Estes tempos nos exigem coragem, mas também uma aposta na pesquisa, na investigação coletiva, em uma ciência aberta que inclua corpos e suas marcas, saberes não autorizados pelo regime de saber-poder.

Precisamos assumir as perguntas, dar-nos esse tempo do pensar junto, experimentar, criar contra-dispositivos para uma vida não fascista.

Diante das formas renovadas de produção de desigualdades, do consórcio explícito entre forças autoritárias e as dinâmicas de expropriação da vida e do território, promotoras da crescente militarização, gentrificação, despossessão e tristeza, lançamos perguntas-vinculantes: Como reativar uma possibilidade de inteligência coletiva? Como convocar saberes e práticas coletivas que nos permitam imaginar e disseminar alternativas a esse cenário? Como produzimos e sustentamos o Comum entre todos?

Convocatória e inscrições AQUI

Os laboratórios cidadãos funcionam sob um complexo arranjo sociotécnico, simultaneamente simbólico e material, normativo e pragmático. Há uma política cognitiva que se manifesta numa ética e num conjunto de práticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer. Há uma tecnopolítica que se realiza nas configurações das mediações técnicas da interação social. Há uma economia política, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos. Há uma política experimental que se realiza através de processos instituintes de novas comunidades. Em síntese, um laboratório cidadão realiza-se com uma combinação de: abertura; colaboração; cuidado; mediação; documentação; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades; protótipos e produção do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.

Abertura e Colaboração

A produção de conhecimentos no contexto dos laboratório é aberta, situada e colaborativa. Abertura no sentido de que todos devem ser capazes de aportar uma nova perspectiva, há contraste de argumentos e a possibilidade de não bloquear uma controvérsia; isso também significa queo conhecimento aberto é sempre provisório. Ele não visa encerrar um debate ou um problema, mas ao contrário, torná-lo mais denso, mais rico e complexo. É colaborativo porque é feito entre todos, com o maior número de perspectivas e atores possíveis. É situado porque é produzido em contextos específicos e reconhece o caráter parcial, corporificado e perspectivo dos conhecimentos. Mas para que isso ocorra certas condições devem ser respeitadas para que diferentes atores possam participar. Essas condições implicam em: infraestruturas mais abertas e horizontais; documentação rigorosa, acessível e reproduzível; protocolos (para tecnologias e regime de propriedade) que garantam abertura e controle pelos participantes. Nos laboratórios tais características podem alcançadas mediante diferentes estratégias: 1) definição prévia de protocolos que regulam as condições de participação dos múltiplos atores e o regime de acesso e propriedade sobre os bens e recursos produzidos, mediante a adoção de licenças de propriedade intelectual alternativas (FairLicences, Creative Commons, Copypeft, Peer2Peer Licences, GPL); 2) definição das características físicas e do local de realização do laboratório, de forma a propiciar condições de maior abertura à participação do público interessado; 3) definição da comunidade de afetados, público concernido ou problema específico que será abordado.

Protocolos, tecnologias e infraestruturas

Modos de tornar durável uma certa configuração social; são também formas de transmissão de uma agência; e criam determinações sobre um conjunto de interações que ocorrem através delas (Latour, 1990; 1994). O desenho dos protocolos, das tecnologias e das infraestruturas utilizadas num laboratório compõem uma tecnopolítica. Tecnologias baseadas em software e hardware livre; protocolos de dados abertos; licenças autorais alternativas que fortaleçam a livre apropriação e uso dos conhecimentos e protótipos produzidos; infraestruturas que amplifiquem a autonomia e autogestão da própria comunidade sobre o processo desenvolvido são algumas das opções adotadas pelos laboratórios. A infraestrutura aqui pode ser tanto a plataforma de comunicação online utilizada, como o espaço físico utilizado para o encontro. São infraestruturas que promovem uma interação mais aberta e solidária? São infraestruturas que restringem o acesso e a participação? Os protocolos são mobilizados como tecnologias sociais capazes de “automatizar” ou “facilitar” a resolução de certos problemas ou a adoção de procedimentos que produzem resultados desejados. Em algumas situações contribuem para dar agilidade a processos em que é necessário tomar uma decisão. Eles oferecem estratégias, recursos, procedimentos para situações determinadas. Porém, devem sempre ser aplicados com respeito ao contexto de efetivação. Não há protocolo social que possa ser alheio aos efeitos provocados num determinado contexto de aplicação. Por exemplo, documentar de forma aberta o protótipo desenvolvido é um protocolo que está presente em quase todos os laboratórios. A prescrição de que um grupo que seja mais heterogêneo é um protocolo social que influi na composição dos membros de um laboratório. A escolha por um espaço onde as pessoas possam interagir de forma mais ativa, horizontal e dialógica implica num desenho de uma infraestrutura espacial. Mas também, como nos indica os trabalhos de Corsin e Estalella (2016), a própria prática de documentação vai gradualmente se constituindo como uma infraestrutura que sustenta uma comunidade de praticantes. É no campo dessa tecnopolítica que vimos emergir novas preocupações em torno da autonomia e soberania tecnológica, ou na busca por arquiteturas (de tecnologias da informação) mais descentralizadas e distribuídas, permitindo minimizar a dependência corporativa ou estatal. A infraestrutura torna possível a existência continuada de uma ação. Ela dá o suporte às práticas e modos de existência de uma determinada comunidade, que transforma e sustenta essas infraestruturas em um comum.

Documentar

O ato de registrar, sistematizar, organizar e publicizar o conhecimento produzido é uma prática transversal a muitos laboratórios. Ela é um bom exemplo do encontro entre a cultura dos ativistas e programadores do software livre com a cultura científica de pesquisadores interessados no produção e no livre acesso ao conhecimento. Não é exagero dizer que muitos dos processos vividos nos laboratórios só existem porque são documentados, ou, como dizem, o que não está documentado não aconteceu. A documentação não é apenas o registro dos resultados ou a receita objetiva do “como fazer”. Uma boa documentação deve ser capaz de comunicar os fatos objetivos, os detalhes dos procedimentos, mas também as dúvidas, os problemas enfrentados e as escolhas que foram feitas. O mais desafiante, e esta foi uma das tarefas que enfrentamos na execução do docArt (durante o Laboratório Inteligência Coletiva e Cidades Democráticas) é tornar visível e comunicável as dimensões subjetivas, afetivas, tácitas que emergem durante o trabalho coletivo e que muitas vezes são excluídas nos processos habituais de documentação. Como indicar os momentos de aprendizagem coletiva? Como descrever o contexto e os vetores que influenciaram uma importante decisão se frequentemente negligenciamos esses elementos e registramos apenas o resultado, quando o principal estava no processo? A documentação visa combater o desperdício da experiência, potencializar a inteligência coletiva. A replicabilidade alcançada de um processo ou protótipo talvez seja o melhor indicador de “impacto” da documentação. Há uma política do sensível, uma política da escrita (nos termos de Rancière) neste ato de documentar, uma vez que ele produz um mundo compartilhado, dando a ver determinados processos e objetos, criando também sua comunidade de “leitores”. Esta documentação implica, portanto, em protocolos, tecnologias, infraestruturas e muita mediação.

