É com alegria que anuncio que está no ar o Dossie Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos, na revista LIINC do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.

O dossie resulta de um intenso trabalho coletivo de meses. Realizei a coordenação editorial junto com Mariano Fressoli (Conicet – Cenit – Buenos Aires) e Antonio Lafuente (CSIC – Madrid). Contamos com o apoio da Sarita Albagli (IBICT) e Maria Lucia Novo Maciel (UFRJ) responsáveis pela LIINC, e com o trabalho cuidadoso da equipe de editoração, revisão e tradução (Christine Alvarez, Benjamin Albagli e Helena Faia). A participação de inúmeros pareceristas (no mínimo dois por artigo) também foi essencial para a qualidade do trabalho (estão todos listados nos agradecimentos do dossie).

Publicamos uma bela e grande seleção de 19 trabalhos, com textos provenientes do Brasil, América Latina e do Norte, Europa e África, em português, espanhol e inglês. Neste percurso de edição e com os pareceres que foram chegando, acabamos organizando os textos aprovados e revistos em dois grandes blocos: artigos (enfase mais teórica) e relatos empíricos de experiências.

Espero que o dossiê contribua para disseminar este debate aqui no Brasil e também para inspirar outros arranjos possíveis para produção de conhecimento científico, acadêmico e extra-acadêmico.

 

 

 

 

Escrevi Junto com Alexandre Abdo um capítulo – Tendências democráticas e autoritárias, arquiteturas
distribuídas e centralizadas – para o livro  Democracia digital, comunicação política e redes : teoria e prática. Organizado por Sivaldo Pereira da Silva; Rachel Callai Bragatto e Rafael Cardoso Sampaio. O livro está disponível na integra em web.

 

 

 

Aula ministrada no Minicurso Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

 

Vídeos: Parte 01 / Parte 02

Slides apresentados: slides-aula-ciencia-cidada-laboratorio-cidadao

 

Leitura:

PARRA, Henrique Z. M. Ciência Cidadã: modos de participação e ativismo informacional. In: Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo (orgs.). Ciência aberta, questões abertas , Brasília: IBICT; Rio de Janeiro: UNIRIO, 2015. http://livroaberto.ibict.br/handle/1/1060

RIESCH, H.; POTTER, C.and DAVIES, L. “Combining citizen science and public engagement: the Open Air Laboratories Programme”, JCOM 12(03) (2013) A03 https://jcom.sissa.it/sites/default/files/documents/JCOM1203(2013)A03.pdf

HARAWAY, Donna. Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pago, n.5, 1995, pp.7-41. http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/1065_926_hARAWAY.pdf

Bibliografia complementar:

BONNEY, R. BALLARD, H. , JORDAN, R. et al. Public participation in scientific research: defining the field and assessing its potential for informal science education, Centre for Advancement of Informal Science Education (CAISE) Washington, U.S.A. 2009. http://www.birds.cornell.edu/citscitoolkit/publications/CAISE-PPSR-report-2009.pdf

FECHER, Benedikt. Impact of Social Sciences – The great potential of citizen science: restoring the role of tacit knowledge and amateur discovery. http://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2014/11/05/the-great-potential-of-citizen-science/2014.

HALAVAIS, Alexander. Home made big data? Challenges and opportunities for participatory social research. First Monday, Vol. 18, n.10, 7 october 2013. http://firstmonday.org/article/view/4876/3754

SINTOMER, Yves. Saberes dos cidadãos e saber político. Revista Crítica de Ciências Sociais (online), 91/2010. Disponivel em: http://rccs.revues.org/4185

STILGOE, J. Citizen Scientists: reconnecting science with civil society, Demos, London, U.K, 2009. https://www.demos.co.uk/files/Citizen_Scientists_-_web.pdf

ZOONEN, Lisbet van. I-Pistemology: changing truth claims in popular and political culture. European Journal of Communication, 2012, 27:56. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0267323112438808

Hoje, depois de quase 30 anos, fiz um passeio de bicicleta que costumava fazer na minha infância. Em alguns domingos, meu pai chamava a mulecada toda do quarteirão para fazer uma “expedição” na fazenda do Estado. Juntávamos uma turminha com suas bicis, garrafas de água e frutas para o trajeto de algumas poucas horas. O percurso envolvida sair do que na época era um dos limites urbanos da cidade de Pindamonhangaba e entrar nesta fazenda experimental do Governo do Estado de S.Paulo. Era uma área ótima pra passear, com estradinhas de terra e muitas árvores. No trajeto passavamos pelo centro de pesquisa em piscicultura e alguns estábulos onde os técnicos e pesquisadores desenvolviam suas pesquisas. O ponto de parada para abastecimento da moçada era um grande açude, o mesmo aí dessa foto.

Passados muitos anos sinto que esses passeios foram muito importantes para diversos aprendizados: tínhamos que andar em grupo, cada um cuidando dos outros amigos; tínhamos um contato com a natureza muito gostoso que certamente contribuiu para uma certa sensibilidade e percepção de mundo. E nisso tudo, acontecia uma experiência onde afetos, coletividade e natureza criavam um entrelaçamento muito constitutivo de nossas experiências como crianças. Hoje, acho que ter acesso a essas memórias e ainda poder vivenciar na prática um contato com esses lugares, contribui para fortalecer aquela sensibilidade.

Em parte, tudo isso só foi possível porque a população da cidade tinha acesso a esse parque. É muito difícil mensurar o valor e a contribuição social dessas áreas de uso comum. Parques, estações de pesquisa, áreas experimentais, florestas públicas são um importante patrimônio da nossa sociedade.

Infelizmente, muitas dessas estações de pesquisa estão sofrendo muito com o abandono e falta de investimento público por parte do Governo do Estado de São Paulo. Isso não é de hoje. Já faz mais de uma década que o desinvestimento é crescente. Com isso, o importante trabalho de agrônomos, veterinários entre outros profissionais que tanto contribuem para o avanço do conhecimento e da produção agropecuária, vai sendo destruído. Uma vez sucateado, é fácil dizer que ele é inútil. Hoje, há uma nova ameaça que pesa sobre essas áreas de pesquisa e os parques estaduais.

Para quem não sabe, desde o ano passado o Governo Alckmin decidiu privatizar a gestão (ou como dizem concessões) de muitos parques estaduais e vender algumas florestas e áreas públicas de pesquisa, para fins diversos, entre eles exploração madereira. Essa semana, o Ministério Público Estadual, vetou temporariamente o processo de venda dessas florestas [1], mas tenho sérias dúvidas se conseguirão barrar a disposição do Governo em privatizar e vender essas florestas. Para conhecer melhor a controvérsia, recomendo a leitura de um conjunto de reportagens feitas pelo jornal Estado de S. Paulo. Selecionei alguns links abaixo [2].

O que está em jogo é muito mais do que a chamada eficiência na gestão pública. Trata-se da possibilidade presente e futura do usufruto coletivo de bens comuns como nossas florestas, os recursos hídricos, nosso contato com a natureza, a qualidade do ar, a pesquisa científica, entre outros. Estamos cansados de ver o patrimonio público ser entregue a empresas privadas cujos acordos com governos e partidos são totalmente opacos ao controle cidadão. Espero que a população de Pinda fique de olho no futuro deste patrimônio socioambiental e saiba lutar pela sua preservação. Evidentemente, há muitas alternativas que poderiam ser construídas para se viabilizar a manutenção dessas áreas como um bem comum, mas infelizmente sem pressão social não haverá disposição dos governantes em viabilizar outros caminhos [3].

—–Referências citadas—–

[1] A Justiça paulista acatou um pedido do Ministério Público Estadual e concedeu liminar nesta terça-feira, 25, suspendendo o chamamento público de interessados na venda e concessão de 34 áreas do Instituto Florestal, como estações experimentais, florestas e hortos. A liminar também susta a aplicação de lei estadual (16.260/16) aprovada no ano passado que já autorizava a concessão para exploração comercial madeireira de alguns desses locais: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,justica-suspende-chamamento-para-venda-de-florestas-em-sp,70001753368

[2] A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou na tarde desta terça-feira, 7, projeto de lei que autoriza a concessão de 25 parques públicos do Estado à iniciativa privada. Pelo texto, ficam autorizados, por 30 anos, o uso para ecoturismo e a exploração comercial madeireira ou de subprodutos florestais: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,assembleia-aprova-projeto-que-privatiza-25-parques-de-sp,10000055809

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou nesta quinta-feira, 30, o projeto de lei que autoriza a concessão à iniciativa privada de 25 parques públicos do Estado: http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/alckmin-sanciona-projeto-que-libera-concessao-de-parques/

MP abre inquérito de improbidade contra secretário de Meio Ambiente: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,mp-abre-inquerito-de-improbidade-contra-secretario-de-meio-ambiente-de-sp,70001669920

Governo de SP fez reunião fechada sobre venda de florestas, dizem pesquisadores: http://www.diretodaciencia.com/2017/03/26/governo-de-sp-fez-reuniao-fechada-sobre-venda-de-florestas-dizem-pesquisadores/

[3] Indígenas, quilombolas e caiçaras querem autogerir áreas que Alckmin deve privatizar: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2016/06/indigenas-quilombolas-e-caicaras-reivindicam-autogestao-das-areas-que-alckmin-quer-privatizar-6758.html

O alerta que tentaram enviar a Alckmin pelos reis da Suécia: http://www.diretodaciencia.com/2017/04/06/o-alerta-que-tentaram-enviar-a-alckmin-pelos-reis-da-suecia/

 

Por Alana Moraes, Henrique Parra, Hugo Albuquerque, Jean Tible e Salvador Schavelzon | Imagem: Gavin Adams

 

Cagaram mil e uma regras de conduta
Eu mandei pra puta que pariu
E sorri, feliz.
Jenyffer Nascimento

 

No último dia 25 de Março, a Fundação Perseu Abramo apresentou os resultados da pesquisa Percepções na periferia de São Paulo, trabalho que era destinado, nas suas próprias palavras a “compreender, de forma profunda e detalhada, os elementos que têm formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo”. Dentre suas conclusões, o estudo considerou que “a mistura entre valores do liberalismo, do individualismo da ascensão pelo trabalho e do sucesso pelo mérito, com valores mais solidários e coletivistas relacionadas à atuação do Estado, à universalização de direitos, à ampliação da inclusão social, permeiam a visão de mundo e o imaginário dessa nova classe trabalhadora das periferias de São Paulo”, gerando intensos debates e conclusões peculiares. A pesquisa da FPA foi movida por uma pergunta inicial: “por que os pobres não votam mais no PT?”.

