Entre Marx, Foucault e Deleuze – discussões em sala

O texto abaixo foi escrito para a lista de email de uma disciplina (Leituras do Fora) que oferecemos no semestre passado. No curso, parte da bibliografia tinha uma clara influência dos estudos de Foucault. Os debates em sala, frequentemente enveredavam por questões políticas e o referencial marxista era também sempre mobilizado para as discussões. Em uma das aulas surgiu um debate caloroso que ganhou um contorno polarizado entre alunos marxistas versus pós-estruturalistas. Após a aula, seguiu-se o debate em nossa lista eletrônica. Abaixo, reproduzo a msg que enviei a lista com algumas poucas alterações posteriores.

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Caros Colegas,

Fico contente com a discussão que está rolando na lista. Ótima oportunidade para aprofundarmos e seguirmos o debate para além da sala de aula. Peço desculpas antecipadas pela longa mensagem. Escrevi-a numa hora relâmpago de idéias, logo após intenso debate noutro contexto que eu estava.

Fiquei surpreso na última aula quando alguns colegas disseram que estavam sentindo falta do Marx em nossas leituras/discussões.

Em todo caso, recomendo uma olhada nos ultimos textos indicados (aqueles todos em espanhol). Dentre os autores trabalhados nesses textos, não é difícil constatar que a principal linha argumentativa é de inspiração marxista. Os links compartilhados e a discussão introduzida por A.Corsani por exemplo, já apontam para os esforços recentes empreendidos por militantes e teóricos da esquerda (tanto do marxismo-autonomista italiano como do marxismo europeu-ocidental) de incorporar outras reflexões advindas das lutas sociais e da produção intelectual dos ultimos 30 anos. Mas enfim…talvez tenha passado desapercedido. Mas vamos ao que interessa.

Esta discussão chega em boa hora. Em diversos círculos onde acontecem debates político e intelectuais sobre o tema, há novos esforços dirigidos a aproximar as constribuições da teoria marxista às análises dos chamados pós-estruturalista. Em suma, como juntar, Marx-Deleuze? Do ponto de vista teórico, essas tensões são muito interessantes porque colocam em cheque as fronteiras do que entendemos como teoria social/ciência e ação política.

Em se tratando das ciências sociais é muito difícil – talvez possível apenas sob condições muito limitadas – dizer onde começa e termina cada uma dessas coisas (ciência X política). Por isso, mais do que neutralidade da ciência social, a partir de um certo momento nos anos 70 (em especial graças às contribuições da crítica feminista de esquerda) muitos dos chamados “universais” da ciência ocidental, passam a ser compreendidos como nem tão universais assim (parciais). As historiadoras e filósofas da ciência passam a argumentar a favor da “objetividade” e da “parcialidade” do conhecimento, ao invés de sua neutralidade. Ou seja, a ciência deve se preocupar, do ponto de vista metodológico, em produzir um conhecimento “objetivo” mediante o controle dos seus métodos e reconhecendo seu caráter parcial (quem faz ciência parte sempre de algum lugar…). Este debate (objetividade-neutralidade da ciência) continua sendo bem explorado na sociologia e antropologia da ciência, filosofia e história da ciência.

O debate que vocês lançaram pode abrigar ainda um outro relevo que julgo mais produtivo. Aqui, adentramos o campo da teoria do conhecimento, pois o que está em jogo é justamente as relações entre teoria social e o mundo real. Resumidamente, parte da teoria social moderna baseia-se na idéia da “totalidade” para interpretar e agir sobre o real; outros teóricos (não os chamarei de pós-modernos pois antes mesmo de surgir tão expressão de época já haviam teóricos que não analisavam o mundo com referência a uma totalidade exterior pré-constituída) buscam construir explicações do mundo sem partir ou construir uma totalidade explicativa. Chamemos essas últimas de perspectivas “parciais”, em oposição às perspectivas da “totalidade”.

Em se tratando da teoria social, um problema que sempre nos aflige enquanto cientistas sociais, sendo esta talvez uma das razões de uma certa insegurança epistemológica, é o fato de que o mundo social não é o mesmo para todas as pessoas. Mas atenção para não confundir tal parcialidade ao relativismo das perspectivas, são coisas bem diferentes. Cada teoria, cultura e instituições constrói um “mundo” diferente em que vivemos. Tal “realidade” não existe sem a mediação do nosso pensamento, da cultura e de nossas práticas sociais. Só para citar um exemplo: para um marxista as relações de produção funcionam de uma forma e produzem valor de determinada maneira, enquanto para um economista marginalista, aquela mesma relação de produção funciona de outra forma e produz valor de outra forma. Um marxista olha para o interior da fábrica e “vê” a mais-valia sendo produzida diante dos seus olhos. Mesmo objeto, realidades distintas. Cada modelo explicativo irá constituir um mundo diferente que explica de maneira diferente como as relações sociais ocorrem e como devem ser enfrentadas. No limite, a diferença implica em configurações políticas distintas do mundo, em valores e princípios distintos, e em formas de resolução também distintas (como alguém aqui na lista já apontou).

