trabalho invisível do cuidado?

Novamente, é na organização do cotidiano, na produção e reprodução da vida que um amplo conjunto de técnicas, procedimentos e tecnologias utilizados irão constituir modos de vida específicos.

3. No nível micropolítico um modo de subjetivação baseada numa relação individualizada e mercantilizada com a saúde. Os modos de subjetivação, conforme analisa Suely Rolnik, apoiam-se em dois modos de conhecimento sensível. “A primeira é a experiência imediata, baseada na percepção que nos permite apreender as formas do mundo segundo seus contornos atuais…quando vejo, escuto ou toco algo, minha experiência já vem associada ao repertório de representações de que disponho e que, projetado sobre este algo, lhe atribui um sentido”. Mas há “um outro tipo de experiência que a subjetividade faz de seu entorno, é a que designo como “fora-do-sujeito”, é a experiência das forças que agitam o mundo enquanto corpo vivo e que produzem efeitos em nosso corpo em sua condição de vivente. Tais efeitos consistem em outra maneira de ver e de sentir aquilo que acontece em cada momento (o que Gilles Deleuze e Félix Guattari denominaram, respectivamente, “perceptos” e “afectos”)” (ROLNIK, 2018).

Lembro-me aqui do filme Daniel Blake. Em diversos momentos, quando Blake vai ao posto do serviço público para solicitar uma licença médica ou o seguro desemprego ele vive um conflito entre duas ordens distintas: sua experiência, sua cultura, sua subjetividade de trabalhador formada durante os anos de Welfare State constituí-se a partir de uma contrato social. Ele se relaciona com o aparato público-estatal através dessas representações instituídas. Entretanto, nada mais funciona como antes: os funcionários tem que atende-lo sob determinados protocolos, ele tem que produzir resultados e passar por distintos testes para ter sua condição reconhecida. A situação cria um conflito intransponível para ele, a formação do Estado-Empresa. As reações seguem então por duas direções: as estratégias individualizantes que encontram apoio nos modos de subjetivação neoliberal (Você-S/A); as estratégias coletivas que buscam constituir um território comum de experiência e lutas, capaz de tecer a vida.

Acontece que, quando pensamos a micropolítica, atentamo-nos quase que exclusivamente à dimensão das representações, àquilo que podemos enunciar e disputar discursivamente. Negligenciamos, frequentemente essa dimensão dos afectos e perceptos que está além e aquém do sujeito: o pré-individual e o supra-individual. Por isso sem uma política de subjetivação, capaz de modificar o regime de sensibilidades, a relação com o público e o Comum são subtraídas.

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Pensando agora nos aspectos mais “proximais”, no âmbito de uma micropolítica ou de uma mesopolítica, gostaria de perguntar e imaginar qual é nossa tecnopolítica? Quais são nossas tecnologias de produção do comum? Que dispositivos, artefatos, protocolos, infraestruturas já temos ou que podemos criar para promover e dar sustenção à saúde como um Comum?

A partir dos problemas descritos acima, imagino que uma tecnopolítica do comum seria portadora de algumas características.

Em primeiro lugar trata-se de tecnologias que produzem uma comunidade e que são apoiadas por essa comunidade. Neste sentido, uma tecnologia da comum é sempre uma tecnologia de produção de vínculos, é uma tecnologia de pertencimento (para usar uma expressão de Isabelle Stengers). Uma cozinha coletiva numa ocupação de sem-teto (como analisa Alana Moraes) é uma importante tecnologia de pertencimento que abriga processos terapêuticos. Uma certa metodologia de conversa e escuta pode ser pensada também como um tecnologia de produção do comum (como bem relata Antonio Lafuente sobre a experiência dos alcóolatras anônimos).

As tecnologias do comum também transitam da simples participação (relação usuário-serviço) para o reconhecimento da condição de co-produtores, onde tod@s estão co-implicados na produção. Que tecnologias temos no âmbito política nacional de Sáude que atendem a essa condição? Talvez as experiências dos conselhos de participação popular, os fóruns, possam ser pensadas como exemplos dessas tecnologias. Após mais de 20 anos de implementação das experiências dos conselhos (na educação, saúde…), já podemos reconhecer algumas estratégias que consideramos mais potentes e outras que convertem a participação em mecanismos de captura e gestão (governamental, partidária, corporativa).

Transitar de uma cultura participacionista para uma política orientada pelo “princípio do comum”, nos termos de Laval & Dardot, implicaria numa outra forma de composição da política, modificando o regime de subjetivação política e de produção dos sujeitos de direitos; e numa outra forma de composição entre o público-privado, econômico-social, reconhecendo, como o fazem as feministas, que toda a vida é política:

“a identidade do princípio (o comum) não suprime a distinção das esferas (social-econômica, público-privada, politica, e publica-publica), mas tem a função de organizar o social de tal maneira que seja possível uma deliberação na esfera pública que não fique prisioneira dos interesses de tal ou qual categoria socio-profissional. Isso só pode acontecer se a esfera da produção e dos intercâmbios se reorganize a fundo a partir do autogoverno do comum” (Laval & Dardot).

Imagino também que nas tecnologias de produção do comum o conhecimento é algo vivo, e portanto, sua forma de produção-circulação e seus regimes de uso devem ser vetores de resistência às diversas expressões do capitalismo cognitivo. Recentemente, a Fiocruz desenvolveu um conjunto de referências que darão forma a uma política de ciência aberta. No momento em que o conhecimento acadêmico e científico é cada vez mais colonizado pelas dinâmicas de fechamento, privatização e mercantilização (seja no ambito dos periódicos científicos e na expansão dos direitos de propriedade intelectual), defender a ciência, a cultura e o conhecimento enquanto um Comum é uma ação fundamental.

Para isso é necessário criar infraestruturas próprias, orientadas pela noção de “soberania tecnológica”, protocolos, formas de governança que permitam efetivar e lutar pela abertura da ciência. Importante destacar aqui que a noção de “livre e aberto” não se confunde com a noção de “grátis” (free as an freedom of speech, not free beer). Ou seja, promover a ciência enquanto um Comum exige a criação de formas de co-responsabilidade no uso, capazes também de dar sustentação à todo o ecossistema que produz esse Comum.

As tecnologias de produção do comum também estão orientadas pelo reconhecimento e maior centralidade conferida à experiência do cidadão e d@s trabalhador@s da saúde. Como diz Lafuente: “todos somos expert em experiência”. As tecnologias cognitivas devem então estar alinhadas à capacidade de escuta de diferentes saberes. Isso significa também, que talvez essas tecnologias sejam dispositivos de desacelaração (modo slow). Passamos então de um regime de dominância dos experts para um regime de co-existência entre diferentes saberes da experiência. Ao darmos maior centralidade à experiência, ao saber vivo, interrogamos portanto a idéia dos corpos informáticos dos ciborgues epistêmicos. Novamente, não se trata de colocar-se contra as tecnologias. Ao contrário, penso em formas tecnológicas que dêem lugar aos ciborgues (no sentido de Haraway) encarnados. Ou seja, modos de conhecer e de composição que reconheçam nossa cultura técnica e nossa natureza híbrida.

São também arranjos sociotécnicos que reconhecem a agência dos objetos, substâncias e máquinas. Os elementos não-humanos devem “ter voz”. Do contrário, corre-se o risco de apagarmos os efeitos de que eles são portadores. O debate sobre os alimentos transgênicos e toda sua relação com a cadeia produtiva e alimentar é um ótimo exemplo desse problema. O mesmo se aplica às nanotecnologicas. Na somatória de algumas dessas características entramos em tensão com aqueles modos de conhecimento científico que estão apoiadas na convergência N.B.I.C. Novamente, defendo que não se trata aqui de confrontá-los, mas sim de criar formas de convivência entre esses diferentes regimes de conhecimento, buscando, todavia, alternativas que fortaleçam o Comum e impeçam a sua apropriação e expropriação.

Finalmente, nos termos da Isabelle Stengers, temos que pensar numa cosmopolítica que seja capaz de abarcar uma diversa ecologia de práticas. Por isso, uma tecnopolítica do comum implica numa outra política (de saberes e poderes): gosto de fabular em torno da transição de um “saber-poder governar” para um “saber-fazer habitar”. Portanto, são tecnologias que são concebidas e implementadas dentro de uma política do cuidado. O cuidado é um trabalho material, é um fazer do corpo. Em certo sentido, o Programa Sáude da Família em sua versões mais comunitárias, proximais, talvez possa ser pensado como um bom exemplo dessa tecnologia de vínculos, de pertencimento multiplos e de produção de sáude coletiva. Necessitamos de tecnologias de nos permitam co-habitar o mundo, que reconheçam nossa interdependência. Esse é um critério muito claro face à tecnopolítica neoliberal que produz isolamento travestida de liberdade; que produz hipertrofia do privado sob a ilusão do compartilhamento, corroendo a possibilidade de um mundo comum.

Enfim, como podemos fortalecer esses arranjos sociotécnicos que julgamos relevantes? Como podemos ativar um devir-comum da saúde pública? Como podemos criar mecanismos de recursividade e reticulação que ampliem as condições de produção e sustentação das formas de vida, cuidado e saúde que desejamos propagar?

 

Resumo: Quais os modos de relação entre a produção do comum e a experiência sensível, na prática investigativa, educativa e política? Nesta atividade pretendo compartilhar algumas idéias sobre este problema-convite lançado pela equipe da Bienal. A partir da diversidade de sentidos atribuídos ao “Comum” na atualidade, discutiremos algumas práticas (culturais, científicas, ativistas) onde podemos apreender e problematizar essa riqueza semântica. A hipótese que examinarei sobre uma política do comum, baseia-se em possíveis alianças e composições entre certos modos de conhecer, modos de associar-se e criar experimentações práticas que talvez apontem para territórios alternativos à dicotomia da micro-macro política. O texto a seguir foi apresentado oralmente no dia 30 de junho de 2018 na BienalSP no ciclo de atividades de difusão e formação. 

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O setor Educativo da BienalSP (33°Edição-2018) me convidou para participar de uma atividade de formação dos educadores, parte dos trabalhos de elaboração e preparação das ações educativas que serão realizadas durante a exposição. A proposta inicial era a de relacionar as reflexões em torno da “produção do comum” e a “partilha do sensível” (aqui, com um clara referência a J.Ranciére). Fui ler os materiais produzidos pelo educativo para imaginar como poderia aproximar essas coisas. Compreendi que tanto o Gabriel Perrez-Barreiro (curador) como a Lilian Kelian e Helena Freire (educadores) estão interessados em pensar e praticar uma certa “política da atenção”. Eles partem do diagnóstico de que há um problema na forma como nos relacionamos com as obras de arte numa exposição. Por diversas razões, incluso a proliferação das tecnologias de comunicação digital, estamos imersos em profundas transformações em nossa sensibilidade, nossa percepção, em nossa atenção. Assim, um dos desafios que eles enfrentam é como “recuperar esse sentido da arte como canal de experiência e de comunicação” de forma que seja possível aprender algo novo com a experiência ali vivida. As educadoras lança a segunda pergunta: “se a percepção é algo marcadamente afetivo e que se sustenta num certo “regime de sensibilidade”, de que maneira seria possível transformar esse “regime” (no sentido, de ampliar as nossas capacidades de dialogar com o outro)? Ainda a partir do material produzido por eles, entendo que uma das formas encontras por eles para enfrentar esse problema é criar estratégias, roteiros, procedimentos, protocolos que estejam orientados à “produção de situações”, onde outros modos de relação entre os públicos, obras e educadores, possam emergir. Com isso, espera-se provocar mudanças no “regime de sensibilidade”, de maneira que um “acontecimento” (um novo vínculo, um novo aprendizado, uma nova percepção) seja possível. Evidentemente, sabemos que não é possível programar um acontecimento. A questão é colocar essa possibilidade como uma hipótese a ser verificada-experimentada, e assim desenhar (prototipar) os diversos elementos que participam da produção dessa situação: quais as estruturas, normas, ritmos etc que sejam mais acolhedores a ativação desses devires? Por fim, a aposta (se compreendi bem) é que neste processo teríamos a “produção de um Comum”.

Dito dessa maneira, fica evidente pra mim, que o problema que eles estão investigando é análogo ao que encontramos na construção dos “laboratórios cidadãos” (ou Laboratório do Comum), na acepção de Antonio Lafuente. A existência, produção e manutenção de um Comum depende tanto de uma comunidade que o produza-sustente como de um conjunto de infraestruturas, códigos, práticas, tanto materiais como simbólicas. Ocorre que o Comum é frequentemente invisível, intangível e não-codificado. Ele só é facilmente percebido quando está sob ameaça. O Comum não é se confunde com o público-estatal, nem com privado. O Comum é um outro espaço, é uma terceira-margem (roseana) que ficciona a realidade produzindo outros mundos.

O problema do “Comum” não pode ser separado (como bem descreveu o médico-sanitarista Ricardo Teixeira) de um problema da “percepção do Comum”. Por isso, a forma do Comum transitar entre o intangível e o sensível depende de um regime de sensibilidades que faz parte de uma Política, onde as dimensões afetivas-culturais-econômicas são indissociáveis.

Outra característica importante que já podemos destacar, é que o Comum (nesta acepção que estamos utilizando) é algo que é produzido “entre-todos”. Porém, não à maneira de um “comum partilhado” entre indivíduos. O Comum neste caso, é algo que está aquém e além dos indivíduos: é pré-individual e supra-individual. Podemos, de certa forma, traçar uma analogia deste comum com o transindividual do G. Simondon. Aqui o Comum transpassa os indivíduos. Não é o produto de uma ação individual de um sujeito descolado do mundo que vai interagir com outros sujeitos. O Comum neste caso funda uma relação de continuidade entre os corpos e deles com o mundo. A linguagem, os afetos, a cultura, a saúde são alguns exemplos desse comum.