A pesquisa diz muito mais sobre si mesma e sobre a “visão de mundo” que a informa, do que potencializa novas perguntas e entendimentos sobre os processos sociais em curso. Curioso observar as leituras que surgiram dos resultados publicados. De uma lado, uma esquerda que se apresenta esgotada, sem assumir uma crise de paradigma constata que o território que pensava como próprio foi ocupado pelo inimigo.De outro lado, aparece uma direita triunfalista, que celebrou com matérias ou editoriais nos grandes jornais os resultados da pesquisa da FPA, no que aparece para eles como capitulação do estatismo de horizonte socialista frente a um liberalismo que é pano de fundo de uma sociedade aberta, do livre mercado, o mérito e o encerramento do conflito ideológico no campo social.

A pesquisa serve a ambos os propósitos. Porém, outras possíveis leituras se abrem nas fissuras que permitem escapar de um mundo de binarismos, homogeneizações, e guerras culturais ancoradas nas disputas ideológicas do século 20. Esses lugares são os que mostram que a história não acabou, mesmo que algumas formas de construção política de fato não sejam mais possíveis. Bairros organizados para lutar por moradia e transporte, respostas políticas da população que não necessariamente se alinham com escolhas eleitorais. Um tránsito sinuoso, de ondulações e curvas, mostra também a possibilidade de outra ciência e outra política, que não pretende completar o trabalho da civilização ou do catequismo, e não assume como episteme as fronteiras impermeáveis de um indivíduo-cidadão, da sociedade organizada pelo Estado, nem do mercado, do trabalho e da propriedade privada como únicos, permanentes e estáveis de organização.

Todo o debate gerado em torno da pesquisa, nos fez pensar também que disputar o que “são” os pobres é uma armadilha que só pode ser desativada por outras práticas de pesquisa, outros lugares de posicionamento. Essa inquietação a respeito do fundo no qual as questões foram postas nos parece um bom problema de partida: que modos de conhecer podem contribuir para a criação e potencialização de projetos coletivos de autonomia?

 

Descer a torre e pensar pelas frestas: ritos de desautorização

“Por que os pobres não acreditam mais em nossa promessa de salvação?”. É uma pergunta que ecoa através das décadas. Nas teorias clássicas do populismo, ao menos na sua primeira geração, os pobres eram “cooptados”, imersos em uma cultura rural e atávica cujo sentido era conferido pelas relações clientelistas. Estavamos fadados a ter uma classe trabalhadora vulgar, sem consciência, movida por interesses econômicos, quase sempre manipulada. As teorias sociológicas estavam lá para comprovar – isso, é claro, até migrantes nordestinos do ABC paulista restituirem de vez a dignidade da classe contra a teoria. Na cidade de São Paulo, o sindicalismo da oposição metalúrgica, nesse mesmo período, produzia intelectuais-operários e convocava intelectuais das universidades para pensar as possibilidades de luta e autonomia dentro das fábricas. A explosão do movimento operário nos anos 70/80 em São Paulo, assim como os movimentos populares de bairro, emergiam na cena política questionando a velha divisão entre sujeito e objeto, que em um dos seus desdobramentos, também se expressa na divisão que separa a vanguarda política da classe trabalhadora. O desejo de radicalização democrática se insurge também contra as fronteiras do pensamento e a autoridade de enunciação.

De volta a um período de fechamento democrático, com intensificação das práticas autoritárias estatais, surge também uma necessidade renovada de pensar outras formas políticas que, dentre outros deslocamentos, consiga mais uma vez questionar as formas de produção de conhecimento. Nos deparamos hoje com um mundo em intensa transformação: as formas do trabalho mudaram radicalmente assim como as formas de representação, que hoje econtram-se em crise.

O que propomos aqui é uma investigação coletiva que seja demandada pelos problemas que surgem de um novo ciclo de resistência, e que possa assim contribuir para desestabilizar a separação hierarquizante das formas de pensar e agir no mundo. Nossa proposta é simples: uma prática de pesquisa que atue pelas demandas concretas das resistências ao modo de vida neoliberal. É preciso também rejeitar a crítica ao “pensamento intelectual” que vem ecoando entre nós mesmos, lutadores e ativistas. Para superar esses impasses, nosso desafio é ainda maior: afirmar que é da luta e das criações de novas formas de vida que podem nascer reflexões intelectuais criativas e potentes. Da mesma forma, afirmar que não há potência de pensamento que não esteja fortemente implicado em processos coletivos de transformação. Não há pensamento criador sem luta, como não há luta sem produção de conhecimento.

Assumir uma prática de pesquisa na qual estamos todos posicionados, implicados em causas e processos coletivos. Não nos é mais permitido fazer uma ciência ingênua. As feministas bem sabem que sem o corpo, sem a compreensão da economia de relações que fazem os próprios “sujeitos”, suas vulnerabilidades, sofrimentos e cotidianos não é mais possível fazer conhecimento, muito menos política. A crença na existência de sujeitos prontos – seja ele o sujeito da classe, seja ele o novo sujeito periférico é uma crença masculina que nunca leva em conta todo o trabalho anterior de relações, vínculos, alimentação, pertencimentos que produz pessoas, pensamentos, “opiniões”. Trabalho esse muito mais imprescindível em contextos populares. O movimento negro emergente no Brasil também tem produzido formulações imprescindíveis para pensar as formas de ciência. Pensar, por exemplo, como o racismo atua profundamente nas subjetividades, impedindo de forma violenta com que os sujeitos tenham acesso a sua própria fala: como levar à sério essas formulações nas práticas de “aplicação de questionários”, por exemplo?

A dinâmica dos questionários pode ser muito cruel quando ele se torna uma inquisição averiguadora de “valores” dos pobres. Se a aposta for no mundo do discurso sobre a realidade, não tenham dúvida, ao menos no mundo ocidental, ele sempre estará do lado dos valores dominantes – da periferia de São Paulo ao Bronx. Uma política renovada precisa pensar outras formas de conhecimento sobre a realidade que não estabeleça tribunais, mas ao contrário, que se afete pelos interstícios, pelos escapes – que não negue a dominação, mas que consiga pensar apesar dela.

Uma ciência que se compromete com a epistemologia das classes dominantes não pode ser outra coisa que não um retrato triste do pensamento colonial e da impotência política, ora pacificando as experiências dos pobres em categorias estranhas como o “liberalismo popular”, ora culpando os próprios pobres por não entenderem nunca as engrenagens da sua própria dominação. É também a expressão de um mundo intelectual que só consegue pensar a si próprio como a vanguarda iluminada da classe – distante, pedagógica, mas intacta em suas certezas.

No entanto, a vanguarda nunca está lá – se estivesse, saberia, por exemplo que o apelo a imagem do “empreendedorismo” é evocada entre várias camadas de experiência: do pragmatismo das “virações” cotidianas de quem sempre foi excluído do assalariamento (especialmente mulheres) até o desejo de poder trabalhar sem um patrão. Quando a pesquisa identifica no “empreendedorismo” um “liberalismo popular” joga fora, de uma vez só, toda uma experiência de classe forjada entre migrações, industrialização e desindustrialização, desempregos constantes, assim como toda a dinâmica pragmática de uma economia popular feita por cabeleireiras, motoboys, faxineiras, ambulantes, as pessoas dos “serviços gerais”, a classe que vive do cuidado.

A pesquisa dispensa também os intelectuais da classe que pensam a periferia porque sentem o que isso quer dizer e desobedecem, mais uma vez, as cercas que pretendem separar “pensadores” de “objetos” de conhecimento: movimentos populares, os artistas periféricos ou que constrõem relações com a periferia, as redes de cursinhos populares, movimento negro, feministas, secundaristas, aqueles que fazem as novas batalhas de slam, os saraus – deixam de pensar também a partir das tensões geracionais que hoje explodem dentro da própria classe. Uma pesquisa sobre os “pobres” que se pretende crítica dos poderes dominantes – da ciência ao golpismo – deveria convocar aqueles que estão produzindo pensamento na periferia, nos emaranhados de suas contradições e modos de vida, para pensar desde as hipóteses iniciais até às interpretações dos dados. Toda pesquisa deve ser também a possibilidade de encontros.

Uma das consequências não previstas da ampliação do acesso à universidade no Brasil, com todos os limites desse processo, das transformações recentes na sociedade brasileira, foi a entrada massiva dos mais pobres, negros e mulheres nas universidades; a proliferação de coletivos feministas, coletivos negros, a luta por melhores condições nas universidades. Um processo não desprezível de tomada de assalto dos lugares de enunciação do conhecimento e que estabelece, pouco a pouco, ritos de desautorização da figura do homem branco intelectual portador da ciência. Desautorizam também as arenas de disputas em torno do que são ou devem ser os pobres. Nos convidam, mais uma vez, a embaralhar as fronteiras que separam pensamento e luta, transformar as práticas de fazer conhecimento.

Não queremos afirmar a “experiência” como um lugar de autoridade: ela é um campo atravessado por inúmeros fatores e circunstâncias. Ela também é produzida por poderes e contra-poderes, violência, a vaga na creche que nunca chega, a passagem que aumenta novamente. No entanto, uma prática transformadora de conhecimento deve por isso apostar na fricção com a experiência ao mesmo tempo que deve também recusar, sempre que possível, a autoridade de um saber “explicativo” e especializado. A pesquisa do Eder Sader sobre a periferia de São Paulo nas décadas de 1970-80, por exemplo, já levava muitas dessas questões e era movida tambem por um espírito de criação emancipadora e coletiva que apostava na relação orgânica com a classe para pensar outros caminhos de ação. Aliás, naquela época, a desconfiança dos pobres em relação ao Estado já era evidente. No entanto, muitos intelectuais petistas como Eder Sader extraíam dessa desconfiança, proposições radicais sobre novas formas democráticas.

Para derrotar o modo de vida neoliberal, precisamos voltar a perseguir problemas complexos. Eles estão por todos os lados, são produtos também das próprias praticas de resistência. Seria um problema muito mais interessante, por exemplo, pensar como é possivel que essa fração de classe que a pesquisa identifica como “liberal” e “solidária aos seus empregadores” seja também aquela que compõe a base social de movimentos sociais como o MTST. Pensar os problemas levantados pelas experiências de arranjos comunitários em curso: cozinhas coletivas, práticas de educação popular, produções artísticas que vem construindo novas linguagens e dispositivos de “politização” mais horizontais, as novas experiências de clínicas públicas de psicanálise, os coletivos de comunicação e midiativismos periféricos. É que as verdadeiras questões dão trabalho (nascem do trabalho de toda construção coletiva!) e, no fundo, precisamos escolher se vamos pensar com a classe (a classe preta, mulher, jovem, universitária), sobre ela ou contra ela. Pensar, finalmente, como a classe é feita e não dada.

