Tudo o que é sólido é digital: trabalho, capitalismo de plataforma e os limites das Vilas de Potemkim

por Bruno M. Cuer

Tentativa inicial

Este ensaio nasce a partir de uma reflexão suscitada pelo curso “Tecnopolíticas: ciência e tecnologia na construção de mundos” oferecida no âmbito do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de São Paulo. Ao longo do texto, dividido em cinco partes, tento associar no item I. “As Vilas de Potemkim”, a imagem presente na obra do fotógrafo austríaco Gregor Sailler, como percurso interpretativo sobre o digital. Nesse caminho, destaco no item II. “Trebor Scholz e uma internet mais humanizada” a questão da plataformização através do texto Capitalismo de Plataforma (2017). Ao abordar Scholz, busco relacionar a força de trabalho digitalizada à sociedade do cansaço e também à perspectiva pessimista de Byung-Chul Han (2010) em artigo publicado na revista Der Spiegel em 2014, que de algum modo central na discussão proposta por Scholz. Mais adiante, no item III. “A dinâmica do mercado global em Aaron Benanav” comparo a perspectiva do trabalho no capitalismo de plataforma, em dois artigos publicados por Aaron Benanav (2019) na New Left Review sobre a automação e o futuro do trabalho. Tento enfatizar, possibilidades de resistência frente à produção de discursos de automação total, isso ao colocar Benenev em diálogo com Scholz. Por último, no item IV. “Questões da pós-automação em Adrian Smith & Mariano Fressoli”, tento localizar tanto a perspectiva de Scholz quanto a de Benanav a partir do debate sobre a pós-automação como futuro e imaginário, na proposta de Adrian & Fressolli (2019), incluindo notas da apresentação de Adrian Smith para a disciplina em 27 de abril de 2021. No item V. “Elementos finais” levanto questões suscitadas a partir dessas leituras.

I. As vilas de Potemkim

Imagem: The Potemkim Village. Foto de Gregor Sailler, disponível em: https://www.gregorsailer.com/The-Potemkin-Village

A imagem acima está relacionada ao projeto do fotógrafo austríaco Gregor Sailler. Em 2017, Sailler fotografou o fenômeno das “Aldeias de Potemkim” pelo mundo1. Para apresentar a lógica das Vilas de Potemkim, imaginemos um possível transeunte localizado nesta espécie de corredor que se forma em meio às fachadas apoiadas sobre a neve. Essas fachadas são sustentadas por estruturas de madeira, tal como é possível perceber pelo ângulo da fotografia.

Do ponto de vista deste observador imaginário, seria impossível a principio, decifrar outros planos atrás das fachadas móveis. A perspectiva tomada do lugar de quem vê, deste espaço que chamaremos de corredor, criam possibilidades. Uma das possibilidades seria, por exemplo, da existência de uma vila de casas distribuídas de forma contígua sobre o espaço. Outra possibilidade viável seria a de que pessoas habitariam essas casas, de modo que o lugarejo perdido em meio à neve se tornaria espaço, já que supostamente habitado e revestido de imaginários produzidos pela subjetividade de seus habitantes.

Se continuamos o exercício, poderíamos ir além e perguntar: quem seriam os habitantes? O importante, no limite desse exercício, é perceber quantas imagens evocam possibilidades imaginativas a partir dessa instigante fotografia de Sailler.

II. Trebor Scholz e uma internet mais humanizada

Esse exercício introdutório de leitura – um pouco carregado nas tintas, isso é bem verdade, propõe exatamente resgatar a fina ironia de Trebor Scholz (2017) sobre a “economia de compartilhamento”. Existe uma energia argumentativa no texto de Scholz que nasce da mecânica dialética que antepõe os antagonismos inscritos entre as ideias de “compartilhamento” e “oligopólio”. O resultado do choque? “A Vila de Potemkim” (Scholz, 2017, p.19).

Esta imagem evocada pelo autor, opera epistemologicamente como marca de divisão e continuidade entre os mundos do real e do imaginário, na medida em que engendra razão explicativa de um continuum entre texto e imagem. Podemos considerar com ponto de partida, que a economia on demand produz suas Vilas de Potemkim nas contingências da financeirização, onde empresas operam “seu carro, seu apartamento, suas emoções (…) seu tempo” (Scholz, 2017, p.19). Ao mesmo tempo em que a comércio global se torna o suporte da nossa vida cotidiana, tudo é naturalizado/normalizado. Trata-se da regulação da desregulação que sustenta esse suporte – voltando á imagem, observemos as estruturas que funcionam com apoio às fachadas na fotografia de Sailler. Nas continuidades entre texto e imagem, percebemos a aparência de normalidade ou “sedução”, que Scholz mobiliza a partir de Byung-Chul Han (2014; 2010) em sua crítica ao sistema neoliberal. Não existe ponto de fuga. Trata-se, pois da impossibilidade de revolução, recuperada do artigo de Sascha Lobo (2014) sobre o “poder de submissão” 2 na economia de plataforma, pela “transformação dos sistemas de economia em capitalismo de plataforma e a falta de preparo da política e da sociedade” 3.

