Notas sobre tecnologia e política

por: Eduardo Marangoni Canesin

A tecnologia (com suas técnicas e objetos técnicos) não é má nem boa, pois avaliá-la desse modo seria uma simplificação binária, que perde muito da complexidade imanente à discussão. De igual modo, não podemos dizer que seja neutra (já que ela não é), para não cairmos em outra simplificação binária: em vez do binarismo bom-mau, cairíamos no binarismo valor-neutralidade. Seria dar um passo para trás e se afastar do primeiro binarismo, mas ainda estaríamos presos em uma visão dicotômica. Interpretar o tema em toda sua complexidade exige um distanciamento maior em relação a essas visões.

Devemos ter em vista, antes de mais nada, que a tecnologia (ou “tecnologias”, no plural) surge(m) em um contexto social, criada(s) a partir das necessidades e escolhas desse contexto. Dito de outro modo, o surgimento da tecnologia não é algo determinista, isto é, seguindo uma evolução linear e única à qual só caberia aos indivíduos e à sociedade se adaptar. Uma vez surgida em sua manifestação específica, por sua vez, não devemos aceitar uma ideia de distopismo tecnológico, como se nada pudesse ser feito para alterar seu sentido.

Aliás, vale ter em vista que o próprio capitalismo aparece eivado, muitas vezes, dessa característica determinista ou distópica: é o fim da história, o desenvolvimento ao qual a civilização chegaria e não há nada para além dele. Sintomático disso, como apresenta Silvia Viana em seu Rituais de Sofrimento, é o fato de que, nas produções da Indústria Cultural, é muito mais fácil vermos um contexto pós-apocalíptico no qual as mesmas dinâmicas predatórias do capitalismo se perpetuam do que uma realidade de superação do capital.

Além dessa dimensão contextual que é tantas vezes negligenciada, salta aos olhos que os próprios objetos técnicos podem ter usos inerentes a si, exigindo uma determinada aplicação (como mostra Winner). Seria uma técnica autoritária, segundo a clássica definição de Mumford, que elimina a personalidade humana, ignora o processo histórico, abusa do papel da inteligência abstrata e faz da finalidade de sua existência o controle sobre a natureza física e, por último, do próprio homem.

Esses usos inerentes ao objeto, todavia, não invalidam a dimensão do contexto: foi o contexto social e político que permitiu sua existência e é ele que permite sua continuidade, em vez das alternativas e outras opções que poderiam ser pensadas – e pensadas segundo uma lógica e processo político, já que a dimensão da técnica não está apartada do resto da sociedade.

Tendo isso em vista e levando em consideração onde estamos enquanto sociedade – no meio de uma pandemia, com o meio-ambiente sendo destruído incessantemente e com o mundo do trabalho cada vez mais automatizado (fazendo com que tantos fiquem sem emprego e sem amparo social), cabe-nos a indagação suscitada por Rob Wallace: como foi possível que tenhamos deixado a situação chegar a esse ponto?

Seria possível que a pulsão de morte tenha levado tantos e tantos a agir em prol de uma necropolítica negacionista e que valoriza o tecnológico em detrimento do humano em busca do lucro absoluto, ao mesmo tempo que leva outros à apatia? Ou estaria em jogo um mecanismo de denegação que faz com que não consigamos perceber a gravidade das coisas, sua causalidade ou a agência que poderíamos ter?

Uma possível explicação para estarmos onde estamos alinha uma constatação de Feenberg com um diagnóstico de Mumford: em primeiro lugar, os líderes dos sistemas técnicos (militares, industriais, engenheiros etc.) possuem mais poder nas sociedades modernas do que a maioria dos indivíduos unidos, já que “a tecnologia é uma das maiores fontes de poder nas sociedades modernas”. Assim, o desenvolvimento tecnológico seguiria uma trilha voltada para a dominação e acumulação por conta dos direcionamentos dados por esses atores.