 

Para além do binarismo Estado X Mercado

A esquerda que só se concebe do lado do Estado, e contra o mercado, também pode ser produtora de subjetividade neoliberal, criando condições para que, no final do caminho, o sujeito revolucionario transmutado em consumidor do mercado, dispense suas vanguardas e padrinhos, sem que a transição a um governo abertamente pro mercado, por mais diferente, não se constitua em clivagem determinante para a vida das famílias da periferia.

O estudo da FPA conclui inequivocamente que a recusa ao Estado, e afirmação de alternativas a ele, são liberalismo. As massas pobres das periferias só poderiam estar alienadas, embebidas no sonho do mercado. A resposta, e antes dela, a pergunta, diz mais, novamente, sobre quem a fez do que quem a respondeu. Os pobres sujeitos à repressão sistemática do Estado mediante o aparato de segurança e, por outro lado, excluídos dos modos de autopreservação e cuidado público – a educação, a saúde etc – deveriam amar o Estado – e ainda que este funcione mal, talvez, deveriam ter a consciência do seu funcionamento ideal. Deveriam?

A mesma conclusão esbarra em uma armadilha conceitual: como poderia o liberalismo ser contra o Estado? Não foi sob o regime neoliberal que se constituíram enormes redes de repressão policial, desenvolvimento bélico, apropriação dos fundos públicos e expropriação do patrimônio coletivo, espionagem de cidadãos e de fantásticos aparatos de aprisionamento e punição? O liberalismo, ainda que conteste o “Estado grande”, jamais atuou no sentido de sua abolição, tampouco advogou pela sua diminuição de garantidor da ordem capitalista.

As multidões periféricas, ao conseguirem habitar, cuidar de sua saúde e se proteger da violência física perpetrada pelo Estado, podem ser mais anti-liberais do que as tais estruturas anti-liberais: a ideia vã de uma dicotomia entre Estado e Mercado, quase como uma batalha do fim do mundo, gera um sistema no qual em um polo está um Mercado planejado pelo Estado e, no outro, um Estado a serviço de um Mercado — a despeito dos arranjos e das gradações, Estado e Mercado estão sempre ali, interdependentes.

O liberalismo pode ser inclusive interpretado como provocação e resposta dos pobres, frente ao Estado da esquerda que não oferece saídas políticas viáveis, nem projetos de sociedade sedutores, e menos ainda o mercado, frente ao qual os pobres sabem, sim, reivindicar o Estado ou, quem sabe, um outro lugar para além da representação e burocratização da vida.

O binômio Estado X Mercado apresentado pela pesquisa perde de vista uma das principais engrenagens do modo de funcionamento do neoliberalismo que, para avançar, precisa que mercado e Estado produzam uma coexistência intrinseca: seja nas ações publicas orientadas por critérios de “produtividade” ou “eficácia”, a “gestão de resultados” ; seja no papel crescente das polícias como garantidoras extra-legais da propriedade privada, da especulação imobiliária e na criminalização dos movimentos questionadores da ordem de mercado.

Se a romantização dos pobres e da pobreza é um equívoco, isso não pode ser dito nem pensado sem uma necessária desromantização do saber técnico, neutro e, literalmente, iluminado da ciência pura que se pressupõe, ainda hoje, uma espécie de demiurgo, de ente transcendental capaz de organizar o mundo a partir de seu local privilegiado de observação.

 

Uma ciência comum para uma política do comum

Toda ciência fabrica mundos. Um ato de descoberta científica produz novos objetos, novos processos, novos sujeitos e com eles surgem outras recomposições do mundo. É por isso que podemos dizer que a ciência é também política, no seu melhor sentido. Ela cria novas partições, novas dobras e novos pertencimentos com o real. Na sua versão etnocêntrica e colonial, no entanto, a ciência é política no mal sentido; ela fecha mundos, se interpõe sobre caminhos divergentes, ela “limpa”, “barra” as diferenças, classificando e organizando tudo no lugar narcisista do Eu. É política do poder, da ordem e do progresso.

O desafio de construir outras formas de produção de conhecimento exige também a invenção de outras formas políticas. Como seria essa ciência comum potencializadora de outros mundos compartilhados? E o que pode acontecer se partirmos de uma perspectiva parcial, situada e incorporada e que fosse movida pelos problemas dos modos de existência? O que acontece se renunciarmos de partida às ambições projetivas e as totalidades pré-constituídas ou mesmo à eleição de um ponto de vista privilegiado a partir do qual explicamos todo o ordenamento do social? Se todo saber é também poder, como seria produzir um saber insurgente de uma forma política também desconhecida?

Inspiramo-nos aqui na experiência de diversos movimentos sociais, comunidades afetadas (por problemas de saúde, desastres, conflitos etc), minorias organizadas que a partir de sua experiência e saberes produzem junto a outros atores cognitivos e políticos (pesquisadoras e pesquisadores profissonais ou amadores, ativistas, gestores engajados entre outros), novas formas de organização e luta simultaneamente à produção de conhecimentos contra-hegemônicos. Neste processo, surgem também novos sujeitos políticos. Encontros de saberes e formas diferentes de vida interessadas na co-criação de mundos. A experiência de mulheres que se organizam e que produzem saberes que interrogam as práticas e protocolos médicos, num ataque direto à biopolítica dos sistemas de saúde; os trabalhadores então invisibilizados ou silenciados que criam seus centros de pesquisa e documentação e confrontam as estatísticas oficiais (como foi a criação do Dieese); indígenas e quilombolas cujos saberes são indissociáveis da produção das formas de suporte à vida em comum; hackers e suas comunidades cujas práticas modificam o regime de visibilidade da vida contemporânea tecnicamente mediada, produzindo política através de tecnologias aparentemente neutras, criando clivagens que dão a ver os novos processos de produção de valor e as técnicas renovadas de governo das populações.

Se criamos espaços de escuta novas linguagens podem ser inventadas (ao invés de ficarmos operando mediações que encaixam o pensamento dos outros em nosso mundo). Talvez seja mais do que tradução, mas a pura invenção de uma outra linguagem comum, por isso, também criadora de outras comunidades políticas. Os regimes de subjetivação que nos constituem são muito heterogêneos. Se desejamos criar novos entendimentos, capazes de fazer proliferar a multiplicidade do real, teremos que aceitar as indeterminações e os trajetos experimentais. Disputemos a imagem do laboratório! Ao invés da sala limpa, pensemos num laboratório contaminado. Nossa hipótese é de que podemos constituir um novo laboratório (que fabrica novos sujeitos, novos objetos, novos mundos) junto àqueles que estão produzindo novas formas de vida em comum, agindo contra o desmanche de algo que é comum e encontra-se ameaçado pelas forças em jogo. Porém, este comum não é necessáriamente conhecido ou visível. Ele é aquilo que é produzido entre todos, e não para todos. Mas justamente por isso, é frequentemente imperceptível. Ele pode ser o silêncio da noite, a qualidade do ar que respiramos, o tempo que temos para cuidar dos próximos, nossos trajetos na cidade e até o trabalho que temos (como é difícil definir hoje as bordas do trabalho e do não-trabalho!).

Como seria a política dessa forma de conhecer? Talvez, ela também seja inventada justamente ali onde se produz a vida mais ordinária. Nossa hipótese, é que esta forma de conhecer surge simultaneamente à formação de novas comunidades políticas que, para além do regime da representação, produzem a política de forma imanente à vida. Se ela realiza no presente sua política, não é que ela seja prefigurativa da forma política a se construir noutras escalas. Sua política é da ordem de uma singularidade. Ela é menor, situada, parcial, incorporada, da mesma forma que o conhecimento que a produz.

Apostamos que nesta forma de conhecer por meio desta política do comum, novas individuações coletivas – de ordem transindividual – podem emergir. Por isso, não há forma política a ser preenchida. E isso é o mais difícil no atual momento. Manter os canais de enunciação, de práticas cotidianas, de formas multiplas de pertencimento, todos abertos à proliferação de outras formas de vida (mais solidárias, mais emancipatórias, mais autônomas etc) também demanda a capacidade de lutar contra todas as formas de opressão, homogeneização, sujeição e exploração. Essa forma de conhecer que desejamos praticar com essa política, é sempre feita a favor de algo e contra algo.

 

Conclusões tão precárias como a classe: por outras práticas de pesquisa-luta

Uma ação política emancipatória que realmente queira sair de seu beco sem saída precisa, sem dúvida, atravessar os muros que nos separam não apenas fisicamente, mas os muros que interditam o desejo, o pensamento, as práticas de existência em comum

O problema da liberdade e da emancipação coletiva, da construção de mundos que buscam superar opressões e muros, é um problema que nos situa, todos e todas, em um terreno comum. Isso quer dizer que, apesar de todas as experiências de lutas, das mais vitoriosas até as derrotadas, apesar de todas as teses, ensaios, questionários, não há fórmula-guia que possa nos confortar e mostrar a salvação. Não sabemos. Ou apenas sabemos que nosso saber não pode ser interposto a outros saberes. Não há um plano pronto a ser executado e nesse sentido, toda pesquisa que se pretende comprometida com um projeto de transformação deve conter, desde o início, a possibilidade de experimentações e criações. A relevância de uma pesquisa engajada pode ser testada pela possibilidade que ela oferece de fazer sentido para as pessoas, em suas vidas comuns, para a produção de novos mundos.

Perseguimos a hipótese de que um conhecimento ativo pode ser produzido a partir dos ruídos com a experiência, extrapolando os lugares de autoridade e ser o resultado de alianças e relações entre diferentes saberes situados e desejantes de um projeto comum. Não é mais permitido (ou legítimo) produzir um saber sobre os “outros” de modo instrumental, reificado e não-solidário. Nossa prática de investigação se deseja híbrida e acontece no meio, no entre pesquisa-luta, sua terceira margem. Em certo sentido, é uma forma de conhecer antiga, mas que no atual contexto adquire novas configurações graças às metamorfoses nos regimes de poder e suas formas de saber: os antigos centros de produção de verdades e seus dispositivos, multiplicaram-se e há também novas concentrações, fazendo emergir novos campos de lutas.

Um laboratório ocupado por corpos e saberes interpelados pelo problema da fabricação de um mundo em comum. Pesquisadoras, pesquisadores que sejam capaz de farejar onde estão as dobras que podem nos mover, as questões que os poderes dominantes tentam esconder a qualquer custo, que possam produzir interferências no sistema hierarquizado de saberes e que possam, de fato, sonhar com outros mundos mas também praticá-los. Enfim, abandonar o delirio de fazer uma ciência neutra que revele as “percepções” dos pobres (pra quê? pra quem?) e ensaiar novos laboratórios povoados de corpos, afetos, interferências.