Mediação e Cuidado

Criar uma linguagem comum, promover uma interação mais equilibrada entre os partícipes, criar simetrias possíveis entre diferentes atores e perspectivas que integram um laboratório é uma arte. A documentação, por exemplo, só é bem sucedida quando os participantes conseguem estabelecer um linguagem comum para descrever o que estão fazendo. A mediação, como argumenta Juan Freire e Antonio Lafuente, é uma arte da escuta, e está profundamente ligada à capacidade de “infraestruturar os cuidados, fazê-los visíveis através de práticas concretas” (LAFUENTE; GOMÉS; FREIRE, 2017). Mediar e cuidar envolve identificar processos sutis que produzem silenciamentos ou protagonismos habituais, desnaturalizar e desconstruir as práticas de coordenação e liderança, reconhecendo as dinâmicas formais e informais que criam ou reproduzem estruturas formais e informais de micropoder em coletivos. O cuidado, nesta perspectiva, emerge como uma ética, uma prática e uma materialidade. O cuidado é um trabalho do corpo, é um trabalho material. Não é algo abstrato, imaterial ou mera expressão subjetiva. Quando uma política do cuidado faz-se presente num laboratório as ações de mediação efetivam-se com atos materiais que produzem e sustentam os vínculos e os entes envolvidos. Como indicam Freire e Lafuente, a mediação deve promover a “tolerância com a incerteza e com os indecisos”; para experimentar, escutar e colaborar, é necessário apreciar a lentidão. Certos protocolos para a desaceleração podem então ser acionados pela mediação para tornar a escuta possível. O mesmo ocorre para a manutenção da comunidade: é necessário muito cuidado para se evitar o chamado “fork”. Em mais de uma ocasião presenciei este momento em que a mediação cuidadosa assumida por um dos membros da equipe, interviu em momentos de conflito sobre os rumos do projeto, criando condições para que o coletivo buscasse uma solução que contemplasse as perspectivas divergentes. Mas para que isso fosse possível era necessário habitar por mais tempo uma situação de incertitude. As escolhas que emergem nesses processos fortalecem a comunidade, e ao mesmo tempo são percebidas como um marco (hito) de uma aprendizagem coletiva que modifica, com frequência, a rota do projeto. Documentar esses momentos significa evidenciar as “matters of care” (BELLACASA, 2010) que participam dos processos e que são invisibilizadas, mas implica também em responsabilizar-se pelos efeitos da ação. Cuidar de um vínculo, de uma tarefa no coletivo, significa responsabilizar-se por algo. Não é suficiente “ter consciência”, é necessário responsabilizar-se, agir. Uma política do cuidado implica, portanto, num deslocamento do saber-poder governar ao saber-fazer habitar (no tópico seguinte desenvolvo este argumento).

Comunidade

um laboratório cidadão é um lugar de fabricação de comunidades. Esta frase exemplifica um dos resultados mais importante e ao mesmo dificilmente mensurável das atividades promovidas pela Medialab-Prado. Para que um projeto de laboratório possa se desenvolver, é necessário que ele produza uma nova comunidade que sustente este laboratório. Neste sentido, os diferentes atores devem infraestruturar as condições (materiais e simbólicas) que permitem que o laboratório aconteça. O laboratório visa produzir um conhecimento, um artefato, um processo, um protótipo, que amplia o entendimento sobre um problema comum, e que permita uma ação compartilhada sobre ele. Diferentemente da formação de uma comunidade identitária, onde os atores reúnem-se a partir de elementos previamente constituídos que dão forma à identidade (por exemplo, nacionalidade), no laboratório surge uma comunidade de atores distintos que partilham o interesse de enfrentamento de um problema (científico, social, político etc), e para investigá-lo é necessário inventar uma forma de conviver. É por isso que Lafuente dirá que os laboratórios cidadãos são espaços da experimentação política. Mas um laboratório também fabrica comunidades por um outro caminho quando, por exemplo, ele dá existência tangível a um comum que está ameaçado. Quando se constitui um laboratório cidadão sobre o “bairro” de uma cidade, o laboratório produzirá “evidências” sobre os elementos e suas relações que participam do “fazer bairro”. Neste sentido, o laboratório participa da produção do comum (a trama que faz bairro) que emerge com a comunidade que participa deste processo. Neste exemplo, percebemos como os laboratórios cidadãos, nesta acepção, integram um outra ontologia política. Nos dizeres de Lafuente: “las comunidades que crean y son creadas por los nuevos procomunes son entonces comunidades de afectados que se movilizan para no renunciar a las capacidades que permitían a sus integrantes el pleno ejercicio de su condición de ciudadanos o, incluso, de seres vivos (LAFUENTE, 2007). Nos laboratórios, portanto, esta noção de comunidade é indissociavelmente epistêmica e política. A aposta que aí se enuncia é que o laboratório seria também o lugar onde abrimos e acolhemos as controvérsias, criando novos conhecimentos, objetos e artefatos; remontamos o social (reassembling the social) através da constituição de novos sujeitos (cognitivos e políticos) que emergem não a partir de categorias previamente constituídas que vem reivindicar um direito instituído, mas a partir da produção do comum instituinte (LAVAL & DARDOT, 2016) de novos direitos.

Prototipar

Prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo. É isso que torna o laboratório, na acepção de Lafuente e diversos grupos que atuam nesta campo, um espaço de invenção política. O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação. Tal abordagem é, na realidade, muito cara às vertentes críticas dos estudos sociais de ciência e tecnologia, onde a produção de conhecimento, ciência e tecnologia é indissociável dos processos de natureza política. Navegamos, evidentemente, no território das entidades híbridas.

Prototipar como forma de conhecer

Significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer. Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem. Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes. Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

Protótipo e ação política

A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto abstrato de sociedade futura pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja.[…] É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

No primeiro dia de aula cada estudante se apresentou rapidamente. O objetivo era saber o nome das pessoas, sua situação e momento no curso, campos e temas de interesse de investigação, e conhecer um pouco de suas experiências ou interesses no campo da educação. Tivemos aproximadamente 10-12 estudantes presentes em cada turno.

Em seguida realizamos uma atividade de mapeamento ágil do imaginário instituído em torno de duas questões:
1.O que “eu” como futuro professor, devo saber para poder exercer minha atividade?
2.O que sinto/percebo como ameaças à realização da minha prática como docente? O que está sob ameaça?

Tarjetas foram distribuídas para os estudantes. Eles escreveram suas respostas e depois todas elas foram lidas em sala. Na medida em que eles liam fui montando um diagrama dos termos, dando forma a dois “mapas” mentais (veja link para imagens abaixo).

O objetivo dessa atividade era compreender melhor quais são as representações instituídas em torno dos saberes e competências que acreditamos ser necessárias para uma boa atuação docente. Com a outra pergunta, eu desejava compreender um pouco das preocupações, medos e anseios que os estudantes têm diante das transformações que afetam a sua atuação como futuros professores.

Realizar este tipo de mapeamento é importante. Ele ajuda a tornar visível entre nós quais são as representações, o imaginário, as percepções, que participam da nossa construção de mundo. Compreender de onde partimos e quais são as influências (culturais, teóricas, emocionais, políticas etc) que compõem nossas experiências é uma estratégia importante para desenvolvermos uma reflexão e prática crítica sobre nossos percurso de formação durante o curso. Na outra pergunta, ao tornar visível coletivamente o que está “ameaçado” reconhecemos qual é nosso “comum”, relativo à atividade docente, que está sendo transformado ou destruído. Ao fazer isso destacamos a forma como as relações entre os professores, e deles com o mundo escolar, são parte constitutiva do tecido que sustenta este comum.

 

 

foto de Michael Wolf: http://www.hypeness.com.br/2013/02/fotografo-registra-a-vida-claustrofobica-dos-cidadaos-de-hong-kong/ 

Amanha, 27 de março de 2018, começam as aulas da disciplina Ensino de Sociologia II e Estágio Supervisionado, na Unifesp. Nas edições anteriores em que ministrei essa disciplina fomos experienciando diferentes modos de organização e realização do curso. As disciplinas do estágio tem o desafio de combinar a formação teórica à prática, articulando essas dimensões de forma simétrica e imanente em todas as atividades realizadas.

Diferentemente das outras disciplinas do curso, a realização do estágio depende sobremaneira de fatores exógenos com os quais temos que desenvolver formas de adaptação e negociação permanente. Por exemplo, a oferta e abertura de oportunidades de estágios pelas escolas e professores, a disponibilidade dos professores para receber nossos estudantes, os dias e os locais de oferta da disciplina de Sociologia nas escolas, a coincidência ou a desincronia entre a oferta do campo de estágio e a disponibilidade dos próprios estudantes. Enfim, é sempre uma equação complexa.

Ademais, a disciplina de estágio também se caracteriza por ser um dos poucos momentos do curso em que, obrigatoriamente, a universidade tem que estabelecer relações de mão-dupla com o seu “fora” (escolas, organizações culturais etc). Em outros momentos do curso também existe essa interação com o “fora”, porém ele se dá principalmente através da realização de pesquisas, seminários ou projetos específicos. O estágio, por sua vez,  exige uma relação de colaboração orientada pela construção de condições de maior simetria, horizontalidade e solidariedade entre os diversos atores envolvidos no processo, sem o qual o estágio não se desenvolve.