Enraizado nesse descompasso entre capitalismo de plataforma e organização político-social como destacado por Lobo, Scholz atualiza o conflito capital e trabalho, sobrepondo a verticalidade do mundo digital e seus interesses financeiros, cuja logica de interação é horizontalizada. Assim, a regulação-desregulação do monopólio gera novos freios e contrapesos nessa espécie de autorregulação da economia de compartilhamento. É o corpo cansado que serve de sustentáculo à fachada desse sistema, ou dessa Vila de Potemkim – assim, Scholz trás Byung-Chul Han (2010) novamente à tona, a partir da “sociedade do cansaço” ou de uma ilusão de liberdade que dá lugar à “ansiedade, autoexploração e depressão” (Scholz, p. 22). São formas extremas de exploração que se apropriam de uma “Massa de corpos” que escondida está submetida aos softwares “proprietários” (Scholz, p. 24).

Há alternativa nesse sentido? A capacidade distributiva dos recursos tecnológicos seria mais bem acabada, no trabalho de Scholz, dentro de um modelo humanista. Esse modelo pressupõe uma internet centrada nas pessoas e por isso, fundamentalmente, respaldada pela regulação jurídica capaz de assegurar transparência e orientar as lógicas do trabalho.

III. A dinâmica do mercado global em Aaron Benanav

Aaron Benanav (2019) aprofunda essa discussão a partir da crítica à produção do discurso determinista de ordem político-tecnológico-social sobre a não necessidade do trabalho humano – ou sua substituição radical por robôs. À crítica, estende-se a pergunta: de que modo estabilizar a equação entre oferta e demanda por trabalho em uma economia automatizada? É interessante como Benanav apresenta a pergunta já como uma falsa questão, ao apontar os motivos pelos quais a ideia de que o próprio capitalismo teria se inviabilizado com o futuro digital, não é pertinente frente às dinâmicas do sistema produtivo em escala global. Trata-se de uma ilusão, tal como a visão parcial produzida pelo observador dentro uma Vila de Potemkim, muito embora o autor não utilize essa imagem.

A virada tecnológica e a visão catastrófica do desemprego massa são, em Benanav, nada mais que o produto de um descompasso entre a capacidade de gerar empregos e o fracasso da economia global. A escassez da demanda por mão de obra está atrelada à mudança técnica que, associada à estagnação econômica, produz – e aqui é possível notar uma contraposição ao “pessimismo” Scholz e Byung-Chul Han – um futuro-possibilidade de “luta ao invés” de meras soluções administrativas como renda-básica universal, argumento este que é basilar em Benanav, pela recusa às explicações essencialmente tecnológicas (Benanav, 2019, p.21).

IV. Questões da pós-automação em Adrian Smith & Mariano Fressoli

Se de um lado as considerações de Scholz sobre o capitalismo de plataforma e as possibilidades de cooperação são colocadas em exame, conquantoas tecnologias de plataforma ampliem a distância entre trabalhador e o resultado-produto de sua atividade (Scholz, 2017, p. 23), e, do outro, essa ampliação é retomada em Benanav em termos de oposição entre infraestrutura tecnológico-científica e vidas humanas, esse espaço abre flanco para formas de resistência (Benanav, 2019, p.143), e ambos os argumentos são retomados por Smith & Fressoli (2021).

Centrados em uma crítica sobre o os determinismos tecnológicos, os argumentos mobilizados ao redor das políticas de pós-automatização são pluridimensionais, já que implicam maiores: vigilância, controle, disciplina e, no limite, mudanças dos processos morais 4. A pós-automação parte de um processo amplo de distribuição de recursos tecnológicos, cruzadas por protagonismos possíveis de futuro, que marcam continuidades e rupturas entre a quarta-revolução industrial, comunismo de luxo e pós-automação. Essas correlações são marcadas por forças de descentralização de futuro, em que os cidadãos podem se organizar-cooperar em plataformas digitais, ou, em tese, menos verticais em termos de controle.