Fazer mundos exige escuta, é entender com outros, exatamente o que precisa ser feito: novas infraestruturas para a vida coletiva; espaços que possibilitem decisões coletivas sobre a vida comum, pensar o compartilhamento dos cuidados, gerir o problema do desemprego e produzir novas sustentabilidades, criar novas práticas de co-formação que possam se multiplicar, redes de proteção contra violência do estado, novas linguagens e, dessa forma, apontar para outras formas de vida que não estejam encerradas no binarismo Estado X Mercado. Pensar com outros – levar à sério as diferenças, suas contradições, formas de vida, práticas de existência. A classe sempre está por fazer-se, não há uma susbtância a ser revelada.

Contra a melancolia da vida neoliberal e suas práticas de conhecimento impotentes, cultivemos os afetos alegres de uma ciência implicada e comprometida com a produção de formas de vida em comum, mais solidárias e emancipatórias.

Publicado também em: http://outraspalavras.net/brasil/quer-dizer-entao-que-a-periferia-e-liberal/

Minicurso Diálogos de Pesquisa
Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

Realização: Grupo de Pesquisa em Ciência Aberta do Liinc

Programação completa e inscrições: http://www.liinc.ibict.br/eventos/mini-curso-dialogos-de-pesquisa/

As sessões contarão com transmissão ao vivo no canal do Liinc no YouTube disponível no endereço https://www.youtube.com/LiincVideos

Programação:

27/03 – Abertura em questão: ciência aberta e ciência comum
03/04 – Produção Colaborativa em Debate
10/04 – Comunicação Científica e Publicação Aberta
17/04 – Visualização de Dados na Ciência Aberta e na Ciência Cidadã
24/04 – Regimes Emergentes de Apropriação do Conhecimento
08/05 – Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos
15/05 – Dados Científicos Abertos
22/05 – Ciência Aberta e Humanidades Digitais

Muitos de nós, pesquisadores, acadêmicos, cientistas profissionais e amadores, estamos lá e adoramos: Academia.edu. Tal plataforma se tornou rapidamente o equivalente profissional do nosso Facebook. E com o passar do tempo, as similaridades só crescem. Temos um feed, seguimos pessoas, recebemos sugestões interessantes de textos e sobre a produção de outras pessoas algoritmicamente selecionadas.

Sim, estou em ambos. E agora, organizando meu próprio êxodo. Neste processo, compartilho as razões, as informações coletadas e algumas alternativas que vou encontrando pelo caminho.

No final de 2016, para surpresa de alguns, Academia passou a cobrar uma pequena taxa para que os usuários possam acessar serviços diferenciados. Por exemplo, para saber quem está baixando seus arquivos. Antes disso, já havia introduzido publicidade em suas páginas.

A plataforma, apesar do domínio .EDU é, na realidade uma .COM, ou seja, uma empresa. E da mesma forma como o Facebook ela faz fortuna com seu banco de dados.

A depender do serviço que utilizo na rede acho razoável pagar pela sua utilização. Afinal, a questão de sustentabilidade econômica de iniciativas no mundo digital é absolutamente “material”. Neste ambiente, como disse alguém que já não me lembro, “quando o serviço é gratuito, o produto é você”.

Em se tratando de uma plataforma destinada a colocar em contato pesquisadores, armazenar a produção científica, e estimular a interação entre os usuários, devemos nos preocupar com a maneira como nossos dados e as nossas interações estão sendo geridas.

Entretanto, quando estamos num ambiente de propriedade corporativa não temos acesso nem aos próprios dados e metadados que produzimos, muito menos ao código dos algoritmos que passam a governar o que lemos, com quem somos colocados em contato, para quais congressos somos convidados e por aí vai. Integrando nossos dados com outros bancos de dados disponíveis no amplo mercado dos data-brokers, começamos a receber emails personalizados, etc. Agregando agora novas camadas de estratificação no acesso mediante cobrança por serviços, amplia-se também o fosso entre pesquisadores e comunidades científicas que estão em situação financeira muito distintas, aumentando também problemas de ordem geopolítica.

E agora, também está em curso uma disputa pelo mercado de indexadores, indicadores e métricas de reputação, orçado em muitos bilhões de dólares. Além das 4-5 grandes corporações que controlam o mercado editorial acadêmico, agora temos outras gigantes do mundo digital, como Google, disputando a indexação acadêmica e oferecendo novos indicadores de visibilidade (como o Google Schoolar). Academia.edu, da mesma forma, revela em suas propagandas como os cientistas podem usar as métricas oferecidas pela plataforma como indicadores de impacto que podem ser úteis em seus departamentos para a progressão na carreira.

E assim, voluntariamente, enamorados pelos pequenos benefícios que recebemos através da utilização dessas plataformas (são úteis e práticas, ajudam a ampliar a visibilidade do meu trabalho, tenho mais leitores e entro em contato com pessoas interessantes) vamos pouco a pouco produzindo um grande Leviatã.

Podemos investir nosso tempo em habitar outros ambientes que já existem. E se não são adequados, podemos rapidamente torná-los lugares mais interessantes para compartilhar nossos trabalhos. Para a livre produção de conhecimento científico, devemos ter pleno controle de nossos dados e metadados; as plataformas devem oferecer interoperabilidade com repositórios científicos institucionais; deve-se utilizar software livre para garantir a possibilidade de escrutínio público e científico dos sistemas de indexação e de produção de métricas, entre outras coisas.

A criação de uma comunidade acadêmica autônoma não pode funcionar como um condomínio de jardins murados, submetido a um sistema de decisão e regras absolutamente opacas, como no caso das plataformas corporativas.

E talvez, o mais difícil nisso tudo, seja tornar tangível os efeitos futuros da  governamentalidade algorítmica em curso sobre o ecossistema de produção de conhecimento científico. Como podemos desenvolver outras práticas sociais capazes de interrogar nosso modo de subjetivação, nossa servidão maquínica, nossa captura cotidiana provocada por esses dispositivos tão sedutores? Neste mundo cibernético somos totalmente livres para produzir silenciosamente nossa própria servidão.

O que fazer? Não sei, seguimos praticando e pesquisando! Escrevo nos sites/blogs que mantenho; faço uso de licenças autorais livres; deposito meus trabalhos em repositórios institucionais de livre acesso (open access); organizo parte de minhas atividades de ensino e pesquisa na Wikiversity.org ; recuso escrever e fazer pareceres para periódicos que não são de acesso livre; e agora estou organizando meu êxodo para fora do Facebook e da Academia.edu.

Uma coisa fácil de se fazer, e isso poderia ser uma exigência institucional (ao menos nas universidades públicas), é o depósito de nossas publicações nos repositórios da instituição. A Unifesp, onde trabalho, está implantando o seu: http://repositorio.unifesp.br . Vou começar a colocar minhas publicações neste repositório. Ele gera links persistentes que podem ser utilizados para divulgação em outras plataformas.

Ao invés da Academia.edu vou começar a utilizar o http://zenodo.org e testar o https://www.scienceopen.com/ Agradeço se tiverem outras sugestões. Por fim, listei abaixo, alguns artigos que li nas últimas semanas sobre o Academia.edu. Recomendo a leitura para ajudar no debate.

Evento: Por que não estamos boicotando Academia.edu?
http://disruptivemedia.org.uk/why-are-we-not-boycotting-academia-edu/

Um relato sobre o evento:
https://thewinnower.com/papers/5014-event-report-why-are-we-not-boycotting-academia-edu

Análise crítica sobre o Academia.edu:
http://www.plannedobsolescence.net/academia-not-edu/

Outra análise sobre ResearchGate e Academia.edu
http://blogs.discovermagazine.com/crux/2017/02/01/who-isnt-profiting-off-the-backs-of-researchers/#.WJsJr7Mtjrc

Tutorial e software para migrar seu conteúdo do Academia.edu para o ZENODO.org
http://numismatics.org/pocketchange/open-access-academia-edu-and-why-im-all-in-on-zenodo-org/

Estrutura “Guarda-Chuva” dos Projetos de Pesquisa desenvolvidos em 2015 e 2016.

 

Índice

  • 1 Apresentação
  • 2 Linhas de Pesquisa
  • 3 Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada
  • 4 Projetos de Pesquisa em andamento
  • 5 Problema Macro-Teórico
    • 5.1 Recortes teóricos
    • 5.2 Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

Apresentação

Em diferentes sociedades e em cada momento histórico, podemos estabelecer relações de interdependência entre os modos de organização social, as formas de produção/difusão de conhecimentos, as tecnologias de comunicação e as formas de exercício do poder.

Atualmente, no campo da produção/difusão de conhecimentos observamos mudanças radicais na relação com o saber, tanto na forma de acesso quanto nas próprias formas e locais de produção de novos saberes, em parte relacionadas à crescente mediação das tecnologias digitais. Simetricamente, observamos no campo político profundas transformações nos modos de ação e mediação institucional, seja na prática de grupos ativistas, movimentos sociais ou mesmo em novas individuações coletivas e modos de subjetivação política que tem emergido. Nesses dois eixos (saber-poder) há dinâmicas e problemas comuns relativos à mediação das tecnologias digitais de comunicação que nos interessa analisar.

É nesta zona de intersecção que concentramos os projetos do Pimentalab[1][2]. Mais especificamente, o programa atual de pesquisa tem como campo empírico de investigação um conjunto de práticas científicas, organizações sociais, coletivos e movimentos sociais que atuam em temas relacionados a novos modos de conhecer e se organizar mediante a utilização das tecnologias de comunicação digital. Concretamente, observamos as práticas de: grupos tecnoativistas, comunidades hackers e ciberativistas, coletivos de mídia radical/independente, pesquisadores ativistas/militantes, iniciativas de ciência cidadã/amadora e artistas que atuam sobre a relação sociedade-tecnologia.

Ao mapearmos e analisarmos um amplo conjunto de experiências procuramos identificar elementos que possam constituir uma gramática comum, um repertório partilhado de formas de ação, organização, modos de conhecer e princípios ético-políticos. A escolha de algumas dessas experiências, justamente pela forma como enunciam e tensionam certos problemas contemporâneos, permite-nos examinar transformações sociais que possuem amplo alcance. Para isso, nossa atenção estará dirigida para alguns aspectos que identificamos como transversais a essas experiências e que possuem modulações e combinações distintas em cada caso. Tais elementos tornam-se os vetores de análise para que possamos interrogar os novos problemas (teóricos e práticos) que surgem. Neste sentido, podemos destacar as seguintes temáticas como possíveis recortes para projetos de pesquisa mais específicos:

  • tecnopolítica: tecnologia e prática politica; modos de apropriação e uso de tecnologias; disputas sobre a dimensão sociopolítica da tecnologia e os efeitos do design incorporado; relação tecnologia e democracia.
  • reconfigurações da política: poder, ativismo, resistência e criação, movimentos sociais e sociedade de controle.
  • produção de conhecimentos situados e pesquisa ativista: ciência cidadã (amadora ou ativista); co-pesquisa; conhecimento rebelde; pesquisa participativa.
  • economia da informação e do conhecimento: trabalho imaterial, tensões sobre as políticas de acesso e difusão da informação, commons, produção entre pares (p2p) e capitalismo informacional.
  • linguagens e conhecimento sensível: visualidade, tecnologias de imagem, sociologia/antropologia visual; imagem e suas epistêmes; formas de comunicar e tornar apreensivel dimensões sensíveis do conhecimento.
  • metodologias de pesquisa e educação: co-pesquisa, experiência, prototipagem, metodologias participativas, educação democrática, pedagogia radical; educação expandida.
  • micropolítica e modos de subjetivação: modos de associação, organização e ação coletiva; poder, autonomia e crítica institucional.