Por isso, gosto de pensar no estágio como uma disciplina que deve ser capaz de construir uma zona de intersecção, traduções e transducções entre diferentes práticas e saberes: as práticas e os saberes universitários, as práticas e saberes escolares, as práticas e os saberes dos professores, dos estudantes, das instituições, das disciplinas etc. Talvez, a noção de “ecologias de práticas” proposta pela filósofa Isabelle Stengers possa ser útil para tomarmos o estágio como essa situação em que experimentamos fomentar uma ecologia das distintas práticas e saberes que aí se encontram:

“An ecology of practices may be an instance of what Gilles Deleuze called ‘thinking par le milieu’, using the French double meaning of milieu, both the middle and the surroundings or habitat. ‘Through the middle’ would mean without grounding definitions or an ideal horizon. ‘With the surroundings’ would mean that no theory gives you the power to disentangle something from its particular surroundings, that is, to go beyond the particular towards something we would be able to recognise and grasp in spite of particular appearances.” (STENGERS, p.187.)

“Cada práctica serían una forma de producir y estar en el mundo “una perspectiva que celebra la existencia de todo tipo de seres que  plantean específicamente la cuestión de lo que cuenta para su propia forma de vida […] todo aquello para lo que la existencia implica una apuesta, un riesgo, la creación de un punto de vista sobre qué, desde ese momento, se convertirá en su medio (milieu).” [2003: 37 apud Osfa]

Outro conceito que Stengers mobiliza (de empréstimo de Brian Massumi), e que também nos será útil no estágio, é a idéia de “tecnologias sociais de pertencimento”:

“Social technology of belonging, as it deals with people who are not only social beings but people who belong, would then be that technology which can and must address people from the point of view of what they may become able to do and think and feel because they belong.
[…]
“This is why technology of belonging is not a technique of production but, as Brian Massumi put it, works both as challenging and fostering. Its two main matters of concern are the question of empowering, a matter of fostering, and the question of diplomacy, a matter of challenging. Inversely, challenging as associated with diplomacy, and fostering as associated with empowering, must make explicit the cosmopolitical stance that ‘we are not alone in the world’.”

A escolha de caminhar com esses conceitos não é trivial. Tomar o estágio como tempo-espaço de uma experiência situada na perspectiva de uma ecologia de práticas, implica num desafio simultaneamente epistemológico e político, que aposta na criação de formas de convivência entre mundos, práticas e modos de conhecer distintos. É a partir dessas referências que pretendo experimentar transformar a disciplina do estágio neste semestre em um “laboratório cidadão”, inspirado aqui nas palavras de Antonio Lafuente:

“Um laboratório cidadão é um espaço de produção aberta do conhecimento.
É um lugar capaz de acolher um coletivo heterogêneo de atores que almejam dar forma a um entorno social. É portanto um lugar onde nos obrigamos a identificar uma problemática, documentá-la, isolar suas características mais notáveis, contrastar os distintos pontos de vista, explorar as diferentes formas de abordagem, extrair conclusões e comunicar as descobertas, dúvidas e fracassos. Aqueles que a integram se autoconfiguram como uma comunidade de aprendizagem aberta a toda variedade de atores e a toda pluralidade de pontos de vista. De forma que sua primeira tarefa é encontrar uma linguagem comum, ou seja, um espaço que torne possível a conversação sem que ninguém imponha seu ponto de vista e sem que ninguém tenha o poder de fechar/bloquear um tema porque considera que já se discutiu o suficiente.

Um laboratório cidadão é, portanto, um espaço para aprender a viver juntos: uma incubadora de comunidades. Um laboratório cidadão é um espaço, por antonomásia, para a política experimental, pois sendo hospitaleiro com as minorias e tratando-as como sensores de aviso antecipado de problemas porvir, estaríamos encontrando respostas situadas e inclusivas para assuntos todavia incipientes e talvez mais frequentes, gerais ou agudos no futuro.

É um laboratório porque aposta na cultura experimental, no contraste de pontos de vista, nas práticas abertas e na comunicação pública. É cidadão porque confia na inteligência coletiva e outorga maior dignidade cognitiva ao experiencial, o que é o mesmo que dizer que um laboratório cidadão nunca dividirá o mundo entre os que sabem e os que não sabem.” [https://pimentalab.milharal.org/2017/12/12/sentidos-de-um-laboratorio-cidadao-por-antonio-lafuente/]

Evidentemente, isso nos coloca inúmeros desafio. A principal dificuldade é superar a frequente individualização das experiências de estágio que cada estudante envereda. O desafio de transformar uma sala de aula e um grupo diverso de estudantes em um processo de aprendizagem coletiva é análogo ao desafio que cada professor enfrenta na escola diante de uma sala de aula. Como conciliar as singularidades de cada estudante e a maneira como cada um aprende, com os espaços, situações e práticas escolares que são coletivos? Podemos transformar uma sala de aula, o ensino de uma disciplina universitária ou escolar em um laboratório cidadão? Esta é uma das hipóteses que iremos investigar.

ps: inicialmente irei documentar esta edição da disciplina nesta página wiki (ainda em elaboração): https://pt.wikiversity.org/wiki/Ensino_de_Sociologia_e_Est%C3%A1gio_Supervisionado/II-2018

 

 

Publico abaixo a primeira parte de um texto que está dividido em dois posts. O argumento que vou apresentar está assim dividido: 1. a universidade pública e o campo científico estão passando por profundas transformações e por uma crise de reconhecimento social e legitimidade política. Nesta crise, para além das dinâmicas externas (política, economia etc) ao campo universitário e científico  é necessário analisar as próprias dinâmicas e mutações do regime de produção e difusão de conhecimentos e suas práticas institucionais. 2. experiências de ciência cidadã, ciência aberta e laboratórios cidadãos podem contribuir para a criação de novas interações entre o campo científico e o mundo extra-acadêmico, criando relações sinérgicas entre sociedade-ciência-universidade.

 

foto: Daniel Leal-Olivas (AFP)

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Experiências de contraste nos ajudam a ter ideias inesperadas e a tornar visível dimensões não exploradas de problemas comuns. Nas últimas semanas acompanhei pela imprensa eventos preocupantes que afetam diretamente o financiamento, os direitos dos trabalhadores e a reputação das universidades públicas e ao sistema brasileiro de produção científica [1]. Ao mesmo tempo, na contra-corrente deste processo, participei de um seminário sobre Ciência Cidadã no Medialab-Prado [2] que reuniu uma diversidade de formas inventivas de interação entre a pesquisa científica e o mundo extra-científico.

 

Parte 1: mutações e crise da universidade e do campo científico

Além dos cortes no orçamento público federal destinados à Ciência, Tecnologia e Inovação, e da drástica redução de recursos para as universidades públicas federais, acompanhamos neste ano uma investida do judiciário, polícia e mídia contra universidades brasileiras de reconhecida reputação. Reitores, professores ou técnicos sofreram com o abuso da aplicação de medidas coercitivas autorizadas pela justiça e realizadas de forma espetacular pela polícia federal, ferindo direitos fundamentais de um regime democrático. No momento atual, não paramos de nos surpreender com as novas bordas de aplicação da nossa democracia autoritária, onde os mecanismos do estado de exceção nunca deixaram de operar (veja o trabalho de Edson Teles).

Neste mesmo ano, editoriais de grandes jornais retomam seu habitual argumento contra o financiamento público e pela cobrança de mensalidades nas universidades públicas brasileiras. Mais recentemente, um relatório do Banco Mundial (cuja qualidade metodológica da investigação foi amplamente questionada – veja artigo de Tatiana Roque e Hedibert Lopes) adiciona mais elementos na disputa discursiva e política sobre o futuro do ensino superior brasileiro. Nas universidades privadas observamos ainda a tentativa de aplicação da nova lei trabalhista para realizar demissões em massa e para em seguir fazer novas contratações precárias. Em algumas instituições o número de professores demitidos seria superior a 1000 docentes.

