Publico abaixo a primeira parte de um texto que está dividido em dois posts. O argumento que vou apresentar está assim dividido: 1. a universidade pública e o campo científico estão passando por profundas transformações e por uma crise de reconhecimento social e legitimidade política. Nesta crise, para além das dinâmicas externas (política, economia etc) ao campo universitário e científico  é necessário analisar as próprias dinâmicas e mutações do regime de produção e difusão de conhecimentos e suas práticas institucionais. 2. experiências de ciência cidadã, ciência aberta e laboratórios cidadãos podem contribuir para a criação de novas interações entre o campo científico e o mundo extra-acadêmico, criando relações sinérgicas entre sociedade-ciência-universidade.

 

foto: Daniel Leal-Olivas (AFP)

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Experiências de contraste nos ajudam a ter ideias inesperadas e a tornar visível dimensões não exploradas de problemas comuns. Nas últimas semanas acompanhei pela imprensa eventos preocupantes que afetam diretamente o financiamento, os direitos dos trabalhadores e a reputação das universidades públicas e ao sistema brasileiro de produção científica [1]. Ao mesmo tempo, na contra-corrente deste processo, participei de um seminário sobre Ciência Cidadã no Medialab-Prado [2] que reuniu uma diversidade de formas inventivas de interação entre a pesquisa científica e o mundo extra-científico.

 

Parte 1: mutações e crise da universidade e do campo científico

Além dos cortes no orçamento público federal destinados à Ciência, Tecnologia e Inovação, e da drástica redução de recursos para as universidades públicas federais, acompanhamos neste ano uma investida do judiciário, polícia e mídia contra universidades brasileiras de reconhecida reputação. Reitores, professores ou técnicos sofreram com o abuso da aplicação de medidas coercitivas autorizadas pela justiça e realizadas de forma espetacular pela polícia federal, ferindo direitos fundamentais de um regime democrático. No momento atual, não paramos de nos surpreender com as novas bordas de aplicação da nossa democracia autoritária, onde os mecanismos do estado de exceção nunca deixaram de operar (veja o trabalho de Edson Teles).

Neste mesmo ano, editoriais de grandes jornais retomam seu habitual argumento contra o financiamento público e pela cobrança de mensalidades nas universidades públicas brasileiras. Mais recentemente, um relatório do Banco Mundial (cuja qualidade metodológica da investigação foi amplamente questionada – veja artigo de Tatiana Roque e Hedibert Lopes) adiciona mais elementos na disputa discursiva e política sobre o futuro do ensino superior brasileiro. Nas universidades privadas observamos ainda a tentativa de aplicação da nova lei trabalhista para realizar demissões em massa e para em seguir fazer novas contratações precárias. Em algumas instituições o número de professores demitidos seria superior a 1000 docentes.

O que mais impressiona neste período é a intensidade e a velocidade em que o desmonte é feito: “o golpe vem a galope” (aqui também). Diferentes processos que afetam o campo científico e o ensino público superior, independente de uma causalidade coordenada ou não, acabam por gerar efeitos de reforço mútuo no atual contexto. Isso é suficiente para aumentar nossa preocupação. A situação vivida pela UERJ é um duplo escândalo: o abandono do governo de uma importante instituição de ensino e pesquisa, e a frágil ação política e solidária do meio acadêmico no apoio à luta dos professores, funcionários e estudantes.

Cortes nos investimentos em ciência e educação indicam mudanças nas estratégicas de desenvolvimento nacional, nas políticas de expansão do ensino superior e de inclusão de novos estudantes, mas também refletem o resultado de uma forte disputa sobre o mercado do ensino superior, que no Brasil representa um recurso com elevado potencial de exploração econômica.

Mas há outros processos em curso. Não podemos ignorar que as dinâmicas de produção, acesso e apropriação da informação e do conhecimento transformaram-se radicalmente nas últimas décadas, assim como a interpenetração entre ciência, tecnologia e economia. Há mudanças na centralidade, no regime de autoridade do conhecimento científico e no relativo monopólio sobre a produção e difusão de determinados conhecimentos que antes eram de quase exclusividade universitária. Hoje, deparamo-nos com novas formas de certificação e de validação dos saberes, com a emergência de contra-expertises, expansão dos movimentos de acesso aberto ao conhecimento científico e multiplicam-se os atores cognitivos relevantes que disputam a interpretação do “real e verdadeiro”. Observamos novas dinâmicas de corporatização e expansão dos regimes de propriedade intelectual sobre a pesquisa científica, crescimento do ensino à distância, surgimento de institutos de formação superior criados por empresas privadas que demandam profissionais com conhecimentos específicos, e também o crescimento das grandes corporações transnacionais e redes de ensino superior privado. Expansão do acesso à universidade publica no Brasil, com novos públicos adentrando o ensino superior, mas também a ampliação do ensino superior privado mediante políticas de subsídio e financiamento para as universidades e estudantes. Em resumo, são muitas as transformações estruturais nesta área.