Linhas de Pesquisa

  • Tecnopolítica e Ação Coletiva: tecnoativismo, movimentos sociais e internet, comunidades hackers, ciberpolítica, sociedade de controle, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade, economia informacional, trabalho e capitalismo.
  • Conhecimentos Situados, Modos de Organização e suas Tecnologias: modos de organização social e micropolítica; modos de subjetivação; tecnologia e conhecimento; educação expandida, ciência cidadã/ativista; educação e pesquisa.

Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada

  • Desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais: explorar as relações entre organização, relações de poder, tecnologias de comunicação e produção de conhecimento em coletivos, movimentos sociais e organizações.
  • Metodologias para ensino, pesquisa e organização social: sociologia amadora, ensino como pesquisa, sociologia prática, educação democrática.

Projetos de Pesquisa em andamento

Tecnopolitica e Saberes Rebeldes – 2015-2016 – Apoio Ford Foundation.

Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local – 2015-2016 – Apoio OCSDnet – Canadá.

 

Problema Macro-Teórico

Modos de Conhecer e tecnologias de comunicação: acesso à informação e participação distribuída; sociedade de controle e criação democrática
A emergencia de novas formas de produção de conhecimentos e ação coletiva através das mídias digitais é um terreno em disputa. Graças às TICS há uma combinação de: participação distribuída em redes digitais; produção infinita de dados mediante rastreabilidade de toda interação em meios digitais; convergência digital; novas informações e conhecimentos produzidos. Estamos, todavia, no contexto do capitalismo informacional e da sociedade de controle.

A lógica da participação, presente de diversas formas na experiencia politica de diversas democracias contemporaneas, manifesta-se de diferentes formas nas práticas de produção colaborativa, seja no âmbito da ciência cidadã/amadora, como nas dinâmicas sociais cotidianas cibermdiadas. Frequentemente, porém, esta participação é reduzida ou transformada num modo de governo, forma de condução da vida (biopolitica).

Como fator complementar, não podemos perder de vista que a mediação das TICS está muito concentrada nas mãos de corporações privadas. Recentemente, observamos como a colaboração estatal-corporativa serviu para a expansao da vigilância e gestão populacional em escala planetária.

Da mesma forma como nos séculos anteriores vimos o surgimento de novas ciencias (epidemiologia, economia politica…) que se combinaram a novas formas de governo, hoje estamos diante de novas formas de conhecer que ensejam novas formas de governo e controle social.

Ao delinear características que possam compor uma gramática comum a este conjunto diverso de experiências, nosso objetivo mais amplo é apreender as reconfigurações entre as dinâmicas de autonomia e resistência face às novas formas de sujeição social e servidão maquínica (Deleuze & Guattari, 2005). Indiretamente, pretendemos interrogar as possibilidades e limites para a produção de conhecimento no campo das ciências humanas através das tecnologias digitais: como delinear a tênue fronteira entre as humanidades digitais, a engenharia social, o capitalismo cognitivo e a formação da sociedade de controle?
Sub-questões e Temas

  • Relação entre tecnologias, conhecimento e prática política.
  • Nova cultura política
  • Tecnoativistas, Tecnocidadãos: novas formas de produção de conhecimento para uma nova política?
  • Relação entre ecossistema sociotécnico de comunicação (tecnologias digitais) e mudanças no regime de produção de conhecimento e de poder.
  • Tecnoativismo e acesso à informação: dilemas da abertura, segurança e privacidade.
  • Inovação Cidadã, Participação 2.0 X Coletivos tecnoativistas: tecnologias sociais entre a captura, a resistencia e a criação.
  • Ciencia cidadã, ciencia ativista, conhecimento rebelde. Qual a cultura epistêmica desses grupos? Casos de pesquisa-social, pesquisa-militante, grupos comunitários que fazem uso de TICs.
  • Movimentos sociais e uso de tecnologias
  • Educação e tecnologia: práticas inovadoras de uso de tics.
  • Participação social, democracia digital, participação cidadã.
  • Quais os repertórios, trocas de conhecimentos, modos de organização que estão fluindo de um lado para outro, dando forma a uma nova cultura política?
  • Que novas institucionalidades estão sendo gestadas?

Recortes teóricos

[1] Relação entre as culturas epistêmicas (em grupos tecnoativistas e coletivos experimentais) e a emergência de novas práticas políticas e institucionais.

Os problemas:

  • relação cultura epistemica X cultura política
  • relação tecnologia X democracia: escolhas/desenhos sociotécnicos implicam em questões políticas
  • efeitos das composições sociotécnicas (TICs) na vida social (sociabilidade, política e conhecimento).
  • relação conhecimento científico X conhecimento extra-científico: ciencia e democracia.
  • privacidade X opendata: segurança X privacidade X transparência: necessidade de maior abertura e transparencia para produzir confiança e mobilização e ter mais colaboração versus, necessidade de segurança e privacidade.
  • invisibilidade, não-compreensão da complexidade dos problemas – como tornar intelegível?
  • capitalismo cognitivo

[2] Emergência de novos atores políticos-cognitivos

  • tecnocidadãos;
  • pesquisadores ativistas, movimentos sociais engajados na produção de contra-expertise;
  • ciencia amadora, ciencia cidadã

Característivas:

  • mobilizar diferentes atores
  • pesquisa aberta/colaboração
  • capacidade de comunicar + sensibilizar sobre o problema
  • participação do público.
  • economia da informação voltada ao commons em detrimento da propriedade intelectual exclusiva.

[3] Novos diagramas organizacionais, novas formas políticas e suas tecnologias

  • movimentos sociais e internet
  • tecnopolíticas e novas formas de organização social
  • democracia digital, participacionismo, inovação cidadã.

[4] Acesso ao conhecimento e os dilemas da abertura:

  • privacidade
  • controle
  • transparência
  • capitalismo cognitivo.
  • participação como governamentalidade: novos saberes X novas formas de governo.

Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

1. Tecnologias Digitais e Vida Social: modos de uso e efeitos das tecnologias digitais em aspectos relacionados à interação social, sociabilidade, privacidade, intimidade, visualidades, identidade, tecnoestéticas.

2. Ação coletiva, Movimentos Sociais e Internet: quais são os usos, as tecnologias e modos de apropriação tecnológica; quais os problemas, desafios e efeitos; tecnodeterminismo X determinação sociopolítica da tecnologia; emergencia de novos atores e práticas políticas.

3. Ecologias de comunicação e conhecimento: como determinadas comunidades/grupos acessam informação; partilham e se organizam; efeitos da mediação técnica na organização do conhecimento local.

4. Sociedade de Controle e tecnologias: vigilância, retenção de dados, profiling, economia de vigilância.

5. Economia da informação e do conhecimento: novas formas de trabalho e produção de valor; propriedade intelectual; acesso ao conhecimento.

6. Metodologias alternativas de pesquisa, ensino e organização social: tecnologia e educação; pesquisa participativa; ciencia cidadã; ciencia ativista; participação social; pedagogia radical; cultura hacker.

freedomcoopbankingpost-882x439

É curioso como neste momento de crise, entramos em contato com as memórias de outros períodos críticos da história. Diante de algumas situações nos últimos meses, tenho uma estranha sensação de que estamos passando por um novo giro na história, e como numa espiral algumas coisas parecem uma repetição. Porém, já estamos noutro lugar, tudo é diferente.

Nessas rememorações tenho pensado muito do final dos anos 90. Governos neoliberais e suas políticas avançavam em toda parte, mas encontravam alguma resistência social. Quem se lembra das lutas contra a ALCA? Dos primeiros Forum Sociais Mundiais (antes de se tornarem uma grande feira)? Dos diversos movimentos sociais que se multiplicavam Brasil afora…Onde foi parar toda aquela energia?

Naquele momento, a memória da derrocada da experiência soviética ainda era um tema na pauta, fala-se muito de crise sistêmica do capitalismo e proliferavam em toda parte iniciativas de economia social, autogestão econômica, cooperativismo, entre outras. Havia todo um debate sobre alternativas práticas ao capitalismo que curiosamente parece que perderam a força diante de governos que em toda America Latina executaram uma agenda paradoxalmente “progressista” (péssimo termo). Porém, ainda que silenciosamente, tudo aquilo segue sendo feito.

Dentre esses reencontros que tive nos ultimos meses, um deles é com as discussões sobre autogestão, economia social/solidária, moedas alternativas. Tema com o qual estive muito envolvido e que por diversas razões fui me distanciando. Acho curioso ver como ele retorna agora. Seria apenas mais um sintoma da crise? E para mim, é aqui que este reencontro dá uma reviravolta interessante pois se recombina com outros temas com os quais estou envolvido hoje em dia. Mas o vocabulário agora é outro. Falamos em soberania tecnológica, produção do comum, tecnopolíticas, ecologia de práticas e saberes…

Só para citar um exemplo. Recentemente, comecei a acompanhar a criação de um nó-regional da FairCoop (https://fair.coop). A discussão que eles fazem sobre moedas alternativas é bem interessante. Utilizam uma criptomoeda inspirada no bitcoin porém modificada por protocolos sociais que inserem a colaboração como variável na geração de valor. Há toda uma discussão ali sobre autonomia, autogestão, desenvolvimento local/comunitário, sustentabilidade, internacionalismo.

Em seguida, vou atrás de alguns sites antigos e redes sociais abandonadas. Numa deriva no ciberespaço, como nos tempos em que a livre navegação era possível (quem se lembra que utilizavamos o termo “navegar” e éramos internautas, antes de virarmos usuários), encontro alguns grupos interessantes, como o bom e velho Znet (https://zcomm.org). Que emoção! Site simples, wordpress com cara de puro html.