Um bom exemplo citado por Lafuente é o problema da eletrossensibilidade. Lafuente relata como muitas pessoas eram portadores de um mal-estar inominável e desconhecido. Durante muito tempo viveram sem diagnóstico. Mas passaram a se encontrar, a trocar experiências, a se escutar, e deram início a um rico processo de produção de conhecimento; uma espécie de contra-expertise baseada naquilo que em que eles eram experts (a experiência de sua doença). Criam uma linguagem em que são capazes de dar existência ao seu problema, e assim tornam a questão da poluição eletromagnética um problema da ordem do Comum. Este processo só ocorre porque fundam uma comunidade de “afetados” que também irá mostrar, mobilizando muitos atores (humanos e não-humanos) como este Comum (o espectro eletromagnético) é produzido, utilizado, explorado. A luta contra a poluição eletromagnética produz o Comum (tanto a saúde como o espectro eletromagnético) ao revelar os modos de uso e apropriação da radiofrequência e quais são as infraestruturas, códigos, leis, economia que se aplicam sobre ele.

Mas o Comum nos dias atuais tem ainda múltiplos sentidos. Antes de avançarmos nessa caracterização, acho importante indicar quatro fatores que contribuem para o que podemos chamar de “reemergência” do Comum. Não é a toa que o Comum retornar hoje como um vocabulário da moda (Silvia Federici faz uma excelente contextualização desta reemergência num texto sobre o Feminismo e o Comum). E se dizemos que ele “retorna” é porque ele existiu em outros períodos históricos. De maneira sintética temos:

(a)a experiência da expansão da economia capitalista sobre o que resta de bens comunais, promovendo novas expropriações e cercamentos de diversas comunidades indígenas e/ou tradicionais;

(b)a invasão da lógica privatista e monetarista sobre diversos domínios de nossa vida social, levando à corrosão do comum que dá suporte à manutenção da vida em sociedade (basta pensar nas diversas formas de erosão das relações de solidariedade, da crescente solidão de parcelas da população, dos problemas de saúde mental etc), dinâmica que se aprofunda com o neoliberalismo e o capitalismo cognitivo, apropriando-se de processos antes inimagináveis;

(c) a crescente percepção dos efeitos de nossa existência destrutiva no Planeta Terra, fortalecendo a percepção de nossa interdependência com outros entes; não é casual que os conceitos de Antropoceno, Capitaloceno ou as diversas expressões que falam sobre o “fim do mundo” estejam mais presentes em nossos vocabulário;

(d) por fim, há também uma crescente percepção por diversos segmentos das esquerdas mundiais, de que os projetos institucionais de poder na condução de politicas Estado-cêntricas tem se relevado insuficientes para dar conta da complexidade dos problemas atuais.

O Comum emerge, portanto, como um outro território: nem público-estatal, nem privado. Ao mesmo tempo, o Comum depende do público e do privado para existir, e vice-versa. Tanto o público-estatal como o privado nutrem-se de tudo aquilo que é Comum. Porém, se o Comum for submetido a formas exclusivas de controle (seja pelo Estado, seja pelo Privado) ele corre sério risco de erosão.

Assim, vamos acumulando pistas sobre o Comum para melhor descreve-lo. Já podemos apontar que ele não é exatamente um objeto (uma coisa/bem comum). Ele “acontece” e se produz no “entre”: ele é sempre co-produção; ele depende de uma comunidade que o produza e o sustente; ele acontece nos espaços intersticiais (entre o publico-comum-privado), entre o individual e o coletivo.

Ele é também um princípio, uma sensibilidade que dá consistência à fabricação de mundos. O Comum é tanto uma forma de descrição de uma realidade (com suas práticas, normas e leis) como um princípio Político (na acepção de Laval & Dardot) que funda um modo de produção do mundo. Dizer que partimos de uma “ontologia do Comum”, significa dizer que o Comum existe, mas seu “modo de existência” define-se “em relação”. É na relação em que ele está envolvido – qual o circuito das relações em que ele está implicado – que sua expressão será definida. Mas, para que ele “exista” há sempre alguns elementos presentes. Voltemos aos exemplos.

A forma mais habitual em que o Comum se inscreve na literatura acadêmica, é na sua versão do “Commons”, enquanto “recurso comum” ou “bens comuns”. Na literatura histórica e social, podemos pegar tanto os trabalhos do E.P. Thompson como da Silvia Federici, temos um relato preciso de como os bens comunais (as terras de uso comum) eram utilizadas e geridas coletivamente pelas comunidades, e como o advento e expansão da propriedade privada através dos cercamentos, esses bens comuns foram sendo expropriados. Ao mesmo tempo, a análise revela como a produção nascente explora esses recursos comuns. Importante destacar aí as lutas camponesas e as lutas das mulheres como principais protagonistas no enfrentamento da expropriação dos bens comuns.

Nos anos 90, a noção de Commons também se populariza graças aos trabalhos da cientista política e economista Elinor Ostrom, primeira  mulher a ganhar o prêmio Nobel de economia (em 2009). Ostrom dedica-se a investigar e a demonstrar como surgem arranjos institucionais (formais e informais) que serão capazes de produzir e sustentar um determinado recurso comum. Num primeiro momento, ela se dedica a mostrar como a água, florestas, estoques pesqueiros entre outros, são co-geridos pelo conjunto dos atores envolvidos no seu uso. A água, a madeira, o pasto etc, transforma-se num Comum quando são reconhecidas como um “recurso comum” de uma atividade produtiva que deve ser gerida “entre-todos” sob pena de sua destruição. Em resumo, é o arranjo institucional – uma forma de governança entre diferentes atores (públicos e privados) – que dá existência ao Commons. Isso significa que os atores aí envolvidos estão sensíveis para suas relações de co-dependência.

Mas Ostrom (outras autoras e autores) também se dedica a investigar esse mesmo problema quando aplicado a bens de ordem imaterial: a cultura, o conhecimento, a informação. No caso dos bens de ordem imaterial parece contra-intuitivo que eles sejam passíveis de propriedade exclusiva, dada sua característica não-rival e intangível. Há uma vasta bibliografia que irá demonstrar as vantagens dos bens imateriais serem reconhecidos como bens comuns – que são de todos e ao mesmo tempo de ninguém. O argumento vai da direção de afirmar que é graças à existência de bens comuns imateriais que todas as outras atividades podem se desenvolver (o conhecimento, a ciência, se desenvolvem tanto mais quanto mais livre for o conhecimento). A linguagem (nossa língua por exemplo), a informação e cultura participam de toda atividade produtiva.

Porém, com a crescente expansão das tecnologias de informação e comunicação digital, e sua penetração nas mais diversas atividades econômicas, observamos como a informação e a cultura tornam-se objeto de novas formas de apropriação exclusiva. Basta pensar na expansão dos regimes de propriedade intelectual. Atualmente, saberes ancestrais sobre técnicas de cultivo (um Comum fundamental de muitas populações) são objeto de disputas jurídicas de patentes sobre sementes, etc.

Um outro exemplo. A capacidade de ler e escrever em português é, para todos nós, uma habilidade ordinária e quase naturalizada. Mas o que ocorre quando somos impedidos de ler algo porque uma determinada informação só está disponível para aqueles que tem acesso à uma determinada tecnologia que permite a leitura? Basta pensarmos nas inúmeras barreiras colocadas pelas restrições de direitos autorais ou softwares proprietários que transformam um recurso antes comum e abundante em um bem escasso. É neste sentido que as lutas pelo livre acesso à informação e ao conhecimento produzem um novo Comum. A cultura é produzida entre-todos, ela é de todos e ao mesmo tempo de ninguém. Para garantir que o acesso ao conhecimento se efetive como um Comum é necessário criar infraestruturas (por exemplo bibliotecas, bancos de dados, internet, softwares livres), códigos, leis que promovam o livre acesso ao conhecimento. O Comum é indissociável da comunidade que o produz e das condições que dão suporte à sua produção.

Os exemplos são infinitos. Nossa experiência nas redes digitais e tudo que produzimos em nossa vida mediadas pelo digital são um bom caso para refletirmos sobre essa fronteira ambígua entre a colaboração e cooperação, a apropriação e produção de valor. A maneira como nossa interação online é facilmente convertida numa economia da atenção, como nossos dados pessoais e como os dados de nossas interações alimentam uma enorme economia informacional. Perceber esses agenciamentos, perceber a forma como a privacidade, a intimidade e nossas formas de visibilidade, participam de uma nova economia envolve uma profunda investigação dos regimes de sensibilidade que estão sendo gestados.

Negri e Hardt problematizam como o Comum emerge numa dupla dimensão diante das transformações do capitalismo contemporâneo. De um lado, o Comum enquanto produção biopolítica da Multidão, que está integrada e explorada pelas novas formas de produção de valor do capitalismo (como por exemplo e maneira como nossa inteligência, a colaboração, os atos de comunicação participam cada vez mais da produção econômica); e por outro lado como potência de resistência biopolítica que dá forma ao Comum enquanto terreno de novas lutas.

Na medida em que cada vez mais diferentes aspectos de nossas vidas participam da produção econômica, esses autores problematizam como a produção capitalista torna-se a produção da própria vida, logo biopolítica. Nossa experiência de cidade, o ar, nosso tempo de vida e de atenção, são exemplos do Comum que pode ser submetido a processos de codificação para ser explorado.

Pensemos, por exemplo, no tempo gasto em nossos deslocamentos nas cidades, e a forma como a distribuição desigual deste tempo participa da produção de uma espacialidade absolutamente estratificada e desigual. Ademais, pensemos em como este deslocamento é ainda submetido à uma lógica de rentabilidade e superexploração. Podemos tomar as lutas pelo passe-livre como uma luta que coloca o direito à cidade, o direito à mobilidade como um Comum.

Aqui, é interessante destacar que uma reivindicação inscrita na Política do Comum, modifica o regime de subjetivação e de sensibilidades. O tempo de vida é Comum entre-tod@s. Posso reivindicar o direito à mobilidade não a partir de uma categoria de pertencimento específica (sou homem, mulher, estudante, idoso…), mas sim a partir do direito a um Comum.

Por isso a diferença com a “Política” de Rancière que emerge nos momentos de ruptura da “partilha do sensível”: qual é a parte que me cabe num mundo (único) comum; ou ainda, reivindico minha participação num mundo do qual fui excluído. Evidentemente a maneira como o Estado responde é tentando traduzir e submeter tal reivindicação a um regime de subjetivação moderno, distribuindo as “partes divisíveis” conforme as categorias de pertencimento (para estudantes, para idosos…). A Política do Comum forma um outro relevo, dado que o Comum não é divisível.

O Comum transborda a oposição entre o particular e o universal. Como bem aponta Lazzarato, “a reivindicação de direitos para todos não parte da definição de uma identidade, mas da dissolução das identidades nos agenciamentos moleculares da multiplicidade. Não se trata de dizer “nós temos direito a isto porque somos aquilo”, mas sim “nós temos direitos a isto para nos tornarmos uma outra coisa”[…] “a constituição do sujeito político é uma “desidentificação” que nao pode desenvolver-se a não ser como proliferação de mundos possíveis que escapem deste mundo “comum e partilhado” que está no fundamento da política ocidental. Para recolocar em xeque as designações identitárias, deve-se deixar de acreditar na idéia de que só há um mundo possível”. Na visão deste autor, esta seria a passagem para uma “democracia do devir”, uma “política do acontecimento”.

Outro exemplo que me parece interessante é o caso do CouchSurfing versus o Airbnb. No Couchsurfing as pessoas viajam e ficam hospedadas gratuitamente na casa de outras pessoas. É uma economia da dádiva que propicia um tipo de experiência para os viajantes e para os anfitriões. Noutro caso, o Airbnb permite que transformemos um espaço de nossas casas num ativo econômico que pode ser monetizável. Num contexto de expansão do Airbnb já temos observado dois fenômenos: (a) pessoas que deixaram de receber gratuitamente pessoas em suas casas pois decidiram gerar renda com a hospedagem. Neste caso, na medida em que isso se amplifica é a Hospitalidade enquanto Comum que entra em erosão; (b) mas outro conjunto de efeitos que hoje já é nomeado como “Turistificação”. De repente os moradores de um determinado prédio que passa a ter muitos imóveis alugados se dão conta que as relações e vizinhança foram destruídas; ou ainda, um bairro que começa a concentrar muitos imóveis de aluguel de temporada também tem a “vida de bairro” destruída. O “bairro” aqui é um Comum ameaçado. Reivindicar o “direito ao bairro” na chave de uma Politica do Comum implica numa outra sensibilidade, uma outra percepção sobre as relações de co-dependência. É por isso que em muitas cidades têm emergido experiências de luta de produção de relações de vizinhança, essas relações são fundamentais no suporte à vida cotidiana.

Mas talvez, a situação onde melhor possamos visualizar a tensão entre o sensível e o intangível na produção do Comum seja no caso de todas as atividades relacionadas ao cuidado e ao trabalho afetivo e comunicacional. São as feministas que aportam uma diferença substantiva para essa discussão em torno do Comum e do trabalho considerado “imaterial”. Ora, todo trabalho é um trabalho do corpo, a atenção exige um elevado dispêndio de energia (vital, afetiva). São muitas as camadas de trabalho invisibilizadas que estão no centro da reprodução da vida. Trabalhos sem o qual a vida não seria possível. São muitos os estudos aqui que demonstram como o trabalho de reprodução da vida foi gradualmente expulso da esfera da produção de valor, para se tornar um trabalho não-remunerado mas que é fundamental para a própria reprodução do trabalho considerado “produtivo”. Reivindicar este trabalho, antes considerado invisível, na chave do Comum permite interrogar, por exemplo, as distinções entre micro e macro política, revelando como a sociedade como um todo se produz e se reproduz nas ínfimas relações do cuidado cotidiano. A riqueza dos movimentos feministas que eclodem em toda parte estão modificando significativamente o regime de sensibilidade em torno dessas questões.

Hoje, quando enfrentamos dificuldades para criar nossos filhos em razão de nossas formas de vida, damo-nos conta de como a vida foi privatizada através de diferentes dispositivos. Para criar nossos filhos precisamos produzir Comum, criar alianças, criar novos modelos de parentesco. Uma criança precisa de uma tribo. É todo um Comum que tem que ser produzido se quisermos criar alternativas aos modelos de terceirização dos cuidados.