O que mais impressiona neste período é a intensidade e a velocidade em que o desmonte é feito: “o golpe vem a galope” (aqui também). Diferentes processos que afetam o campo científico e o ensino público superior, independente de uma causalidade coordenada ou não, acabam por gerar efeitos de reforço mútuo no atual contexto. Isso é suficiente para aumentar nossa preocupação. A situação vivida pela UERJ é um duplo escândalo: o abandono do governo de uma importante instituição de ensino e pesquisa, e a frágil ação política e solidária do meio acadêmico no apoio à luta dos professores, funcionários e estudantes.

Cortes nos investimentos em ciência e educação indicam mudanças nas estratégicas de desenvolvimento nacional, nas políticas de expansão do ensino superior e de inclusão de novos estudantes, mas também refletem o resultado de uma forte disputa sobre o mercado do ensino superior, que no Brasil representa um recurso com elevado potencial de exploração econômica.

Mas há outros processos em curso. Não podemos ignorar que as dinâmicas de produção, acesso e apropriação da informação e do conhecimento transformaram-se radicalmente nas últimas décadas, assim como a interpenetração entre ciência, tecnologia e economia. Há mudanças na centralidade, no regime de autoridade do conhecimento científico e no relativo monopólio sobre a produção e difusão de determinados conhecimentos que antes eram de quase exclusividade universitária. Hoje, deparamo-nos com novas formas de certificação e de validação dos saberes, com a emergência de contra-expertises, expansão dos movimentos de acesso aberto ao conhecimento científico e multiplicam-se os atores cognitivos relevantes que disputam a interpretação do “real e verdadeiro”. Observamos novas dinâmicas de corporatização e expansão dos regimes de propriedade intelectual sobre a pesquisa científica, crescimento do ensino à distância, surgimento de institutos de formação superior criados por empresas privadas que demandam profissionais com conhecimentos específicos, e também o crescimento das grandes corporações transnacionais e redes de ensino superior privado. Expansão do acesso à universidade publica no Brasil, com novos públicos adentrando o ensino superior, mas também a ampliação do ensino superior privado mediante políticas de subsídio e financiamento para as universidades e estudantes. Em resumo, são muitas as transformações estruturais nesta área.

Essas transformações infraestruturais relacionam-se também a mudanças radicais na forma como organizamos, classificamos e disponibilizamos o acervo de conhecimento produzido. As formas de armazenamento, indexação, circulação e acesso são muito distintas, dando forma a novas políticas e economias da informação, do conhecimento e da memória. O lugar ocupado pelas universidades, escolas, arquivos, bibliotecas, museus, centros de pesquisa e memória estão em plena mutação.

Nesses movimentos tectônicos, sobre as quais as universidades se equilibram, as instituições de ensino superior brasileiras parecem não gozar do reconhecimento social e da legitimidade política que corresponderia às suas realizações na pesquisa e na formação de milhares de estudantes e cientistas. Este problema não é especifico do Brasil.

Mesmo em algumas sociedades onde a cultura científica tem maior presença e capilaridade social, os diversos atores que compõem o campo científico e universitário tem tido dificuldades para se organizar politicamente e mobilizar a opinião pública para impedir os cortes no financiamento e o processo de desmonte dos sistemas nacionais de ensino e pesquisa. Limitação similar se manifesta na dificuldade para implementar nas políticas públicas alguns consensos científicos (sempre provisórios) que apontam para outros modelos de desenvolvimento. Basta pensar na política ambiental, saúde coletiva, política urbana, segurança alimentar etc.

A emergência de campanhas como a “Marcha pela Ciência” nos Estados Unidos e no Brasil é um exemplo dessas lutas reativas. No caso da edição brasileira de 2017 o engajamento de organizações científicas, pesquisadores e professores universitários foi muito pequeno e sua repercussão política foi ínfima. As razões para essa desmobilização interna ao campo e para a dificuldade de sensibilização dos públicos concernidos são várias.

Para superação desses problemas não é suficiente que a universidade e seus múltiplos atores olhem apenas para as dinâmicas externas ao seu campo e suas instituições. Insistir em teses conspiratórias ou excessivamente ideológicas que tendem a criar uma narrativa coerente onde a universidade está colocada no centro passivo de um plano de ataque é insuficiente. Equivoca-se também ao dar unidade e coerência a uma arena de conflitos que é muito complexa. Mas o maior problema, nessa perspectiva, é ignorar a forma como a própria dinâmica institucional, nossas práticas científicas e acadêmicas, as dinâmicas de produção, formação e difusão do conhecimentos participam da construção dessas transformações e dos problemas descritos. Em suma, é hora de habitarmos este problema e fazê-lo nosso também.

Que relações podemos estabelecer entre a crescente institucionalização e profissionalização do campo científico e do ensino superior com as dinâmicas que fortalecem ou enfraquecem o reconhecimento social e a legitimidade da ciência e do ensino superior?

Foi graças à construção de uma autonomia (sempre relativa) do campo científico e universitário que obtivemos o desenvolvimento de muitas áreas do conhecimento, novas ciências, tecnologias e práticas em diversos campos da vida. Ao mesmo tempo, em que medida este mesmo processo compõe uma arquitetura que produz formas de relação instrumental ou subordinada com o mundo extra-acadêmico (numa via de mão dupla) e dificulta a possibilidade de trocas sinérgicas entre ciência, universidade e sociedade? Que dinâmicas institucionais, que formas de produção de conhecimento e que modos de relação podemos fomentar para transformar essa situação atual?

Não se trata de tentar restabelecer a centralidade ou exclusividade da universidade sobre a produção e difusão de determinados saberes, ou mesmo de reafirmar uma certa ideia de autonomia do campo (científico e universitário). Afinal, foi justamente a partir deste desenho que acompanhamos a corporatização-privatização do conhecimento, a hegemonia da tecnociência, o enfraquecimento de algumas áreas no conhecimento consideradas inúteis ao desenvolvimento econômico, a perda de relevância e influência política da ciência no debate político e a penetração da lógica competitiva e utilitária em quase todas nossas práticas de conhecer. Não é coincidência que esta dinâmica produza também um modo de ser professor, estudante e pesquisador que hoje concentra elevados percentuais de problemas de saúde mental.

Necessitamos de outros sentidos para a experiência universitária que afirmem sua especificidade. Habitar a crise que vivemos e produzimos exige que pensemos mais em termos de interdependência entre diferentes campos sociais, práticas e modos de conhecer. Como fazer conviver uma ciência pública com uma ciência comum? Como fazer cohabitar um conhecimento “para todos” e um conhecer “entre todos”?

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Os post publicados estão todos disponíveis neste link: https://pimentalab.milharal.org/category/diario-madrid/

Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

Em setembro dei uma entrevista para a Revista FAPESP, falando sobre ciência cidadã e aberta, relatando nossa experiência com o projeto Ciência Aberta Ubatuba. O Antonio Lafuente também foi entrevistado, mas preferiu enviar suas respostas por escrito para o jornalista (Bruno de Pierro). Na reportagem apenas uma pequena parte do que falamos (como é habitual) entra no texto final. Mas o Antonio acabou disponibilizando na internet o texto que escreveu para a entrevista. Numa das respostas achei uma definição interessante, dada sua amplitude e clareza, para a noção de laboratório cidadão. Transcrevi e traduzi abaixo este trecho:

Revista FAPESP: O que são os Laboratórios Cidadãos? Há algum exemplo notório dessa iniciativa no mundo?

Antonio Lafuente:  Um laboratório cidadão é um espaço de produção aberta do conhecimento.
É um lugar capaz de acolher um coletivo heterogêneo de atores que almejam dar forma a um entorno social. É portanto um lugar onde nos obrigamos a identificar uma problemática, documentá-la, isolar suas características mais notáveis, contrastar os distintos pontos de vista, explorar as diferentes formas de abordagem, extrair conclusões e comunicar as descobertas, dúvidas e fracassos. Aqueles que a integram se autoconfiguram como uma comunidade de aprendizagem aberta a toda variedade de atores e a toda pluralidade de pontos de vista. De forma que sua primeira tarefa é encontrar uma linguagem comum, ou seja, um espaço que torne possível a conversação sem que ninguém imponha seu ponto de vista e sem que ninguém tenha o poder de fechar/bloquear um tema porque considera que já se discutiu o suficiente.