Fiquei me perguntando, será que os outros grupos ainda estão por aí? Os meios  de comunicação entre os movimentos que pegaram o início da internet transformaram-se drasticamente nesses ultimos 10 anos (o Youtube é de 2006!). Tivemos um processo paradoxal. De um lado a mulitiplicação dos canais (email, redes sociais, sms, whatsapp, telegram, e em cada um deles grupos e subgrupos) dando a impressão que construíamos um rizoma, com arquitetura distribuída. Mas não, era pura dispersão. De outro, novas camadas de hierarquização e centralização que modulam algoritmicamente toda nossa interação, submetida a critérios mercantis e à vigilância estatal e corporativa. É o capitalismo de vigilância (Shoshana Zuboff); a sociedade de controle (Deleuze)….enfim, formas renovadas de sujeição social e servidão maquínica.

Ao invés de nos organizarmos de maneira distribuída, somos organizados em nossa aparente dispersão pela capacidade de centralização desses serviços.
É incrível como o Facebook destrui nosso ecossistema digital. Pra ser sintético: o Facebook e todos os condomínios digitais correlatos, destruiram a internet como uma possível cidade cosmopolita. Essas corporações são hoje parte do nosso problema.

Por fim, neste pequeno passeio fui me dando conta de tantas coisas, de tantos mundos que foram ficando para trás. Tal sensação é reforçada por todos os acontecimentos políticos de 2016 (golpe parlamentar etc), que de maneira muito direta chamaram nossa atenção para transformações profundas que estão ocorrendo em nossas sociedades muito abaixo do nosso radar. A barbárie é só o cotidiano mesmo. Mas é ai também que surgem as criações e as longas ondas com grande capacidade de propagação. Nos ultimos tempos, apenas ficou mais visível uma nova e assustadora topografia que estava sendo lentamente construída.

Isso me faz pensar na cozinha, no trabalho de manutenção e sustentação da vida. Talvez, a tecnologia mais necessária neste momento seja mesmo as tecnologias organizacionais e toda a lentidão necessária para fazer comunidade, para produzir o comum em comum. Mas não o antigo comunitarismo, nem os comunismos e socialismos. Serão outras criações capazes de aprender com todas essas formas, e também com o capitalismo.

Fico com uma sensação de “back to basic”. Não confundir com “um retorno às bases”. É outra coisa, é cuidar do básico mesmo, a começar pela capacidade do encontro com o outro. Quais são as infraestruturas que precisamos para dar suporte às formas de vida que desejamos?

Como alguns emails trocados entre os professores da EFLCH/Unifesp acabam circulando para além das listas em que foram originalmente escritas, vou adotar a prática de publicizar algumas mensagens que escrevo em contextos de crise. Evidentemente, farei isso levando em conta a não exposição de terceiros que por ventura estavam envolvidos na conversação dentro da lista. A mensagem abaixo foi escrita no âmbito de uma discussão entre professores sobre a ocupação estudantil realizada no segundo semestre de 2017, durante os protestos contra a PEC241/PEC55.
——– Forwarded Message ——–

Subject: Re: [Docentes.EFLCH] detalhes do processo negociação c/ ocupação
Date: Thu, 1 Dec 2016 13:11:10 -0200
From: Henrique Parra
Car@s,

A comunicação pela internet costuma gerar muito ruído. São diversas as
cartas produzidas pelo Movimento de Ocupação, além de posts em
grupos/paginas do FB etc, gerando facilmente confusão nas
interpretações. O mesmo acontece com nossas mensagens em diferentes
canais. A conversa presencial é sempre melhor para minimizar mal
entendidos. Como sabem, o trabalho da escrita e interpretação textual é
uma tarefa infinita. Ainda assim, quero compartilhar mais um relato e
mais um ponto de vista.

Pelas mensagens enviadas pelos ocupantes entendo que o campus estará
reaberto a partir desta sexta-feira, e que nós professores poderemos nos
reunir com nossas turmas a partir de segunda-feira. A Congregação se
reunirá na segunda-feira de manhã para analisar a situação. Também foi
chamada uma reunião dos professores para esta sexta-feira (pelo chamado
entendo que não se trata de uma assembléia), efetivando a reabertura do
campus e também criando uma possibilidade de encontro presencial entre
nós. Este é o cenário que vejo para o curto prazo.

Neste semestre ministro a disciplina do estágio supervisionado III.
Muitos dos alunos estão com contratos firmados com museus, ONGS,
escolas. Em razão de demandas dos estudantes (devido a dinâmica do campo
do estágio) realizei ontem supervisão individual no CEU Pimentas,
utilizando o espaço da biblioteca. Um bom numero de estudantes
compareceu, conforme o agendamento que realizamos. Outros não puderam ou
não precisaram vir (e me enviarem suas justificativas).

Em um intervalo nas supervisões fui ao campus onde acontecia a reunião
da D.A., professores e os ocupantes. Não fiquei para a reunião, mas
queria ir lá para prestar solidariedade aos colegas professores que
tentavam duramente construir alternativas. Fiquei alguns minutos e logo
voltei ao CEU. Na saída encontrei com os estudantes que estavam chegando
de onibus naquele momento de Brasília. Conversei com eles e ouvi os
relatos sobre a experiência da manifestação e da violenta repressão
policial que sofreram por lá. Também manifestaram preocupação com a
busca por saídas para a ocupação.

Minha impressão da situação: os problemas do nosso campus refletem
claramente todas as dificuldades políticas que temos neste momento
histórico. Não há grupos/posições homogênas, planos de curto ou longo
prazo, nem canais institucionais com ampla capacidade de operação. As
pessoas (individualmente ou em seus pequenos coletivos) estão agindo de
maneira impulsiva e falta muita capacidade de diálogo e construção do
comum, mesmo entre aqueles que parecem compartilhar os mesmos valores e
princípios ético-políticos.

Sigamos na busca por alternativas coletivas. Encontrar nossos estudantes
é a melhor maneira de desconstruir o que de fora parece ser um jogo de
posições constituídas, binárias e organizadas. Atualmente, nem
estudantes nem professores seriam capazes de produzir, de cada lado, um
documento capaz de sintetizar uma tomada de posição homogênea sobre a
situação. Infelizmente, nossos espaços de representação estão todos
corroídos (da EFLCH ao Congresso Nacional). Por isso, parece-me oportuno
a possibilidade do encontro físico para produzir um terreno minimamente
comum de entendimentos sobre o qual possamos reconstruir nossas
instituições. Não será pela força, nem por mecanismos de autoridade
externa que seremos capazes de ativar nossas frágeis instituições, muito
menos de fazer universidade.

Por fim, uma hipótese otimista diante dos problemas nacionais e locais
que enfrentamos. Talvez, possamos apostar numa capacidade de invenção e
confiança na busca por novas formas de organização e de construção
institucional. Quem sabe, no meio de todo esse caos, no qual a EFLCH
parece ser uma antena de antecipação das reconfigurações da política,
possamos gestar outras formas de fazer política. Sempre achei que os
conflitos de 2012 eram prototípicos dos problemas que estavam por vir no
cenário nacional. E eles aconteceram. De repente, agora, na borda em que
estamos, ao invés de antecipar o desmoramento (que já aconteceu Brasil
afora), possamos inspirar outras alternativas.

Há braços,

Henrique Parra

A Airbnb, empresa internacional de intermediação de imóveis na web, com um portfolio de milhões de clientes e imóveis, acaba de mudar sua política de credenciamento. Achei muito interessante que ela propôs a obrigatoriedade de uma política de não discriminação (nacionalidade, gênero, religião, orientação sexual etc). Ou seja, se você quiser continuar oferecendo seu imóvel pela rede Airbnb, e fazendo business, terá que aceitar a política de “compromisso da comunidade”. Aqui, não se trata de apontar os problemas relativos a evasão de impostos, modelos de concorrência, capitalismo cognitivo, etc. Parece-me um caso relevante pra pensarmos nas relações entre ação econômica e mudança sociocultural: https://www.airbnb.com.br/help/topic/533/nondiscrimination

Todos têm (ou deveriam ter) direito à defesa e a presunção de inocência, requisitos mínimos de um processo legal em respeito aos direitos humanos sob o Estado de direito.

No Brasil, um dos efeitos mais assustadores da atual lógica de justiciamento moral (vale tudo para condenar os inimigos) e do punitismo generalizado (punição e prisão para todos os desvios à norma) é a erosão de nossos direitos civis mais básicos. Tão paralisados estamos com o desmonte das frágeis conquistas sociais da última década, que pouca atenção estamos dando ao avanço veloz do estado policial que normaliza o Estado de Exceção.

A lei anti-terrorismo no Brasil acaba de fazer pelo terror sua primeira vítima fatal http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/10/1823190-suspeito-de-terrorismo-tem-morte-cerebral-apos-ser-espancado-em-prisao.shtml É bom lembrar que manter os presos vivos e com dignidade (independente da condenação) é responsabilidade do Estado. O que pode então significar a morte de alguém preso preventivamente?

Achei chocante a notícia da morte de Valdir Pereira da Rocha, 36, morto na cadeia um dia após sua transferência. A despeito da gravidade das acusações que pesem sobre os 12 cidadãos brasileiros detidos na véspera das Olimpiadas, a prisão preventiva desses suspeitos está servindo de balão de ensaio para definir as fronteiras da aplicação da lei anti-terrorismo no Brasil.

O Estado brasileiro e o Ministério da Justiça devem à sociedade esclarecimentos urgentes sobre a morte deste preso e sob a situação dos demais suspeitos detidos na Operação Hashtag. Depois da anulação do julgamento do Carandiru, sob a justificativa de que os 111 presos foram mortos pela polícia em legítima defesa da polícia, fico com a impressão de que Guantânamo é aqui!

Talvez, seja o momento da luta pela defesa dos direitos sociais (por exemplo, contra a PEC241) incluir em sua base todos aqueles que nunca tiveram acesso à qualquer direito no Brasil, e que por isso, não são aliados na luta contra o desmanche do inacabado. Os mais vulneráveis, os mais excluídos deste País não entram na luta contra governos ilegítimos não porquê não percebem o que está em jogo, mas porque muitos desses direitos quase não lhes dizem respeito, pois para os mais excluídos o Estado só se faz presente como polícia e judiciário punitivista.

Estamos num momento de fazer todas as lutas. Pura conjunção “e”. Nenhuma luta é mais importante do que outra. Democracia Real com profunda transformação do sistema eleitoral e representativo, e democratização do judiciário, e reforma tributária efetivamente distributiva, e universalização dos direitos sociais (Saúde, Educação, Moradia…), e direitos humanos para todos os humanos, e um meio ambiente saudável e sustentável, e pela liberdade de expressão, e pela igualdade de gêneros em sua diversidade…são muitos e…e…

A democracia e seus direitos são para tod@s, do contrário é tudo exceção.