Apresentei acima um pequena seleção de exemplos relacionados à produção do Comum, em suas diferentes acepções. No debate contemporâneo, o livro de Laval & Dardot faz uma excelente revisão teórica deste tema. O mais importante, a meu ver, é que esses autores procuram elaborar uma narrativa teórica-política que seja capaz de abarcar uma diversidade de experiências em torno do Comum, de forma a toma-lo como um “Princípio Político”. O que quero destacar no argumento desses autores, é que tal proposta implicaria: numa outra forma de composição da política, modificando o regime de subjetivação política e de produção dos sujeitos de direitos; e numa outra forma de composição entre o público-privado, econômico-social, reconhecendo, como o fazem as feministas, que toda a vida é política:

“a identidade do princípio (o comum) não suprime a distinção das esferas (social-econômica, público-privada, politica, e publica-publica), mas tem a função de organizar o social de tal maneiro que seja possível uma deliberação na esfera pública que não fique prisioneira dos interesses de tal ou qual categoria socio-profissional. Isso só pode acontecer se a esfera da produção e dos intercâmbios se reorganize a fundo a partir do autogoverno do comum” (Laval & Dardot).

Neste sentido, estaríamos diante de uma outra composição do mundo sensível. A Política do Comum implica portanto noutro regime de sensibilidades, noutro regime de subjetivação. Aqui, nesta parte final, desejo articular a “produção do Comum” ao processo de individuação. Como indicado logo no início do texto, uma Política do Comum tal qual estamos propondo permitiria escapar às dicotomias individuo-sociedade e natureza-cultura, através de outras alianças.

Concluo dialogando com o trabalho da filosofa catalã Marina Garcés, pois acredito que ela recoloca esse problema em termos mais adequados à reflexão que me foi proposta pela Bienal.

Garcés propõe que pensemos o ser como inacabamento. O ser não é uma dimensão estável ou transcendente que espera ser contemplada ou que contempla um mundo do qual ele estaria separado. Há uma co-implicação entre os seres e o mundo, há uma relação de continuidade. Dessa perpectiva “involucrada” em um mundo comum a ontologia é um espaço de vulnerabilidade.

“Desde um sujeito que é um corpo, ou seja, não é uma consciência separada senão um nó de significações vivas entrelaçadas a certo mundo, não se trata de explicar meu acesso ao outro, senão nossa co-implicação em um mundo comum. Não se trata, portanto, de explicar a relação entre indivíduos, senão a impossibilidade de ser “somente” um indivíduo. Esta é a condição para poder descobrir-se em situação, ou seja, para reaprender a ver o mundo não mais desde uma mirada frontal e focalizada do indivíduo, mas desde uma excentricidade inapropriável, anônima, da vida compartilhada”[…] E noutro trecho, a “potência da situação, como uma conjunção concreta de corpos, sentidos, silenciosa, alianças, modos de fazer, rotinas, interrupções, etc, que desenham um determinado relevo, e não outro.”

Por fim, talvez outra palavra que podemos incorporar aqui em nosso vocabulário e discussões em torno do Comum, é a noção de aliança: quais são nossos modos de composição (entre humanos mas também não-humanos). Garcés, ao invés de perguntar “o que nos une?”, interroga “o que nos separa?”.

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Referências
FEDERICI, Silvia. Feminism and the politics of the commons. The Commoner, 24 jan. 2011. Disponível em http://www.commoner.org.uk/wp-content/uploads/2011/01/federici-feminism-and-the-politics-of-commons.pdf
FERNANDEZ-SAVATER, Amador, A destruição da empatia e as lágrimas felizes: https://urucum.milharal.org/2018/05/21/a-destruicao-da-empatia-e-as-lagrimas-felizes/
GARCÉS, Marina. Um mundo común. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2013.
LAFUENTE, Antonio. Los cuatro entornos de lo procomún. Archipiélago. Cuadernos de Crítica de la Cultura, 15-22, 2007. http://hdl.handle.net/10261/2746 
LAVAL, C; DARDOT, P. Comun: ensayo sobre la revolucion en el siglo XXI, GEDISA, 2015.
PARRA, Henrique Z.M. Políticas da partilha e da distribuição. In: Silvio Gallo, Marcus Novaes, Laisa Blancy deOliveira Guarienti. (Org.).Conexões: Deleuze e Políticas e Resistências e….Petrópolis/Campinas/Brasilia: De Petrus et Alli, ALB, CAPES, 2013, v., p. 35-44.
RANCIERE, Jacques. O desentendimento. São Paulo: Ed. 34, 1996.
_____ . A partilha do sensível: estética e política. Tradução Mônica Costa Netto. São Paulo: Ed. 34/EXO, 2005.
TEIXEIRA, Ricardo. As dimensões da produção do comum e a saúde. Saúde Soc. São Paulo, v.24, supl.1, p.27-43, 2015. DOI 10.1590/S0104-12902015S01003
LAZZARATO, Mauricio. As revoluções do capitalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Versão provisória do programa disponível em:  https://pt.wikiversity.org/wiki/Tecnopol%C3%ADticas:_ci%C3%AAncia_e_tecnologia_na_produ%C3%A7%C3%A3o_do_comum

Local

Disciplina eletiva do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo

Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Guarulhos-SP, Bairro dos Pimentas, Estrada do Caminho Velho, 333.

Professor Responsável: Prof. Dr. Henrique Zoqui Martins Parra.

contato: henrique [arroba] pimentalab.net

Período e Carga Horária

Local: Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Quando: 2° semestre de 2018, 12 sessões (agosto a novembro) às quintas-feiras, 9:30 às 13:30hs.

Carga horária total: 90 horas, 6 créditos

Ementa

O programa do curso promove um diálogo teórico entre os estudos sociais em ciência e tecnologia e a sociologia política, tendo como fio condutor as relações entre o desenvolvimento de arranjos sociotécnicos e as dinâmicas de reprodução e mudança social. As composições entre tecnologia e política – tecnopolítica – são aqui compreendidas sob uma dupla articulação: tecnologias enquanto o resultado de uma construção política, mas também como portadoras de modos específicos de associação e de configurações de mundo. Esta problemática será desdobrada em três movimentos. Na primeira parte do curso apresentamos um debate teórico sobre a sociologia da tecnologia e das relações tecnicamente mediadas. No segundo bloco aprofundamos a investigação tecnopolítica em 4 dimensões: cidade e infraestruturas; informatização e tecnologias digitais de comunicação; corpo; modos de conhecer e ciência. Em cada uma dessas dimensões pretendemos contrastar as relações de saber-poder instituídas através de arranjos sociotécnicos face a emergência de composições tecnopolíticas alternativas. A parte final do curso problematiza as formas de conhecimento e os arranjos sociotécnicos implicados na criação tecnopolítica em relação ao “comum” e ao “transindividual”.

Objetivos

  • Apresentar o debate dos estudos sociais em ciência e tecnologia em torno da construção social da tecnologia e dos modos de associação e agência relativos à mediação técnica.
  • Problematizar aspectos tecnopolíticos na construção dos regimes de conhecimento, no exercício do poder e nos modos de subjetivação.
  • Problematizar a relação entre práticas e modos de conhecer, as tecnologias digitais e a emergência do Comum e do Transindividual.
  • Investigar experiências de produção tecnopolítica alternativas.

Conteúdo Programático

  • Sociologia da tecnologia e das relações tecnicamente mediadas.
  • Investigações tecnopolíticas: cidade e infraestruturas; informatização e tecnologias digitais de comunicação; corpo; modos de conhecer.
  • Laboratório do Comum e Transindividual

Metodologia de Ensino

  • Seminários
  • Aulas expositivas
  • Análise de experiências empíricas
  • Produção de documentação colaborativa em plataformas online.

Avaliação

  • Seminários
  • Trabalho final em temas selecionados;
  • Frequência (mínima 75%).

Coleção Txts Inspirações

FERNÁNDEZ-SAVATER, Amador. A revolução como problema técnico. De Curzio Malaparte ao Comité Invisível. 2016. http://www.revistapunkto.com/2016/02/a-revolucao-como-problema-tecnico.html

LAFUENTE, Antonio. Hay que prototipar dispositivos de escucha para incorporar la complejidad (entrevista a Antonio Lafuente). http://bloginteligenciacolectiva.com/prototipar-dispositivos-escucha-incorporar-la-complejidad-entrevista-antonio-lafuente/

LAMA, José Pérez de. Revisitando a Iván Illich: convivencialidad, tecnologías, instituciones. 2015. https://arquitecturacontable.wordpress.com/2018/07/06/revisitando-a-ivan-illich-convivencialidad-tecnologias-instituciones/

MEDINA, Eden. A Revolução Cybersyn. Cinco lições de um projeto de computação socialista no Chile de Salvador Allende. https://ominhocario.wordpress.com/2017/03/31/a-revolucao-cybersyn/ Txt original de 2015 disponível em inglês https://www.jacobinmag.com/2015/04/allende-chile-beer-medina-cybersyn/

ROLNIK, Suely. A hora da micropolítica. https://www.goethe.de/ins/br/pt/m/kul/fok/rul/20790860.html

STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 442-464, abr. 2018. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i69p442-464

Cronograma Aulas

Aula 1: 30 de agosto – Apresentação e Organização do Curso

Aula 2: 13 de setembro – Tecnologia, artefatos e política

Complementar:

  • FEENBERG. The technocracy thesis revisited: On the critique of power. Inquiry, 37, 85-102, 1994
  • FEENBERG, Marcuse e Habermas: duas críticas da tecnologia.
  • HABERMAS, Ciência, Tecnologia e Ideologia.
  • MARCUSE, Implicações Sociais da Tecnologia Moderna.

Aula 3: 20 de setembro – Sociologia das relações tecnicamente mediadas

  • LATOUR, Bruno. La tecnologia es la sociedad hecha para que dure. IN. M. DOMÈNECH y F.J.TIRADO (comps.) Sociología simétrica. Ensayos sobre ciencia, tecnología y sociedad (Barcelona, Gedisa Editorial, 1998. Disponível: http://www.bruno-latour.fr/node/263
  • LATOUR, Bruno. On technical mediation – philosophy, sociology, genealogy. Common Knowledge, Fall, V.3, N.2, 1994.

Complementar:

  • LATOUR, B. Where are the missing masses? The sociology of a few mundane objects. In. Wiebe Bijker and John Law, eds., Shaping Technology (Cambridge, MA, MIT Press, 1992), 225-258.
  • BIJKER, Wiebe; PINCH, Trevor. “The Social construction of facts and artifacts: or how the Sociology of Science and the Sociology of Technology Might benefit each other” (pp. 11-44), in: BIJKER, Wiebe; HUGHES, Thomas; PINCH, Trevor (orgs.). The Social Contruction of Technological Systems: new directions in the Sociology and History of Technology. The MIT Press, Cambridge & London (2012).

Aula 4: 27 de setembro – Tecnologias Digitais, Cibernética, Controle

  • ROUVROY, A. & BERNS, T. Governamentalidade algorítmica e perspectivas de emancipação: o díspar como condição de individuação pela relação? Revista Eco-Pós. v.18, n.2, Dossie Tecnopolíticas e Vigilância. p.36-56, 2015.
  • GALLOWAY, Alexander. (Cap.1) Protocol: How control exists after decentralization, MIT Press, Cam. Mass, 2004.

Complementar:

  • SANTOS, Laymert Garcia. Limites e rupturas na esfera da informação. Conferência apresentada na 52 a Reunião da SBPC, realizada na Universidade Nacional de Brasília, dia 13 de julho de 2000.
  • AMADEU, Sergio. Governo dos Algoritmos. Revista de Políticas Públicas, vol. 21, núm. 1, 2017, pp. 267-281. http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=321152454013

Aula 5: 4 de outubro – Infraestruturas e soberania tecnológica

Projetos

Aula 6: 11 de outubro – Feminismo e Estudos Sociais em Ciência e Tecnologia

  • SUCHMAN, L. Agencies in technology design: Feminist reconfigurations. 2005. Available at:

http://www.lancaster.ac.uk/fass/resources/sociology-online-papers/papers/suchman-agenciestechnodesign.pdf

  • BELLACASA, Maria Puig de la. Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1) 85–106. DOI: 10.1177/0306312710380301
  • HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

Complementar:

Projetos:

  • Manifestação genero e engenharia popular:

Aula 7: 18 de outubro – Corpo, Saúde e Tecnologia

Complementar:

Aula 8: 25 de outubro – Design e Tecnologia Social

  • EHN, P., Farías, I., & Sánchez Criado, T. (2018). La posibilidad de que cosas del diseño puedan ser socialistas-democráticas: Entrevista a Pelle Ehn. Entrevistadores: I. Farías & T. Sánchez Criado. Diseña, (12), 52-69. Doi: 10.7764/disena.12.52-69
  • OTTO, Ton & SMITH, Rachel Charlotte Smith. Design Anthropology: A Distinct Style of Knowing. In. Design Anthropology, Theory and Practice. Edited by Wendy Gunn, Ton Otto and Rachel Charlotte Smith. London: Bloomsbury Academic, 2013.
  • SMITH, Adrian; FRESSOLI, Mariano; ABROL, Dinesh; AROND, Elisa and ELY, Adrian (2016) Grassroots innovation movements. Pathways to sustainability . Routledge, London. ISBN 9781138901216.
  • SMITH, Adrian. Translating Sustainabilities between Green Niches and Socio-Technical Regimes. Technology Analysis & Strategic Management Vol. 19, No. 4, 427–450, July 2007. DOI: 10.1080/09537320701403334

Caso:

Aula 9: 1 de novembro – Ciência Aberta, Comunidades de Prática e Epistêmicas

  • STENGERS, Isabelle. An ecology of practices. Cultural Studies Review, vol.11, n.1, march, pp.183-196, 2005.
  • LAFUENTE, Antonio; ESTALELLA, Adolfo. Modos de ciência: pública, abierta y común. In: ALBAGLI, S.; MACIEL, Maria Lucia; ABDO, Alexandre Hannud. (Org.). Open Sciences, open issues. 1ed.Rio de Janeiro: , 2015, v. 1, p. 121-142. Disponivel em: http://http/livroaberto.ibict.br/handle/1/1061 Acesso em 10/07/2017.