Do ponto de vista estratégico, os novos padrões de uso dos recursos materiais e ecológicos – ou objetos5, são/serão, nessa perspectiva, mais abertos e horizontalizados, sobretudo frente à abertura dos sistemas cyber-físicos, que marcam as bases materiais da quarta revolução-industrial, em direção a modelos de produção-consumo criativos. Em termos organizacionais, as redes – cooperação e integração – formadas no capitalismo de plataforma e nos limites da quarta revolução industrial, podem extrapolar, na pós-automação, as formas de organizações, o que mais uma vez pressupõe horizontalidade vs. verticalidade.

Contudo, uma perspectiva radical se define em termos de temporalidade frente às tentativas de controle sobre as dimensões: ecológica, de remuneração e de bem-estar social. A “adaptabilidade” é posta como critério de apropriação do imaginário sociotécnico como perspectiva de futuro. Para tanto, Smith & Fresoli apontam, no contexto da pós-automação, que lógicas se autonomizam em relação às tentativas de controle total. São formas de organização e cooperação colocadas em modos de subversão, e que abrem fronteiras possíveis de futuro, até certo ponto, coadunadas à perspectiva de Scholz, de uma internet mais humana e que lança os critérios da pós-automação 6.

V. Elementos finais

Retomo aqui, o modo como a imagem da Vila de Pontemkim era evocada pra descrever a tecnologia em Scholz, bem como a questão humana associada ao debate sobre o capitalismo de plataforma. Se os modos de cooperação são facilitados pela interface digital, o que recria perspectiva de futuro pós-automação em Smith & Fresoli, acredito haver espaço para debater certos padrões de sensibilidade neste contexto, em que as articulações do capital financeiro também são dinâmicas e se organizam e reorganizam de modo constante. Por exemplo, a própria questão da emergência de influenciadores digitais que, engajados às causas dos movimentos sociais, terminam por embalar certas demandas às lógicas de produção e trabalho das novas tecnologias de comunicação. Em outro sentido, como pensar esses pontos de resistência em países do sul-global, onde, em geral, existe menor regulação tanto dos limites das tecnologias como, principalmente, das leis trabalhistas? Quais as especificidades das nossas Vilas de Potemkim?

Referências

BENANAV, A. Automation and the Future of Work—2. New Left Review, 2019, pp. 117–146. Disponível em: http://acdc2007.free.fr/benanav19.pdf acesso em 04 de abr. de 2021.

HAN, B.C. “Warum heute keine Revolution möglich ist?” In: Süddeutsche Zeitung. 03 de set. De 2014. Diponível em: https://www.sueddeutsche.de/politik/neoliberales-herrschaftssystem-warum-heute-keine-revolution-moeglich-ist-1.2110256 acesso em 15 de abril de 2021.

______. Müdigkeitsgesellschaft. Berlin: Matthes & Seitz, 2010.

LOBO, S. Auf dem Weg in die Dumpinghölle. In: Spiegel Netzwelt. 03 de set. De 2014. Disponível em: https://www.spiegel.de/netzwelt/netzpolitik/sascha-lobo-sharing-economy-wie-bei-uber-ist-plattform-kapitalismus-a-989584.html acesso em 17 de abril de 2021.

SCHOLZ, T. Capitalismo de Plataforma. Editora Elefante, Autonomia Literária & Fundação Rosa Luxemburgo, 2017.

Disponível em: https://elefanteeditora.com.br/produto/cooperativismo-de-plataforma/ acesso em 12 de abr. de 2021.

SMITH, A. & FRESSOLI, M. Post-Automation, 2021 (artigo no prelo).

1 Uma amostra do livro “The Potemkin Village” pode ser encontrada neste link https://vimeo.com/242923100

A descrição do projeto no site do próprio fotógrafo neste link https://www.gregorsailer.com/Books.

2unterwerfende Macht” – em tradução livre. HAN, B.C. 2014.

3 No original: “Es ist die Transformation des digitalen Wirtschaftssystems zum Plattform-Kapitalismus und die mangelnde Vorbereitung von Politik und Gesellschaft darauf”. LOBO, S. Auf dem Weg in die Dumpinghölle. In: Spiegel Netzwelt. 03 de set. De 2014. Disponível em: https://www.spiegel.de/netzwelt/netzpolitik/sascha-lobo-sharing-economy-wie-bei-uber-ist-plattform-kapitalismus-a-989584.html acesso em 17 de abril de 2021.

4 Notas da apresentação de Adrian Smith na disciplina “Tecnopolíticas: ciência e tecnologia na construção de mundos” em 17 de abril de 2021 na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp.

5 Notas da apresentação de Adrian Smith em 17 de abril de 2021 na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp.

6  Notas da apresentação de Adrian Smith em 17 de abril de 2021 na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp.

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