 

http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/announcement/view/25

[en] CALL FOR PAPERS Liinc em Revista: “Citizen Science and Citizen Labs”
[pt] CHAMADA da Liinc em Revista: “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”
[es] LLAMADA DE ARTÍCULOS Liinc em Revista: “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”

——–

[en] CALL FOR PAPERS Liinc em Revista: “Citizen Science and Citizen Labs”

Liinc em Revista is inviting submission of articles, subject to
double-blind evaluation, for publication in Vol. 13, n. 1 (May 2017). We
accept unpublished articles in Portuguese, Spanish and English.

This issue will present a dossier on “Citizen Science and Citizen Labs”,
organized by Guest Editors Henrique Parra (Unifesp, São Paulo), Mariano
Fressoli (Cenit, Buenos Aires) and Antonio Lafuente (CSIC, Madri),
within the theme proposed below.

Social studies of science and technology have observed in the last few
years the emergence of multiple practices and alternative spaces of
knowledge production, redesigning identities and frontiers between
scientists and a concerned public, between the scientific laboratory and
the citizen laboratory.

Inspired by the more critical tendencies of collaborative science and
research “in the wild”, of open or citizen science, and by a tense
dialogue with the dynamics of biopolitical government and of
commodification of knowledge, there are new cognitive and political
actors whose practices we wish to investigate.

*Contributions to this dossier may include topics such as:
*Open science, citizen science and “common” science
*Science and the production of the common
*Communities of practice, epistemic communities, and counter-expertise
*Citizen labs and political experimentation
*Fablabs, hackerspaces, and the maker movement
*Open science and grassroots innovation movements
*Production of counter-hegemonic scientific knowledge and
technological appropriation
*Protocols, infrastructures, technologies and modes of organization
for open and collaborative production of knowledge.

The dossier will also include a section for texts recounting innovative
experiences within these topics.

First authors of the articles should have doctoral or master degrees.
This rule does not apply to accounts of experiences. Other guidelines
for authors can be found at:
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Apart from the dossier, we also accept articles and reviews on other
topics within the range of interest of Liinc em Revista.

PERIOD OF SUBMISSION: FROM SEPTEMBER 15, 2016 TO JANUARY 31, 2017 at
http://www.ibict.br/liinc

———————————-
[pt] CHAMADA da Liinc em Revista: “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”

A Liinc em Revista está aberta à submissão de artigos, para avaliação às
cegas por pares, para publicação no número 1, volume 13, de maio de
2017. Aceitam-se artigos originais em português, espanhol e inglês.

Esse número conterá o dossiê “Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos”,
organizado pelos professores Henrique Parra (Unifesp, São Paulo),
Mariano Fressoli (Cenit, Buenos Aires) e Antonio Lafuente (CSIC, Madri),
cuja ementa é a que segue.

Os estudos sociais em ciência e tecnologia têm observado, nos últimos
anos, a emergência de uma multiplicidade de práticas e espaços
alternativos de produção de conhecimento, recompondo as fronteiras e as
identidades entre cientistas experts e público engajado, entre o
laboratório científico e o laboratório cidadão. Inspiradas nas vertentes
mais críticas da pesquisa “selvagem” e colaborativa, da ciência aberta
ou cidadã, e num diálogo tenso com as dinâmicas do governo biopolítico e
da mercantilização do conhecimento, surgem atores cognitivos e políticos
cujas práticas interessa-nos investigar.
As contribuições ao dossiê poderão incluir temas como:
*Ciência aberta, ciência cidadã e ciência comum
*Ciência e produção do comum
*Comunidades de práticas, comunidades epistêmicas e contra-expertise
*Laboratórios cidadãos e experimentação política
*Fablabs, hackerspaces, movimento maker
*Ciência aberta e movimentos de inovação “na base” (grassroots
innovation movements)
*Produção de conhecimento científico contra-hegemônico e apropriação
tecnológica
*Protocolos, infraestruturas, tecnologias e modos de organização
para a produção aberta e colaborativa de conhecimentos.

O dossiê incluirá também uma seção com relatos de experiências
inovadoras nos temas propostos.

Nos artigos, o primeiro autor deverá ter preferencialmente titulação
acadêmica de Doutor e não poderá ter titulação inferior à de Mestre. Nos
relatos de experiências inovadoras não há titulação mínima. Demais
regras para submissão encontram-se em
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Além do dossiê, a Revista está aberta à submissão de artigos e resenhas
sobre outros temas em seu escopo de reflexão, conforme suas normas.

Prazo de submissão: DE 15 DE SETEMBRO DE 2016 ATÉ 31 DE JANEIRO DE 2017,
pelo endereço http://www.ibict.br/liinc

——————

[es] LLAMADA DE ARTÍCULOS Liinc em Revista: “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”

Dicho número contará con un dossier sobre “Ciencia ciudadana y
laboratorios ciudadanos”, organizado por los profesores Henrique Parra
(Unifesp), Mariano Fressoli (Cenit, Buenos Aires) y Antonio Lafuente
(CSIC, Madrid).

En los últimos años, los estudios sociales de la ciencia y la tecnología
permiten observar la emergencia de una multiplicidad de prácticas y
espacios alternativos de producción de conocimiento. Estos espacios
redefinen las fronteras e identidades entre científicos expertos y
público comprometido, y entre el laboratorio científico y el laboratorio
ciudadano. Inspiradas en las vertientes más críticas de la investigación
“salvaje” y colaborativa, de la ciencia abierta y/o ciudadana, y en un
dialogo tenso con las dinámicas de gobierno biopolítico y de la
mercantilización del conocimiento, surgen actores cognitivos y políticos
cuyas prácticas interesa investigar.

Las contribuciones podrán incluir los siguientes temas:

*Ciencia abierta, ciencia ciudadana y ciencia común
*Ciencia y producción de los comunes
*Comunidades de prácticas, comunidades epistémicas y experticias
alternativas
*Laboratorios ciudadanos y experimentación política
*Fablabs, hackerspaces y movimientos maker
*Ciencia abierta y movimientos de innovación de base (grassroots
innovation movements)
*Producción de conocimiento científico contra-hegemónico y
apropiación tecnológica
*Protocolos, infraestructuras, tecnologías y modos de organización
para la producción abierta y colaborativa de conocimientos

El dossier incluirá también una sección de crónicas de experiencias
innovadoras sobre los temas propuestos.

Para la presentación de artículos, se requiere que el primer autor posea
al menos título de doctor (preferencialmente) o maestría. Mientras que
para la presentación de experiencias innovadoras no se requiere
titulación mínima. Para información sobre el resto de las reglas de
presentación de trabajos, por favor véase el siguiente link:
http://liinc.revista.ibict.br/index.php/liinc/about/submissions#authorGuidelines

Además del dossier, la Liinc em Revista está abierta a la presentación
de artículos y reseñas sobre otros temas en su espacio de reflexión, de
acuerdo a sus normas editoriales.

Plazo de presentación de los trabajos: 15 de septiembre de 2016 al 31 de
enero de 2017, siguiendo las instrucciones en el siguiente link:
http://www.ibict.br/liinc

————————

Estranho momento. Mistura de estado de exceção, normalidade societal e democracia operacional. Planeta feito de vários mundos e muitas temporalidades. Fico tentando juntar as peças pra sentir onde nossa energia pode criar maior potência. Difícil conciliar as batalhas quando num dia debatemos o avanço da governamentalidade algorítmica e da guerra cibernética; e noutro dia precisamos explicar a falácia do projeto Escola sem Partido. Tudo ao mesmo tempo agora.

Hoje foi a última aula do curso que ministrei na Unifesp, disciplina do estágio supervisionado, formação de professores de sociologia para a educação básica.

O semestre começou com significativo atraso por conta do retorno do campus para o Bairro do Pimentas (Guarulhos), no prédio recém finalizado. As disciplinas do estágio são muito afetadas quando o calendário universitário não está no cronograma normal, pois perdemos a sincronia com o ritmo das aulas nas escolas da educação básica, onde os estudantes fazem os estágios. Mas enfim, tanto nas escolas como na universidade já é raro termos um semestre normal.

Este desencontro entre o calendário de aulas na universidade e nas escolas criou algumas dificuldades para a execução da disciplina. Mas hoje, tendo concluído o semestre, posso dizer que terminamos melhor do que começamos. No início das aulas havia um certo clima de desmobilização e preocupação com o rumo do curso, mas ao poucos, a turma foi ganhando densidade, soluções foram inventadas e no final do semestre os trabalhos realizados e apresentados pelos estudantes surpreenderam positivamente. Mesmo que muitas coisas sejam imprevisíveis em nossos cursos, na minha experiência nesta disciplina há um padrão que até agora se repete: os trabalhos finais realizados sempre superam as expectativas e dificuldades do percurso.

Num contexto de crise política que estamos vivendo, diante das muitas tentativas de destruição da universidade pública e gratuita, face as ameaças mentirosas da “escola sem partido”, é muito gratificante ver uma nova geração de estudantes na universidade, muitos deles oriundos da escola pública sim, criando projetos educativos com temas ousados e materiais criativos para serem trabalhados com os jovens das escolas. Diante das forças autoritárias e reacionárias que agora dão as cartas, minha sensação é que elas são uma reação desesperada diante de uma revolução molecular que está acontecendo na juventude, pulsando formas de vida que por hora escapam ao radar da macropolítica. Oxalá, essa potência do novo cresça; não há lei capaz de conter essas vidas que brotam. Obrigado aos alunos pela companhia em mais este semestre.

Reproduzo abaixo importante orientação enviada pela Defensoria Pública da União:

———-

A Defensoria Pública da União (DPU) enviou ofício, nesta terça-feira (10/05), aos reitores e diretores de Instituições de Ensino Superior federais, recomendando “que as Universidades Federais e outros Institutos de Educação Superior pertencentes à União, no exercício de sua autonomia didático-científica, assegurem a livre iniciativa de seu corpo docente, discente e servidores na promoção e participação em atividades pacíficas, cujo tema se relacione ao debate em torno da atual conjuntura política nacional, do processo de impeachment em trâmite no Congresso Nacional ou de qualquer outro assunto que seja de interesse da comunidade universitária (servidores docentes, técnico-administrativos e discentes) e da sociedade em geral, sem qualquer cerceamento no exercício do direito à livre expressão, independentemente de posição político-ideológica”.

A recomendação surge em decorrência aos “recentes episódios noticiados pela mídia nacional, em que o livre exercício do debate democrático sobre questões relacionadas à crise política que o Estado Brasileiro está vivenciando foi ofendido por decisões judiciais e recomendações administrativas, que tiveram como objetivo cercear o acesso a espaços da Universidade para discussões políticas e filosóficas sobre o contexto político atual, restringindo o tema das discussões acadêmicas e coibindo a manifestação das autoridades, que, de forma autônoma, gerenciam as Universidades Federais e Institutos Técnicos”.