Essas transformações infraestruturais relacionam-se também a mudanças radicais na forma como organizamos, classificamos e disponibilizamos o acervo de conhecimento produzido. As formas de armazenamento, indexação, circulação e acesso são muito distintas, dando forma a novas políticas e economias da informação, do conhecimento e da memória. O lugar ocupado pelas universidades, escolas, arquivos, bibliotecas, museus, centros de pesquisa e memória estão em plena mutação.

Nesses movimentos tectônicos, sobre as quais as universidades se equilibram, as instituições de ensino superior brasileiras parecem não gozar do reconhecimento social e da legitimidade política que corresponderia às suas realizações na pesquisa e na formação de milhares de estudantes e cientistas. Este problema não é especifico do Brasil.

Mesmo em algumas sociedades onde a cultura científica tem maior presença e capilaridade social, os diversos atores que compõem o campo científico e universitário tem tido dificuldades para se organizar politicamente e mobilizar a opinião pública para impedir os cortes no financiamento e o processo de desmonte dos sistemas nacionais de ensino e pesquisa. Limitação similar se manifesta na dificuldade para implementar nas políticas públicas alguns consensos científicos (sempre provisórios) que apontam para outros modelos de desenvolvimento. Basta pensar na política ambiental, saúde coletiva, política urbana, segurança alimentar etc.

A emergência de campanhas como a “Marcha pela Ciência” nos Estados Unidos e no Brasil é um exemplo dessas lutas reativas. No caso da edição brasileira de 2017 o engajamento de organizações científicas, pesquisadores e professores universitários foi muito pequeno e sua repercussão política foi ínfima. As razões para essa desmobilização interna ao campo e para a dificuldade de sensibilização dos públicos concernidos são várias.

Para superação desses problemas não é suficiente que a universidade e seus múltiplos atores olhem apenas para as dinâmicas externas ao seu campo e suas instituições. Insistir em teses conspiratórias ou excessivamente ideológicas que tendem a criar uma narrativa coerente onde a universidade está colocada no centro passivo de um plano de ataque é insuficiente. Equivoca-se também ao dar unidade e coerência a uma arena de conflitos que é muito complexa. Mas o maior problema, nessa perspectiva, é ignorar a forma como a própria dinâmica institucional, nossas práticas científicas e acadêmicas, as dinâmicas de produção, formação e difusão do conhecimentos participam da construção dessas transformações e dos problemas descritos. Em suma, é hora de habitarmos este problema e fazê-lo nosso também.

Que relações podemos estabelecer entre a crescente institucionalização e profissionalização do campo científico e do ensino superior com as dinâmicas que fortalecem ou enfraquecem o reconhecimento social e a legitimidade da ciência e do ensino superior?

Foi graças à construção de uma autonomia (sempre relativa) do campo científico e universitário que obtivemos o desenvolvimento de muitas áreas do conhecimento, novas ciências, tecnologias e práticas em diversos campos da vida. Ao mesmo tempo, em que medida este mesmo processo compõe uma arquitetura que produz formas de relação instrumental ou subordinada com o mundo extra-acadêmico (numa via de mão dupla) e dificulta a possibilidade de trocas sinérgicas entre ciência, universidade e sociedade? Que dinâmicas institucionais, que formas de produção de conhecimento e que modos de relação podemos fomentar para transformar essa situação atual?

Não se trata de tentar restabelecer a centralidade ou exclusividade da universidade sobre a produção e difusão de determinados saberes, ou mesmo de reafirmar uma certa ideia de autonomia do campo (científico e universitário). Afinal, foi justamente a partir deste desenho que acompanhamos a corporatização-privatização do conhecimento, a hegemonia da tecnociência, o enfraquecimento de algumas áreas no conhecimento consideradas inúteis ao desenvolvimento econômico, a perda de relevância e influência política da ciência no debate político e a penetração da lógica competitiva e utilitária em quase todas nossas práticas de conhecer. Não é coincidência que esta dinâmica produza também um modo de ser professor, estudante e pesquisador que hoje concentra elevados percentuais de problemas de saúde mental.

Necessitamos de outros sentidos para a experiência universitária que afirmem sua especificidade. Habitar a crise que vivemos e produzimos exige que pensemos mais em termos de interdependência entre diferentes campos sociais, práticas e modos de conhecer. Como fazer conviver uma ciência pública com uma ciência comum? Como fazer cohabitar um conhecimento “para todos” e um conhecer “entre todos”?

PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Os post publicados estão todos disponíveis neste link: https://pimentalab.milharal.org/category/diario-madrid/

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