Complementar

  • KAPCZYNSKI, Amy. Access to knowledge: a conceptual genealogy. In. KRIKORIAN, Gaëlle and KAPCZYNSKI, Amy (eds.). Access to knowledge in the age of intellectual property. Zone Books/MIT Press. 2010.
  • ALBAGLI, Sarita. Ciência abeta em questão. In. ALBAGLI, S.; MACIEL, Maria Lucia; ABDO, Alexandre Hannud. (Org.). Open Sciences, open issues. 1ed.Rio de Janeiro: , 2015, v. 1, p. 121-142. Disponivel em: http://http/livroaberto.ibict.br/handle/1/1061Acesso em 10/07/2017.
  • HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pago, n.5, p.7-41, 1995.
  • AKRICH, Madeleine. From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet. Engaging Science, Technology, and Society. n.15 (2), 2010.

Aula 10: 8 de novembro – Individuação, transindividual e reticulação

  • FERREIRA, Pedro. Reticulações: ação-rede em Latour e Simondon. Revista EcoPos, v. 20, n. 1 (2017):

https://revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos/article/view/10406/7900

Complementar:

  • COMBES, Muriel. Simondon. Individu et collectivité. Pour une philosophie du transindividuel.
  • SIMONDON, G. La individuación a la luz de las nociones de forma y de información, Editorial Cactus, Buenos Aires, 2015, 2ª edición.
  • SIMONDON. Do de existência dos objetos técnicos (trechos traduzidos):

(1)Introdução: https://cteme.wordpress.com/publicacoes/do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-1958/introducao/(2) Objeto técnico abstrato e objeto técnico concreto: https://cteme.wordpress.com/publicacoes/do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-1958/i-objeto-tecnico-abstrato-e-objeto-tecnico-concreto/ (3) Essência da tecnicidade: https://cteme.wordpress.com/publicacoes/do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-1958/essencia-da-tecnicidade/

Aula 11: 22 de novembro – Laboratórios do Comum

  • ESTALELLA, Adolfo; ROCHA, Jara; LAFUENTE, Antonio. Laboratorios de procomún: experimentación, recursividad y activismo. Revista Teknokultura, (2013), Vol. 10 Núm. 1: 21-48.
  • LAFUENTE, Antonio & ALONSO, Andoni. Taller de prototipado: la hospitalidad como cultura y como tecnología. In. Lynda E. Avendaño (ed.), Silencio y política. Aproximaciones desde el arte, la filosofía, el psicoanálisis y el procomún, Madrid: UAM, 2013, pp. 43-48, Dec 2013
  • KERA,Denisa. Maker Culture Liminality and Open Source (Science) Hardware: instead of making anything great again, keep experimenting! Liinc em Revista, Rio de Janeiro, v.13, n.1, p. 7-28, maio 2017. Disponível em: http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3875/3202
  • MARCUS, George (2014) Prototyping and Contemporary Anthropological. Experiments With Ethnographic Method, Journal of Cultural Economy, 7:4, 399-410, DOI: 10.1080/17530350.2013.858061

Complementar:

  • CORSÍN Jiménez, Alberto & ESTALELLA, Adolfo. Ethnography: a prototype.Ethnos, online first, DOI: 10.1080/00141844.2015.1133688. Special Issue, Obstruction and Intervention, edited by Rane Willerslev, Lotte Meinert and George Marcus, 2016.
  • LAFUENTE, Antonio. Los cuatro entornos del procomun. 2007.
  • PARRA, H. Z. M.; FRESSOLI, Mariano. ; LAFUENTE, Antonio. (Org.). Dossie: Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadão/ Citizen Science and Citizen Labs (pt/en/es). LIINC EM REVISTA, v. 13, p. 1, 2017. http://revista.ibict.br/liinc/issue/view/244

Aula 12: 29 de novembro – Apresentação trabalhos finais, avaliação e encerramento

Em setembro dei uma entrevista para a Revista FAPESP, falando sobre ciência cidadã e aberta, relatando nossa experiência com o projeto Ciência Aberta Ubatuba. O Antonio Lafuente também foi entrevistado, mas preferiu enviar suas respostas por escrito para o jornalista (Bruno de Pierro). Na reportagem apenas uma pequena parte do que falamos (como é habitual) entra no texto final. Mas o Antonio acabou disponibilizando na internet o texto que escreveu para a entrevista. Numa das respostas achei uma definição interessante, dada sua amplitude e clareza, para a noção de laboratório cidadão. Transcrevi e traduzi abaixo este trecho:

Revista FAPESP: O que são os Laboratórios Cidadãos? Há algum exemplo notório dessa iniciativa no mundo?

Antonio Lafuente:  Um laboratório cidadão é um espaço de produção aberta do conhecimento.
É um lugar capaz de acolher um coletivo heterogêneo de atores que almejam dar forma a um entorno social. É portanto um lugar onde nos obrigamos a identificar uma problemática, documentá-la, isolar suas características mais notáveis, contrastar os distintos pontos de vista, explorar as diferentes formas de abordagem, extrair conclusões e comunicar as descobertas, dúvidas e fracassos. Aqueles que a integram se autoconfiguram como uma comunidade de aprendizagem aberta a toda variedade de atores e a toda pluralidade de pontos de vista. De forma que sua primeira tarefa é encontrar uma linguagem comum, ou seja, um espaço que torne possível a conversação sem que ninguém imponha seu ponto de vista e sem que ninguém tenha o poder de fechar/bloquear um tema porque considera que já se discutiu o suficiente.

Um laboratório cidadão é, portanto, um espaço para aprender a viver juntos: uma incubadora de comunidades. Um laboratório cidadão é um espaço, por antonomásia, para a política experimental, pois sendo hospitaleiro com as minorias e tratando-as como sensores de aviso antecipado de problemas porvir, estaríamos encontrando respostas situadas e inclusivas para assuntos todavia incipientes e talvez mais frequentes, gerais ou agudos no futuro.

É um laboratório porque aposta na cultura experimental, no contraste de pontos de vista, nas práticas abertas e na comunicação pública. É cidadão porque confia na inteligência coletiva e outorga maior dignidade cognitiva ao experiencial, o que é o mesmo que dizer que um laboratório cidadão nunca dividirá o mundo entre os que sabem e os que não sabem.

As práticas do laboratório cidadão são realizadas entre todos e, consequentemente, dá-se forma a bens comuns. Eu gosto de especular a ideia de que sempre que há um bem comum é necessário que haja um laboratório que o sustente e que é sustentado por ele. Como o procomúm poderia sobreviver a impérios, autoritarismos, neoliberalismos e a circunstâncias tão hostis não fosse pela comunidade que o sustenta (e que é sustentada por este comum), que nos dão provas constantes de saber adaptar-se e de interpretar corretamente os signos externos?

Criar e sustentar um bem comum demanda muito conhecimento, muita capacidade de análise ou, em outras palavas, um laboratório cidadão plenamente operativo. Mas vejam, plenamente operativo não quer dizer que necessite de um edifício, um chefe, um regramento estrito ou uma maquinaria sofisticada. Não é nem necessário, como é o ordinário, saber que é um laboratório cidadão. O que importa é que se dê uma pequena infraestrutura capaz de dar forma a sua vontade de querer (sobre)viver, que o ajude a converter o protesto em propostas, o experiencial em conhecimento contrastado e as pequenas infraestruturas em garantidoras do seu direito à diferença.

Há exemplos? Muitos e em todas as partes. Diga-me um bem comum e te mostrarei um laboratório cidadão! Mas também, vale a equação inversa: dê-me um laboratório cidadão e construirei um bem comum. Os grupos de Alcoólatras Anônimos, talvez sem sabê-lo, seriam um laboratório cidadão que estaria iluminando uma maneira distinta de nos relacionarmos com o corpo, uma corpo tal que conversa com termos distintos, que evoca diferentes experiências: um corpo comum. Em Madrid, como em muitas outras cidades do mundo abundam as hortas urbanas, muitas vezes nascidas em espaços ocupados e mais tarde legalizados. O que está acontecendo, o que significa isso? Para mim, são laboratórios cidadãos onde se está experimentando outras formas de habitar a cidade, distintos modos de nos conectarmos que não estejam mediados (o determinados) pelo consumo, pelo valor ou pela utilidade. Estamos, entre todos, dando forma à ideia de que uma cidade são suas relações e não suas construções. Estamos reinventando a cidade como um espaço comum. Temos dado diferentes nomes a esses movimentos e mobilizações, como urbanismo-beta, urbanismo-feito-a-mão, urbanismo-faça-você-mesmo. Todos têm em comum a vontade de fazer coisas juntos, de disputar com os urbanistas sua hegemonia sobre a urbe e, enfim, de mostrar que outro mundo é possível: será vulnerável, será transitório, será esporádico,….mas será de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Sua fragilidade é o que tem de amoroso, como também sua transitoriedade, este não estar quieto, ou seu querer devir outra coisa, é o que o a faz habitável. Sua natureza intermitente ou efêmera também pode ser vivida como uma proteção face às formas identitárias de nos agruparmos, sempre tão atrativas ao princípio como coercitivas para aqueles que querem discordar ou ser diferentes.

 

Entrevista com Henrique Parra por: Patricia Fachin | 27 Novembro 2017

 

O mal-estar do sistema político, sentido em diversos países, é consequência do “modo de existência contemporâneo”, que “é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa”, especialmente em áreas que são fundamentais, como a produção de energia, o abastecimento de água, o sistema de saúde, o sistema financeiro, diz o sociólogo Henrique Parra à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Outros fatores que geram esse mal-estar, diz, são a “corporatização e financeirização do Estado”, que é um “vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações”, e o fato de que as “nossas instituições se tornaram incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos”.

Para superar a crise do sistema político, sugere, “precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós”. Como alternativa, o sociólogo aposta em um modelo político que seja fundamentado numa “política do comum” e numa “política do protótipo”. O comum, explica, “oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade…”.

Nesse sentido, explicita, o comum, “como relação, é o ‘entre’, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…)”. A atual dificuldade acerca de uma política do comum, diz, é como torná-la institucional. “Agora, outro problema é como a ‘política do comum’ se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as ‘instituições do comum’, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando”.

Parra também tem trabalhado com a noção de “protótipo”, a partir de suas recentes pesquisas junto aos “laboratórios cidadãos”, que atuam na Espanha. Partindo dessa ideia, avalia, seria possível buscar uma alternativa à crise política e um outro tipo de participação social, baseada em processos e não mais em ações reivindicativas que seguem um único modelo. “Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de ‘hipóteses’. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, em vez de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto”.

Na entrevista a seguir, Henrique Parra também comenta a atual situação política da Catalunha e o seu processo separatista da Espanha. “Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito”, resume.

 

Henrique Z. Parra é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutor em Educação pela Universidade de Campinas – Unicamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e atualmente realiza pós-doutorado no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, no Rio de Janeiro, e no Instituto de História do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC, em Madrid, Espanha [1].

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Hoje fala-se muito, em todas as partes do mundo, da crise política. Como você compreende essa crise? Quais diria que são as razões da atual crise política que se manifesta em vários países?

Henrique Parra – O atual sistema político está fazendo água por todos os lados. Sentimos este mal-estar em diversos países. Dentre os vetores desta crise destacaria:

1) Nosso modo de existência contemporâneo é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa (produção de energia, abastecimento de água, sistemas de saúde, finanças, produção científica e tecnológica etc). São grandes máquinas que atravessam desde os mínimos detalhes da vida cotidiana e que se conectam com dinâmicas transnacionais. Como democratizar aquilo que se apresenta como infraestrutura da nossa existência?

2) Corporatização e financeirização do Estado é outro vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações. Como desprivatizar o público e submetê-lo ao autogoverno dos cidadãos?

3) Nossas instituições tornaram-se incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos; há sérios problemas de participação e deliberação. Diante da multiplicidade das forças em jogo, o modelo atual de governo opera pela extrema redução a conflitos binários que só favorecem quem controla o tabuleiro, esvaziando ainda mais o campo da política.

Em alguns lugares observamos, ainda que de forma pontual, experimentos interessantes de inovação institucional: democracia por sorteio, mecanismos de democracia direta, jurados cidadãos para controvérsias de grande impacto social, processos legislativos abertos e colaborativos, entre outros. Precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós.

IHU On-Line – Como você percebe a crise política desde Madrid, onde reside atualmente? Pode nos falar um pouco sobre a atual situação política no país, especialmente sobre o processo de independência da Catalunha? Quais diria que são as vantagens e as desvantagens da separação?

Henrique Parra – Estamos diante de um desastre. Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito. Seja pelo independentismo de alguns setores da Catalunha, seja pelo nacionalismo mobilizado pelo governo Espanhol, vemos como a imagem da soberania se transforma numa armadilha para a experiência política que emergia do 15M. O mundo atual exige que pensemos em termos de interdependência, como vamos viver juntos? Como fazer para que a experimentação municipalista e as formas de participação popular abram outros horizontes de governo e democracia no interior e para além do estado nacional, sem reproduzirmos a forma-Estado noutras escalas?

IHU On-Line – Especificamente na Catalunha, parte da população é favorável à separação, mas parte não. Como, por via da política, seria possível resolver esse tipo de conflito?

Henrique Parra – Com Política, ou seja, enfrentando a questão de como vamos coletivamente decidir sobre os assuntos que dizem respeito a todas e todos que habitam um mundo comum. As nações, já sabemos, são sempre imaginadas e fabricadas. O crescimento do independentismo Catalão e o fortalecimento do nacionalismo Espanhol são simétricos neste percurso recente. Neste conflito, o esforço de produzir maiorias submetidas ao cálculo de governo sob uma lógica eleitoral cria, na realidade, grandes minorias excluídas. Os mecanismos identitários se fortalecem, a base conservadora se expande com maior velocidade e o conflito social se dicotomiza. A lógica amigo-inimigo destrói o tecido social e esvazia a possibilidade de construção política. Neste cenário, quem tem levado a melhor são os setores mais reacionários, em toda parte. Esta fórmula é explosiva, por isso estamos à beira do abismo.

IHU On-Line – Em suas análises sobre política, você recorre com frequência ao conceito de “comum”. Por que esse conceito é importante na análise política e que autores são referência para você pensar sobre o comum?

Henrique Parra – O comum oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade… É o caminho do “entre-todos” (diversamente do “para todos” público-estatal), é prático e cotidiano; é corpóreo, afetivo e também maquínico. Em suma, é uma cosmopolítica: alimenta outro imaginário social, atravessa práticas concretas e depende da existência de uma comunidade que seja corresponsável pela sua produção e manutenção.