Assinaram o documento, os defensores públicos federais Eduardo Nunes de Queiroz, Daniel Chiaretti, Estêvão Ferreira Couto, Fernanda Hahn, Yuri Michael Pereira Costa, Thales Arcoverde Treiger, Pedro Renno Marinho e Adriano Cristian Souza Carneiro, todos titulares de Ofícios de Direitos Humanos e Tutela Coletiva da DPU.

Leia a recomendação na íntegra:

OFÍCIO CIRCULAR Nº 1 DPU 2CATDF/GDPC 2CATDF/OFDHTC 2CATDF

Aos Reitores e Diretores de Instituições de Ensino Superior Federais,

Senhor(a) Reitor(a)/Diretor(a),

A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, instituição permanente e essencial à função jurisdicional do Estado, incumbida constitucionalmente, enquanto expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, da orientação jurídica, da promoção dos direitos humanos e da defesa em todos os graus dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do art. 5º, LXXIV e 134 da CF/88, por meio dos titulares de seus Ofícios de Direitos Humanos e Tutela Coletiva abaixo assinados, no uso de suas atribuições, com fulcro no art. 4º, incisos II, X e XI da Lei Complementar nº 80/94, e

CONSIDERANDO que a liberdade de expressão é um direito fundamental assegurado pelo art. 5º, IX da Constituição da República Federativa do Brasil, e reconhecido na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, na Declaração Universal de Direitos Humanos, na Resolução 59(I) da Assembleia Geral das Nações Unidas, na Resolução 104 adotada pela Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e em outros instrumentos internacionais e constituições nacionais;

CONSIDERANDO que a consolidação e o desenvolvimento da democracia brasileira dependem da existência e do efetivo exercício de liberdade de expressão;

CONSIDERANDO que o direito à liberdade de expressão é essencial para o avanço do conhecimento, da ciência e do entendimento entre os povos, e que conduzirá a uma verdadeira compreensão e cooperação entre os diversos setores que compõem a sociedade;

CONSIDERANDO que, ao se obstaculizar o livre debate de ideias e opiniões, limita-se a liberdade de expressão e o efetivo desenvolvimento do processo democrático;

CONSIDERANDO que a livre reunião pacífica, em locais públicos e independentemente de autorização é um direito fundamental assegurado pelo art. 5º, XVI da Constituição Federal, constituindo-se na expressão coletiva da liberdade de manifestação do pensamento;

CONSIDERANDO que o pluralismo político é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1.º, V, CF/88), assegurando a realização dos postulados democráticos a partir da diversidade de ideias, opiniões e convicções;

CONSIDERANDO que a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, deve visar ao pleno desenvolvimento da pessoa, preparando-a para o exercício da cidadania (art. 205, CF/88), bem como que o ensino será ministrado com base na liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber e no pluralismo de ideias e concepções pedagógicas (art. 206, II e III, CF/88);

CONSIDERANDO que a educação superior tem entre suas finalidades legais (art. 43, I, III, VI da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – nº. 9.394/93) estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo, incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive, bem como estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade;

CONSIDERANDO que as atividades de ensino, pesquisa e extensão requerem o diálogo permanente entre a Universidade e a sociedade em geral, de forma a produzir conhecimento e saberes conectados à realidade social subjacente à experiência acadêmica;

CONSIDERANDO que a Constituição Federal assegura a autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial às universidades (art. 207, caput, CF/88);

CONSIDERANDO os recentes episódios noticiados pela mídia nacional, em que o livre exercício do debate democrático sobre questões relacionadas à crise política que o Estado Brasileiro está vivenciando foi ofendido por decisões judiciais e recomendações administrativas que tiveram como objetivo cercear o acesso a espaços da Universidade para discussões políticas e filosóficas sobre o contexto político atual, restringindo o tema das discussões acadêmicas e coibindo a manifestação das autoridades que, de forma autônoma, gerenciam as Universidades Federais e Institutos Técnicos;

RECOMENDA

QUE as Universidades Federais e outros Institutos de Educação Superior pertencentes à União, no exercício de sua autonomia didático-científica, assegurem a livre iniciativa de seu corpo docente, discente e servidores na promoção e participação em atividades pacíficas, cujo tema se relacione ao debate em torno da atual conjuntura política nacional, do processo de impeachment em trâmite no Congresso Nacional ou de qualquer outro assunto que seja de interesse da comunidade universitária (servidores docentes, técnico-administrativos e discentes) e da sociedade em geral, sem qualquer cerceamento no exercício do direito à livre expressão, independentemente de posição político-ideológica.

mobile_revolution__juana_medina

Hoje é um triste dia para nossa democracia.
Aproveito para avisar que deixarei de usar o Facebook para a comunicação interpessoal.
Considero esta plataforma parte do nosso problema. Precisamos fortalecer meios de comunicação mais livres, autônomos e não-comerciais.
Os efeitos do Facebook sobre a Internet são terríveis. Quero que a Internet seja uma cidade de direitos, não um condomínio vigiado. O Facebook, as Telecoms (ao tarifar cada vez mais nossos dados), as instituições policiais e do judicário (ao transformar a internet num espaço vigiado e militarizado), as corporações midiáticas (ao controlar e monetizar nossa comunicação), são todos parte do problema que temos diante de nós. É urgente a democratização dos meios de comunicação. Cada um de nós pode ser mais do que um espectador. O mesmo vale para nossa ação política.
Não é fácil sair da zona de conforto. Mas posso garantir que há vida lá fora. A construção de um novo sistema político, além das novas lutas organizativas, também é feita de uma micropolítica das escolhas individuais cotidianas. Aproveite o triste dia de hoje para fazer uma escolha feliz de liberdade em qualquer domínio de sua vida.

Fonte imagem: de Juana Medina – http://www.cartoonmovement.com/p/2825 – Arab World Fights for Freedom.

Liberdade-na-Internet

A internet está sob séria ameaça no Brasil. Não é exagero. De um lado, há novos projetos de lei propostos pela CPI dos Cibercrimes que visam ampliar o controle e cercear a liberdade de expressão e conhecimento dos internautas. Eles atualizam uma mentalidade securitária e policial, transformando todos os cidadãos em suspeitos potenciais. Ao mesmo tempo, há novos projetos de lei que visam estabelecer franquias (limites) para a quantidade de dados trafegados no uso da internet, transformando a internet numa grande central telefônica.

Ambos os projetos subvertem princípios fundadores do funcionamento da Internet tal qual a conhecemos. E isso só é bom para quem quer ganhar muito dinheiro com ela ou para quem quer controlar a liberdade de expressão e conhecimento. Para que a internet possa ser um ambiente mais próximo de um espaço público, com direito à livre circulação, expressão e acesso à informação, ela não pode funcionar como uma zona militarizada onde precisamos apresentar nosso CPF pra qualquer clic; nem muito menos operar como uma chamada telefônica onde precisamos contabilizar os minutos que permanecemos assistindo um video ou quantos textos leio na rede. Já imaginaram como será o uso que faremos da internet sob essas condições?

Faço ainda outro alerta. A possibilidade de tarifação da Internet com franquia de dados, visa preparar e acostumar o internauta para a próxima geração tecnológica de transmissão de dados por radiofrequência: do Wifi para o LTE[1]. Com esta combinação, a Internet estará morta e enterrada.

O momento exige a formação de um amplo movimento social (que não seja restrito às organizações civis especializadas nessa temática), para que possamos resistir e criar alternativas ao desmonte da Internet. Ao mesmo tempo: #internetlivre e #bandalargaparatodos, para democratizar o direito à comunicação e ao conhecimento, contra o estado de exceção e o vigilantismo; contra o controle corporativo de nossas comunicações.
Criemos #redesdaliberdade

———

[1] sobre as atuais disputas entre padrões tecnológicos no IEEE-802 veja a tese de doutorado de Diego Vicentin

fonte imagem: http://outraspalavras.net/outrasmidias/wp-content/uploads/2013/07/Liberdade-na-Internet.jpg

Ch4H2sBXEAAbaOL.jpg:large

Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: privacidade, informações sensíveis, liberdade de infomação e conhecimento

16h – 17h

Pretendemos colocar em contato jornalistas investigativos, cientistas-ativistas e a comunidade crypto-ativista pra debater os novos dilemas emergentes relacionados aos processos de trabalho nesses segmentos face à expansão das tecnologias digitais de comunicação. Para esta mesa propomos reunir profissionais da área de jornalismo investigativo e pesquisadores acadêmicos que lidam com informações sensíveis, para relatar suas rotinas e forma atual de trabalho, de maneira a evidenciar para comunidade crypto-ativista quais os novos problemas e necessidades relativos à privacidade, proteção de dados sensíveis, liberdade de informação e conhecimento. A partir dessa mesa pretendemos: sensibilizar os profissionais e o publico em geral sobre problemas relativos ao uso das tecnologias (que novos problemas surgem sobre privacidade, anonimato, sigilo de fonte etc); compreender as formas de trabalho dos jornalisas investigativos para contribuir para a elaboração de guias/tutoriais de orientação; e disseminar tecnologias de fácil uso para profissionais (jornalistas investigativos, cientistas ativistas, entre outros).

Palestrantes

Daniel Bramatti: Reporter da editoria de política do Jornal O Estado de São Paulo, onde está desde 2008. Integra também o Estadão Dados, núcleo de jornalismo de dados do veículo. Entre 1994 e 2006, trabalhou na Folha de São Paulo, na sede e na sucursla de Brasília e como correspondente em Buenos Aires.

Sabrina Duran: Jornalista.Trabalha como repórter freelancer desde 2006. Cobre as áreas de urbanismo, habitação popular e Direitos Humanos. Em 2013 criou o projeto de investigação jornalística “Arquitetura da Gentrificação”, no qual mapeia processos de higienização social no centro da capital paulista disparados por parcerias público-privadas: ag.jor.br

Bruno Paes Manso: Formado em economia (USP) e jornalismo (PUC-SP), trabalhou por dez anos como repórter no jornal O Estado de S. Paulo. É um dos fundadores do site Ponte Jornalismo, Faz pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da USP e é Visiting Fellow do Centre of Latin American Studies em Cambridge. É autor do livro O Homem X – Uma reportagem sobre a alma do assassino em SP.

Henrique Parra: Sociólogo e ativista, é professor de Departamento de Ciências Sociais da Unifesp, onde coordena o Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento. É pesquisador do Lavits (Rede Latino-Americana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e do IBICT/UFRJ, onde realiza pós-doutorado com apoio do Cnpq: blog.pimentalab.net