O que quero dizer com isso? Que não podemos deixar de perceber que toda teoria social produz um mundo real. Tomemos a citação precisa indicada pelo estudante M., quando Marx diz “O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preço, etc”…“O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e reprentação”. Tal trecho é fundamental para compreender os fundamentos epistemológicos de Marx em operação e sua idéia da totalidade: olha para a linha de produção da fábrica e não “vejo” a mais-valia (ela não “existe”, ainda que esteja lá); analiso essas relações de produção, sua história e ao fazer isso sou capaz de introduzir as relações daquela fábrica num todo maior produzido pela análise que elaboro do mundo (representação); olho novamente para a mesma linha de produção e “vejo” a mais-valia sendo produzida aí, diante dos meus olhos. É por isso que o “capital não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro”….são todas mediações do concreto-abstrato que passam a existir e a produzir um outro mundo (mediado) diante do mundo imediato percebido, que se torna um “outro” mundo de conflitos, expropriações, interesses diversos etc… O “concreto” do início da análise não é mesmo “concreto” do ponto de chegada.

As teorias de Marx são e foram importantes num duplo sentido: teórico e prático. No seu contexto de escrita Marx estava “criando” com todas as letras a “classe” operária. É um exemplo histórico fundamental de como o “real social” é este misto de empírico-subjetivo. Podemos chamar tal fenomeno também de “efeito da teoria”. Neste sentido, e esta é minha leitura parcial de Marx) não há “classes” sem “luta de classes”.

Por isso, a maneira como “nomeamos” as coisas é tão importante, pois os nomes (categorias do pensamento) tem o poder de contribuir (junto ao empírico) para a criação de outras divisões do mundo. Neste sentido, optar por um tipo de explicação teórica em detrimento de outra, certamente terá consequências sobre a maneira como pensamos a ação política no mundo. Mas enfim…tudo isso vocês já sabem das aulas de epistemologia, métodos e filosofia da ciência etc…Como não tive esses cursos levei um bocado de tempo para compreender isso!

Acho que a questão fica mais interessante quando nossas teorias começam a ter problema para explicar o que estamos observando, e também dificuldades para ajudar a orientar nossa prática política no mundo. Parece-me que nos ultimos anos, temos tido problemas para nos posicionarmos no mundo. Muitas coisas continuam iguais…outras tantas já mudaram de lugar. Por vezes é difícil saber como nossas ações participam de outros processos e dinâmicas mais amplos. O problema da “escala” da interpretação adquire outra importância. Por isso, vou retomar aqui um outro debate iniciado em sala porque ele nos toca justamente no limite dos nossos entendimentos sobre a teoria e a prática política (era sobre isso que eu queria escrever no início, mas desviei…).

Pensar as relações de trabalho, exploração, produção de valor e quem são os seus sujeitos (trabalhador, gerentes, proprietários, acionistas) numa fábrica taylorizada é uma coisa. Mas se formos pensar as relações sociais/trabalho no interior da universidade contemporânea, e a maneira como a própria universidade insere-se atualmente de maneira distinta no interior da relação sociedade-economia-educação, a situação é bem diferente. Surgem novas questões cuja explicação não é tão simples. Acho que precisamos pensar quais são as ferramentas teóricas que pretendemos utilizar em função do: problema que vamos abordar; da escala/escopo que pretendemos dar conta e das relações que pretendemos estabelecer entre os níveis micro-macro da análise; dos tipos de resultados que pretendemos alcançar/indicar com a reflexão (isso é parte do aprendizado metodológico da construção de projetos).

Acho que estamos diante de novas zonas cinzentas, zonas de indistinção que nos colocam diante de novos desafios práticos-teóricos-políticos. As definições que ocorrerão nessas zonas são de ordem política. Com isso quero dizer que a maneira como vamos dar novas respostas, como vamos fazer novas análises dos elementos que estamos observando e vivendo, poderá produzir novos sujeitos sociais e também novos modos de subjetivação. É este o problema enfrentado por aquela discussão que não chegamos a fazer sobre os “Intermitentes do Espetáculo” apresentada pelo texto da A.Corsani. A aliança entre os trabalhadores precários e os pesquisadores-teóricos buscou criar novas explicações para as relações de trabalho e produção de valor que também produzissem “novos” sujeitos (individuais e coletivos) no conflito. Neste sentido (e novamente esta é minha leitura), o valor (valor-trabalho) é sempre a expressão e a localização de um conflito. A questão central é saber localizar, identificar, territorializar onde está o conflito. A depender do local/processo que apontamos como produtor de valor, surge uma outra partilha do mundo, tendo em vista a constituiçao de uma nova totalidade (pelo menos do ponto de vista de uma teoria do conflito e do valor-trabalho marxista). A perspectiva dos pós-estruturalistas (em minha leitura) permitiria acrescentar um camada complementar de entendimento à formulação deste conflito, partindo de um ponto distinto (diversos das dinamicas imediatamente economicas) e sem mobilizar a priori a totalidade (do valor-trabalho) como princípio explicativo. Justamente por isso, as miradas de Foucault e Deleuze permitem que possamos perceber mecanismos outros de poder, estratificação e diferenciação na dinamica social que, quando observados sob a ótica da totalidade marxista, podem indicar novas dinâmicas de produção de valor na contemporaneidade.

Atualmente, tenho pensado que analisar a relação professor-aluno de uma perspectiva da economia política do conhecimento é um bom exercício para analisarmos as novas formas de trabalho, exploração e produção de valor que se expandiram graças à mediação digital em redes cibernéticas. Por exemplo, quando você está assistindo aula você está trabalhando? Ou ainda, quando você está navegando livremente na internet, vendo seus sites favoritos você está trabalhando? Sim ou não? De que trabalho estamos falando aqui?

 

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