O Comum como relação

Esta noção é, todavia, vaga e adquire contornos distintos conforme a filiação teórica. Meu primeiro contato foi através da produção da Elinor Ostrom e no debate sobre economia política informacional (Yochai Benkler, James Boyle e outros). Neste caso, o comum é “commons“, “bem comum“, um recurso que pertence a uma comunidade e cujo usufruto é coletivo. Mas quem fisgou minha atenção para a força desta noção foi mesmo Antonio Lafuente, físico e historiador da ciência, que aborda o assunto na tradição do “procomún“. O prefixo “pro” denota a necessária existência de uma comunidade que promova e sustente o comum, sem a qual ele não existe. Nesta direção, o comum é sempre relacional, recusando sua reificação (enquanto bem, recurso ou coisa comum). Em Lafuente, assim como na filósofa Marina Garcés, o comum também se manifesta como a ligação intercorpórea, prática, anônima, para além do sujeito individual; o comum que produzimos em relação uns aos outros e que sustenta nossas vidas (o cuidado, os afetos, o sensível…).

Mas também o comum que dá forma ao ambiente e às infraestruturas da vida ordinária. Pode parecer intangível, mas é na realidade muito material, pois resulta do trabalho de nossos corpos. Neste caminho, encontramos ressonâncias nas reflexões de Antonio Negri, Michel Hardt, Paolo Virno e Maurizio Lazzarato sobre o capitalismo cognitivo. Negri e Hardt referem-se à “produção do comum” para indicar a interdependência nas relações de (co)produção e também o comum em sua forma substantiva. Tal percurso é importante, pois permite visibilizar e politizar o “comum”, destacando os mecanismos contemporâneos de produção e extração de valor nas relações capitalistas. Mais recentemente, o “Comum” de C. Laval e P. Dardot é talvez a obra que alinhava de maneira mais completa as diversas abordagens teóricas sobre o Comum. Acho que a principal contribuição de Laval e Dardot, em sua análise histórica do comum, é estabelecer uma narrativa capaz de dar forma a um horizonte político alternativo.

Em resumo, sinto-me implicado em pensar o “comum” como relação, é o “entre”, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…); sua produção anuncia o trabalho de uma dimensão infraindividual e supraindividual, e por isso permite que pensemos a noção de agência em outros termos. Por um outro caminho, o autor que nada fala deste “comum”, mas muito me inspira a pensar essas questões sob uma outra perspectiva, é Gilbert Simondon.

IHU On-Line – Hoje, uma das suas áreas de pesquisa é o que você denomina de tecnopolíticas, que relaciona tecnologia, política e conhecimento. Por que a inter-relação entre essas três áreas é importante?

Henrique Parra – Tecnopolítica, de forma ampliada, significa reconhecer a indissociabilidade prática entre técnica e política, meios e fins, técnica e cultura. No rastro de Foucault (e outros) e com os estudos sociais em ciência e tecnologia, analiso como a emergência de novas formas de saber relaciona-se a novas formas de exercício do poder no contexto das relações tecnicamente mediadas, principalmente das tecnologias digitais. Nesta trama tenho adicionado as reflexões sobre o comum, pois é sobre ele que os novos saberes e poderes adquirem contornos específicos e pouco conhecidos. Neste cenário, parte do problema que temos é que as grandes corporações souberam se antecipar e agora estão em situação de grande vantagem ao controlarem as principais infraestruturas que servem de apoio à nossa vida cotidiana.

Graças à crescente digitalização e mediação das tecnologias cibernéticas, a expansão do codificável infiltra-se nos ínfimos interstícios da vida individual e coletiva. Com a indicialidade e rastreabilidade da interação digital, surgem novos modos de conhecer: as ciberciências, o conhecimento simulacional, a estatística preditiva, a modulação existencial. Foucault descreveu o surgimento dos saberes populacionais e a biopolítica; Deleuze anunciou a sociedade de controle. É sobre essas camadas que Antoinette Rouvroy descreve a nova governamentalidade algorítmica. No Brasil, Fernanda Bruno, Sergio Amadeu e outros pesquisadores da LAVITS examinam o mesmo problema em termos dos regimes de visibilidade, controle e economia da vigilância.

No terreno da economia, o capitalismo informacional cria formas de extração e converte a livre interação e colaboração em rica fonte de valor. Os novos saberes e sua economia desenvolvem-se sobre o comum que produzimos de forma transindividual: simultaneamente na dimensão infraindividual (os rastros e índices da expressão pré-individual) e supraindividual (dados agregados, os perfis potenciais). Por isso, é um saber e um poder que está para além do indivíduo e da população. O conhecimento simulacional gera técnicas de modulação do ambiente de forma a alterar o horizonte dos possíveis, modificando o campo probabilístico para a ação futura, e tudo de maneira doce e imperceptível (ou sem fricção, nos termos da tecnofilia do Vale do Silício).

Imagino, portanto, uma política do transindividual como prática de resistência e criação, onde o comum é tanto o modo de existência onde as lutas se reconfiguram, como o próprio elemento sob disputa. Minha hipótese é que parte da política do comum desenvolve-se junto ao transindividual. A contribuição da noção de “transindividual“, neste caso, é destacar os aspectos pré-individuais e supraindividuais, dimensão maquínica da ação humana e da nossa interação com o não humano, ampliando, portanto, a noção de agência (é um exercício de tramar com Latour, Simondon, Stengers, Lazaratto e outros).

IHU On-Line – O que significa falar em construção de uma política do comum? Essa seria uma via alternativa à política nas democracias atuais? Por quê?

Henrique Parra – O comum está aí há muito tempo. Sua política refere-se às configurações de mundo e lutas em torno da produção e manutenção do comum de uma determinada comunidade. Quando dizemos “política do comum” afirmamos a existência de algo comum que está sob disputa. Não há comum sem uma comunidade que lhe dê existência (difere, portanto, das comunidades identitárias). Nesta perspectiva, a água, por exemplo, só é comum quando surge um campo de relações entre diferentes atores (podendo incluir agentes não humanos) para regular o uso coletivo deste comum. Nesta interpretação mais relacional, o “comum” difere de uma acepção essencialista de “coisa comum“, “bem comum“, “recurso comum” ou mesmo “commons” para alguns autores.

Temos também, por exemplo, uma política do comum em torno do cuidado. O cuidado acontece em todas nossas relações interpessoais. É algo aparentemente intangível, porém ele se manifesta sempre de forma muito concreta, é fruto de um trabalho emocional e material de nossos corpos. As lutas feministas afirmam com muita clareza a dimensão corpórea e física deste trabalho (Alana Moraes me apresentou este debate). Este comum pode tanto ser apropriado sob um vetor capitalista que coloca o cuidado para funcionar numa direção que beneficie a produção e a extração de valor, como pode ser um campo de lutas de resistência, quando o cuidado é utilizado para gerar maior autonomia para aqueles que o coproduzem. Neste sentido, a política do comum implica também no fortalecimento dos laços de interdependência, de corresponsabilidade, de coprodução.

Neste momento em que estou tentando delinear a relação entre esses conceitos (comum e o transindividual), tenho a impressão de que o transindividual só se aplica a alguns casos do “comum”, como, no exemplo do “cuidado”. Não estou seguro. Quando observamos as relações mediadas pelas tecnologias digitais, terreno em que me sinto mais confortável, os casos de sobreposição entre o comum e o transindividual abundam. Por exemplo, minha disposição de comunicar e tecer redes de amizade, numa plataforma corporativa, converte-se imediatamente em capital informacional para quem controla a rede. O chamado capitalismo de plataforma ou capitalismo de vigilância, apropria-se do comum gerado pela nossa vida cibermediada. A luta contra a apropriação, extração e cercamento deste comum são formas da política do comum.

Empresas como Airbnb convertem a confiança social em ativo monetizável, corroendo em alguns cenários a livre colaboração e a economia da dádiva. Não à toa, em algumas cidades, comunidades de vizinhos estão se organizando contra os abusos dessas empresas que ameaçam as relações de convivência existentes num certo território. De repente, os habitantes se dão conta de que a qualidade de sua vida num edifício é um “comum” importante, ou as relações de vizinhança, o tipo de comércio, os vínculos de apoio mútuo no território só acontecem porque há algo comum que torna possível seu modo de vida.

Política do comum traduzida em termos institucionais

Agora, outro problema é como a “política do comum” se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as “instituições do comum“, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando. Laval e Dardot propõem que essas instituições são formas de autogoverno do comum. Trata-se de modificar a própria arquitetura e os elementos que ordenam o modelo de contrato social existente. Em termos de participação e deliberação, isso significa que todos os implicados ou afetados por uma decisão devem participar em sua deliberação.

Outra característica institucional seria o arranjo capaz de incluir no “cálculo” político e econômico todas as externalidades, ampliando o reconhecimento daquilo que participa da produção do mundo, mas que é tratado como externalidade: a qualidade do ar que respiramos; o trabalho invisível da reprodução da vida doméstica; o direito aos comuns urbanos… Neste caso, podemos compreender como a noção de “comum” transborda a dicotomia público-privado. Que instituições necessitamos para “comunalizar” o público-estatal e o privado? Quais são os princípios, práticas, tecnologias, protocolos, cultura que dão suporte ao comum?

IHU On-Line – O que é a política do protótipo? Como essa ideia de política do protótipo pode contribuir para repensar a política e as manifestações sociais?

Henrique Parra – Comecei a trabalhar com a noção de protótipo há pouco tempo, mais especificamente a partir da análise dos chamados “laboratórios cidadãos” na Espanha. É aqui que cruzo novamente com as contribuições de Antonio Lafuente, que fora responsável pela concepção do Laboratório do Procomún no Medialab-Prado. Em diversas iniciativas aqui na Espanha, mas também noutros países, o termo “protótipo” está presente nos discursos e intervenções de coletivos ativistas e também no vocabulário de pesquisadores e cientistas que atuam no campo dos estudos urbanos, ciência aberta e estudos sociais em ciência e tecnologia.

Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de “hipóteses”. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, ao invés de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto.

Política do protótipo

Apesar das diferenças, há elementos que podemos conectar entre ambos os campos (científico e ativista) e que a meu ver dão forma a esta “política do protótipo“, simultaneamente como formas de conhecer (dimensão epistêmica-cognitiva) e formas de produzir o mundo (dimensão política).

Em primeiro lugar, o destaque para uma dimensão experimental e pragmática. O desafio de realização de um protótipo implica em fazer, em criar coisas, criar relações. Ela é tentativa, não tem a pretensão de ser a resposta verdadeira ou a melhor resposta. Ao invés de investir muita energia na definição de fronteiras e categorias políticas abstratas para conceber um programa de ação, ao prototiparmos somos obrigados a compreender como as coisas funcionam no mundo aqui-agora. É uma ação menos orientada ideologicamente (evidentemente há sempre valores envolvidos) e mais prática.

Ao realizarmos o protótipo, novos problemas emergem, a realidade se torna mais complexa, colocamos o protótipo em movimento e aí já podemos experimentar as dificuldades para sua existência no mundo, e assim tornamos mais visível as forças e conflitos em jogo. Ao mesmo tempo, para fazer um protótipo temos que criar uma comunidade, e ao fazer isso aprendemos a caminhar juntos. Pode parecer banal, mas essa habilidade (fazer junto) é um recurso escasso em muitos locais.

No centro da produção do protótipo está a experiência. E digo experiência no sentido forte do termo, “sofrer uma experiência”, “ter uma experiência”, como nos ensina Jorge Larrosa. Ao fazer um protótipo colocamos nossos corpos em ação, e ao fazer isso outros saberes, afetos e poderes entram em cena. O protótipo reforça um sentido de abertura, indeterminação, sujeito à continua transformação. Em resumo, uma política do protótipo é também a passagem de um movimento reivindicativo para um movimento propositivo e pré-figurativo, que experimenta no presente a criação de outros modos de relação e outros mundos possíveis.

No contexto de fortalecimento da sociedade de controle e da governamentalidade algorítmica, o saber que lhes dá sustentação é o conhecimento simulacional. A capacidade de análise e de produção de cenários futuros é um dos principais campos de disputa: Como o mercado vai reagir? Como os eleitores vão se comportar? Como o governo irá modificar uma política? A política do protótipo intervém aí numa dupla direção: em primeiro lugar um protótipo é um novo artefato, uma nova relação ou arranjo sócio-técnico, e assim ele produz imagens, cenários que modificam o horizonte dos possíveis, interrogando as imagens disponíveis sobre o futuro; em segundo lugar, ao dar centralidade à noção de experiência, ele ativa uma potência corpórea como um importante território de disputa face aos modos atuais de sujeição social e servidão maquínica.

IHU On-Line – Muitos dizem que a esquerda política — os partidos — é incapaz de impulsionar um novo programa para a esquerda mundial e que essa tarefa caberá à esquerda social, ou seja, aos movimentos sociais. De outro lado, fala-se que os movimentos sociais não têm força política para fazer mudanças. Como você vê esse quadro entre a política tradicional e os movimentos? Também aposta na força dos movimentos? Por quê?

Henrique Parra – Não resta dúvida de que os que controlam nossas instituições governamentais não farão as mudanças que colocam em risco sua posição. Mas isso não significa que bastaria trocar o grupo que está “no poder” das instituições. Já experimentamos isso, não? É claro que atuar no campo da disputa eleitoral é relevante, mas não é suficiente. Sabemos das limitações concretas enfrentadas por todos aqueles que tentam implementar uma ação de governo que promova a justiça social. Imediatamente, nos damos conta das inúmeras determinações jurídicas, materiais, culturais, financeiras, logísticas etc, que fazem com que a mudança social seja praticamente bloqueada.

Voltamos à sua primeira pergunta. De repente nos damos conta de que nossa dependência dos grandes arranjos sócio-técnicos, que servem de infraestrutura para a vida comum, também determina nosso modo de existência. Não basta ganhar eleições, é preciso democratizar a produção científica e tecnológica, a geração de energia, democratizar a economia… mas para isso também precisamos ter experiências sobre o que pode ser colocado no lugar.