A aceitação (ou resignação) popular ante tal percurso de desenvolvimento se deve a um “suborno”, o do acesso a bens materiais e serviços produzidos por esse sistema, no qual uma aparente abundância serve como justificativa para ratificar o pacto autoritário que rege o uso atual da técnica – ainda que essa abundância exija que se aceite aquilo que é oferecido, na quantidade que é oferecido, segundo sua homogeneização e nivelação.

Entender como as coisas são não significa, contudo, ter de aceitá-las como inevitáveis – do contrário, cairíamos uma vez mais ou no determinismo ou no distopismo tecnológico. Uma possível resposta para o problema seria a racionalização subversiva de que nos fala Feenberg. Nela, há a rejeição da dicotomia entre a racionalidade que leva inevitavelmente à jaula de ferro da burocracia weberiana e a irracionalidade que se poderia travestir de um reencantamento do mundo.

Com efeito, a racionalização subversiva pressupõe que se opor à atual conjuntura do desenvolvimento tecnológico não implica ter de viver nas cavernas ou no campo, como um Walden pós-industrrial: significa buscar uma nova sociedade tecnológica, que pode apoiar outros valores que não o lucro e a dominação (como a liberdade ou individualidade). Basicamente, significa democratizar a tecnologia, permitindo a participação e a responsabilidade da ação.

É evidente que não temos condições de dizer como se daria essa democratização da tecnologia e racionalidade subversiva (por falta de espaço e, sobretudo, capacidade para tanto), mas nosso objetivo aqui é outro: pretendemos mostrar que há alternativas para o desenvolvimento tecnológico que levem em conta o humano e o ambiente. Mesmo na solução de demandas, sempre é possível pensar em mais de uma saída, desde que não partamos do princípio que nossa bússola só possui o norte do lucro e da dominação.

Justamente por haver alternativas a indagação de Rob Wallace faz sentido: se estivéssemos presos em um determinismo tecnológico, não teríamos deixado a situação chegar onde chegou, apenas teríamos sido conduzidos ao único caminho a ser percorrido. Como há alternativas, somos todos partícipes de nosso destino enquanto espécie e do destino do planeta, não só receptores dos desfechos vindos de uma outra esfera, superior a nós.

A criação de uma nova esfera pública, de que nos fala Feenberg, que internalize custos não contabilizados, é um passo nesse caminho que envolve a participação dos indivíduos, a tomada de posições e a democratização não apenas do acesso, mas das decisões. Se, segundo Habermas, a esfera pública é o espaço em que o público discute mediante razões, que o seja segundo razões subversivas. Precisamos disso.

Referências:

FEENBERG, Andrew. (Cap.2) Racionalização Subversiva: Tecnologia, Poder e Democracia (p.105-128). In. A Teoria Crítica da Tecnologia de Feenberg. http://extensao.milharal.org/files/2013/06/Andrew-Feenberg-Livro-Coletanea.pdf

HABERMAS, Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: Editora da Unesp, 2014

MUMFORD, Lewis. Tecnicas Autoritarias y Democracias. Ciencia, Tecnología y Sustentabilidad. El Escorial, julio 2004 [1964]. Disponivel em: https://sociotecnica.files.wordpress.com/2013/09/dc05.pdf

VIANA, Silvia. Rituais de Sofrimento. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013

WALLACE, Rob. Planeta fazenda. Le Monde Diplomatique Brasil. <https://diplomatique.org.br/planeta-fazenda/> Acesso em: 11 de fevereiro de 2021.

WINNER, Langdon. Artefatos têm Política? (tradução Fernando Manso). “Do artifacts have politics?” In. The Whale and the Reactor: a search for limits in an Age of High Technology. Chicago: The University of Chicago Press, p.19-39. <http://pimentalab.milharal.org/files/2013/11/Langdon-Winner-Artefatos-tem-Politica.pdf>.

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