Um laboratório cidadão é, portanto, um espaço para aprender a viver juntos: uma incubadora de comunidades. Um laboratório cidadão é um espaço, por antonomásia, para a política experimental, pois sendo hospitaleiro com as minorias e tratando-as como sensores de aviso antecipado de problemas porvir, estaríamos encontrando respostas situadas e inclusivas para assuntos todavia incipientes e talvez mais frequentes, gerais ou agudos no futuro.

É um laboratório porque aposta na cultura experimental, no contraste de pontos de vista, nas práticas abertas e na comunicação pública. É cidadão porque confia na inteligência coletiva e outorga maior dignidade cognitiva ao experiencial, o que é o mesmo que dizer que um laboratório cidadão nunca dividirá o mundo entre os que sabem e os que não sabem.

As práticas do laboratório cidadão são realizadas entre todos e, consequentemente, dá-se forma a bens comuns. Eu gosto de especular a ideia de que sempre que há um bem comum é necessário que haja um laboratório que o sustente e que é sustentado por ele. Como o procomúm poderia sobreviver a impérios, autoritarismos, neoliberalismos e a circunstâncias tão hostis não fosse pela comunidade que o sustenta (e que é sustentada por este comum), que nos dão provas constantes de saber adaptar-se e de interpretar corretamente os signos externos?

Criar e sustentar um bem comum demanda muito conhecimento, muita capacidade de análise ou, em outras palavas, um laboratório cidadão plenamente operativo. Mas vejam, plenamente operativo não quer dizer que necessite de um edifício, um chefe, um regramento estrito ou uma maquinaria sofisticada. Não é nem necessário, como é o ordinário, saber que é um laboratório cidadão. O que importa é que se dê uma pequena infraestrutura capaz de dar forma a sua vontade de querer (sobre)viver, que o ajude a converter o protesto em propostas, o experiencial em conhecimento contrastado e as pequenas infraestruturas em garantidoras do seu direito à diferença.

Há exemplos? Muitos e em todas as partes. Diga-me um bem comum e te mostrarei um laboratório cidadão! Mas também, vale a equação inversa: dê-me um laboratório cidadão e construirei um bem comum. Os grupos de Alcoólatras Anônimos, talvez sem sabê-lo, seriam um laboratório cidadão que estaria iluminando uma maneira distinta de nos relacionarmos com o corpo, uma corpo tal que conversa com termos distintos, que evoca diferentes experiências: um corpo comum. Em Madrid, como em muitas outras cidades do mundo abundam as hortas urbanas, muitas vezes nascidas em espaços ocupados e mais tarde legalizados. O que está acontecendo, o que significa isso? Para mim, são laboratórios cidadãos onde se está experimentando outras formas de habitar a cidade, distintos modos de nos conectarmos que não estejam mediados (o determinados) pelo consumo, pelo valor ou pela utilidade. Estamos, entre todos, dando forma à ideia de que uma cidade são suas relações e não suas construções. Estamos reinventando a cidade como um espaço comum. Temos dado diferentes nomes a esses movimentos e mobilizações, como urbanismo-beta, urbanismo-feito-a-mão, urbanismo-faça-você-mesmo. Todos têm em comum a vontade de fazer coisas juntos, de disputar com os urbanistas sua hegemonia sobre a urbe e, enfim, de mostrar que outro mundo é possível: será vulnerável, será transitório, será esporádico,….mas será de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Sua fragilidade é o que tem de amoroso, como também sua transitoriedade, este não estar quieto, ou seu querer devir outra coisa, é o que o a faz habitável. Sua natureza intermitente ou efêmera também pode ser vivida como uma proteção face às formas identitárias de nos agruparmos, sempre tão atrativas ao princípio como coercitivas para aqueles que querem discordar ou ser diferentes.

 

Fizemos um experimento. Um dos desafios que temos enfrentado em Madrid é a criação de uma rede de sociabilidade infantil para nossa filhota. No pequeno prédio em que moramos há poucas crianças, não conhecemos os vizinhos e após dois meses de residência tivemos pouco contato com os demais moradores. Assim como em São Paulo, a vida em apartamentos num edifício de uma grande cidade não produz diretamente relações de vizinhança.

Noutro post [Pequenas infraestruturas da vida em comum] contei como à noite, na hora de colocar a Mai para dormir, podíamos ouvir bem baixinho uma outra família contando histórias para seu filho (assim como nós). Falando com a Mai sugeri que podíamos fazer uma carta ou algo do gênero pra colocá-la em contato com aquela outra criança. Mas como fazer contato, sem saber ao certo os protocolos ou as sutilezas da cultura local?

Inspirando-me no projeto Escalera (tema deste post), decidi fazer um pequeno cartaz para coloca-lo na escada de entrada do prédio, bem ao lado das caixas de correio.

O resultado foi muito animador. Alguns dias depois fomos procurados pelas duas famílias que tem crianças no prédio e demos início a uma aproximação gradual entre elas. Mai ficou mais feliz, ela agora conhece seu vizinho! Esta simples experiência me faz pensar em muitas coisas.

A vida em apartamento numa grande cidade é um vetor importante no desenho de nossas vidas. Muito se fala sobre a maneira como a vida organizada por este tipo de arquitetura influencia nossas rotinas, nossos vínculos sociais e maneira como nos relacionamos com a rua, o bairro e a própria cidade. Em suma, a vida em apartamentos é parte do fenômeno urbano. Ao mesmo tempo, é interessante observar a diversidade encontrada nas relações de vizinhança em diferentes condomínios de edifícios. Se por um lado ouvimos que as reuniões de condomínio e brigas entre vizinhos são um tema frequente de aborrecimento, por outro, conhecemos pessoas que moram em edifícios em que as relações de convivência são mais agradáveis, onde existe algum tipo de apoio mútuo, solidariedade e alegria em partilhar o mesmo espaço. Assim, se a infraestrutura arquitetônica é um importante fator de influência no desenho de nossas relações sociais, ele está longe de ser um vetor exclusivo na determinação de nossas relações. Há muitas coisas em jogo, e a investigação desses vários fatores é um bom exemplo de um  problema dos arranjos sociotécnicos.

É justamente nesta brecha, nessa margem de indeterminação, que o projeto Escalera se insere como uma intervenção micropolítica que almeja disparar outros processos instituintes da forma e conteúdo de nossas relações sociais urbanas.

O projeto nasce de um incômodo partilhado por muitas pessoas. A pergunta disparadora do projeto é: “A vida é um problema comum. Podemos resolvê-lo em comunidade?”. Essa sensação, que ressoa em muitos de nós, manifesta um grave problema de fundo relativo à perda de sentido da vida em comum, compartilhada. O sentimento de isolamento, as dificuldades de sustentar a vida cotidiana de forma independente sem o pequeno apoio de pessoas próximas, a intensificação de problemas de saúde mental e física, entre outros, são sintomas de um comum que foi perdido, destruído e expropriado pelo nosso modo de vida contemporâneo.

Só nos damos conta de que existe uma matéria muito sutil, um tecido que sustenta nossas vidas em seus mínimos detalhes, quando nos confrontamos com sua perda. O projeto Escalera atua para tornar visível as fagulhas que compõem este comum, que só existe junto à uma comunidade que o sustenta. Neste sentido, na acepção em que estou investigando, o projeto Escalera é um verdadeiro laboratório do procomún.

Sua ação é simples e complexa ao mesmo tempo. O projeto fornece um kit de adesivos e cartazes customizados para que um (ou mais) moradores do prédio, interessado em implantar o projeto em seu edifício, possa colar pequenas mensagens em locais visíveis. As mensagens sinalizam pedidos simples ou ofertas de apoio gratuito: coisas como “preciso de alguém me ajude na escada a carregar as compras de supermercado”, ou “me ofereço para dar água para as plantas”, ou “gosto de tomar café a tarde em companhia pra bater um papo”, entre várias outras mensagens.

Dito de outra forma, sua realização envolve uma pesquisa para construir um protótipo material, um dispositivo tecnopolítico que ajude a ativar certos modos de relação, e não outros. Rosa Jiménez me relatou em detalhes os desafios da investigação: como iniciar a sensibilização numa comunidade de vizinhos, que mensagens utilizar, como fazer a mediação e ativação da comunidade, etc. O fundamental está nos detalhes: cada mensagem utilizada diz muita coisa para além daquilo que está escrito.