Cultura tecnopolítica

Num post recente, discorro sobre a importância da tessitura de uma cultura tecnopolítica. Por exemplo, como podemos expandir o acesso de todos à energia elétrica como um direito básico sem depender do modelo das grandes hidrelétricas, que colocam em movimento uma série de agenciamentos: grandes empreiteiras, destruição do meio ambiente, remoção das populações, financiamento de campanhas eleitorais etc. Neste sentido os movimentos sociais ocupam um lugar importante para propor e pressionar por outras políticas. Porém, tradicionalmente, os movimentos sociais são principalmente reivindicativos. Isso é importante e necessário, porém, compreendemos que isso não é suficiente. É fundamental a luta pela ampliação e conquista de direitos. Sem os movimentos sociais, muito (e pouco) do que temos como direitos não existiria. Veja o exemplo dos movimentos por moradia urbana. A maior parte deles não consegue manter a disposição organizativa uma vez que os moradores estejam instalados nos apartamentos de um edifício: a arquitetura do prédio, a gestão do condomínio, a distribuição das cozinhas etc, tudo isso participa da produção de um modo de vida.

Neste sentido, acho importante reconhecer a existência de uma multiplicidade de novas formas associativas que também se constituem como agentes políticos. Há muita disposição entre as pessoas para se engajarem em atividades políticas (para o bem e para o mal). Para além de uma renovação de nossas instituições políticas, também devemos imaginar uma transformação nos movimentos sociais existentes e apostar na constituição de novos atores políticos que estão para além da arquitetura estadocêntrica, para além dos partidos, para além dos movimentos sociais reivindicativos, das ONGs de lobby etc.

Assim, a própria palavra “programa”, expressa na pergunta, torna-se controversa e com ela a noção unitária de estratégia. São muitas as frentes e campos de ação política relevantes. Voltando à questão sobre “minha aposta”: estou interessado em praticar e investigar os modos de associação e as tecnologias de produção do comum. Mais especificamente, os arranjos (sociais e técnicos) que alguns coletivos, organizações e movimentos já praticam em alguma esfera da reprodução do seu cotidiano, para sustentar o comum que eles julgam ameaçado e, portanto, necessário para um certo aspecto de sua existência. Isso significa que eles inventam soluções práticas (com valores, protocolos, tecnologias, infraestruturas…) que são suficientemente eficientes para existir no mundo atual.

Essa passagem do protesto para a proposta (Lafuente e outros autores usam esta expressão) também estava presente como política pré-figurativa em movimentos sociais e contraculturais do século passado. Também encontramos isso em alguns movimentos feministas e ecologistas, em algumas iniciativas presentes no início do Fórum Social Mundial e, mais recentemente, em coletivos hackers para autonomia tecnológica, comunidades de práticas de grupos afetados, redes de agroecologia ou de economia social/solidária, moedas sociais… Essas iniciativas são importantes porque produzem formas associativas que sustentam este “comum” (o que por si só é de grande valia num mundo em que o tecido social é destruído pela governamentalidade neoliberal). E para isso elas também criam os arranjos de modo que suas práticas “funcionam” no presente, promovendo outros critérios de eficiência. Porém, isoladamente, essas experiências também têm os seus limites.

Contexto espanhol

Voltando às questões sobre o contexto espanhol, muitos dos que participaram das inúmeras iniciativas que foram produzindo o caldo de práticas e cultura política em que o 15M eclodiu, estão muito apreensivos com o atual cenário político. Há uma certa sensação de que as invenções e os modos de subjetivação política que ali emergiram não lograram criar formas políticas capazes de enfrentar o atual conflito. É certo que houve muito aprendizado democrático, que inúmeras redes se formaram e que muitas delas seguem ativas e outros num estado de latência. As novas experiências municipalistas, as confluências, as mareas, são evidentes desdobramentos daquele momento.

A mesma pergunta que lançam sobre o 15M pode ser aplicada ao Junho de 2013 brasileiro (guardadas suas diferenças e seu contexto): quais são as formas políticas e institucionais desses movimentos? Essa é uma pergunta grande demais e muitos estão investigando este problema. Em certo sentido, a política do protótipo e do comum que imagino não pretende responder a essa pergunta, mas sim investigar e praticar uma ética, uma cultura, as tecnologias, as infraestruturas que contribuem para a produção e manutenção do comum. Imagino um caminho de ação política que não é exclusivo e que não está em oposição às outras formas de luta. Gosto de pensar a política do comum como uma luta “menor”, mais anônima e impessoal, porém imanente à vida. Ao invés dos grandes sujeitos políticos, a criação de um comum entre os quaisquer (na expressão do Agamben). Sempre de maneira prática e experimental, ela seria capaz de fomentar uma cultura e as infraestruturas que a sustentam, podendo atravessar e reforçar as outras formas de ação política. O importante, parece-me, é que sejamos capazes de manter a coexistência dessas várias formas.

Nota:

[1] O pós-doutorado tem apoio da CAPES (88881.119261/2016-01). (Nota do entrevistado)

Fizemos um experimento. Um dos desafios que temos enfrentado em Madrid é a criação de uma rede de sociabilidade infantil para nossa filhota. No pequeno prédio em que moramos há poucas crianças, não conhecemos os vizinhos e após dois meses de residência tivemos pouco contato com os demais moradores. Assim como em São Paulo, a vida em apartamentos num edifício de uma grande cidade não produz diretamente relações de vizinhança.

Noutro post [Pequenas infraestruturas da vida em comum] contei como à noite, na hora de colocar a Mai para dormir, podíamos ouvir bem baixinho uma outra família contando histórias para seu filho (assim como nós). Falando com a Mai sugeri que podíamos fazer uma carta ou algo do gênero pra colocá-la em contato com aquela outra criança. Mas como fazer contato, sem saber ao certo os protocolos ou as sutilezas da cultura local?

Inspirando-me no projeto Escalera (tema deste post), decidi fazer um pequeno cartaz para coloca-lo na escada de entrada do prédio, bem ao lado das caixas de correio.

O resultado foi muito animador. Alguns dias depois fomos procurados pelas duas famílias que tem crianças no prédio e demos início a uma aproximação gradual entre elas. Mai ficou mais feliz, ela agora conhece seu vizinho! Esta simples experiência me faz pensar em muitas coisas.

A vida em apartamento numa grande cidade é um vetor importante no desenho de nossas vidas. Muito se fala sobre a maneira como a vida organizada por este tipo de arquitetura influencia nossas rotinas, nossos vínculos sociais e maneira como nos relacionamos com a rua, o bairro e a própria cidade. Em suma, a vida em apartamentos é parte do fenômeno urbano. Ao mesmo tempo, é interessante observar a diversidade encontrada nas relações de vizinhança em diferentes condomínios de edifícios. Se por um lado ouvimos que as reuniões de condomínio e brigas entre vizinhos são um tema frequente de aborrecimento, por outro, conhecemos pessoas que moram em edifícios em que as relações de convivência são mais agradáveis, onde existe algum tipo de apoio mútuo, solidariedade e alegria em partilhar o mesmo espaço. Assim, se a infraestrutura arquitetônica é um importante fator de influência no desenho de nossas relações sociais, ele está longe de ser um vetor exclusivo na determinação de nossas relações. Há muitas coisas em jogo, e a investigação desses vários fatores é um bom exemplo de um  problema dos arranjos sociotécnicos.

É justamente nesta brecha, nessa margem de indeterminação, que o projeto Escalera se insere como uma intervenção micropolítica que almeja disparar outros processos instituintes da forma e conteúdo de nossas relações sociais urbanas.

O projeto nasce de um incômodo partilhado por muitas pessoas. A pergunta disparadora do projeto é: “A vida é um problema comum. Podemos resolvê-lo em comunidade?”. Essa sensação, que ressoa em muitos de nós, manifesta um grave problema de fundo relativo à perda de sentido da vida em comum, compartilhada. O sentimento de isolamento, as dificuldades de sustentar a vida cotidiana de forma independente sem o pequeno apoio de pessoas próximas, a intensificação de problemas de saúde mental e física, entre outros, são sintomas de um comum que foi perdido, destruído e expropriado pelo nosso modo de vida contemporâneo.

Só nos damos conta de que existe uma matéria muito sutil, um tecido que sustenta nossas vidas em seus mínimos detalhes, quando nos confrontamos com sua perda. O projeto Escalera atua para tornar visível as fagulhas que compõem este comum, que só existe junto à uma comunidade que o sustenta. Neste sentido, na acepção em que estou investigando, o projeto Escalera é um verdadeiro laboratório do procomún.

Sua ação é simples e complexa ao mesmo tempo. O projeto fornece um kit de adesivos e cartazes customizados para que um (ou mais) moradores do prédio, interessado em implantar o projeto em seu edifício, possa colar pequenas mensagens em locais visíveis. As mensagens sinalizam pedidos simples ou ofertas de apoio gratuito: coisas como “preciso de alguém me ajude na escada a carregar as compras de supermercado”, ou “me ofereço para dar água para as plantas”, ou “gosto de tomar café a tarde em companhia pra bater um papo”, entre várias outras mensagens.

Dito de outra forma, sua realização envolve uma pesquisa para construir um protótipo material, um dispositivo tecnopolítico que ajude a ativar certos modos de relação, e não outros. Rosa Jiménez me relatou em detalhes os desafios da investigação: como iniciar a sensibilização numa comunidade de vizinhos, que mensagens utilizar, como fazer a mediação e ativação da comunidade, etc. O fundamental está nos detalhes: cada mensagem utilizada diz muita coisa para além daquilo que está escrito.

Em sua versão inicial, Rosa lançou o projeto no Facebook para tentar alcançar um pequeno grupo, cerca de 5 edifícios que pudessem colaborar para um piloto. Porém, a procura foi tamanha que a implantação do projeto ocorreu com 30 edificios. Em cada um deles, o projeto foi procurado/acionado por uma moradora (a maior parte eram mulheres) implicadas em transformar a vida em sua comunidade. Mais uma vez, os dados indicam como são principalmente as mulheres que produzem e reproduzem o mundo comum.

Mas Rosa também foi procurada por empresas imobiliárias, de segurança ou de publicidade, que viram no projeto uma importante estratégia de ativação (e neste caso de expropriação) de um recurso. Sabiamente, a Escalera soube criar estratégias para evitar usos indesejados do projeto. Esta tensão é reveladora da maneira como o “comum” é tanto aquilo que alimenta e dá suporte à nossa vida ordinária, como também pode ser convertido em recurso produtivo e monetizável. No capitalismo biopolítico contemporâneo o “comum” é um dos seus principais insumos.

Neste sentido, observamos como pequenas experiências de produção do comum urbano, são espaços de resistência para a criação de outros modos de vida possíveis na cidade. No Projeto Escalera encontrei um belo exemplo de pesquisa-ação e análise sociotécnica realizado através de um “laboratório” que visava ativar a própria comunidade que sustenta esse comum que está ameaçado por todos os lados.

As dinâmicas implicadas na produção de vínculos sociais, nas redes de cuidado compartilhado, nas relações de solidariedade e amizade, que transformam nossas redes de vizinhança tem impulsionado o projeto Escalera para outras escalas e perguntas. Como através da construção de relações de vizinhança podemos fazer bairro? E será que com uma vida melhor de bairro, podemos fazer cidade?

Mais sobre o projeto Escalera:

website: http://www.proyectolaescalera.org

facebook: https://www.facebook.com/proyectolaescalera/

Video: https://www.youtube.com/watch?v=5UlDXH-o4_o

Explicação Kit: como fazer http://www.proyectolaescalera.org/2017/01/26/como-se-hace-una-escalera/

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

07.10.2017 17:00h – 20:30h

Place: Intermediae-Matadero, Madrid. Paseo de la Chopera 14, Madrid

This seminar, organised by Intermediae-Matadero and Medialab pRado in the context of Grigri Pixel program, invites us to explore invites us to explore which are the common challenges and contemporary urban problems in African and European cities in alliance with six contemporary thinkers and creators: Marina Garcés, Simon Njami, Paz Núñez y Toni Serra.

Seleção de Fotos: http://henriqueparra.net/photo/index.php/nggallery/madrid-imargens/grigri-pixel?p=1535

Audio: https://archive.org/details/grigri-seminar

 

 

Há dois meses vivendo em Madrid, tenho procurado conversar com muitas pessoas, acompanhando movimentos e lendo o que posso para buscar diferentes perspectivas sobre a atual crise política. Com a crescente polarização, a cada dia fica mais difícil escrever algo que não seja tomado como mais uma opinião a inundir os feeds efêmeros. Com todos que conversei pude sentir muita dor, tristeza e indignação. E todas essas dores são legítimas; solidarizo-me com “nosotros”.

***

Com todas as diferenças, há algo partilhado entre a crise política vivida na Espanha, em torno do referendo sobre a independência da Catalunia e o atual processo político brasileiro. Arriscaria dizer que este problema está presente em muitos regimes democráticos.

Refiro-me ao fato de que estamos enredados em diversos mecanismos que intensificam as dinâmicas de polarização, que sequestram o mundo comum e bloqueiam a própria Política. Diante da concentração de poder nas mãos da classe política, dos meios corporativos de comunicação e de uma elite econômica (finanças e industrial), nossas instituições já não capazes de criar canais de mediação das vontades, demandas e conflitos à altura dos problemas que enfrentamos. O sistema está fazendo água por todos os lados em todos os lugares.

Também constatamos que os próprios mecanismos de produção de maioria produzem “minorias” de igual dimensão. Em seus extremos, cada pólo é fabricado através de diversos artifícios de simplificação e redução de sua diversidade. A todo momento uma imagem ou discurso parcial desloca-se e se transforma numa representação do todo, silenciando a multiplicidade. Ninguém se sente exatamente representado e, ainda assim, todos participam da retro-alimentação dessas imagens homogêneas.

Neste processo, a possibilidade de construção de novos sentidos comuns são destruídos em nome do cálculo para obtenção de regimes de maioria. É sempre um jogo de tudo ou nada, intensificação dos conflitos, esgarçamento do tecido social, ruptura de relações interpessoais, produção de estereótipos, moralização das condutas e discursos. No final, todos são empurrados a tomar partido diante da ameaça do “mal” que o outro representa, ainda que não se sintam plenamente representados por cada um dos polos.

