Muitos de nós, pesquisadores, acadêmicos, cientistas profissionais e amadores, estamos lá e adoramos: Academia.edu. Tal plataforma se tornou rapidamente o equivalente profissional do nosso Facebook. E com o passar do tempo, as similaridades só crescem. Temos um feed, seguimos pessoas, recebemos sugestões interessantes de textos e sobre a produção de outras pessoas algoritmicamente selecionadas.

Sim, estou em ambos. E agora, organizando meu próprio êxodo. Neste processo, compartilho as razões, as informações coletadas e algumas alternativas que vou encontrando pelo caminho.

No final de 2016, para surpresa de alguns, Academia passou a cobrar uma pequena taxa para que os usuários possam acessar serviços diferenciados. Por exemplo, para saber quem está baixando seus arquivos. Antes disso, já havia introduzido publicidade em suas páginas.

A plataforma, apesar do domínio .EDU é, na realidade uma .COM, ou seja, uma empresa. E da mesma forma como o Facebook ela faz fortuna com seu banco de dados.

A depender do serviço que utilizo na rede acho razoável pagar pela sua utilização. Afinal, a questão de sustentabilidade econômica de iniciativas no mundo digital é absolutamente “material”. Neste ambiente, como disse alguém que já não me lembro, “quando o serviço é gratuito, o produto é você”.

Em se tratando de uma plataforma destinada a colocar em contato pesquisadores, armazenar a produção científica, e estimular a interação entre os usuários, devemos nos preocupar com a maneira como nossos dados e as nossas interações estão sendo geridas.

Entretanto, quando estamos num ambiente de propriedade corporativa não temos acesso nem aos próprios dados e metadados que produzimos, muito menos ao código dos algoritmos que passam a governar o que lemos, com quem somos colocados em contato, para quais congressos somos convidados e por aí vai. Integrando nossos dados com outros bancos de dados disponíveis no amplo mercado dos data-brokers, começamos a receber emails personalizados, etc. Agregando agora novas camadas de estratificação no acesso mediante cobrança por serviços, amplia-se também o fosso entre pesquisadores e comunidades científicas que estão em situação financeira muito distintas, aumentando também problemas de ordem geopolítica.

E agora, também está em curso uma disputa pelo mercado de indexadores, indicadores e métricas de reputação, orçado em muitos bilhões de dólares. Além das 4-5 grandes corporações que controlam o mercado editorial acadêmico, agora temos outras gigantes do mundo digital, como Google, disputando a indexação acadêmica e oferecendo novos indicadores de visibilidade (como o Google Schoolar). Academia.edu, da mesma forma, revela em suas propagandas como os cientistas podem usar as métricas oferecidas pela plataforma como indicadores de impacto que podem ser úteis em seus departamentos para a progressão na carreira.

E assim, voluntariamente, enamorados pelos pequenos benefícios que recebemos através da utilização dessas plataformas (são úteis e práticas, ajudam a ampliar a visibilidade do meu trabalho, tenho mais leitores e entro em contato com pessoas interessantes) vamos pouco a pouco produzindo um grande Leviatã.

Podemos investir nosso tempo em habitar outros ambientes que já existem. E se não são adequados, podemos rapidamente torná-los lugares mais interessantes para compartilhar nossos trabalhos. Para a livre produção de conhecimento científico, devemos ter pleno controle de nossos dados e metadados; as plataformas devem oferecer interoperabilidade com repositórios científicos institucionais; deve-se utilizar software livre para garantir a possibilidade de escrutínio público e científico dos sistemas de indexação e de produção de métricas, entre outras coisas.

A criação de uma comunidade acadêmica autônoma não pode funcionar como um condomínio de jardins murados, submetido a um sistema de decisão e regras absolutamente opacas, como no caso das plataformas corporativas.

E talvez, o mais difícil nisso tudo, seja tornar tangível os efeitos futuros da  governamentalidade algorítmica em curso sobre o ecossistema de produção de conhecimento científico. Como podemos desenvolver outras práticas sociais capazes de interrogar nosso modo de subjetivação, nossa servidão maquínica, nossa captura cotidiana provocada por esses dispositivos tão sedutores? Neste mundo cibernético somos totalmente livres para produzir silenciosamente nossa própria servidão.

O que fazer? Não sei, seguimos praticando e pesquisando! Escrevo nos sites/blogs que mantenho; faço uso de licenças autorais livres; deposito meus trabalhos em repositórios institucionais de livre acesso (open access); organizo parte de minhas atividades de ensino e pesquisa na Wikiversity.org ; recuso escrever e fazer pareceres para periódicos que não são de acesso livre; e agora estou organizando meu êxodo para fora do Facebook e da Academia.edu.

Uma coisa fácil de se fazer, e isso poderia ser uma exigência institucional (ao menos nas universidades públicas), é o depósito de nossas publicações nos repositórios da instituição. A Unifesp, onde trabalho, está implantando o seu: http://repositorio.unifesp.br . Vou começar a colocar minhas publicações neste repositório. Ele gera links persistentes que podem ser utilizados para divulgação em outras plataformas.

Ao invés da Academia.edu vou começar a utilizar o http://zenodo.org e testar o https://www.scienceopen.com/ Agradeço se tiverem outras sugestões. Por fim, listei abaixo, alguns artigos que li nas últimas semanas sobre o Academia.edu. Recomendo a leitura para ajudar no debate.

Evento: Por que não estamos boicotando Academia.edu?
http://disruptivemedia.org.uk/why-are-we-not-boycotting-academia-edu/

Um relato sobre o evento:
https://thewinnower.com/papers/5014-event-report-why-are-we-not-boycotting-academia-edu

Análise crítica sobre o Academia.edu:
http://www.plannedobsolescence.net/academia-not-edu/

Outra análise sobre ResearchGate e Academia.edu
http://blogs.discovermagazine.com/crux/2017/02/01/who-isnt-profiting-off-the-backs-of-researchers/#.WJsJr7Mtjrc

Tutorial e software para migrar seu conteúdo do Academia.edu para o ZENODO.org
http://numismatics.org/pocketchange/open-access-academia-edu-and-why-im-all-in-on-zenodo-org/