Em sua versão inicial, Rosa lançou o projeto no Facebook para tentar alcançar um pequeno grupo, cerca de 5 edifícios que pudessem colaborar para um piloto. Porém, a procura foi tamanha que a implantação do projeto ocorreu com 30 edificios. Em cada um deles, o projeto foi procurado/acionado por uma moradora (a maior parte eram mulheres) implicadas em transformar a vida em sua comunidade. Mais uma vez, os dados indicam como são principalmente as mulheres que produzem e reproduzem o mundo comum.

Mas Rosa também foi procurada por empresas imobiliárias, de segurança ou de publicidade, que viram no projeto uma importante estratégia de ativação (e neste caso de expropriação) de um recurso. Sabiamente, a Escalera soube criar estratégias para evitar usos indesejados do projeto. Esta tensão é reveladora da maneira como o “comum” é tanto aquilo que alimenta e dá suporte à nossa vida ordinária, como também pode ser convertido em recurso produtivo e monetizável. No capitalismo biopolítico contemporâneo o “comum” é um dos seus principais insumos.

Neste sentido, observamos como pequenas experiências de produção do comum urbano, são espaços de resistência para a criação de outros modos de vida possíveis na cidade. No Projeto Escalera encontrei um belo exemplo de pesquisa-ação e análise sociotécnica realizado através de um “laboratório” que visava ativar a própria comunidade que sustenta esse comum que está ameaçado por todos os lados.

As dinâmicas implicadas na produção de vínculos sociais, nas redes de cuidado compartilhado, nas relações de solidariedade e amizade, que transformam nossas redes de vizinhança tem impulsionado o projeto Escalera para outras escalas e perguntas. Como através da construção de relações de vizinhança podemos fazer bairro? E será que com uma vida melhor de bairro, podemos fazer cidade?

Mais sobre o projeto Escalera:

website: http://www.proyectolaescalera.org

facebook: https://www.facebook.com/proyectolaescalera/

Video: https://www.youtube.com/watch?v=5UlDXH-o4_o

Explicação Kit: como fazer http://www.proyectolaescalera.org/2017/01/26/como-se-hace-una-escalera/

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

 

Fonte Imagem

Acho interessante a maneira como, aqui na Espanha, a palavra “protótipo” está muito presente em diferentes iniciativas de coletivos ativistas (ambientais, urbanistas, hackers, culturais etc) e como este termo é utilizado por instituições públicas e não-governamentais. Investigar e problematizar a genealogia desse termo daria uma ótima tese (lançada a sugestão). Gosto da idéia de protótipo por algumas razões, por isso comecei a utilizá-la há algum tempo para descrever algumas práticas em que estou envolvido.

Na minha experiência, se a memória estiver correta, comecei a escutar esse termo nos primeiros anos do século XXI (2003…2005?), em grupos da então chamada “cultura digital” (bons tempos com midiatática, submidialogia, metareciclagem, midiaindependente…). Naquele contexto, acho que a palavra vinha mesmo da turma que estava mais imersa na cultura de desenvolvedores de softwares (seja por experiência profissional ou de formação). Ali, a noção de protótipo trazia vínculos de origem com a criação de produtos ou serviços – empresarial, corporativa ou mesmo de programadores entusiastas do software livre – que deveriam ser colocados rapidamente em circulação para que pudessem ser testados e aperfeiçoados.

Ao invés de ficar desenvolvendo um produto até sua conclusão, a ideia do protótipo valorizava o inacabado e a importância da abertura para que se receber rapidamente novos inputs e melhorias, dando relevância aos modos de uso e apropriação para experimentar suas possíveis trajetórias e adequações. Em suma, ele reúne elementos que reconhecem o caráter contextual de qualquer criação. Ao mesmo tempo, a maneira como o ambiente, as infraestruturas e as relações sociais participam do arranjo que surge com o protótipo em uso é parte indissociável do próprio protótipo. Isso que parece um pequeno detalhe faz muita diferença quando exploramos algumas das implicações políticas desta concepção. Talvez por isso, o termo tenha deslizado tão facilmente para outros contextos. Farei um pequeno comentário sobre os possíveis sentidos da noção de protótipo em dois campos: (1) produção de conhecimento; (2) prática política.

(1) Prototipar como forma de conhecer

Quando a ideia de protótipo refere-se a uma prática de conhecer surgem coisas interessantes. Em primeiro lugar, significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.

Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem.

Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes.
Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

(2) Protótipo e ação política

Quando a noção de protótipo é mobilizada por coletivos ativistas ela pode indicar outras formas de ação política, que também encontramos no repertório de alguns movimentos sociais. A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto idealizado e acabado de um modo de vida ou sociedade futura, pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja. Pode-se estabelecer aí uma relação com o conceito de política “pré-figurativa” tão presente em alguns movimentos contra-culturais (anos 60-70s) e nos movimentos alter-anti-globalização (2000’s).

É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

A criação de protótipos nos “laboratórios cidadãos” é traduzida por Antonio Lafuente numa boa expressão: do protesto à proposta. Ou seja, ao se engajarem na produção de protótipos esses coletivos afirmam e experimentam positivamente a possibilidade de construção situada (contextualizada, implicada, parcial) de alternativas concretas para aquilo que reivindicam. Ao fazerem isso dão a ver de maneira mais clara o comum ameaçado, apropriado, e os mecanismos de reprodução social em sua micro e macro-política.

A criação de um protótipo, no contexto de uma intervenção ativista, também indica a valorização de ações práticas, em detrimento das armadilhas das escolhas excessivamente ideologizados que se descolam das condições de ação no presente. Evidentemente, toda prática é portadora de princípios e valores, mas quando deslocamos o foco para a construção de uma ação prática somos obrigados a criar soluções que tornem aquela ação possível. É portanto, um outro estado de presença corporal, onde aprendemos a pensar e praticar uma política sensível com o corpo que temos no mundo que habitamos. Em suma, indica-se uma outra concepção de mudança social.

 

Algumas referências:
*Master em Comunicação, Cultura e Cidadania Digital: http://cccd.es/wp/
*Prototype: coletivo de investigação e intervenção, urbanismo e antropologia: http://www.prototyping.es/
*Diversos laboratórios realizados no âmbito do Medialab-Prado http://medialab-prado.es/
*Inteligencia Colectiva: http://www.inteligenciascolectivas.org/category/prototyping/
*Red de Huertos Comunitarios de Madrid: https://redhuertosurbanosmadrid.wordpress.com/2014/06/03/taller-de-autoconstruccion-de-cocinas-solares-en-cantarranas/
*Exemplo de laboratório cidadão http://medialab-prado.es/article/proyectos-madrid-escucha
*Hacklab da Ocupa Ingobernable: https://hacklab.ingobernable.net/

Veja o artigo: 2016. Corsín Jiménez, Alberto & Adolfo Estalella. ‘Ethnography: a prototype.’ Ethnos, online first, DOI: 10.1080/00141844.2015.1133688. Special Issue, Obstruction and Intervention, edited by Rane Willerslev, Lotte Meinert and George Marcus. Pre-print available here

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

Com o acirramento de nossa crise política e o clima de pós-catástrofe planetária, aprendi rapidamente que algumas coisas que julgávamos como óbvias e certas (como os cuidados com a vida coletiva, a afirmação e defesa de direitos fundamentais), são muitos frágeis na realidade e, portanto, radicalmente necessárias. Tenho perseguido esta idéia numa espécie de movimento de “retorno ao básico”. Por outros caminhos, tal percurso tem me arrastado para reflexões e práticas sobre a produção do comum.