No Brasil este processo é bem conhecido desde que se iniciou o golpe parlamentar-jurídico-midiático. A destruição de outros devires políticos pela esquerda e pela direita é continuamente operada pela exigência de se partidarizar a favor ou contra qualquer coisa. Qualquer argumento que escape ao jogo amigo-inimigo será atacado. As disputas sobre Junho de 2013 ainda são um bom exemplo deste fenômeno.

O processo em torno do referendo da Catalunia é desafiador porque é também revelador dos limites das formas atuais de nossas instituições políticas. O mais dramático, a meu ver, foi a maneira como um conflito muito complexo foi gradualmente reduzido a um jogo binário, em parte conduzido pela disputa política-partidária que forçou uma polarização na população e, com apoio dos meios de comunicação, sequestrou o campo político.

Nos últimos dias vem surgindo tentativas de romper esta dicotomização, como a campanha #Hablemos #Parlem (veja artigo Bernardo Gutierrez) e outras mobilizações de base que se formaram no processo de organização comunitária para viabilizar a realização do referendo na Catalunia, criando uma certa hipótese de transbordamento (veja artigo de Emmanuel Rodriguez).

O paradoxo democrático que aí se instalou é também exemplar: o referendo, conforme as regras constitucionais é ilegal; ao mesmo tempo, a mobilização popular manifesta no processo é legítima, tornando a realização do referendo uma reivindicação democrática (veja artigo do Boaventura Souza Santos). Mas quando o jogo se transforma num campo de força real, como na repressão policial do estado Espanhol à realização do referendo, aprende-se rapidamente que o Estado (democrático ou não) é isso aí, força bruta e, no limite, estado de exceção (veja Imagens).

Porém, o problema não se resolve com o referendo. O que fazer com a outra metade da população da Catalunia que é contra a separação? Ou ainda com todo o restante da população fora da Catalunia que não deseja a separação? Velhos problemas sobre a relação território, nação, unidade, identidade entram em cena. E neste tipo de situação as máquinas identitária e securitária (o desejo de unidade e segurança) produzem os piores monstros em todos os lados. Além do esgarçamento do tecido social, é muito mais fácil produzir um intolerante do que alguém que seja tolerante e sensível ao outro.

Assim, nos damos conta que mais importante e desafiador que o dia em que nos tornamos independentes, é o dia seguinte e todos os outros que virão na sequência. Da maneira como a produção e reprodução da vida está hoje organizada em nosso planeta, o problema desloca-se da independência para os modos de interdependência que construímos.

Pensemos, por exemplo, no que fora concebido como a vontade do indivíduo soberano num sistema político democrático. Nos dias de hoje, quais são as alternativas disponíveis quando a manutenção da vida cotidiana está delegada a arranjos estatais-corporativos (das finanças às redes elétricas) complexos? 

Alternativamente, como podemos partir do comum e ordinário, daquilo que diz respeito a todos, daquilo que nos implica mutuamente? A produção e manutenção da vida em comum (compartilhada e implicada) nos obriga a pensar nos vínculos que tecem o cotidiano. Como irei conviver com este outro? Deslocamo-nos, portanto, do campo discursivo mais ideológico para construir práticas de outros modos de vida. Como desmontar as máquinas opressoras de produção de maiorias, os sistemas de vanguarda e de condução das populações? Como partir de um plano imanente à vida e aí mesmo no mais ordinário ir constituindo e ampliando as infraestruturas e instituições de suporte a outros modos de vida, mais solidários e emancipadores?

Eu arriscaria dizer que a imagem da soberania de territórios-independentes-autosuficientes se esgotou. Mas ela ainda seguirá operando por muito tempo. A construção de uma Política do Comum exige outras instituições para as quais já temos muitas experiências inspiradoras na história, onde se praticaram outros marcos jurídicos, códigos e instituições de regulação da vida em comum. Há muito o que se investigar e experimentar.

O que está em jogo em nosso planeta são as condições de produção e reprodução da vida em comum, em direção à modos de vida mais emancipatórios e solidários num mundo de relações interdependentes. Falar de uma política do comum me faz pensar numa política do/pelo meio. Meio como ambiente e também como “entremundos”. Ir aos poucos modificando o próprio meio em que estamos imersos de maneira a torná-lo mais favorável às relações que estamos constituindo. Evidentemente, isso não significa negligenciar a importância das atuais instituições e as disputas sobre seu governo. Trata-se, talvez, de uma outra noção de estratégia, uma outra forma de reticulação e propagação de novas estruturações em níveis subsequentes, numa relação imanente ao mundo existente (incluso estado, mercado etc).

A impressão que tenho é que este impasse político está utilizado como um verdadeiro teste para as recentes experimentações municipalistas da Espanha. A depender da maneira como o conflito evoluir, e de qual será o papel dos governos municipalistas no seu interior, é possível que algo de inesperado surja como alternativa à atual polarização e fortalecimento dos nacionalismos identitários. Ou então, o que surgiu como novas experimentações institucionais pós-15M corre o risco de ser   tragado para dentro desta armadilha, perdendo seu atual protagonismo político. Fico pensando o que significa levar a sério a proposta #RefugeeWelcome do ponto de vista de uma política do comum?

 

PS 1: Atualização: Ontem a noite (10/10) o governador da Catalunia, conforme previsto no referendo, declarou o resultado da votação ratificando a independência da Catalunia, para em seguida propor a suspensão dos seus efeitos visando o estabelecimento de um diálogo com o governo Espanhol. As vezes a política está no detalhe e no simbólico, é puro dissenso: declarou ou não a independência? Hoje o governo Espanhol solicita esclarecimentos e ativa o dispositivo jurídico (art.155) para preparar uma intervenção na Catalunia. Poderíamos dizer que o governo Catalão fez um movimento de recuo e destencionamento, mas alguns interpretaram essa ação como reiteração de polarização com o Governo espanhol, que responde reafirmando sua posição inicial. Em suma, a tensão segue inalterada.

PS 2: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

Faz quase dois meses que chegamos em Madrid. Até agora, a parte mais sensível da viagem tem sido o processo de adaptação da Mai, nossa filhota de 3 anos. Faz duas semanas que as aulas começaram. A primeira semana foi bem difícil para ela na escola (e para nós também). No final da segunda semana começamos a ter esperança de que ela vai superar os desafios iniciais (idioma desconhecido, novas crianças e professoras, espaço e dinâmica escolar totalmente diferentes). Veremos! Também percebemos que ela tem sentindo muita falta de suas amigas e amigos do Brasil, manifestando sempre o desejo de encontrar outras crianças, uma demanda real de estabelecer vínculos mais afetivos.

Até o momento, tenho a impressão que a experiência da escola não é suficiente para criar vínculos extra-escolares entre as famílias e as crianças, mas isso ainda pode mudar com o tempo. Os encontros com outros crianças nas praças e parques, também não apresentam uma regularidade e intensidade suficiente para produzir confiança e superar a distância habitual entre famílias desconhecidas numa grande metrópole de uma cidade europeia (ainda que minha experiência com Madrid esteja sendo muito acolhedora). Claro, se morássemos aqui por mais tempo as coisas seriam diferentes.

Além de buscar outras pessoas com crianças – felizmente há sempre famílias que vão surgindo – comecei a frequentar um espaço para crianças num edifício ocupado por coletivos ativistas no centro da cidade (veja Centro Social Ingobernable).

Ali está se formando um coletivo de pais para organizar atividades e adequar um espaço legal para as crianças dentro da ocupação. Neste sábado houve uma festinha com banda e teatro infantil, havia uma mutidão de pequenos ingovernáveis.

Construir essas redes de vizinhança e apoio mútuo, socialização e cuidados compartilhados é um super desafio em nossas cidades. Na medida em que as redes de apoio comunitário, familiares e relações proximais de vizinhança foram destruídas pelo nosso modo de vida contemporâneo, sentimos com uma força cada vez maior quantos laços e vínculos são necessários para produzir o mundo comum que dá suporte a nossa vida.

Este espaço infantil na Ingobernable, além de oferecer um local para a socialização de crianças e pais num horário extra-escolar, contribui para o estabelecimento de vínculos e redes de apoio mútuo, e permitirá que muitos pais participem das atividades que acontecem neste centro social (reuniões políticos, oficinas, assembléias, etc). São essas pequenas e fundamentais infraestruturas que tornam a vida comum possível.

Se desejamos ampliar as condições de participação em nossas atividades políticas, educativas, culturais e contribuir para combater as estruturas de reprodução da desigualdade de gênero, é muito importante nos atentarmos para a criação dessas infraestruturas.

Mas retorno à história da Mai. Quando a  colocamos para dormir sempre lemos umas historinhas para ela. Enquanto leio e converso com ela, podemos ouvir de um quarto ao lado uma mãe ou pai lendo outras histórias para seu filho. Ainda não os conhecemos. Pergunto pra Mai o que ela acha de escrevermos um cartinha para eles, perguntando se querem brincar conosco. Ela ficar super animada e disse que queria também se vestir de carteira.

Escrevemos um bilhete e resolvemos deixá-lo na escada do hall de entrada do prédio, por onde passam todos os moradores. Vamos ver no que vai dar. Mas essa ideia da cartinha não veio assim do nada. Foi uma decisão que tive depois de conhecer o projeto Escalera (tema do próximo post).

Com um pequeno intervalo de 30 minutos, acompanhei no mesmo dia duas atividades que, no contraste de suas diferenças, indicam o tamanho do desafio que temos pela frente. A boa notícia é que não nos falta ação, mas sim capacidade de transversalidade e conexão. Um dos desafios, para além de superar nossa fragmentação, é compreender os agenciamentos do mundo sociotécnico em que estamos imersos e fomentar uma cultura técnica que dê suporte e amplifique os modos de vida que desejamos fazer proliferar.

Dois seminários públicos: o primeiro, na sede da FUHEM Ecosol, ONGs de pesquisa social e formação, onde ocorreu o lançamento da publicação Estado do Poder 2017, cuja edição foi dedicada à cultura/ideologia e suas formas de participação nos mecanismos globais de dominação. No lançamento da publicação assisti a uma excelente intervenção da pesquisadora-ativista boliviana Elizabeth Peredo Beltrán (Poder e Patriarcado) sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”, dentre outras apresentações.

O segundo seminário foi um achado acidental. No dia anterior, trombei com uma propaganda de página inteira no jornal impresso que lia no café. A imagem da campanha me pareceu tão exótica que se não fosse minha curiosidade semiótica jamais teria chegado ao conteúdo textual que eles queriam difundir. Esta atividade era o lançamento de uma campanha nacional – Caminho do Sol  – de mobilização pelos direitos de pequenos produtores à geração e comercialização de energia solar (fotovoltaica).

Imaginar outras infraestruturas tecnopolíticas

O relato sobre a experiência política boliviana, insere-se num debate mais amplo sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”. De certa forma, o discurso de “fim do ciclo” é um recurso performático que deseja traçar uma linha entre um antes e um depois, procurando ativar no presente outras interpretações, horizontes e projetos políticos. A própria idéia de “fim de ciclo” é tema de muitas controvérsias (experimente dar uma pesquisada no termo “fim do ciclo progressista”). Há uma versão de “fim de ciclo” proclamada pelas forças reacionárias e meios de comunicação corporativos que anunciam o esgotamento dos projetos da esquerda, e uma versão de “fim de ciclo” que pretende criar outras interpretações no campo da própria esquerda.

Faço uma sinopse, muita imprecisa e simplificada, para destacar alguns argumentos. É elaborada uma reflexão crítica sobre os limites das experiências de governo da esquerda latino-americana (Bolivia, Brasil, Equador, Venezuela, Argentina…) desses últimos 15 anos. As análises recuperam a história de lutas sociais que antecederam esses governos, construções de amplos movimentos sociais e redes de organizações de base em ciclos de 15, 20, 30 anos (a depender do país) até que um grupo/partido político oriundo dessas construções chega ao poder em escala nacional. Em seguida problematiza-se as tensões e dilemas que emergiram entre a lógica de governo e as dinâmicas da prática política dos movimentos, lançam perguntas desafiadoras sobre os limites da ação governamental (na tomada do Estado), e as armadilhas que se instalaram para a ação política. Por fim, abrem-se novas perguntas sobre os possíveis caminhos de um novo ciclo de luta política, cujo foco estaria orientado para a construção de políticas não estado-cêntricas. O Estado é importante, mas sua ocupação-gestão não seria o principal espaço da construção dessas alternativas. Neste percurso é também elaborada uma crítica ao fato de que, as políticas de inclusão social apoiaram-se num modelo de crescimento econômico que era dependente de programas de desenvolvimento de caráter extrativista, concentradores de renda, com forte dependência e alianças espúrias com as grandes corporações e capital financeiro, combinação esta que mostrou-se insustentável. Certamente, os argumentos são muito mais complexos. Há boas referências sobre essa discussão [veja Raquel Gutierrez Aguilar. Horizontes comunitario-popular: producción de lo comun más allá de las politicas estado-centricas].

Dentro deste amplo debate, comentarei apenas um ponto: as grandes obras de infraestrutura (usinas, estradas etc). Com frequencia as grandes obras de infraestrutura são vistas como um problema em razão do enorme impacto socioambiental no meio em que são inseridas. Porém, pouco se discute sobre a maneira como um determinado modelo de infraestrutura é o resultado de todo um arranjo sociotécnico que faz com que um certo projeto/desenho se apresente como a melhor resposta a um conjunto de variáveis: um desenho de uma hidroelétrica em oposição a outros modelos de hidroelétricas; o traçado da construção de uma rodovia, a cadeia de produção e distribuição alimentar, o fornecimento de água nas cidades etc.

Evidentemente, há sempre alternativas e decisões políticas em jogo, mas com muita frequência escapa ao debate tanto a descrição do conjunto das determinações que “elegem” um modelo de infraestrutura, como a proposição de alternativas que sejam capazes de oferecer outras respostas, neste caso, com uma eficiência simultaneamente societal e tecnopolítica.

Se pretendemos produzir energia para que a vida de muitas pessoas sejam melhores num determinado espaço tempo, como podemos fazê-lo? Se vamos abastecer com água ou alimentos uma cidade, como podemos fazer isso de maneira diferente, agora e para gerações futuras? Não podemos ignorar este problema se desejamos fazer política com/para os 99%.