Neste cenário, enfrentar a pergunta “como podemos viver juntos?” deixa de ser modismo teórico ou estético, e se torna na prática um problema de grave urgência. Essa é uma das razões que tem me impulsionado a investigar os chamados “laboratórios cidadãos”. Ao tentar descrever um conjunto diverso dessas práticas, mais do que delimitar as fronteiras de um conceito de “laboratório”, interesso-me por repertoriar os diversos arranjos sociais, suas infraestruturas, protocolos, práticas e valores que participam de maneira sempre contextualizada (e portanto parcial) da produção de um conhecimento comum, aberto e implicado. Por sua vez, neste fazer, novas comunidades se constituem com esses laboratórios, dando consistência e sustentação àquilo que lhes é comum, mas que de alguma forma era desconhecido ou ameaçado. Para usar uma feliz expressão do Antonio Lafuente, os laboratórios cidadãos funcionam como incubadoras de comunidades.

Um dos aspectos que têm me interessado observar nessas experiências são as chamadas “tecnologias sociais de pertencimento” (ainda sem o devido rigor do conceito utilizado por Isabelle Stengers e Brian Massumi). De que é feita uma cidade? O que é qualidade do ar ou da água? Que mal é esse que faz nosso corpo adoecer? Encontrar formas de habitar, de se alimentar, de cuidar da saúde etc, são exemplos de problemas que tem sido enfrentados por diversos coletivos que experimentam a construção de novas relações e vínculos, que criam formas de acolhimento e escuta da diversidade, que trocam experiências e elaboram um vocabulário capaz de descrever e nomear aquilo que vivenciam, que constrõem regras de convívio e gestão de um espaço etc.

Diante da crise, desaprender para reaprender a viver coletivamente de outra maneira exige muita disposição e imaginação ou uma boa dose de precariedade. Ocupas urbanas, praças e hortas autogeridas no centro das grandes cidades, grupos de afetados por doenças raras, coletivos de cuidadores que reconfiguram as bordas das famílias, enfim, na proporção inversa ao desabamento do mundo há uma pletora de experiências cuidando para que a vida siga. Porém, assim como o trabalho invisível e não-pago das mulheres que fazem o planeta girar, essas experiências seguem fora do radar do reconhecimento macropolítico.

FOTOS Centro Social Autonomo La Tabacalera

Nessas primeiras semanas aqui comecei a me reconectar com algumas iniciativas dessa sub-ordem. É muito revigorante ver e participar dessa fabricação de outras formas de vida. Há muitos aprendizados em jogo. Uma antiga fábrica ocupada transformada em centro cultural autogerido (Tabacalera); uma praça com horta e brinquedos para crianças e aduntos (Esto es una Plaza); um edifício público ocupado (Ingobernable) entre tantas outras [1]. Em cada uma delas, tecnologias sociais de pertencimento e de organização, conhecimentos, práticas, novos corpos são inventados com outras maneiras de estar junto, sempre de maneira contextualizada, o que faz com que nada seja exatamente replicável.

FOTOS Esto es una Plaza

Porém, o compartilhamento dessas experiências é sempre possível e portador de conhecimentos úteis para outros grupos. Ademais, para dar sustentação no tempo, para tornar esses modos de associação durável, é preciso criar suas próprias “tecnologias” (nos dizeres de Latour, a “tecnologia” é a sociedade tornada durável”). Formas de resiliência, adaptação, reprodução ampliada daquele comum que essas comunidades produzem e promovem. Neste sentido, saber organizar coletivamente uma festa de bairro é uma atividade altamente relevante. Grandes cidades com boas condições de vida, são cidades com bons bairros. O que aconteceu com os bairros de São Paulo? Podemos pensar a “vida de bairro” e suas relações de vizinhança como um “comum” ameaçado pela vida privatizada das grandes cidades? Como seria um laboratório cidadão organizado em torno disso? Imediatamente, percebemos como a micropolítica conecta-se a outras escalas.

Por isso a importância de reaprendermos a ativar a capacidade do encontro, de estar e permanecer juntos, de criar um ambiente com sua cultura, suas infraestruturas, seus codigos e sua economia, para que sejamos capazes de dar sustenção no tempo às práticas e valores que desejamos reverberar.

 

[1 ]Bernardo Gutierrez, jornalista e pesquisador produziu inúmeras reportagens sobre essas experiências. Em português veja essa: http://outraspalavras.net/posts/madri-laboratorio-democratico-global/ Seu livro, recentemente publicado, também descreve muitas experiências urbanas de Madrid: http://www.bernardogutierrez.es/indexen.html

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

 

 

 

 

Ciência Cidadã, Laboratórios Cidadãos e Produção do Comum

Henrique Zoqui Martins Parra
Mariano Fressoli
Antonio Lafuente

O dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos logrou reunir um conjunto expressivo de artigos, resultando numa instigante caracterização desse campo de práticas. Além da diversidade de origem geográfica (Europa, África, América Latina e do Norte), os autores e autoras possuem inserções que transitam entre universidades, organizações comunitárias e não governamentais, movimentos sociais e coletivos ativistas. Interessante destacar que a maior parte dos trabalhos recebidos nesta chamada é de relatos de experiências empíricas empreendidas pelos próprios autores. Os artigos de análise teórica, por sua vez, realizam problematizações mais amplas acerca dos desafios acumulados sobre essa diversidade de experiências em diferentes contextos. A combinação desse esforço de análise teórica e descrição de experiências reforça a percepção de que estamos diante de um fenômeno heterogêneo, dinâmico e com efeitos ainda pouco conhecidos.

Essa multiplicidade de práticas e de espaços alternativos de produção de conhecimento recompõe as fronteiras e as identidades entre cientistas experts e os diversos públicos, mas também entre o laboratório acadêmico e o laboratório cidadão. As tecnologias de informação e comunicação digital, com sua presença ubíqua em diferentes domínios da vida social, as interseções entre a cultura hacker, a cultura científica e as novas formas de ativismo, compõem essa paisagem. Tais mutações não podem ser dissociadas das transformações e intensa crise pela qual os sistemas de representação política em diversos países estão passando. Nesse sentido, as noções de “ciência cidadã” e “laboratórios cidadãos” criam novas tensões e composições entre a ciência e a política: amplia-se o campo das práticas e espaços estabelecidos de produção de conhecimento científico; ao mesmo tempo em que se interrogam as formas de participação política.

TEXTO INTEGRAL

e aqui também: PDF.

 

É com alegria que anuncio que está no ar o Dossie Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos, na revista LIINC do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.

O dossie resulta de um intenso trabalho coletivo de meses. Realizei a coordenação editorial junto com Mariano Fressoli (Conicet – Cenit – Buenos Aires) e Antonio Lafuente (CSIC – Madrid). Contamos com o apoio da Sarita Albagli (IBICT) e Maria Lucia Novo Maciel (UFRJ) responsáveis pela LIINC, e com o trabalho cuidadoso da equipe de editoração, revisão e tradução (Christine Alvarez, Benjamin Albagli e Helena Faia). A participação de inúmeros pareceristas (no mínimo dois por artigo) também foi essencial para a qualidade do trabalho (estão todos listados nos agradecimentos do dossie).

Publicamos uma bela e grande seleção de 19 trabalhos, com textos provenientes do Brasil, América Latina e do Norte, Europa e África, em português, espanhol e inglês. Neste percurso de edição e com os pareceres que foram chegando, acabamos organizando os textos aprovados e revistos em dois grandes blocos: artigos (enfase mais teórica) e relatos empíricos de experiências.

Espero que o dossiê contribua para disseminar este debate aqui no Brasil e também para inspirar outros arranjos possíveis para produção de conhecimento científico, acadêmico e extra-acadêmico.

 

 

 

Aula ministrada no Minicurso Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

 

Vídeos: Parte 01 / Parte 02

Slides apresentados: slides-aula-ciencia-cidada-laboratorio-cidadao

 

Leitura:

PARRA, Henrique Z. M. Ciência Cidadã: modos de participação e ativismo informacional. In: Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo (orgs.). Ciência aberta, questões abertas , Brasília: IBICT; Rio de Janeiro: UNIRIO, 2015. http://livroaberto.ibict.br/handle/1/1060

RIESCH, H.; POTTER, C.and DAVIES, L. “Combining citizen science and public engagement: the Open Air Laboratories Programme”, JCOM 12(03) (2013) A03 https://jcom.sissa.it/sites/default/files/documents/JCOM1203(2013)A03.pdf

HARAWAY, Donna. Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pago, n.5, 1995, pp.7-41. http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/1065_926_hARAWAY.pdf

Bibliografia complementar:

BONNEY, R. BALLARD, H. , JORDAN, R. et al. Public participation in scientific research: defining the field and assessing its potential for informal science education, Centre for Advancement of Informal Science Education (CAISE) Washington, U.S.A. 2009. http://www.birds.cornell.edu/citscitoolkit/publications/CAISE-PPSR-report-2009.pdf

FECHER, Benedikt. Impact of Social Sciences – The great potential of citizen science: restoring the role of tacit knowledge and amateur discovery. http://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2014/11/05/the-great-potential-of-citizen-science/2014.

HALAVAIS, Alexander. Home made big data? Challenges and opportunities for participatory social research. First Monday, Vol. 18, n.10, 7 october 2013. http://firstmonday.org/article/view/4876/3754

SINTOMER, Yves. Saberes dos cidadãos e saber político. Revista Crítica de Ciências Sociais (online), 91/2010. Disponivel em: http://rccs.revues.org/4185

STILGOE, J. Citizen Scientists: reconnecting science with civil society, Demos, London, U.K, 2009. https://www.demos.co.uk/files/Citizen_Scientists_-_web.pdf

ZOONEN, Lisbet van. I-Pistemology: changing truth claims in popular and political culture. European Journal of Communication, 2012, 27:56. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0267323112438808

http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/announcement/view/25

[en] CALL FOR PAPERS Liinc em Revista: “Citizen Science and Citizen Labs”
[pt] CHAMADA da Liinc em Revista: “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”
[es] LLAMADA DE ARTÍCULOS Liinc em Revista: “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”

——–

[en] CALL FOR PAPERS Liinc em Revista: “Citizen Science and Citizen Labs”

Liinc em Revista is inviting submission of articles, subject to
double-blind evaluation, for publication in Vol. 13, n. 1 (May 2017). We
accept unpublished articles in Portuguese, Spanish and English.

This issue will present a dossier on “Citizen Science and Citizen Labs”,
organized by Guest Editors Henrique Parra (Unifesp, São Paulo), Mariano
Fressoli (Cenit, Buenos Aires) and Antonio Lafuente (CSIC, Madri),
within the theme proposed below.

Social studies of science and technology have observed in the last few
years the emergence of multiple practices and alternative spaces of
knowledge production, redesigning identities and frontiers between
scientists and a concerned public, between the scientific laboratory and
the citizen laboratory.

Inspired by the more critical tendencies of collaborative science and
research “in the wild”, of open or citizen science, and by a tense
dialogue with the dynamics of biopolitical government and of
commodification of knowledge, there are new cognitive and political
actors whose practices we wish to investigate.

*Contributions to this dossier may include topics such as:
*Open science, citizen science and “common” science
*Science and the production of the common
*Communities of practice, epistemic communities, and counter-expertise
*Citizen labs and political experimentation
*Fablabs, hackerspaces, and the maker movement
*Open science and grassroots innovation movements
*Production of counter-hegemonic scientific knowledge and
technological appropriation
*Protocols, infrastructures, technologies and modes of organization
for open and collaborative production of knowledge.

The dossier will also include a section for texts recounting innovative
experiences within these topics.

First authors of the articles should have doctoral or master degrees.
This rule does not apply to accounts of experiences. Other guidelines
for authors can be found at:
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Apart from the dossier, we also accept articles and reviews on other
topics within the range of interest of Liinc em Revista.

PERIOD OF SUBMISSION: FROM SEPTEMBER 15, 2016 TO JANUARY 31, 2017 at
http://www.ibict.br/liinc

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[pt] CHAMADA da Liinc em Revista: “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”

A Liinc em Revista está aberta à submissão de artigos, para avaliação às
cegas por pares, para publicação no número 1, volume 13, de maio de
2017. Aceitam-se artigos originais em português, espanhol e inglês.

Esse número conterá o dossiê “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”,
organizado pelos professores Henrique Parra (Unifesp, São Paulo),
Mariano Fressoli (Cenit, Buenos Aires) e Antonio Lafuente (CSIC, Madri),
cuja ementa é a que segue.

Os estudos sociais em ciência e tecnologia têm observado, nos últimos
anos, a emergência de uma multiplicidade de práticas e espaços
alternativos de produção de conhecimento, recompondo as fronteiras e as
identidades entre cientistas experts e público engajado, entre o
laboratório científico e o laboratório cidadão. Inspiradas nas vertentes
mais críticas da pesquisa “selvagem” e colaborativa, da ciência aberta
ou cidadã, e num diálogo tenso com as dinâmicas do governo biopolítico e
da mercantilização do conhecimento, surgem atores cognitivos e políticos
cujas práticas interessa-nos investigar.
As contribuições ao dossiê poderão incluir temas como:
*Ciência aberta, ciência cidadã e ciência comum
*Ciência e produção do comum
*Comunidades de práticas, comunidades epistêmicas e contra-expertise
*Laboratórios cidadãos e experimentação política
*Fablabs, hackerspaces, movimento maker
*Ciência aberta e movimentos de inovação “na base” (grassroots
innovation movements)
*Produção de conhecimento científico contra-hegemônico e apropriação
tecnológica
*Protocolos, infraestruturas, tecnologias e modos de organização
para a produção aberta e colaborativa de conhecimentos.

O dossiê incluirá também uma seção com relatos de experiências
inovadoras nos temas propostos.

Nos artigos, o primeiro autor deverá ter preferencialmente titulação
acadêmica de Doutor e não poderá ter titulação inferior à de Mestre. Nos
relatos de experiências inovadoras não há titulação mínima. Demais
regras para submissão encontram-se em
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Além do dossiê, a Revista está aberta à submissão de artigos e resenhas
sobre outros temas em seu escopo de reflexão, conforme suas normas.

Prazo de submissão: DE 15 DE SETEMBRO DE 2016 ATÉ 31 DE JANEIRO DE 2017,
pelo endereço http://www.ibict.br/liinc

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[es] LLAMADA DE ARTÍCULOS Liinc em Revista: “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”

Dicho número contará con un dossier sobre “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”, organizado por los profesores Henrique Parra
(Unifesp), Mariano Fressoli (Cenit, Buenos Aires) y Antonio Lafuente
(CSIC, Madrid).

En los últimos años, los estudios sociales de la ciencia y la tecnología
permiten observar la emergencia de una multiplicidad de prácticas y
espacios alternativos de producción de conocimiento. Estos espacios
redefinen las fronteras e identidades entre científicos expertos y
público comprometido, y entre el laboratorio científico y el laboratorio
ciudadano. Inspiradas en las vertientes más críticas de la investigación
“salvaje” y colaborativa, de la ciencia abierta y/o ciudadana, y en un
dialogo tenso con las dinámicas de gobierno biopolítico y de la
mercantilización del conocimiento, surgen actores cognitivos y políticos
cuyas prácticas interesa investigar.

Las contribuciones podrán incluir los siguientes temas:

*Ciencia abierta, ciencia ciudadana y ciencia común
*Ciencia y producción de los comunes
*Comunidades de prácticas, comunidades epistémicas y experticias
alternativas
*Laboratorios ciudadanos y experimentación política
*Fablabs, hackerspaces y movimientos maker
*Ciencia abierta y movimientos de innovación de base (grassroots
innovation movements)
*Producción de conocimiento científico contra-hegemónico y
apropiación tecnológica
*Protocolos, infraestructuras, tecnologías y modos de organización
para la producción abierta y colaborativa de conocimientos

El dossier incluirá también una sección de crónicas de experiencias
innovadoras sobre los temas propuestos.

Para la presentación de artículos, se requiere que el primer autor posea
al menos título de doctor (preferencialmente) o maestría. Mientras que
para la presentación de experiencias innovadoras no se requiere
titulación mínima. Para información sobre el resto de las reglas de
presentación de trabajos, por favor véase el siguiente link:
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Además del dossier, la Liinc em Revista está abierta a la presentación
de artículos y reseñas sobre otros temas en su espacio de reflexión, de
acuerdo a sus normas editoriales.

Plazo de presentación de los trabajos: 15 de septiembre de 2016 al 31 de
enero de 2017, siguiendo las instrucciones en el siguiente link:
http://www.ibict.br/liinc

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