O desenho de uma infraestrutura não é neutro, e seus efeitos no mundo não poderão ser posteriormente controlados por um projeto ou ideologia política. Claro, há sempre uma margem de flexibilidade, mas ela tende a ser cada mais vez menor a medida que os efeitos desta infraestrutura se reticulariza e se inscreve em encadeamentos sociais e técnicos mais amplos.

Por analogia, podemos pensar o Estado como uma tecnologia de poder. O desafio de governar essa máquina não pode ser reduzido a uma problema de governabilidade e nem transformado num desafio de escalabilidade da luta social. A mudança nos meios de ação (extra-Estado X Estado) e a dimensão da ação (local x nacional x mundo), implica em profundas transformações em todos os entes envolvidos nessa relação. Não se trata apenas de um aumento na complexidade no sistema. Nada se mantém o mesmo. Técnica e política estão sempre entrelaçadas em sua inscrição e efetivação no mundo. Por isso, a proposta de criar outros horizontes políticos para um novo ciclo de lutas, não poderá se limitar à disputa de narrativas ou visões de mundo. Precisamos de práticas, corpos, ferro, aço, água…

 

Energia = natureza + cultura + técnica + política

Os problemas indicados acima ficam evidentes quando você resolve experimentar na prática a construção dessas alternativas. Esta é a potência de um protótipo. Neste processo surgem conflitos com atores e forças que desconhecíamos e um novo universo de expropriação do comum se evidencia.

A campanha “Sol e Justiça” surge da mobilização de 60 mil famílias que investiram suas economias em iniciativas coletivas de produção e comercialização de energia fotovoltaica e que atualmente sofrem com a mudança de prioridade do governo. O estado espanhol pretendia fomentar a diversificação da sua matriz energética, no sentido de reduzir o impacto ambiental do modelo atual. Porém, no momento em que começam a proliferar diversas iniciativas de autoconsumo, associações, cooperativas e pequenas empresas que produzem e comercializam enérgia elétrica, as forças em jogo ficam mais evidentes e a política de incentivo estatal muda radicalmente. No caso em questão, grandes empresas internacionais fornecedoras de energia eletrica lograram impor novas regras, através do governo Espanhol, que fossem mais favoráveis aos seus investimentos. Como resultado, as 60 mil famílias ficaram afogadas com dívidas assumidas para a construção de um modelo energético que seria alternativo.

São muitas as variáveis que afetam as condições de viabilidade de uma nova tecnologia ou atividade econômica: os mecanismos de autorização e controle para instalação de placas solares nas residências devem respeitar determinados protocolos, com fiscalização inclusive das empresas privadas que fazem o fornecimento de energia elétrica nas residências; os critérios para financiamento publico são modificados e outras formas de apoio estatal são exclusivos para determinada escala de empreendimento, entre outros. Em suma, tudo é feito de forma que o modelo que irá se apresentar como o mais “eficiente” é aquele que fortalece uma certa configuração de mundo. Neste caso, compreendemos rapidamente como a luz solar deixa de ser um Comum e se torna um recurso que deve ser submetido a um regime de escassez e monetarização.

Ainda assim, a ação prática desses coletivos aprende com os bloqueios e passa a elaborar alternativas que, a despeito do ambiente inicialmente desfavorável, cria soluções e arranjos sociotécnicos que se relevam melhor adaptados, graças à uma combinação de engenhosidade técnica e estratégias de colaboração social.

Os desdobramentos futuros desses arranjos é um campo de cultivos e batalhas. O campo dos “estudos em inovação” indicam que muitas inovações sociotécnicas que foram concebidas para transportar valores emancipatórios ou solidários, quando deslocadas ou apropriadas em outros arranjos, acabam frequentemente perdendo a capacidade de efetivação daqueles princípios políticos que desejavam difundir. Hoje temos comida orgânica tanto associada a modelos alternativos de vida (sistemas de produção local, com redes de consumo coletiva etc) como formas de produção e comercialização de orgânicos que fortalecem as estruturas tradicionais de concentração de renda e formação de oligopólios [veja alguns trabalhos de Adrian Smith].

Problema semelhante acontece com a produção fotovoltaica. Você pode fazer parte de uma rede autogerida que produz, distribui e utiliza energia solar (veja http://ecooo.es ), ou você pode ser o locatário de uma unidade de produção numa grande fazenda de produção de energia solar (veja https://www.cosol.com.br/ ). Cada um desses arranjos sociotécnicos mobiliza mundos e modos de subjetivação absolutamente distintos.

foto: Campanha Orgulho Solar

 

foto:  COSOL – condomínio solar

 

Tessituras de uma cultura tecnopolítica

Terminei o dia com a sensação de que havia cruzado por dois mundos que pouco se comunicam. De um lado ativistas, sociólogos e ecologistas que lutam por um mundo socialmente justo e ambientalmente sustentável, sabem construir movimentos, organizações e comunidades, mas buscam formas para tornar durável as frágeis formas de vida que experimentam. De outro, engenheiros e economistas que criam tecnologias e iniciativas portadoras de novos arranjos socioeconômicos, que lutam para superar as adversidades (jurídicas, financeiras, culturais) que inviabilizam suas atividades. Tudo se passa como se fossem dois mundos a parte.

Pergunto-me sob as possíveis formas de diálogo, aprendizados mútuos e alianças. Há, felizmente, sinais de que cada um desses mundos começa a se mover em direção ao outro. O fato de que as iniciativas comunitárias de energia solar estejam começando a se organizar como movimento social é um exemplo; o crescimento das redes de agroecologia e sua incorporação na pauta de distintos movimentos sociais também; a maior transversalidade do feminismo em diversas práticas sociais, entre outros casos.

Talvez, um novo aprendizado diante da fragilidade institucional que nos assola neste momento, seja o reconhecimento da existência de outras formas de fazer política. A criação e o suporte de modos de vida em comum, exige também a produção deste comum. Para que este comum exista e possa se sustentar no tempo, começamos a reconhecer os diversos elementos e práticas, materiais e imateriais que lhe dão suporte. Técnica e cultura, política e tecnologia, valores e práticas caminham juntos, se entrelaçando. Uma tecnologia alternativa sem uma comunidade que lhe dê suporte não sobreviverá assim por muito tempo. Um coletivo que não cuida das infraestruturas que dão suporte a suas práticas não terá vida longa. Um movimento social que negligencia os corpos de seus participantes, não será capaz de criar uma comunidade política saudável.

São essas diversas e interdependentes dimensões que talvez componham juntas outras cartografias políticas. Quais são as infraestruturas necessárias? Como criar e sustentar um corpo, individual e coletivo? Quais são nossos protocolos? Nossas tecnologias? Qual é a comunidade que dá existência e suporte à essas práticas? Quais são as práticas que produzem nossa comunidade? Quais são nossas formas de conhecer e de transmitir os conhecimentos? Tudo ao mesmo tempo agora.

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

 

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Nesta primeira semana de setembro tivemos uma pletora de acontecimentos chocantes: o terremoto mais forte do século no México, um furacão poderoso destruindo as ilhas da América Central e costa sul dos EUA, muitas malas cheia de dinheiro da corrupção de políticos e empresas brasileiras, entre outras. Porém, a notícia que mais me acompanhou durante essa semana foi uma reportagem do caderno de Ciência da Folha de S.Paulo sobre a contaminação da água que chega nas torneiras de residências em diversos países do mundo. Não farei qualquer comparação entre cada uma dessas tragédias, todas incomensuráveis quando falamos de tantas vidas perdidas, direta ou indiretamente (sim, a corrupção provoca mortes lentas e precariedade em toda parte). Hoje escrevo sobre aquilo que nos escapa aos sentidos.

A reportagem do Marcelo Leite está baseada na pesquisa – “Invisível – o plástico dentro de nós” – sobre a contaminação da água por fragmentos de plástico, recentemente publicada pela Orbmedia. O relatório, com excelente documentação multimédia está disponível neste link: https://orbmedia.org/stories/Invisibles_plastics

Em resumo, a investigação mostra como a água que chega nas torneiras nas residências e prédios, em diversos lugares do mundo, apresenta partículas de plástico. A amostragem realizada indica que o problema está presente em muitas cidades de diversos países (do sul e do norte global), variando o percentual de sua presença. Só para dar alguns dados: nos EUA cerca de 94% das cidades apresentam contaminação; na Europa 72% das cidades estão com água com plástico; e na cidade de São Paulo, das 10 amostras recolhidas, 9 confirmaram a contaminação.

Enfim, o plástico está em toda parte, inclusive dentro de nós. Sabe-se pouco ainda sobre os efeitos de médio e longo prazo dessa ingestão. Em outros animais, cujo processo de contaminação já é estudado há mais tempo, os problemas da intoxicação são mais conhecidos. Pra complicar, o plástico torna-se um agregador de moléculas tóxicas de outras substâncias e elementos que estejam presentes no ambiente. E claro, quando cozinhamos com essa água os elementos tóxicos são liberados ou se transmutam em outras substâncias cujos efeitos nocivos ainda são desconhecidos. A reportagem indagou a Sabesp que diz cumprir com todas as normas sanitárias do Ministério da Saúde. Vejam a reportagem e o relatório para conhecer melhor o problema.

Mas essa notícia disparou algumas inquietações. No final da segunda guerra mundial, com o surgimento e proliferação das armas nucleares, instalou-se a chamada Guerra Fria. Durante décadas a população mundial, mas principalmente a dos países diretamente envolvidos, viveu sobre a constante ameaça do apocalipse nuclear. A vida sob tal situação engendrou formas de governo, tecnologias políticas de gestão das populações e toda uma geopolítica da qual ainda somos herdeiros. Passada a Guerra Fria o apocalipse nuclear ganhou outras feições. Uma delas é o apocalipse ambiental, onde os seres humanos são os principais responsáveis pela destruição do planeta. A constatação de que o plástico que produzimos está presente em toda parte (mesmo na água de áreas consideradas inóspitas) reforça uma idéia potente de que vivemos num “mundo sem refúgio”. Não há mais separação entre a ação humana e a vida no planeta, onde quer que estejamos. Trata-se, portanto, de pensar nossa ação num mundo em que não há mais um “fora” (natureza intocada ou pura), mas sim interconexão e interdependência, para a partir daí construirmos outras composições e modos de vida possíveis.

Tanto no caso do apocalipse nuclear como no desastre ambiental em curso confrontamo-nos com problemas sistêmicos. Porém, a maneira como nossas vidas participam de cada um deles é absolutamente diferente. No caso do apocalipse ambiental sua gênese e reprodução está profundamente entrelaçada com a vida cotidiana de todos os humanos. Para tornar a diferença mais clara tente imaginar a vida sem o plástico, ou imagine todos os processos envolvidos para levar água para todas as residências de uma cidade. Facilmente percebemos como nossos modos de vida, em seus mínimos detalhes cotidianos, são parte constitutiva deste problema do qual todos somos afetados. Ainda assim, trata-se de um problema invisível.

Esta invisibilidade é uma característica frequente de muitos elementos que são “comuns” a nossa existência. O comum aqui tem um duplo sentido: aquilo que é ordinário, corriqueiro; e aquilo que é compartilhado. Muitos elementos que são dessa ordem “comum”, são fundamentais no suporte à nossa vida, individual e coletiva, mas ainda assim são intangíveis e invisíveis. A saúde que perdemos quando sofremos com a contaminação, a qualidade da água que deixamos de ter, as relações de cuidado e os vínculos de solidariedade, são nossos “comuns” ameaçados por diferentes dinâmicas. Dar existência visível e politizar esses “comuns” é um caminho de luta política que muitas comunidades de afetados e movimentos sociais estão enveredando.

Neste percurso desafiamo-nos a fazer novas e boas questões. Quando reunimos gente diversa, afetada pelo mesmo problema, compreendemos melhor a dinâmica em curso, seus efeitos e os múltiplos arranjos necessários para dar suporte àquele comum. Conseguimos dar melhor visibilidade e tangibilidade à algo que, de tão comum, era menosprezado como uma segunda “natureza”. O que é necessário para que eu tenha água em minha casa? O que é necessário para que eu tenha energia elétrica nas tomadas? Eu poderia viver sem essa água ou sem eletricidade? Por isso, quando dizemos “água para todos é um direito” ou “moratória à produção de plástico”, nos damos conta que já não é o suficiente. Nossa dependência desses sistemas e arranjos sociotécnicos complexos nos obrigam a outras reflexões, a outras estratégias.

Essa percepção de interdependência e interconexão num mundo sem refúgio, obriga-nos a reconhecer que as mudanças que desejamos são mais complexas e passam por um profundo redesenho de nossos cotidianos: as formas de alimentação, moradia, energia, cuidados, transporte, educação etc. Se desejamos uma política dos 99% deveríamos prestar mais atenção ao que é comum e invisível, mas que organiza e sustenta de forma imanente os modos de vida do qual participamos.

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

 

capa-livro-conexoes-deleuze-2013

Link para DOWNLOAD.

É com alegria que compartilho este artigo – “Políticas da partilha e da distribuição” – que acaba de ser publicado no livro “Conexões: Deleuze e Política e Resistência e…”.

Neste texto, escrito em 2012, procuro refletir sobre as reconfigurações da prática política no contexto do capitalismo contemporâneo (em sua dimensão comunicacional, informacional) e da sociedade de controle. Tomo as manifestações de 2011 e a experiência de greve de 2012 como disparadores dos pensamentos para tentar elaborar a idéia de uma política da distribuição, referente às condições de produção do comum e de emergência  de novos sujeitos políticos face os mecanismos de captura (políticos e econômicos) da política identitária (da partilha).

No livro, há trabalhos muito interessantes. Destaco o artigo de Philippe Mengue – “Espaço liso e sociedades de controle – ou a última política deleuziana”.  Ele dá boas pistas para as discussões entre os pós-estruturalistas e marxistas. Em sua, o conjunto do livro (gestado em 2012) tem muitas contribuições para o atual cenário político brasileiro das “Jornadas de Junho” e suas reverberações.

Neste link, disponibilizo o artigo para DOWNLOAD.